- A NECESSIDADE ESTRATÉGICA DE ARTICULAR UMHA ALTERNATIVA DE ESQUERDA E INDEPENDENTISTA.

C.C. de Primeira Linha (MLN)

 

Os resultados eleitorais de 21 de Outubro ao Parlamento da Comunidade Autónoma som, com todos os matizes que considerarmos oportuno ressaltar, umha radiografia aproximada da situaçom sócio-política de umha estrutura de classes, Galiza, caracterizada pola desmobilizaçom, a autosatisfaçom alienante, a indiferença social, e o desinteresse popular com todo o vinculado com a política. A quarta maioria absoluta atingida polo PP, a substancial queda do BNG, o ligeiro incremento experimentado polo PSOE, o estrepitoso fracasso da esquerda espanhola e as tendêncais alcistas das opçons abstencionista, voto branco e nulo, sintetizam as principais chaves cognoscitivas para podermos interpretar o sentir generalizado da populaçom de um país subsidiado, envelhecido, que assiste passivo à destruiçom das bases materiais da Naçom e as contínuas agressons a que se vê submetida a sua classe trabalhadora.

A abafante vitória eleitoral do PP, embora perda 40 mil votos (1%) e um escano, vem determinada por umha complexa conjugaçom de factores. Nestes doze anos de gestom autoritária, a direita espanhola seguiu reforçando a rede clientelar tecida no franquismo, e submeteu todas as estruturas de poder e de gestom, das de ámbito local e sectorial até às vinculadas com a administraçom central, à estratégia dos seus particulares interesses partidários. A grave situaçom sócio-laboral de amplos sectores populares, num país envelhecido, refractário às mudanças, e cos níveis de auto-organizaçom mais baixos do contorno geográfico, salvo umha esporádica e inconexa conflituosidade em determinados sectores e comarcas nom se exprime em termos políticos. Seria um irracional paradoxo nom destacar estes factores para podermos compreender como desde o ano 89, em que Fraga se retira a Galiza, o país tem experimentado um recuo económico e umha profunda deterioraçom nas condiçons materiais do Povo Trabalhador, mas simultanemante a estrutura de poder responsável directa por esta situaçom tenha acumulado paulatinas adesons eleitorais. @s labreg@s afectados pola quota láctea e as nefastas conseqüências da PAC, @s desempregad@s, a discriminada populaçom feminina, os marinheiros agredidos pola perda de caladoiros e a sobreexploraçom do sector, a mocidade trabalhadora atingida pola precarizaçom e a eventualidade laboral, os sectores populares empobrecidos, as facçons da pequena burguesia em processo de proletarizaçom, até o momento tenhem sido incapazes de traduzir esse malestar social generalizado com a gestom de Fraga em protesto eleitoral, e muito menos em apoiar as forças, como a esquerda independentista, claramente beligerantes com o projecto excluente e fascistóide do PP.

O férreo controlo dos meios de comunicaçom, com especial destaque para a TVG, e as sistemáticas campanhas de propaganda populista que identificam o ex-ministro fascista com o abnegado e honesto trabalhador que impregna o imaginário colectivo da psicologia de massas da Galiza rural e emigrante, nom se pode desconsiderar na hora de debulhar as causas da sua vitória. Mas também devemos valorizar na análise o nefasto papel jogado pola “oposiçom parlamentar” como contribuiçom para a vitória de Dom Manuel. O desinteresse do PSOE por deslocar Fraga, e a manifesta incapacidade do BNG por transmitir confiança e ilusom no seu projecto aos sectores tradicionais do seu eleitorado, nom contribuírom para articular esse maioritário espaço eleitoral alternativo ao fraguismo sobre o que pretendêrom sem êxito fazer girar umha campanha caracterizada polo absoluto desinteresse popular.

O grande beneficiado desta estratégia foi o PSOE. Tourinho e Vazquez lográrom num contínuo exercício de contorcionismo político transmitir que desejavam um governo alternativo ao do PP, mas sem o BNG. O PSOE jogou habilmente a vaza da renovaçom e, com um discurso equidistante do conservadorismo do PP e do “radicalismo nacionalista” do Bloco, conseguiu dotar-se de um perfil próprio frente a um BNG convertido no seu apêndice que apelava desesperadamente à responsabilidade e fidelidade do PSOE com a sua trajectória progressista. Os contínuos gestos de esquerda do ex-Director Geral de Transportes dos corruptos governos felipistas e as constantes mostras de nacionalismo espanhol do alcalde corunhês e do seu testa-de-ferro Méndez Romeu, embora a simples vista semelhassem antagónicas, formárom parte dumha complementar estratégia que resultou muito útil na hora de deter a hemorragia eleitoral e alcançar umha modesta repecuperaçom, logrando 24.000 votos mais (2%), provenientes basicamente do PP, que a ponto estivérom de recuperar o tam desejado sorpasso co BNG, ficando a tam só 11 mil votos de distáncia.

O nacionalismo institucional foi o grande derrotado nestas eleiçons. Abandonando toda a ambigüidade de outras ocasions, jogando a ser o que verdadeiramente desejam os seus dirigentes, umha força plenamente incorporada ao quadro jurídico-político espanhol, o BNG abordou em 21 de Outubro com a prepotente ingenuidade de quem nom parou de crescer eleitoralmente desde 1985 à custa de renunciar aos objectivos para os quai foi fundado. A perda de 50 mil votos (2.4%), basicamente concentrados nas cidades que cogoverna co PSOE, som expoente de umha nova tendência naqueles segmentos claramente de esquerda e nacionalistas do seu eleitorado que -perante o seu aggiornamento e assunçom da realpolitik com a aplicaçom das receitas neoliberais nos espaços que gere e refugando da sua histórica matriz nacionalista para alargar eleitorado de centro-direita-, nesta ocasiom optárom por retirar um incómodo apoio. Sectores da classe operária organizada, da mocidade rebelde e da esquerda independentista, coincidírom na necessidade de deixar de emprestar o seu voto a quem governa ao serviço do capital e da Espanha das autonomias.

A direcçom do BNG considerava que continuava a ser possível dirigir a sua confusionista mensagem interclassista a Amáncio Ortega, proprietário de Zara-Inditex, e aos milhares de trabalhadores/as explorad@s nas suas factorias, que timidamente podia reclamar autodeterminaçom na Quintá e assistir aos actos comemorativos do Patron de España no Obradoiro, que podia conservar o apoio dos sectores mais combativos da classe obreira sem apoiar a greve geral de 15 de Junho e com um programa ao serviço da patronal e dos empresários. A pequena burguesia que dirige o autonomismo, esses centenares de quadros políticos conformados por professores, funcionários públicos, cargos institucionais, advogados, cujos ingressos mensais som seis ou sete vezes superiores ao salário mínimo, aos ingressos médios de um/umha trabalhador/a, plenamente incorporados no universo psicológico das classes de apoio da burguesia, satisfeitos e acomodados, habituados aos privilégios e a fartura, perdêrom a percepçom da verdadeira realidade do país. Nos seus ámbitos sociais nom há desempregad@s, trabalhadores sobre-explorados polas ETTs, desesperaçom, emigraçom, ausência de perspectivas. O BNG da pequena burguesia pretendia dirigir a sua falsa mensagem interclassista, -que na práctica apenas favorece esse empresariado, por muito autóctone que for, responsável polas precárias condiçons de vida da imensa maioria do Povo Trabalhador Galego-, aplicar umha política de direita, governar as instituçons coloniais com o PSOE dos GAL, o desemprego e a corrupçom, sem que os sectores mais conscientes e combativos deste povo passássemos factura.

Aliás, o BNG apostou por abandonar o combate nacional, focando a campanha entre forças conservadoras e progressistas, equiparando e avalando Tourinho como expoente da tradiçom galeguista.

Embora os resultados tenham sido vividos no seu seio com amargura, a direcçom adoptada polo BNG reforça a sua inexorável acomodamento no campo da social-democracia autonomisa, inofensiva para o imperialismo espanhol e o capital transnacional. O posterior aperto de maos de Beiras com Fraga no debate de investidura nom só simboliza a indigna claudicaçom de um combate: exprime a plena cristalizaçom dos acordos da Transiçom por parte do BNG e a sua definitiva incorporaçom na normalidade institucional da democracia burguesa espanhola.

No 21 de Outubro assistimos a umha mudança significativa no que vinha sendo umha tradiçom em sectores qualitativos da base social do nacionalismo: emprestar o voto a quem quotidianamente carece do crédito e a confiança política como mal menor.

Nesta ocasiom, esses sectores sociais decidimos optar pola abstençom que incrementou 2.3% (60.000 pessoas), polo voto branco que obtivo 5.000 nov@s seguidores/as, e polo nulo, que subiu em algo mais de 2.000 sufrágios, conformando um interessante e heterogéneo espaço de protesto que cumpre ser analisado em profundidade pola esquerda independentista com o objecto de vertebrá-lo e coesioná-lo politicamente.

O imediato futuro determinará se estas tendências, que nom podem ser incorporadas polo sistema, som meramente conjunturais ou estamos assistindo ao nascimento de um corpo social que já nom acredita em nengumha das forças política tradicionais, no seu sentido mais amplo, -pois define, sem excepçons, o conjunto das forças espanholas (PP, PSOE, IU e EdG), e galegas (BNG, FPG)-, e aguarda a definitiva configuraçom de umha força com a seriedade e confiança necessárias para canalizar esse voto de protesto estrutural.

Nunca a conjuntura, do ponto de vista objectivo, foi tam boa para a esquerda independentista. Sermos capazes de aproveitar esta situaçom na actualidade depende basicamente de nós próprios, da nossa habilidade política, da nossa capacidade por acertarmos e nom errarmos.

Se bem o novo independentismo, articulado em NÓS-Unidade Popular, desta vez apostou acertadamente por nom participar no processo eleitoral perante a ausência das mínimas condiçons objectivas exigíveis para poder disputar este frente de luita com garantias, tem que dar os passos necessários para dar batalha também neste ámbito de intervençom. Tal como se reflectiu nos resultados, e frente à claudicaçom do autonomismo, ao caduco testemunhalismo e inoperante resistencialismo, logrou sobre o terreno catalisar parcialmente a campanha eleitoral com a exitosa acçom de desobediência civil, de sabotagem, realizada contra Fraga na noite de início de campanha, e ver avalada a decisom adoptada de nom apoiar nengumha das forças políticas que se apresentárom.

 

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