Poder, política e movimentos sociais: umha reflexom a partir da Galiza
Maurício Castro
Que existe umha despolitizaçom generalizada
nas forças sociais tradicionalmente
de esquerda, em favor quer de umha suposta
suficiência de natureza ‘movimentista’, quer
da pura instalaçom no institucionalismo, é um
facto que ultrapassa as fronteiras da Galiza
para definir umha tendência já verificada noutras
alturas da história do movimento emancipatório
internacional.
O reformismo, como proposta de progressiva transformaçom ou ‘humanizaçom’ das formas mais duras do capitalismo, surgiu logo nos inícios da conformaçom do movimento operário, em simultáneo com as aspiraçons anticapitalistas. Assim, já as primeiras versons pré-marxistas do socialismo, chamado utópico, aspiravam a um objectivo progressivo semelhante, que Marx riscou de irrealizável mas que, a partir daí, nunca deixárom de fazer parte de nom poucos programas e, sobretodo, práticas políticas de importantes partidos e sectores da esquerda mundial.
Se no fim da I Internacional foi determinante
a cisom entre as correntes revolucionárias
marxista e bakuninista, o confronto entre
o chauvinismo reformista e o internacionalismo
proletário explica, de diferente maneira, a
falência das II e III internacionais. Com efeito,
o próprio estalinismo nom passou de umha
forma de reformismo sob a capa da ‘nececessária’
coexistência com o capitalismo, que
tantas vezes serviu para vender no mercado
da geoestratégia movimentos revolucionários
‘inapropriados’ aos interesses do Estado soviético,
todo o qual hoje sabemos no que finalmente
deu: a restauraçom capitalista.
Mais recentemente, a queda do Muro de Berlim e a retirada da bandeira vermelha do kremlin serviu para que forças alegadamente revolucionárias transitassem novamente o caminho das renúncias para conseguirem a integraçom no sistema que combatiam. Porém, a crise de grandes dimensons que a esquerda no seu conjunto atravessou durante a década de noventa do século passado foi só mais umha dentro das que ciclicamente a tenhem afectado desde polo menos a derrota da Comuna de Paris (1871), princípio do fim da I Internacional. Lembremos só como exemplo a precária situaçom o movimento socialista internacional foi conduzido pola capitulaçom em bloco das lideranças da II Internacional perante as políticas militaristas dos respectivos governos; e a solidade do russo Vladímir Ilich, Lenine, ou, geograficamente mais próximo, o irlandês James Connolly, na defesa dos princípios do socialismo internacionalista (1914).
Além dos deslocamentos para a direita de importantes contingentes de esquerda, algumhas das crises referidas fortalecêrom, em parte como reacçom a essa direitizaçom, as correntes libertárias ou anarquistas, que por vezes chegárom a assumir um especial peso e protagonismo em processos revolucionários como o vivido na Espanha da década de trinta.
Também da crise decorrente do fim do chamado socialismo real surgírom, nos anos finais do século passado, propostas renovadas de teor pós-marxista, representadas em movimentos como o zapatista mexicano, e por autores como o italiano Toni Negri ou o irlandês John Holloway, que questionam a tomada do poder como objectivo programático central de qualquer processo revolucionário, bem como o papel das organizaçons políticas face à actividade criativa, espontánea e ‘antipoder’ dos movimentos sociais.
O descrédito da actividade política, devido à traiçom de algumhas das organizaçons mais representantivas a olhos da maioria, junto à inegável continuidade e vigência da espiral da história social, da divisom em classes e da dialéctica das contradiçons como o seu princípio motor, explica que os conflitos continuem a surgir e que, nesta etapa, o espontaneísmo movimentista ocupe em parte o protagonismo cedido polas diferentes versons da esquerda tradicional anos atrás.
Traiçom, despolitizaçom e ‘antipoder’ na Galiza
O que dizemos é bem visível na Galiza actual. Durante décadas, o nacionalismo de esquerda politicamente representado polo BNG protagonizou um movimento sociopolítico que defendeu com firmeza princípios e interesses das classes populares com umha perspectiva de ruptura democrática e de soberania nacional, aplicando os métodos e princípios desse modelo de esquerda cuja falência marcou o fim de um século de grandes conquistas e derrotas para os trabalhadores e os povos do mundo.
O papel fundamental dos quadros e militantes
do BNG –principalmente da UPG– na
catalisaçom dos conflitos sociais na Galiza
durante as décadas de setenta e oitenta deu
passagem, primeiro, a um marasmo resultante
de umha derrota que afectou a toda a
esquerda mundial na década de noventa, e ao
lento ressurgir nos primeiros anos do novo
século de conflitos em que a influência do nacionalismo
galego maioritário ficou mermado
ou, simplesmente, nom existe. O protagonismo
que, ainda na oposiçom, os quadros do nacionalismo
autonomista conseguírom assumir
à frente do levantamento espontáneo da populaçom
na catástrofe do Prestige representou
o particular canto do cisne desse modelo
de intervençom característico da Galiza nas
décadas anteriores.
A UPG, que a muitos parecia um firme e insubornável partido comunista e patriótico, embora claramente definido por traços autoritários próprios do centralismo burocrático –o centralismo democrático é outra cousa–, caminhou assim para a integraçom no sistema em paralelo com o esfarelamento do movimento internacional com que se identificava, apesar de nom contar, como representante de umha naçom sem Estado, com o reconhecimento do chamado ‘campo socialista’. As possibilidades reais de tocar poder ajudárom a afirmar essa tendência, apesar das cíclicas cisons pola esquerda decorridas no seio do movimento ‘nacional-popular’ a partir da década de 80 (1987, 1997 e 2007). De facto, nengumha delas conseguiu agrupar umha massa crítica suficiente para retomar a aposta soberanista e rupturista que o nacionalismo galego representou durante duas décadas.
Se, durante os seus últimos anos na oposiçom institucional, o BNG conseguiu ‘viver de rendas’ e aparentar algumha coerência com o seu passado combativo, acabou reproduzindo a trajectória antes descrita polas esquerdas institucionais espanholas durante a chamada Transiçom. Hoje é evidente, e assim percebido por importantes sectores populares, que o PSOE e o PCE virárom costas ao seu digno passado antifascista e de compromisso de classe, contribuindo decisivamente nas décadas de setenta e oitenta para desactivar qualquer perspectiva de ruptura democrática no Estado. O BNG, com umha década de atraso, reproduziu –está a reproduzir ainda– essa mesma trajectória, contribuindo decisivamente para o descrédito generalizado das forças políticas perante os sectores populares que historicamente sustentárom o projecto da esquerda soberanista galega.
É no cenário aqui debuxado a traço grosso que nos encontramos na Galiza dos primeiros anos do século XXI. É neste cenário que devemos reflectir sobre o estado da importante questom das relaçons entre o poder, os movimentos sociais e a força política revolucionária.
E de pouco serve, quase vinte anos depois da implosom do chamado modelo soviético e da extensom quase universal do capitalismo global, reafirmar-se nos erros de princípio e nas práticas deformadas de um modelo que faliu. Porém, se concordarmos na necessidade da superaçom do capitalismo e na justeza da emancipaçom das naçons submetidas, a alternativa nom será nem a integraçom no sistema como compensatória ‘ala esquerda’, nem a procura de umha impossível reforma plurinacional do Estado monárquico e unitário espanhol à margem dos verdadeiros interesses e direitos da maioria do nosso povo.
É necessário, sim, o descarte dos dogmas e a rectificaçom das práticas que demonstrárom nom servir para os fins marcados, se considerarmos que som estes, e nom aqueles, que mantenhem plena vigência. Mas é sobretodo necessário detectar e banir os reformismos ocultos atrás de ortodoxias e catecismos vários, para retomar a imprescindível luita local pola superaçom global do capitalismo neste humilde canto do planeta chamado Galiza.
Hoje podemos afirmar que, como era previsível, o papelom jogado nos últimos anos pola tendência maioritária do nacionalismo galego, transformada em corrente autonomista e reformadora do Estado espanhol, em aliança com as forças burguesas dos autonomismos basco e catalám, nom impediu o surgimento de conflitos sociais.
Em lugar da UPG ou o BNG –o PCE tinha praticamente desaparecido das ruas anos atrás– som os próprios afectados em cada conflito que assumem plenamente a iniciativa. Vemo-lo nos últimos anos em luitas vicinais, de defesa do território e contra espúrios interesses económicos nos sectores energético, urbanístico ou acuícola, um pouco por toda a Galiza. Conflitos em que nengumha das forças políticas parlamentares, nem outras extraparlamentares, tem um papel orientador importante; e que, no caso das primeiras, amiúde chegam a ser combatidas em bloco como parte do problema e legitimadoras de nom poucas agressons policiais e judiciais.
Também outros fenómenos socioculturais de base, como o surgimento do movimento dos centros sociais reintegracionistas, ficam situados por cima das estratégias partidistas, embora nesse caso concreto contem com a decidida e significativa participaçom da maior parte das forças da esquerda independentista.
Inclusive no ámbito sindical, palco tradicional das luitas de poder partidistas, se tem verificado umha parcial desvinculaçom de importantes sectores da CIG em relaçom à influência da “linha oficial” do BNG, incluindo umha cisom no seio da UPG um ano depois do acesso ao poder da Junta. Umha cisom que colocou como um dos seus motivos a defesa da autonomia do movimento sindical e a reafirmaçom classista da luita nacional.
Contra a pós-política: construir a força unitária que derrote o capitalismo
O que é umha virtude no que tem de garantia para a autonomia do movimento popular em relaçom às siglas partidárias, pode vir a converter-se num risco na hora de dar coerência e alcance às luitas. A negaçom da subalternidade e o reconhecimento do valor de cada luita em si mesma servem para situar nos justos termos a dialéctica entre a força social e as forças políticas. Mas nom resolve a necessária articulaçom de ambos planos –o social e o político– na perspectiva da superaçom do próprio capitalismo como meta libertadora.
De facto, tam nocivo pode chegar a ser a sujeiçom das dinámicas sociais a interesses particulares de um projecto ou umha direcçom política, coarctando a criatividade e a energia que move cada um dos conflitos concretos em funçom de estratégias alegadamente ‘superiores’, como negar a necessidade de abrir nas luitas parciais umha perspectiva de transformaçom real das estruturas socioeconómicas que sustentam cada injustiça, cada agressom.
A enorme força das ondas da maré sobe
e bate com força incontida só até o momento
em que, indefectivelmente, perde a potência
e se inicia a ressaca da maré baixa, o refluxo.
Só aproveitando a energia no momento adequado
e partindo da suficiente experiência
acumulada em numerosas tentativas é que
evitaremos a perda das forças da transformaçom
que empurram a história para a frente.
E a aprendizagem da história garante-nos que os processos revolucionários triunfantes som resultado da orientaçom dessa força incontida das massas em momentos de crise sistémica, conformando umha subjectividade revolucionária capaz de dobrar a resistência da minoria dominante, evitando que a energia espontánea e criadora da maioria se perda na imediatez do objectivo concreto, quer seja de tipo económico, cívico ou, como no caso do Prestige, socioambiental.
Nom dizemos com isto que a catástrofe do Prestige pudesse ter representado o elo fraco que abrisse caminho a umha crise revolucionária, mas sim que a existência de umha direcçom firme e resoluta nascida e legitimada no seio do próprio movimento popular poderia ter contribuído para o madurecimento das condiçons subjectivas que devem empurrar nessa direcçom.
É verdade que a história também nos ensina que nem sequer o cultivo dessa subjectividade, do paciente trabalho de organizaçom e conscientizaçom no seio do movimento popular, nos garante a vitória revolucionária quando chega um momento de crise objectiva e generalizada do sistema. Porém, sem umha formaçom sistemática do sujeito chamado a liderar a transformaçom revolucionária da sociedade, o capitalismo terá garantida a continuidade incluso no contexto objectivamente mais desfavorável... ou até evoluirá para formas de organizaçom socioeconómica ainda piores.
Face à necessidade de conformar e organizar o contingente revolucionário que permita nom só as vitórias parciais, mas também as aspiraçons mais globais para a maioria social, situa-se a confiança idealista na iniciativa espontánea ou inclusive individual das pessoas.
Umha tendência que, junto à recusa principista e absoluta a assumir aspiraçons de poder, em nome da constituiçom de ‘contrapoderes de base’, encontra na actualidade algum eco ao abrigo da deslegitimaçom de forças supostamente ‘vanguardistas’, etiquetadas durante anos de ‘comunistas’ e finalmente integradas no sistema como a sua ‘consciência crítica’, no melhor dos casos.
Umha tendência que podemos denominar pós-marxista ou, citando Slavoj Zizek, pós-política, que já foi encenada em fenómenos como o surgido da revolta zapatista de 1 de Janeiro de 1994, ou o representado por alguns sectores adscritos ao amplo e saudável movimento conhecido como ‘antiglobalizaçom’, que saltou à cena mediática mundial sobretodo a partir da mobilizaçom de dezenas de milhares de pessoas em Seattle, em Novembro de 1999, conseguiu fazer fracassar umha reuniom cimeira da Organizaçom Mundial do Comércio.
Fica fora da nossa intençom riscar de inimigas ou antagónicas, nem apelar a qualquer beligeráncia política contra tendências como essas e outras que constituem a pluralidade da esquerda. Nom esquecemos que, no caso das correntes libertárias ‘clássicas’, devem ser-lhes reconhecidas posiçons de vanguarda em aspectos sociais e culturais só mui posteriormente assumidos por outras ‘famílias’ da esquerda autoproclamada revolucionária.
Os direitos das mulheres, o respeito à livre escolha de opçom sexual e outros capítulos de um programa que aspire a poder ser definido como revolucionário fôrom firmemente defendidas por correntes anarquistas quando poucas outras o faziam. É verdade que outras luitas como as de libertaçom nacional e a defesa dos direitos lingüísticos das minorias nacionais ou, em geral, das naçons sem Estado, fôrom tam escassamente entendidas polos grandes partidos da esquerda autoproclamada marxista como polas organizaçons libertárias, o que é mais do que evidente no caso galego.
De qualquer maneira, a confluência entre a diversidade de forças de esquerda para afrontar luitas concretas de teor democrático e de defesa comum de interesses imediatos dos sectores sociais que conformam o povo trabalhador, é umha necessidade incontornável que só pode ser rechaçada em nome do sectarismo ou o afám de salvaguardar purismos de capela e renunciando a qualquer possibilidade de incidência social.
Em definitivo, tanto nas luitas tradicionais de tipo económico, sindical, cultural, nacional, etc; como nas que tenhem surgido com força nas últimas décadas –a ambientalista e a feminista, por exemplo–, a ampla confluência nom deve ocultar a necessidade de um modelo de intervençom claro, que crie subjectividade e organizaçom, que supere o que podemos chamar ‘estratégia limitada’ e ‘anti-política’ ou ‘pós-política’, em favor de criar força revolucionária ao serviço da conquista do poder pola maioria.
Provavelmente essa seja, 90 anos depois da vitória bolchevique, a mensagem leninista mais firmemente vigente e, apesar de todo, tam desprezada inclusive polas correntes que se dim seguidoras das ideias do líder revolucionário russo. Nesse caminho, nem o trabalho social mais imediato, nem a organizaçom da força política, nem a intervençom institucional, podem ser desprezados em nome de purismos ou posiçons ditas ‘horizontalistas’ ou ‘antagonistas’.
Porque, para quem ainda acreditar na necessidade de derrotar o capitalismo, continua a ser imprescindível organizar a massa social crítica no campo da esquerda, com o olhar posto numha estratégia política global que possibilite a vitória, abrindo caminho a umha civilizaçom de novo tipo: a civilizaçom socialista.