Solidariedade da esquerda portuguesa com a Galiza. Dificuldades e reptos na criaçom de pontes imprescindíveis

Rute Cortiço e Ângelo Meraio

Minus malem Portucalem rest, ditado em latim recorrido com maior ou menor frequência e troça por galegas e galegos implicados no amplo leque do associonismo e movimentos sociais que comummente chamamos nacionalistas.

Portugal é sempre esse irmao que apesar de estar tam perto está tam longe, esse irmao que por vezes é admirado sem se saber muito bem o porquê.

Da idealizaçom ao desconhecimento absoluto, as necessárias relaçons com o Além-Minho continuam a ser fracas e focalizadas.

Este artigo pretende ajudar a transmitir algumhas das dificuldades, alguns dos reptos e ainda alguns dos benefícios que a criaçom de pontes com a esquerda portuguesa trazem. As dificuldades de transmissom da nossa mensagem e os problemas de compreensom da situaçom de opressom nacional da Galiza, os reptos da construçom de associaçons de solidariedade com duraçom no tempo e com implicaçom real, os benefícios para o MLNG, principalmente na construçom nacional mas também na emancipaçom social.

O texto baseia-se principalmente na experiência de um activista e umha activista da esquerda independentista galega residentes em Portugal. No trabalho directo em Coimbra e Lisboa na construçom de entidades galego-portuguesas que contribuam principalmente ao conhecimento da realidade galega para em base a ele despertar a necessária solidariedade.

É certo que as relaçons entre as esquerdas galega e portuguesa nom som algo novo, historicamente tenhem existido contactos mais ou menos tímidos e relaçons mais ou menos estáveis entre partidos e organizaçons de um lado e outro da raia, no entanto há umha série de dificuldades que nom se podem ignorar e que fam com que o trabalho nom tenha dado os frutos esperados. Está em primeiro lugar, o isolamento histórico ao qual temos sido submetidos galeg@s e portuguesas/es: Nom é falarmos em história medieval, nem falarmos da independência do condado portucalense, mas nos últimos 30 anos. Os acontecimentos históricos de um e outro país e ainda a situaçom de opressom nacional da Galiza fam com que a esquerda portuguesa e galega tenham naturezas e interesses diferentes. Portugal, um dos poucos países-estado de Europa e um povo, o português, que olha com receios e/ou admiraçom o vizinho Estado espanhol, um país que actualmente atravessa umha grave crise económica muito bem aproveitada polo capitalismo espanhol. Um país que consegue ser soberano na Península Ibérica perante o imperialismo espanhol e que precisa de reforçar a sua diferença frente a este.

Neste contexto nom é difícil entender as dificuldades de compreensom de umha "região de Espanha" se querer separar e aliás, identificar-se mais com Portugal, isto útimo por dous motivos. Primeiro polas razons económicas, ao qual é preciso somarmos o desconhecimento das desigualdades existentes dentro do Estado espanhol, visto como umha unidade por equiparaçom da realidade portuguesa país-estado. Em segundo lugar, em ligaçom com isto último e com a manutençom da soberania política portuguesa, a poucos interessa reconhecer que a naçom portuguesa tem origem e íntima relaçom com a Galiza ou que a língua portuguesa nasceu lá em cima, som factos pouco interessantes mais do que desconhecidos. Desta óptica exposta seria como admitirem que Portugal nasceu em Espanha, numha "regiom de Espanha", da qual se sabe algumha cousa do que nos une mas que compreensivelmente nom interessa. E é por acaso a esquerda tradicional portuguesa quem infelizmente mais peca nisto.

Estas som em grandes traços as dificuldades que se apresentam à hora de construir umha entidade de solidariedade com a Galiza, dificuldades às quais devemos somar o grave problema de desmobilizaçom que actualmente sofre a sociedade portuguesa.
Sobre a acçom de umha iniciativa de solidariedade galego-portuguesa, temos de partir do trabalho básico de informaçom. Este trabalho nom só pola evidente desinformaçom que da luita galega existe nos media portugueses mas pola fase embrionária do que pode ser um activismo que perdure no tempo, um movimento solidário que consiga umha ampla implicaçom dos portugueses e um trabalho mais por iniciativa deles próprios e nom tanto das activistas galegas e galegos que eventualmente morarem no país. É fundamental umha actividade ampla e variada de informaçom para despertar esse sentimento solidário em Portugal que consideramos tam necessário.

Um outro repto deste associacionismo solidário deve ser a amplitude de ámbitos de implicaçom, nom se pode cair no culturalismo mas explorar todas as facetas possíveis da luita da Galiza e combiná-las, tentar dar umha visom ampla do panorama galego que achegue diferentes sensibilidades de diferentes ámbitos dos movimentos sociais da esquerda portuguesa. E por último a duraçom destas associaçons, as experiências que tenhem surgido nos últimos anos, com maior ou menor actividade e repercussom, tenhem-se caracterizado pola sua curta vida, aparece o problema da continuidade por levarem o peso as galegas e galegos, com experiência organizativa prévia, que na maioria dos casos residem por um tempo limitado nalgumha cidade portuguesa por razons de estudo ou trabalho. Este é se calhar o principal repto, a continuidade e consolidaçom que alicerce um movimento de solidariedade sólido.

O apoio português ao MLNG deve inserir-se aliás, dentro de um quadro de relacionamento maior, principalmente no plano cultural e linguístico mas nom só. Métodos organizativas e de acçom política da esquerda portuguesa, e ainda os derivados da experiência revolucionária de Abril também som de alto interesse para a nossa realidade. No caminho da subsistência e recuperaçom da nossa língua é urgente o fluxo contínuo com o nosso povo irmao e vizinho, a esquerda independentista galega e os movimentos sociais defensores da língua da Galiza tenhem de fazer uso ao máximo dos instrumentos que proporciona Portugal, um estado em que a nossa língua é oficial e normal. É claro que a vontade tem de ser mútua, dos dous lados da raia, falta ainda muito por trabalhar neste sentido tanto aquém como além Minho.

Duas experiências recentes: Plataforma Coimbra-Galiza e GZ.pt de Lisboa.
Coimbra é umha cidade centrada sobretodo na universidade, isto é, a sua actividade cultural, social … e também política desenrola-se no entorno universitário e nas instalaçons desta. Nesta universidade existe um sindicato único chamado AAC (Associação Académica de Coimbra), anualmente distintas listas apresentam-se à direcçom de este organismo, este sindicato caracteriza-se por sofrer umha completa institucionalizaçom.

Umha peculiaridade importante que nom encontramos noutras cidades portuguesas som as repúblicas. As repúblicas som prédios (muitos de eles de grande importáncia histórica) em que um número de estudantes determinado polas vagas de cada república leva o que chamam vida em comunidade. As repúblicas fam em muitas ocasions o papel de centros sociais, isto é, nelas realizam-se conferências, debates, projecçom de filmes, reunions de distintas organizaçons e associaçons … em resumo som um bom espaço para realizar actividades políticas. Por exemplo este ano foi o Conselho de Repúblicas quem organizou os actos comemorativos do 25 de Abril. Em Coimbra existem por volta de 30 repúblicas situadas por toda a cidade, e por volta de 200 pessoas que moram nestas casas.

É em este ambiente onde nasce a Plataforma de solidariedade Coimbra-Galiza, de facto a assembleia fundacional desta realiza-se na sala de umha destas repúblicas. No dia 2 de Março corre esta assembleia no espaço cedido pola república da Prá-Kys-Tão. Esta reuniom foi o ponto de partida de umha iniciativa solidária com a situaçom de repressom policial que se está a viver nestes últimos tempos na Galiza. As reunions sempre som abertas e de carácter assemblear, sendo bem-vinda qualquer proposta, sugestom ou colaboraçom, estando sempre disponível informaçom sobre a situaçom na Galiza para as pessoas que a solicitarem. Para alcançar os nossos objectivos levaram-se a cabo distintas actividades como por exemplo umha palestra sobre a problemática actual da Galiza e a repressom aos movimentos dissidentes, umha outra sobre língua e cultura galega, ou a última sobre luitas revolucionárias na Galiza, projecçom de curta-metragens, um recital de poesia galega, um workshop de dança e musica tradicional, umha festa galega …

Neste projecto também participavam pessoas ligadas a partidos políticos como e o caso das nossas companheiras e companheiros de Ruptura-FER, estando esta organizaçom integrada no Bloco de Esquerda. Sempre foi interessante para nós que estas pessoas colaborassem no nosso projecto devido a sua experiência militante na cidade. Além disto boa parte das pessoas que acudiam às nossas assembleias e actividades iniciaram a andança de umha organizaçom estudantil, a FAE (Frente de Acção Estudantil), esta nasce para fazer frente com distintas actividades ao plano de Bolonha que está a ser implementado. Esta organizaçom também funciona de forma assemblear sendo umha boa alternativa à AAC.

O caso concreto da GZ.pt (Associação de Solidariedade com a Galiza) em Lisboa, parte de um pequeno grupo de estudantes galegos membros da AGAL, alguns também militantes da esquerda independentista, e um par de pessoas naturais da Grande Lisboa vinculadas ao PCP e à Associação de Solidariedade com Euskal Herria (ASEH). A ideia era retomarmos experiências anteriores como a da ASGA (Associação de Solidariedade com a Galiza) ou o trabalho da Plataforma Nunca Mais na cidade, mas por outra parte criar umha associaçom nova, com os objectivos de dar a conhecer a situaçom política, social e cultural da Galiza, a luita pola autodeterminaçom do povo galego. Assim, é convocada pola internet umha primeira assembleia celebrada num bar do Bairro Alto que passa a ser local habitual de reuniom da associaçom. Esta primeira assembleia tem grande sucesso e conforma-se um grupo de trabalho de cerca de 15 pessoas, composto por naturais da Galiza, Portugal e o Brasil trabalhadores na cidade no ámbito do ensino, da imigraçom, do direito e das artes. A associaçom começa a entrar em pouco tempo no tecido associativo lisboeta, organiza actividades próprias e participa aliás, de eventos como o Arraial do 24 de Abril ou a Festa da Diversidade em que trabalha conjuntamente com as associaçons mais activas da capital portuguesa. Este tipo de actividades som fundamentais para promocionar a GZ.pt, "os galegos" passam a fazer parte do associacionismo alternativo lisboeta, e é sobretodo daqui donde saem os apoios e as simpatias: das associaçons de imigrantes, anti-imperialistas e culturais mais de base e independentes de partidos políticos.

As actividades realizadas pola GZ.pt neste primeiro semestre de vida vam de umhas jornadas com debates, jantar e festa galegos, a participaçom com banca própria de material, informaçom e gastronomia no Arraial do 24 de Abril ou na mais recente Festa da Diversidade, a participaçom com faixa própria no Desfile do 25 de Abril ou o acto reivindicativo no dia das letras galegas em que foi pendurada umha faixa de 25 metros de comprimento, na qual se podia ler "Galiza e Portugal, a mesma língua!", no Elevador de S. Justa, monumento nacional situado na Baixa lisboeta.

Hoje a associaçom tem construídos os alicerces mas ainda falta consolidar a implicaçom dos lisboetas que fam parte dela, garantia real de futuro.

Contactos associaçons:

Plataforma Coimbra-Galiza.- http://plataforma-coimbra-galiza.blogspot.com
e-mail: plataformacoimbragaliza@hotmail.com
GZ.pt .- http://br.groups.yahoo.com/group/gzpontopt/
e-mail: gz.pt@sapo.pt

Rute Cortiço e Ângelo Meraio som militantes de Primeira Linha

 

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