O CARÁCTER DE CLASSE DO GOVERNO LULA E O QUE REPRESENTA
Alberto Vergueiro

A eleiçom de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente do Brasil e a sua posse, em 1° de Janeiro, vem sendo propalada mundialmente como umha grande vitória da esquerda. Curiosamente, a propagaçom dessa falácia tem contado com a participaçom fundamental da grande mídia burguesa, da maioria dos jornais e das emissoras de televisom e de rádio mais tradicionais e de maior audiência de todo o mundo, que fam coro ao exaltar a ascensom do ex-operário Lula e do Partido dos Trabalhadores (PT) ao governo central. A realidade escondida por trás do espectáculo das telas e das primeiras páginas, que explica o entusiasmo da burguesia mundial, é a realidade de um governo de submissom ao capital monopolista e ao imperialismo, um governo anti-trabalhadores e anticomunista, um governo da contra-revoluçom.
A composiçom do governo Lula denuncia o seu carácter direitista: o Vice-presidente da República é José de Alencar, um industrial bilionário ligado ao Partido Liberal; na presidência do Banco Central foi colocado Henrique Meirelles, ex-presidente mundial do Bank of Boston, eleito deputado federal polo PSDB, o Partido da Social Democracia Brasileira, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o FHC. Aliás, toda a antiga directoria do BC foi mantida nos seus postos, incluindo a trapaceira Ester Grossi, cúmplice do banqueiro falido Salvatore Cacciola no assalto de 1,6 bilhons de dólares aos cofres do país numha transacçom cambial fraudulenta consumada há quatro anos. A mesma orientaçom direitista tendência que transparece das primeiras medidas anunciadas polo novo governo, como a reforma da previdência social, que vem sendo proposta em bases semelhantes às preconizadas polo governo anterior (com ataques aos direitos dos servidores públicos e vinculada ao incremento dos fundos de pensom privados), que todavia nom conseguiu implementá-las. Nom é de se estranhar que no seu discurso de posse, como de resto em toda a campanha eleitoral, Lula nom tenha feito críticas às reformas feitas ou defendidas polo governo contra o qual se candidatava, mas apenas à sua "incompetência" para fazer as "mudanças".

Lula elegeu-se com o compromisso programático de "honrar os contratos" assinados polos governos anteriores com o capital internacional, ou seja, os acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI), os bancos internacionais e os grupos económicos que arrematárom a preço de banana as empresas públicas privatizadas na última década. Em oito anos como presidente da República, FHC levou ao extremo o endividamento externo e interno do Brasil, colocando-o em dependência total e directa da especulaçom dos mercados financeiros. A manutençom dessa política significará necessariamente o aprofundamento da miséria do povo, a continuidade do arrocho salarial, da sangria dos recursos naturais e das riquezas produzidas polo país em nome do pagamento da dívida, a continuidade do desmantelamento dos serviços públicos e das privatizaçons e daí por diante. Significará confronto com os trabalhadores e as massas populares.
De qualquer modo, o compromisso do candidato do PT em relaçom aos contratos foi assumido também polos outros três candidatos mais citados nas pesquisas eleitorais: José Serra, do PSDB, Anthony Garotinho, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), e Ciro Gomes, do Partido Popular Socialista (PPS, sucedáneo liberal do Partido Comunista Brasileiro). Juntos, os quatro referendárom, em Agosto, o acordo de emergência de 30 bilhons de dólares assinado polo governo de Fernando Henrique com o FMI para contornar umha crise financeira que fijo a cotaçom do dólar frente à moeda brasileira subir de menos de 2,40 para até 4,00 reais em poucas semanas. Enfim, todos eles disputárom a eleiçom como representantes do capital. Os candidatos trotskistas do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e do Partido da Causa Operária (PCO), que criticavam a política de FHC e defendiam o nom pagamento da dívida externa, permanecêrom excluídos dos debates promovidos polas emissoras de TV e do noticiário diário da imprensa, com o referendo do Tribunal Superior Eleitoral.
A qualquer observador isento, está claro que Lula presidente está longe de significar que os trabalhadores brasileiros chegárom ao poder, como o senso comum e a propaganda pseudo-esquerdista propagam. Som o capital financeiro internacional e a burguesia monopolista que mais umha vez conseguem dar nova aparência à sua dominaçom de classe, exercida sobre e contra os trabalhadores da cidade e do campo e as massas populares em geral. A ascensom de Lula e do PT é similar, em muitos aspectos, à grande manobra realizada pola classe dominante para a substituiçom da desgastada ditadura militar nascida do golpe militar de 1964 pola ditadura da democracia burguesa, e que culminou com o advento da chamada "Nova República" e a convocaçom de eleiçons para um Congresso Constituinte em meados da década de 80. Ao fim de quase dez anos de abertura política "lenta, gradual e segura", como planejado polo ditador General Ernesto Geisel, aquela transiçom conservadora completou-se como um pastiche, tendo como presidente da República um filhote político da ditadura, José Sarney. Hoje candidato do governo petista a presidente do Senado Federal, Sarney tornara-se vice do conservador Tancredo Neves sob argumentos "pragmáticos" muito semelhantes aos que figérom do empresário José de Alencar o vice de Lula, e terminou por assumir o governo com a morte do presidente eleito.
Com a eleiçom de Lula consolida-se umha "renovaçom" no quadro da social-democracia brasileira, com a transformaçom do PT em protagonista da renovaçom do poder do imperialismo e da burguesia monopolista, substituindo o PSDB. Trata-se agora de umha social-democracia mais "moderna", mais "participativa", de maior apelo popular. Mas essa condiçom nom é adquirida na última hora, e sim construída ao longo das últimas duas décadas, período em que o Partido dos Trabalhadores -criado em 1980 por elementos de esquerda refractários aos velhos partidos comunistas (o PC do Brasil e o PC Brasileiro), militantes do movimento sindical e popular que faziam oposiçom às velhas lideranças "pelegas" (comprometidas com os patrons). Essa atitude refratária de militantes de esquerda, era conseqüência do desgaste da política denominada comunista que, desde 1922 quando é formado o PCB, ao longo de décadas nom consolida um núcleo de científicos adeptos ideológicos da teoria revolucionária do proletariado, o marxismo-leninismo. A decomposiçom dos partidos citados que engendra sucessivas cisons contribuiu para que o PT, imediatamente ao seu surgimento, nom revelasse o seu carácter nom proletário, anticomunista e representante dos interesses do capitalismo, como se apresenta hoje.
Do exposto até aqui, pode-se pontuar o que se espera do governo Lula, como segue:
- Nengumha mudança sem ruptura com a ordem vigente e sem luitas de classes polo poder, como promete o governo Lula. Tampouco, melhoria nas condiçons de vida e sobrevivência dos mais pobres, através da filantropia, relaçons harmoniosas entre patrons e empregados, reforma agrária sem ocupaçons e com respeito à propriedade, "inserçom soberana" na globalizaçom e cousas polo estilo.
- Face ao antagonismo das contradiçons sociais e económicas da sociedade brasileira, notadamente a contradiçom entre burguesia e proletariado, agudizadas polo acirramento da disputa inter-imperialista com a ofensiva política, económica e militar do imperialismo estado-unidense, nom podem ocorrer mudanças significativas para o povo nem ser assegurada tranqüilidade social à classe dominante, pois é umha necessidade objectiva do capital para se reproduzir com super-lucros intensificar a exploraçom sobre os trabalhadores, quanto estes tenhem necessidade de reagir de todas as formas a essa situaçom. Daí que a política do governo do PT, voltada para os interesses do capital, para ser efectivada terá de usar a força com o objectivo de quebrar a resistência e luitas dos trabalhadores, através da violência do Estado. Isto impelirá o proletariado e os trabalhadores a enfrentar o governo Lula como a qualquer governo da burguesia.
Diante da situaçom que se apresenta com o governo Lula, é necessário adoptar a posiçom de criar condiçons políticas e de força organizada para combatê-lo. Para isto, há que tomar umha atitude política militante de carácter classista proletário, tendo como objectivo:
- Denunciar e desmascarar o carácter de classe e os interesses capitalistas que representa;
- Unir as autênticas forças de esquerda para organizar e preparar as luitas e o enfrentamento contra os interesses do capital e o seu governo, no caso, o de Lula;
- Intensificar a propaganda comunista, principalmente no seio do proletariado industrial, visando esclarecer os trabalhadores sobre o seu interesse estratégico na revoluçom, para desenvolver nom apenas o trabalho político na conjuntura, como construir um sistema de organizaçom em todos os níveis e formas necessárias a eclosom e avanço de suas luitas contra o capitalismo;
- Com base no trabalho político e de organizaçom no seio do proletariado, criar as condiçons para assentar os alicerces da construçom de um autêntico partido proletário comunista, marxista-leninista;
- Para desenvolver a posiçom política contra o capitalismo e o governo que representa os seus interesses, é necessário dar duro combate ao oportunismo e à pseudo-esquerda, como também aos partidos do "comunismo" legal. Sem esta luita, nom serám removidos os obstáculos, nem derrotadas as suas tentativas nos terrenos político, ideológico e organizativo de minar a construçom do partido revolucionário do proletariado, marxista-leninista.
Com os pontos abordados espera-se que fique esclarecido o carácter de classe e o que representa o governo Lula.

Janeiro de 2003

Alberto Vergueiro é militante comunista brasileiro

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