O Partido Popular mais fascista e espanhol de sempre

 

Maurício Castro

Nom é esta altura de "descobrir" quem é o Partido Popular. Na verdade, di-o já o bilhete de identidade de boa parte da sua dirigência, através da árvore genealógica política e biológica até. Os apelidos de nom poucos dos seus líderes trazem ressonáncias franquistas, pois de facto som os directos sucessores dos fascistas vencedores da Guerra Civil. A escola política da direita espanhola "realmente existente" tem a sua origem no Golpe militar-oligárquico de 1936 contra a II República espanhola, que instalou no poder, por cima de mais de meio milhom de mortes, o nacional-catolicismo; e já dantes, nos periódicos "alçamentos" e vagas repressivas contra qualquer tentativa de avanço social significativa, incluídas muito em primeiro termo as legítimas aspiraçons nacionais dos povos periféricos submetidos polo Estado espanhol.

Essa continuidade é especialmente evidente no nosso país, persofinicada nom apenas no que foi, para vergonha da Galiza progressista e nacionalmente consciente, o presidente da instituiçom autonómica nos últimos dezasseis anos. Manuel Fraga nom é o único representante vivo da continuidade franquista do PP na Galiza, somando-se umha amplíssima maioria dos dirigentes, militantes e representantes institucionais de certa idade, e ainda um número significativo dos seus filhos e netos, que passárom directamente do aparelho político do Movimiento Nacional franquista para o da Alianza Popular fundada em 1976 e rebaptizada em 1989 como Partido Popular.

Só na perspectiva de puro continuísmo do que foi a direita tradicional espanhola, ligada aos contínuos alçamentos e golpes, é que se percebe o agir político que nos últimos anos confirmou essa continuidade, com medidas como a negativa a condenar o golpe de Estado de 1936 ou a reconhecer o papel histórico da resistência armada antifranquista. Especialmente arreigada na Galiza, e com um feitio original e autónomo nos territórios da Galiza histórica e completa, a guerrilha antifranquista continua a ser oficialmente para o PP um grupo de "bandoleiros", carente de qualquer direito ao reconhecimento por parte das instituiçons alegadamente "democráticas" actuais. Também a recusa oficial a participar em quaisquer actos ou iniciativas de reconhecimento da luita antifranquista em qualquer das suas variantes delata o PP como o que realmente é.

Segunda legislatura do PP no poder: começa a deriva extremista

Ao pé desses tiques inequivocamente pró-franquistas, a configuraçom da direita representada polo principal partido espanhol da actual oposiçom parlamentar como direita dura ou extrema vem dada polas linhas mestras da sua política de governo durante os anos de poder aznarista, nomeadamente na segunda legislatura, entre 2000 e 2004, em que combinou traços próprios da direita tradicional católica em matérias como a educativa ou a "moral social", com umha pragmática política neoliberal em matéria económica e internacional a ela associada (através da promoçom crescente de multinacionais espanholas na América Latina e na tentativa de acesso ao reparto resultante do espólio do Iraque).

Privatizaçom de serviços públicos, adoraçom à concorrência e o mercado, liberalizaçom generalizada em todos os ámbitos de produçom e consumo, incluindo esferas como a saúde ou o próprio sistema educativo, drástica restriçom de direitos laborais em sucessivas contra-reformas… marcárom umha doutrina que, de resto, nom diferiu assim tanto da que tinha aplicado o próprio PSOE na década anterior. Em nome da eleiçom individual, da iniciativa privada e o livre mercado, o PP mantivo neste ámbito umha política de aparente laissez faire que oculta o controlo directo da economia e dos direitos sócio-laborais associados por parte das elites económicas da grande burguesia hispana.

Em simultáneo, o PP governante em Madrid mostrou a sua cara neoconservadora introduzindo reformas legais que fortalecêrom a acçom governativa em aspectos fundamentais para a imposiçom do projecto nacional espanhol. A política intervencionista acompanhou aqui o neoliberalismo económico restringindo radicalmente direitos civis: reduzindo para 14 anos a idade em que qualquer pessoa incriminada por delitos políticos pode ser condenada, instaurando de facto a prisom perpétua para @s que chamam terroristas, ilegalizando forças políticas, clausurando meios de comunicaçom… ressituando o papel central e hierárquico do Estado espanhol frente a qualquer veleidade separatista como a que a olhos da Espanha "antes roja que rota" representou o Plano Ibarretxe.

Ao já dito, poderíamos acrescentar a fascizante Lei de Estrangeria e a clara cobertura ideológica, política e económica ao incremento da presença da religiom católica nas salas de aulas, umha contra-reforma educativa ao serviço das elites económicas e da espanholizaçom nas naçons peninsulares sem Estado, a imposiçom de umha propaganda de revisionismo histórico ao serviço da Espanha una-grande-y-libre. Consoante essa mesma ideia, e reconhecendo ante os microfones a intençom de situar Espanha entre as "naçons grandes" (sic), o PP aznarista apostou forte no palco internacional como assessor das agressivas políticas imperialistas dos EUA, sendo a participaçom na II Guerra do Golfo o máximo expoente dessa estratégia que tivo no lucro económico um nom menos importante motivo.

É sabido que semelhante ofensiva reaccionária e de autoritarismo social, tam caro à direita tradicional, acabou por ser derrotada nas urnas por umha maioria social que no Estado espanhol, e de maneira particular na Galiza, se mobilizou já desde 2001 nom só contra as políticas concretas que acabamos de citar (greves gerais, movimento contra a LOU, crise do Prestige, multitudinárias manifestaçons contra guerra…), mas também contra as crescentes e insuportáveis manipulaçons mediáticas promovidas a partir da própria Moncloa e através da comunicaçom social de titularidade pública. O acontecido à volta do 14-M foi o pingo que fijo transbordar o copo e o PP foi directamente para a oposiçom parlamentar, onde ainda se encontra.

O PP na oposiçom: o perfil ultra endurece-se

Alguém poderia contestar o até aqui afirmado argumentando que, contodo, o que relatamos é umha etapa concreta da trajectória "democrática" do PP, a liderada por Aznar, o que nom impede que haja no seu interior sectores adscritos a umha direita mais "civilizada". Podiam mesmo ser citados nomes como o de Ruiz Gallardón ou Josep Piqué como representantes dessa direita "moderna" e desmarcada do lastro ideológico franquista ou neoconservador. Porém, e ao que todo indica, a linha ultra nom só se mantivo no poder do partido a seguir à queda do último governo Aznar, em 2004, como saiu reforçada com a chegada de Ángel Acebes, ex-ministro do Interior, à secretaria geral poucos meses depois da saída da Moncloa do seu principal mentor, José Maria Aznar.

Com efeito, Acebes constitui nom apenas a continuidade da linha aznarista, mas também a sua radicalizaçom. Membro do grupo integrista católico Legionários de Cristo (que entre 2000 e 2004 recebeu mais de quatro milhons de euros em subsídios outorgados polos governos do PP), encabeçou a maior parte das manifestaçons convocadas nos últimos meses por organizaçons satélites tais como a AVT (Associaçom de Vítimas do Terrorismo) ou o Foro Espanhol da Família. Os mesmos que se referiam ao chefe da oposiçom como Zapatero pancartero ("porta-faixas") nom duvidam agora em agitar as massas espanholas adeptas à ideologia populista e reaccionária brandida polos herdeiros naturais de Franco.

E assim, com o par Acebes-Zaplana como principais promotores, e as ocasionais apariçons do próprio Aznar em apoio da linha ultra-reaccionária oficial, Rajoi fica relegado a moderado homem de palha do sector dirigente de um PP cujas posiçons de extrema direita ajudam a vender a miragem de um PSOE virado para a esquerda real, a partir de umha série de gestos e medidas concretas que só nalgum caso contenhem umha efectiva carga progressista.

Nos últimos tempos tem ficado mais em evidência do que nunca a estreita vinculaçom entre essa direita representada polo PP e a hierarquia eclesiástica liderada pola Conferência Episcopal Espanhola. Nom só pola campanha comum lançada contra o laicismo em geral, e contra os direitos fundamentais das pessoas homossexuais em particular, frente à aprovaçom da Lei que reconhece o seu direito ao casamento e à adopçom; também e sobretodo polo papel auxiliar que de maneira permanente exercem meios pertencentes à Igreja Católica, como a COPE, em defesa das posiçons mais extremas na política de oposiçom desenvolvida até hoje polo Partido Popular.

Outros "temas estrela" na ofensiva reaccionária do PP fôrom nos últimos tempos a campanha contra a devoluçom dos documentos espoliados ao povo catalám polo exército golpista espanhol durante a Guerra Civil, ou em matéria do que chamam "política antiterrorista" a oposiçom a qualquer saída dialogada ao histórico conflito entre o povo basco e o Estado espanhol, através da manipulaçom dos sentimentos em relaçom à umha parte das vítimas do conflito.

Ambos casos ficárom identificados na grande manifestaçom em Salamanca convocada pola Cámara municipal governada polo próprio PP. "Unidade do arquivo" e "unidade de Espanha" convertêrom-se em legendas igualadas sobre fundo rojo-y-gualda em cartazes segurados por manifestantes que também reclamavam "Carod Rovira ao paredom". Necessitados de personificarem todo o que representa a negaçom da ideologia espanholista mais extrema que defendem, o líder de ERC parece confirmar-se como herdeiro eleito de Xabier Arzalluz na lista negra de inimigos de Espanha.

Também na Galiza, líderes espanhóis como o próprio Acebes apostárom na última campanha eleitoral pola carta do espanholismo mais rançoso, situando a Galiza como exemplo de fidelidade ao projecto nacional espanhol enquanto Fraga insultava abertamente as mulheres e atribuía falhas genéticas a@s homossexuais. Poucos dias depois da derrota de Fraga nas urnas, o "perito em psicologia" apresentado polo PP no Congresso espanhol para debater a Lei que acabou reconhecendo o casamento e a adopçom aos homossexuais, chegou a definir a homossexualidade como o resultado de umha paternidade marcada pola "hostilidade e o alcoolismo".

Dias depois, José Maria Aznar irrompia em qualidade de presidente da FAES, foro ideológico da extrema direita popular, identificando luita contra a ETA e "consciência nacional" espanhola, e reivindicando Espanha, de maneira delirante, como única naçom entre os Pirenéus e o Estreito de Gibraltar.

Quase que ao mesmo tempo, o próprio Rajoi anunciava umha nova iniciativa do PP no próximo Outono, que visará umha reforma da Lei eleitoral espanhola que torne irrelevantes os partidos minoritários e permita governar automaticamente a candidatura mais votada. Iniciativa que de ir avante suporia a definitiva implantaçom do bipartidismo estilo Gram Bretanha ou EUA no Estado espanhol, e especiamente dirigida contra todos os partidos nacionalistas e independentistas cataláns, bascos e galegos.

Desta vez nom será necessário golpe de leme

Como se vê nos casos que comentamos, os factos e episódios que confirmam a deriva ultra do PP é extensa e inapelável. Além do mais, nom pode negar-se que, noutras etapas históricas, a estratégia tensionadora da direita espanhola deu os seus frutos em forma de imposiçom de golpes e guerras que devolvêrom o poder aos segmentos mais reaccionários da burguesia espanhola. O próprio Josep Piqué, um dos representantes dessa "direita civilizada" no interior do PP, chegou a identificar a linha maioritária na Direcçom do partido, representada por Acebes e Zaplana, com "o passado", em referência implícita à etapa franquista que ambos líderes reencarnam.

Todavia, desta vez, e ao contrário do acontecido naquele fatídico 18 de Julho, parece claro que nom será necessário nengum golpe de leme à legalidade em vigor, até porque ela foi instaurada pola própria direita "reformista" emanada do franquismo, em conluio com as forças da esquerda vendida; e, sobretodo, porque a "alternativa" representada polo governante PSOE nom pom em causa nengum dos parámetros estruturais da política burguesa e espanhola. A política económica nom variou o rumo nem um só grau com o Governo alegadamente "de esquerda", mantendo o grande capital o controlo das directrizes económicas.

Zapatero e o seu Govenro nom derrogárom nengumha das principais leis regressivas aprovadas no período aznarista, variando só timidamente o agressivo intervencionismo imperialista. No entanto, a retirada das tropas do Iraque foi acompanhada do incremento da presença militar no Afeganistám e o Haiti, limitando-se as restantes reformas a apagar alguns traços grossos caracterizadores da política neoconservadora do PP. A que reconhece direitos básicos aos e às homossexuais é a mais chamativa, enquanto outras como as anunciadas restriçons aos privilégios da Igreja Católica ficárom por enquanto em águas de bacalhau.

Até em aspectos como a "unidade de Espanha" está o PSOE a dar continuidade a inicitivas do mais puro estilo PP. O desfile do Exército espanhol polas ruas da Corunha em plena pré-campanha das Eleiçons autonómicas serviu para impor à Galiza umha dose extra de chauvinismo espanhol. E ainda bem que a candidatura espanhola para as Olimpíadas de 2012 fracassou, pois anunciava, entre outras cousas, umha grande operaçom de propaganda do espanholismo como ideologia entranhada na promoçom do desporto-espectáculo-negócio.

Também na política repressiva se mantenhem as linhas mestras da política instaurada polo Partido Popular, incluída a repressom, numha intensidade proporcional a como consegue ser molesto, contra o movimento independentista galego, segundo comprovamos já na recente operaçom da Guarda Civil contra a militáncia de BRIGA. E todo isto com um governo dependente de apoios externos à sua esquerda, como os de ERC, IU ou o próprio BNG. Um PSOE revalidado com maioria absoluta nom demoraria muito a mostrar a essência mais descarnada que já nos mostrou noutras ocasions.

Quanto ao PP, ainda nom sabemos por onde irá ficar a sua ofensiva reaccionária, nem se a sua oposiçom continuará nos mesmos termos; no caso concreto da Galiza, desconhecemos ainda quais serám os traços do novo papel opositor frente ao que se enxerga como um "Governo alternativo" ordeiro e domesticado. De qualquer maneira, a denúncia e combate ideológico do modelo social, económico e de valores reaccionários que o PP representa nom deve fazer-nos poupar a crítica implacável à falta de alternativas representada no nosso país polo tandem PSOE-BNG. É necessário reivindicar umha política realmente de esquerda e que rompa os consensos que amarram a maioria social galega a centros de decisom alheios à nossa realidade nacional e aos nossos interesses de classe. Porque a melhor maneira de combater o mundo reaccionário em que a direita espanhola e o imperialismo querem instalar-nos de vez é fazermos umha firme oposiçom de esquerda também aos governos reformistas que limitam o seu "projecto alternativo" a gestos e talantes, enquanto as políticas de fundo (o neoliberalismo, a discriminaçom de género e a condena à nossa desapariçom como povo diferenciado) continuam a alimentar a mesma maquinaria capitalista e espanhola.


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