Processo de normalizaçom do euskara e construçom nacional

Mikel Irastortza

 

Euskal Herria é um povo. Um povo que tem a sua língua nacional, o euskara, como um dos maiores sinais de identidade e meio de comunicaçom comum entre os seus cidadaos e cidadás. Um povo que tem umha cultura rica e variada, diferentes costumes que continuam vivos de geraçom para geraçom, que conta com umha história silenciada durante a mesma história. Um povo que sempre, de um jeito ou outro, reivindicou a sua condiçom de naçom, luitou polo seu direito a ser livre. Sete territórios conformam Euskal Herria: Guipúscoa, Biscaia, Araba, Nafarroa Garaia, Lapurdi, Behe Nafarroa e Zuberoa. O euskara é o elemento chave que nos une, embora administrativamente padeçamos a partiçom entre dous estados, o espanhol e o francês. Portanto, Euskal Herria, dividida, oprimida, silenciada, manipulada ou reprimida, é um povo que trabalha polo seu futuro em liberdade e em euskara.

A uniom que existe entre o euskara e a própria Euskal Herria é inegável. Julgar que havemos de normalizar a língua sem levarmos em conta o seu território é absurdo, como propor o futuro de umha naçom perdida a sua língua. Que futuro terá o euskara se nom propugermos a sua normalizaçom tendo em conta toda a comunidade lingüística existente em todo o território? Que sinais de identidade havia de ter Euskal Herria se fosse castelhana ou francesa? É claro, portanto, que o processo de normalizaçom do euskara e o processo político que vive Euskal Herria som cara e coroa de umha mesma moeda. O que é que estamos a fazer os colectivos que ensinamos euskara aos adultos, às crianças, os que impulsionamos meios de comunicaçom em euskara, os que trabalhamos em defesa do euskara ou as empresas editoriais em euskara, se nom for construçom nacional? Será que trabalhamos à margem de umha realidade territorial, cultural e política? No momento em que o nosso trabalho consiste em normalizar a nossa língua no próprio solo, estamos a construir o País.

Imerso no século XXI, o nosso povo tem sofrido e continua a sofrer a opressom dos estados espanhol e francês. Durante séculos, quigérom acabar com a nossa forma de ser; com a nossa identidade; com a nossa língua; com a nossa territorialidade; com a nossa cultura e costumes; com a nossa economia… e para tal, empregárom muitas formas e meios, quer violentos, quer educativos, administrativos ou ideológicos. Som sobejamente conhecidas as vias empregues pola inquisiçom, queimando e assassinando centenas de pessoas, polo só facto de quererem manter vivos os costumes, cultura e história dos seus antepassados. Nom há que esquecer a repressom lingüística que temos sofrido durante séculos: castigos humilhantes e violentos contra crianças que falavam euskara na escola, proibiçom absoluta de falar euskara em qualquer local, constantes decretos que restringírom o euskara durante a história nas administraçons e vida pública, opressom ideológica constante… Meios e formas muito bem desenhadas por estados que tenhem um objectivo comum: acabar com a exestência de um povo diferenciado, o qual nom é melhor nem pior, apenas o nosso povo, ao qual nos sentimos unidos e unidas e no qual queremos viver livremente e na nossa língua.

Todavia, esta opressom brutal nom deu acabado com as ánsias de viver como umha naçom livre no mundo. Ante proibiçons, decretos ou repressom, a vontade do povo basco tem sido a de continuar a utilizar a sua língua (embora o euskara esteja em perigo de desaparecer), a de impulsionar a sua cultura e as suas tradiçons (ainda que muitas se tenham perdido), a de unir a sua comunidade (embora hoje esteja dividida por diferentes administraçons)… Portanto, no próprio povo que subsistiu ante tanta barbárie, está a chave do nosso futuro.

Mas, sendo isto certo, nom podemos deixar de ver as muito graves conseqüências que tem trazido todo este processo de desconstruçom nacional impulsionada por ambos estados: o euskara está em perigo de desaparecer (apenas o sabe 25% da cidadania); a comunidade lingüística está dividida; a sociedade vive em castelhano ou francês (segundo a divisom administrativa); vulneram-se os direitos lingüísticos sistematicamente; nom dispomos de nengum instituto de estatística que reúna dados de todo o País; nom temos umha universidade própria e nacional que eduque integramente em euskara… Afinal, nom temos as suficientes ferramentas para podermos construir o nosso futuro. Portanto, conseguimos subsistir defendendo a nossa identidade, cultura, língua e direitos nacionais. Mas os alicerces que necessita umha estrutura fôrom agredidos de tal jeito, que demonstra a necessidade de construí-los com firmeza e em simultáneo.

Nesse senso, devemos perceber o processo de construçom nacional em que Euskal Herria está inserida. E no meio desse processo é que se situa o processo de normalizaçom do euskara. Já que, sendo o objectivo final umha Euskal Herria que viva em euskara, tal objectivo requer meios políticos, económicos, sociais e institucionais. O processo de normalizaçom da nossa língua supom umha mudança estrutural e social. Para passar de umha sociedade que vive em castelhano e francês, para umha outra que viva em euskara, cumpre muito mais do que boa vontade. Cumpre umha mudança geral do País, impulsionado por todos os agentes sociais, políticos e sindicais que acreditam numha Euskal Herria euskaldun. Normalizar o euskara supom mudar a estrutura administrativa que nos divide, suplantar as leis que nom normalizam o euskara por umha só lei que una a comunidade lingüística e que recolha os direitos lingüísticos, tendo o poder de decidir o futuro da nossa língua criando as estruturas necessárias para tal objectivo.

Estes últimos anos tenhem sido muito importantes no processo de construçom nacional e no processo de normalizaçom lingüística. A reflexom era clara: nom haverá um dia mágico. O dia mágico é o suor e o trabalho de cada dia. Será que há alguém que esteja à espera de que a sua casa seja construída sem trabalhar dia a dia? Portanto, a criaçom e impulso de diferentes estruturas e meios tem sido fundamental, como tem sido ir acumulando forças favoráveis a Euskal Herria e ao euskara, ao citado processo, pois levantar a casa, embora seja devagar, requer muitas maos e esforços. Requer um trabalho bem planeado em todos os sentidos. E nisso é que estamos. Como dizia um político basco, nom queremos ser os inquilinos do vizinho ou a vizinha, queresmos a nossa própria casa, construída polas nossas maos, e viver nela. Tam simples quanto isso.

As condiçons para tal processo chegar a bom porto tenhem-se ido criando e continuam a ser criadas a base de luita, de militáncia, de vontade e, é claro, de sentimentos. No que di respeito ao euskara, as primeiras ikastolas fôrom criadas no franquismo e hoje ensinam euskara a milhares de crianças; as primeiras gau eskalas (centros de euskaldunizaçom e alfabetizaçom de adultos) também fôrom criadas no franquismo e até hoje, milhares de pessoas tenhem aprendido a nossa língua nelas; o único jornal em euskara foi criado com boicote institucional incluído e, embora o Estado espanhol decidisse clausurá-lo, aos três meses foi criado um novo; as editoras bascas tenhem ido em aumento; a mobilizaçom popular em favor do euskara tem sido e é muito importante, reunindo milhares e milhares de pessoas em manifestaçons, festas e jornadas… e para que todo esse trabalho sectorial vaia por um mesmo caminho, pujo-se em andamento umha organizaçom que aglutinasse todas as forças em prol do euskara, impulsionando um plano geral nacional e normalizaçom da nossa língua. Vila a vila e bairro a bairro, milhares de pessoas e colectivos estám envolvidos em favor do euskara. Trabalhando a favor da nossa língua nacional, construindo novos projectos e impulsionando mudanças nas políticas lingüísticas impostas, estamos a construir Euskal Herria, estamos a contribuir com umha grande força para que os alicerces sejam firmes.

E, é claro, os estados que nos oprimem, no momento em que vírom que o tal processo ia progredindo e ante o peligro que tal supunha, apertárom a maquinaria para o deterem. Aí é que situamos toda a repressom que tenhem sofrido e continuam a sofrer as diferentes organizaçons culturais, políticas, juvenis ou sociais; a clausura de Euskaldunon Egunkaria, entre outros; e o afogamento económico a AEK (organizaçom que euskalduniza e alfabetiza adultos); os registos e criminalizaçom de editoras bascas; o ataque contra a única instituiçom nacional (Udalbiltza), criada em 1998… Eis a importáncia do processo de construçom nacional, pois paralisar esse processo tem sido umha das prioridades dos estados.

Agora, em 2005, podemos dizer que vivemos umha situaçom muito importante. Poucos podem dizer que Euskal Herria nom seja umha realidade. Euskal Herria é um povo vivo, com a sua língua nacional, com a sua cultura, a sua história e os seus costumes. É-o como som outras realidades nacionais e lingüísticas no mundo. Construir o nosso futuro depende de nós próprias.


Mikel Irastortza
Euskal Herrian Euskaraz- Movimento em defesa do euskara


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