PRESTIGE. O ASSALTO DEFINITIVO AO NOSSO PATRIMÓNIO NATURAL

Pedro Alonso

Man, o alemám de Camelhe que morreu de tristura, chegou há 41 anos à Costa da Morte. Desconheço os avatares pessoais e existenciais que o levárom a ficar na costa de Camelhe. Suspeito que a sua peculiar filosofía vital encontraria na paisagem deste naco da nossa terra a força espiritual de que precisava, quem sabe se a força telúrica em que, segundo Castelao, reside a nossa soberania natural. Sem dúvida, umha boa matéria prima para edificar esses sonhos pétreos que simbolizavam os vaivéns da existência humana num mundo onde o passar do tempo parecia nom existir. umha congostra que transitava por paraísos terrenos, perdendo-se em espirais intemporárias, onde se reconheciam fosilizadas as pegadas da nossa mitologia. Quem tem hoje o privilégio de poder recriar o que era Treze, Arou, Camelhe, Santa Marinha, Pena Forcada, O Cunho, Moreira, Tourinhám ou mesmo Mugia e Camarinhas há 40 anos? Nom resulta ser um período tam longo. Porém, sobre as velhas pedras deste canto selvagem produzírom-se mudanças brutais que tenhem mudado profundamente a paisagem e as formas de vida do mundo idílico que conhecera o alemám. E isso tem-se produzido também noutros lugares perdidos do nosso país. O signo da nossa história recente é um debalo da memória cada vez mais decidido a esbater a face do paraíso natural que foi a nossa terra. Perdemos o pulso da nossa natureza de forma cada vez mais humilhante e, ao tempo, de forma mais resignada. E por trás dos abandeirados do progresso está sempre a mao de sempre: a que destruiu as dunas de 15 metros das ilhas Sias; a que assulagou o berço dos milhares e milhares de salmons que subiam polo Minho ou polo Ulha tupindo as levadas dos moinhos; a que estragou a lenda pátria de Antela; a que arrasou os campos de mámoas perpétuas das Pontes; a que afogou o chiar da Aiga nos caborcos do Sil; a que condenou à silicose um bom feixe de galegos que a ferro e fogo furárom as entranhas da terra para roubar a água à mais linda fervença da nossa terra..... A mesma mao que quer agora enterrar com quartos a nossa memória, denegrida com a peste que nos botou nas ribeiras. A mao que chantou um punhal no coraçom ao alemám. Essa mao quer agora curtocircuitar a energia incoercível da nossa Terra, a força telúrica que nos fai sobreviver.

O que é o fuelóleo nº 2

O combustível transportado polo Prestige era o denominado, segundo a terminologia francesa, o Fuelóleo pesado nº 2, que nas classificaçons británica e russa é identificado como Fuelóleo nº 6 e Fuelóleo M-100, respectivamente. Este fuelóleo caracteriza-se por ser um combustível muito pesado, empregue para combustom em centrais térmicas, fornos e plantas cimenteiras, principalmente em países africanos e do sueste asiático. Apresenta um conteúdo relativamente elevado de metais pesados, que estám unidos a moléculas de hidrocarburos aromáticos. Entre os metais presentes estám o zinco o cobre. Tem um contédo elevado de enxofre, segundo as análises de 2,58%, e é capaz de fluir a temperaturas baixas, como os 2,5 º C existentes a 3.600 m. de profundidade oceánica, com o qual nunca se congelará.

Composiçom do fuelóleo e poluiçom do meio

Semanas atrás, no jornal “La Voz de Galicia” umha nota do CSIC alertava de que na zona do afundimento do Prestige se estavam a registar níveis muito mais elevados do normal de certos metais pesados, como zinco, cobre ou chumbo. No caso do zinco, o aumento chegaba a ser de duas ou tres ordens em escala numérica, quer dizer , passara de por exemplo um nivel de 1 a um de 100 ou 1.000.  As análises de mostras de fuelóleo feitas polo CEDRE francês determinárom a presença de quantidades apreciáveis de metais pesados como chumbo, ferro, alumínio, cromo ou cobalto. Além destes elementos, o fuelóleo apresenta na sua composiçom outras “delícias”. Umha percentagem elevada dos hidrocarburos do fuelóleo som aromáticos e de cadeias compridas, os denominados hidrocarburos aromáticos policíclicos, de grande persistência no meio e, alguns deles, de provada capacidade genotóxica e provavelmente carcinogénica. Os resultados das análises que diferentes organismos públicos de investigaçom realizárom sobre amostras tomadas em alta mar polo CEDRE francês, bem como umha comparativa com os vertidos procedentes de outros acidentes, reflectem-se nos quadros seguintes.

 

 

 

Hidrocarburos saturados (%)

Hidrocarburos aromáticos (%)

Resinas (%)

Asfaltenos (%)

Muséem National d’Histoire  Naturelhe

26,6

52,8

8,4

12,2

IFP (fuelóleo original)

23

54

12,5

10,3

IFP (fuelóleo emulsionado)

 

21

54

27,7

CSIC Barcelona

21,6

50,7

34,7

 

 

Hidrocarburos saturados (%)

Hidrocarburos aromáticos (%)

Resinas (%)

Asfaltenos (%)

Prestige (média)

22,9

52,7

12,0

12,4

Erika

22,2

55,6

15,6

6,6

Baltic Carrier

40,9

37,9

11,5

9,7

A elevada persistência dos hidrocarburos aromáticos policíclicos (PAH) radica na baixa vulnerabilidade que manifestam à biodegradaçom pola acçom de bactérias (alguns investigadores assinalam que o fuelóleo do Prestige, em conjunto, apresenta um potencial de biodegradaçom de tam só 15%, polo que as técnicas de bio-remediaçom se revelam como claramente ineficientes). Isto sem dúvida favorecerá a longa permanência destes compostos nos habitats marinhos e, portanto, permitirá que, em determinadas circunstáncias, podam ser incorporados à cadeia trófica.

Alguns PAH som considerados como compostos de potencial cancerígeno, pois se dispom de evidências suficientes da sua actividade carcinogénica a partir de estudos realizados com animais de experimentaçom, se bem as provas da actividade carcinogénica em humanos parecem ser insuficientes (é muito difícil encontrar voluntários para este tipo de estudos). Entre os compostos PAH mais conhecidos figuram os 16 incluídos numha listagem específica de poluentes prioritários da EPA (Enviromental Protectiom Agency) dos EE.UU. Estes compostos som:

Naftaleno, Acenaftileno, Acenafteno, Fluoreno, Fenantreno, Antraceno, Fluoranteno, Pireno, Benz(a)antraceno, Criseno, Benzo(b)fluoranteno, Benzo(k)fluoranteno, Benzo(a)pireno, Dibenzo(ah)antraceno, Benzo(ghi)perileno e indeno(1,2,3-cd)pireno

De todos eles, 11 tenhem sido identificados nas amostras analisadas do fuelóleo do Prestige, e som os sublinhados na listagem anterior. O conteúdo destes PAH no fuelóleo é muito baixo, sendo de aproximadamente 350 microgramas/grama a proporçom de naftaleno e fenantreno, os PAH de maior presença nas amostras. Isto quer dizer que, numha amostra de 10 kg. de fuelóleo como o da amostra de referência, o conteúdo em naftaleno ou fenantreno seria de 3,5 g.; de 35 g. numha de 100 kg. e de 350 g. numha tonelada. Portanto, grama acima ou grama abaixo, por cada tonelada de fuelóleo do Prestige que aboia no mar ou chega à costa teríamos 350 g. dum composto considerado como cancerígeno polas autoridades dos EE.UU.

Tendo em conta que a degradaçom do fuelóleo começa por aquelas fracçons de hidrocarburos mais ligeiros, ficando sempre mais tempo no meio os PAH, temos que pasados uns meses ou anos, num fundo marinho onde nom se recolhessem 10 toneladas, poderia dar-se a possibilidade de que estivessem bio-disponíveis mais de 3 quilos de veneno de acçom lenta, disgregado em múltiplas partículas, às vezes apegado a outras fracçons e restos orgánicos e, portanto, facilmente ingeríveis por espécies detritívoras ou suspensívoras que habitam nos fundos marinhos.

Agora que tamém se podem dar efeitos de toxicidade aguda, letais em muitas espécies sensíveis polos seus hábitos. Um estudo de 1.985 da National Academy of Sciences dos EE.UU. determinou efeitos letais por concentraçons elevadas de hidrocarburos aromáticos em espécies como o Camarom das ervas (concentraçons superiores a 26 ppm de benzeno), caranguejos (mais de 27 ppm de tolueno, 13 de etilbenzeno, 6 de gileno...) ou algumhas espécies de peixes planos (11 ppm de gileno, 7 de tolueno ou 6 de benzeno). Após o desastre do Amocco Cadiz, foi documentada umha elevada mortalidade de anfípodos submareais, com reduçom da populaçom em 40%. Entre os efeitos subletais dos hidrocarburos nos organismos de certas espécies, figuram alteraçons do comportamento (entre eles o quimiotactismo, polo qual algumhas espécies som capazes de detectar as suas presas), diminuçom da capacidade reprodutora (especialmente em espécies de peixes que vam estar em íntimo contacto co fuelóleo dos sedimentos, como os peixes planos, do tipo das solhas, linguados ou rodabalhos), alteraçons do metabolismo, como umha reduçom da taxa respiratória, que em espécies de moluscos bentónicos pode ocasionar reduçom no crecimento ao viverem em sedimentos petroleados de forma crónica. 

A afecçom sobre os recursos marinhos

Os cientistas do Instituto de Investigaçons Marinhas de Vigo tenhem realizado umha primeira valorizaçom dos efeitos dos vertidos sobre as populaçons de peixes e cefalópodes explorados tradicionalmente nas costas galegas. No referido aos peixes, parece ser que a incidência do fuelóleo pode ser importante em fases como a ovogénese, a freza ou o estado larvário. A influência sobre a abundáncia das espécies estará em funçom da exposiçom ao contaminante durante estas etapas do ciclo vital. A maior exposiçom, maior mortalidade e, portanto, menor recrutamento, quer dizer, menor incorporaçom de especimes jovens à populaçom adulta e reprodutora. Se temos em conta que umha boa parte das espécies comerciais do litoral galego passam por um estatus delicado ou pouco vigoroso, compreenderemos que um desastre como este poda incidir seriamente sobre o futuro dessas populaçons. Isto vem a dizer o relatório que está na Internet, numha páxina do IIM de Vigo, assinado polo Grupo de trabalho de Pesquerias.

No referido aos cefalópodes, o relatório do grupo de especialistas do IIM-Ecobiomar afirma que o impacto terá umha gradaçom decrescente seguindo esta ordem: Polbo comum-Choco-Lula-Polbo cabeçom-Pota. Afirma-se que a mortalidade se produzirá fundamentalmente na fase de ovo, registando-se também umha descida da sobrevivência na fase larvária. Por consequência, podería produzir-se, ao igual que com os peixes, umha queda do recrutamento que atingiria directamente a biomasa dos stocks, quer dizer, teríamos umha descida na produçom. Estas descidas registariam-se num lapso de tempo nom superior a um ano, considerando o ciclo biológico destas espécies.

A afecçom sobre vertebrados marinhos ou que desenvolvem boa parte do seu ciclo vital em ambientes marinhos, caso das aves, os cetáceos e as tartarugas, temos um efeito directo gravíssimo no caso das primeiras, entre as que se estima umha mortalidade de umhas 100.000 aves no que vai desde o afundimento do barco. Para o caso dos cetáceos, é sabido que a presença do fuelóleo pode provocar efeitos letais em arroases e golfinhos, ao se ocluir o orificio respiratório. Segundo investigadores de CENMA, como mínimo 2 dos 27 cetáceos varados nas nossas costas desde o afundimento morrêrom por efeito do vertido, sendo os outros casos de casuística variada ou desconhecida. Das 16 tartarugas varadas no litoral galego no mês seguinte ao afundimento, cinco estavam com vida e apresentavam sintomas claros de afecçom polo fuelóleo. Das 13 tartarugas Caretta caretta aparecidas varadas, sete apresentavam impregnaçom de fuelóleo, estimando-se este factor como causante de morte por asfixia nalgumha delas.

A afecçom paisagística

Dos 1.195 km. de litoral da nossa terra, 550 tenhem sido afectados de forma significativa e outros 250 de forma grave ou mui grave, registando-se acumulaçons reiteradas de fuelóleo sobre areais, rochas e marismas. A primeira vaga de fuelóleo que chegou à costa fijo-o numhas circunstáncias de forte temporal e marés vivas que provocárom a afecçom por fuelóleo dumha faixa bem visível do litoral rochoso e a penetraçom do hidrocarburo em marismas e junqueiras. Em zonas abrigadas do litoral, onde a chegada do fuelóleo foi reiterada, a acumulaçom do combustível atingiu gravemente os sedimentos, as pedras e os cons todos, cobrindo de negro extensons enormes em zonas de Tourinhán, O Cunho, O Pindo ou Camelhe. Haverá que aguardar muitos anos para ver limpas estas pedras e, nalguns casos, nem a passagem de decénios logrará apagar a pegada do fuel.

A persistência do desastre

Hoje mesmo, a maior preocupaçom é o que fazer com o barco afundido. Segundo o Governo de Aznar, a maior prioridade e a alternativa preferida é tirar o fuelóleo do barco para dar fim ao problema. Mas resulta que isto é umha operaçom de grande complexidade, com um custo económico desorbitado, provavelmente superior a 1.000 milhons de euros (a operaçom de tresvase do fuelóleo do Erika custou 80 milhons de euros, estando o barco a tam só 120 m. de profundidade, trinta vezes menos do que o Prestige) e de requerimentos tecnológicos na actualidade inexistentes. Portanto, nom duvidamos que a intençom do governo de Espanha será tirar o fuelóleo do Prestige para fora, mas possivelmente através de “voaduras” controladas e silenciadas, que vaiam botando fora quantidades discretas mas importantes de fuelóleo, para que o problema acabe quanto antes, seguindo um ritmo marcado polos aconteceres e os distintos cenários mediáticos favoráveis: guerra contra o Iraque, ofensiva anti-terrorista, eleiçons municipais, etc. Paralelamente, e com a colaboraçom do governo submisso de Fraga, irám ocultando e soterrando a conflituosidade social e, quem sabe, quiçá passadas as eleiçons municipais, já só os “profissionais da protesta” nos lembraremos de que este desastre tem responsáveis com nomes e apelidos.

 

o “Plan Galicia”

Para que esqueçamos este novo vexame, Aznar e os mais inventárom um plano de investimentos virtuais, sem que ninguém acredite nele como ferramenta de activaçom social e económica. Sim representará umha nova fase de espólio e destruiçom dos nossos recursos naturais, pois nesa falcatruada ocuparám um lugar privilegiado os delinqüentes corruptos que urbanizam a costa, poluem os rios e construem auto-estradas desnecessárias que lhes valem para acumular fortunas e reforçar o seu aparelho de controlo caciquista. Estaremos à espera de como se vai concretando essa engendraçom, ao tempo que aguardaremos umha necrológica em primeira plana de jornal, com o ánimo de que remate esta etapa infame da nossa história recente.

PEDRO ALONSO é membro de ERVA-Ecologistas em Acçom





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