A REPRESSOM SOBRE O INDEPENDENTISMO GALEGO. Publicado no número 24 de Abrente

 

Ramiro Vidal Alvarinho

 

A etapa de reconstruçom organizativa que está a viver a esquerda independentista neste país vem acompanhada, como nom podia ser de outro jeito, da conseguinte resposta por parte do inimigo no que se refere a medidas de controlo, intoxicaçom e repressom contra o tecido social do movimento patriótico e socialista. O que vem a continuaçom é umha visom sobre o evoluir da repressom ao movimento na sua história mais recente, as suas características e umha modesta achega sobre possíveis chaves para dar umha resposta minimamente digna às sujas manobras da Espanha e os seus lacaios para reprimir-nos.

 

Umha breve visom histórica

Haveria que remontar à história do MLNG para podermos falar das origens da actual ofensiva contra-insurgente contra o independentismo galego. Concretamente, teríamos que viajar a meados dos anos noventa. Por aquele entom pesam, sobre as costas de umha parte do nosso corpo social, as dolorosas seqüelas da capitulaçom de um projecto político-militar. Umhas seqüelas que ainda nom deixárom de estar presentes: ainda hoje há gente presa por têr militado no EGPGC. É umha realidade que ainda nos condiciona, mas que sofrêrom muito especialmente as famílias e os amigos e amigas da gente presa. Na recta final da luita pola transferência à Terra d@s pres@s independentistas, que teve um final exitoso, esta causa contou com o apoio de uns CAR e umhas JUGA dispostos à unidade de acçom e umha Mesa polo Traslado à Terra que foi um exemplo honroso como poucos de soma de forças desde a intelectualidade galega por umha demanda nom revestida de “correcçom” política como outras, portanto subversiva a olhos do poder e nom fácil de fazer compreender, mas polo meio houve anos de divisom e solidade, tempos muito duros. Mas, coincidindo com o declínio daquela etapa na luita independentista surgem, contra todo o prognóstico, grupos de jovens que querem começar umha nova. Irám conformando o germe da AMI, irám funcionando como a AMI pré-assembleia e em Julho de 96 muit@s del@s participarám na Assembleia Fundacional que se celebraria em Bueu. Foi umha relativa surpresa para o Estado assistir à criaçom de umha organizaçom independentista juvenil justamente num momento em que se acabava de infringir umha derrota militar sem paliativos ao EGPGC e à APU vinha de se auto-dissolver após ter diagnosticado o seu fracasso como pretendida força que liderasse a luita pola libertaçom nacional. Na véspera do Dia da Pátria de 95, explodia um caixeiro automático no bairro corunhês de Monte Alto. Ao dia seguinte, a imprensa publica a notícia acompanhada de um comunicado assinado por um desconhecido Novo Exército Galego, que às pessoas mais achegadas do movimento lhes resulta de pouca fiabilidade, mas que consegue o seu objectivo: criar confusom. Nom demoram a aparecer pintadas pola Corunha saudando a apariçom do Novo Exército, que no seu comunicado anunciava umha nova etapa armada. Mesmo nalgum fanzine se lhe fazia mençom e, em determinados círculos juvenis o misterioso NEG ocupava um lugar privilegiado entre os temas favoritos de conversa. A realidade era que nom havia tal Novo Exército Galego; simplesmente desde a subdelegaçom do governo espanhol na Corunha se estivera a preparar o terreno para um golpe repressivo exemplar contra a mocidade independentista. Em Outubro de 96, de jeito praticamente sincronizado, som detidos na própria cidade da Corunha os moços independentistas Armando Ribadulha Peres e Adolfo Martín Naia. A Armando detenhem-no à porta da casa e a Adolfo quando baixava pola avenida de Juan Flórez para acodir a umha cita na praça de Ponte-Vedra com o próprio Armando Ribadulha e com o autor deste artigo. Desde o dia seguinte às detençons, a imprensa escrita começou a aparecer pragada de especulaçons à volta do misterioso Novo Exército e das supostas vinculaçons da AMI com Jarrai, a que entom era organizaçom juvenil de MLNB.  Aos detidos  aplica-se-lhes a Lei Anti-terrorista e comparecem perante o juiz Carlos Bueren na Audiencia Nacional. Apesar de que após essa comparecência se desestima a acusaçom de pertença a bando armado, este extremo nom merece muita atençom por parte da imprensa e sim a merecem aspectos mais morbosos como a suposta conexom basca. Incluso alguns políticos de segunda fileira como o corrupto ex-dirigente das Juventudes Socialistas David Balsa nom desaproveitam o novo filom para potenciar a sua imagem pública à costa da AMI; nom esqueçamos a cruzada que este indivíduo protagonizou contra a organizaçom juvenil com a ajuda inestimável de alguns meios de comunicaçom influentes como La Voz de Galicia ou a cadeia SER. Todo valia, incluso as NNGG do PP chegárom a acusar a AMI  dos incêndios florestais. O Faro de Vigo pôs também a sua migalha de delírio na campanha de intoxicaçom, tirando à luz um suposto informe policial onde se dava a entender a existência de umha espécie de trama do caos na Galiza, em que participavam a própria AMI e organizaçons e colectivos tam díspares na sua orientaçom e a sua actividade como Autonomia Libertária, o SHARP ou os Riazor Blues. Todo este barulho desinformativo cozia-se sem o concurso dos próprios aludidos, claro. Em definitivo, penso que este breve relato do que foi o primeiro grande episódio de repressom que viveu a esquerda independentista nos últimos sete anos vem a conto porque reúne as características fundamentais do agir repressivo do inimigo contra o nosso movimento. A intoxicaçom, para criar alarme social, a desproporçom nas medidas repressivas, para dar exemplo a quem tiver a tentaçom de ir polo mesmo caminho e a censura, para nom dar a quem sofre a repressom nem a menor oportunidade de se defender.

 

A repressom hoje. Deterioraçom das liberdades públicas e maior assanhamento com o independentismo

Afondemos pois no que considero som as três características fundamentais da repressom. O inimigo é perfeitamente conhecedor da nossa realidade, sabe que o movimento independentista galego está formado fundamentalmente por estudantes, classe trabalhadora com condiçons laborais precárias, e desempregad@s. Sabe também da enorme juventude do nosso movimento. Sabe que muit@s activistas moram ainda na casa dos país. E sabem como converter tudo isso numha vaza ao seu favor. Para começar, nom está de mais recordar que estamos num país envelhecido. A isto há que acrescentar a relativa proximidade no tempo de umha ditadura que durou perto dos quarenta anos. Há polo menos umha geraçom de galegos e galegas que nom conhecem mais coordenadas de raciocínio político que as que lhes puderem ditar. Estamos a falar de um segmento muito significativo da populaçom, com peso demográfico, logo político, incapaz de interpretar livremente a informaçom que lhe chega. Quando os meios de comunicaçom se referem à juventude, normalmente o fazem com umha linguagem especialmente tendenciosa que convida a instalarem-se em preconceitos acerca da gente nova. Rara vez se verá na imprensa convencional um artigo que realmente dê informaçom fiável sobre movimentos sociais em que a juventude tenha especial peso. Polo geral, os meios de comunicaçom adoitam referir-se a eles como tribos urbanas, com tudo o que isto implica e sabendo, com certeza, que imediatamente os receptores do material noticioso vam fazer as suas equaçons ao respeito: tribo urbana, igual a comportamento tribal, igual a sectarismo, igual a comportamentos anti-sociais e igual a convivência conflituosa com o resto da sociedade e potencial perigo de entrar em fricçom com outros grupos com comportamento tribal... e colateralmente, violência, delinqüência, trafego de jeitos de vida e mercadorias ideológicas fora do aceitável, etc. É fácil induzir à desconfiança e à hostilidade a quem resulta impossível de assimilar as mudanças sociais e culturais que se dérom com a modificaçom de regime e nom está preparado para viver num ambiente diverso.

No caso do independentismo, o inimigo trata de inverter ao seu favor um factor que a priori tem umha série de avantagens, que é o facto de termos um movimento muito jovem. A ideia de mocidade igual a vandalismo e delinquência é farto fácil de instalar entre um segmento de populaçom de nula cultura democrática. Este segmento da populaçom nom entende a necessidade da liberdade de expressom, portanto tudo aquilo que significar intervençom política na rua, leia-se colada de cartazes, reparto de brochuras ou manifestaçons é desconcertante e molesto para eles. Se ainda por acima se lhes diz que estes que berram tanto som amigos de ou estám financiados por... já está servida umha boa justificaçom para exercer a repressom, mesmo com o aplauso de umha boa parte da sociedade. A isso há que somar o facto de que certa populaçom com um nível cultural maior e que já nom conheceu o franquismo também adoita dar crédito a informaçons sesgadas ou falsas que se dam sobre a esquerda independentista, porque querem, mais que porque realmente pensem que certas coisas que se dizem sejam verdade. A sociedade galega, nom o esqueçamos, é de um jeito abrumadoramente majoritário espanholista. Ainda sabendo que o independentismo galego tem na actualidade um concurso político totalmente público e transparente, seria de ilusos pensarmos que o espanholismo vai ficar quieto perante a irrupçom no panorama político galego de umha força que reivindica um projecto sócio-político antagónico ao espanhol, desde coordenaads de esquerda e nom patriarcais. Para essa facçom majoritária da sociedade, é melhor que o independentismo nom tenha nem oportunidades de manifestaçom pública nem possibilidades de denunciar a repressom contra ele. Portanto, optam por serem cúmplices dessa repressom. Os partidos políticos que defendem a Espanha, que som os que se repartem a maior parte do poder institucional na Galiza, têm um acordo muito sólido sobre como operar o isolamento sobre o independentismo. À intoxicaçom muito trabalhada sobre o movimento independentista, que se baseia como já disse nos eixos argumentais da  excentricidade das ideias que defende, o seu carácter supostamente tribal –isto sobretudo quando se trata da AMI ou de AGIR- e a natureza nom genuína do movimento, que certamente estará doutrinado e financiado fora da Galiza, une-se a repressom até onde podem desde o poder autonómico ou municipal, em perfeita colaboraçom com o Estado. O panorama neste plano é: leis e  normativas absurdas e arbitrárias que se aplicam também de jeito arbitrário, sançons administrativas quantiosas, perseguiçom policial sistemática...e tanto por parte de da Polica Local como por parte da Nacional ou outros corpos repressivos de carácter estatal. Os poderes complementam-se no seu labor e cada um desde o seu plano de acçom exerce a repressom numha dimensom determinada. A polícia Nacional, Guardia Civil, e serviços secretos encarregam-se de acossar e perseguir os e as filiadas das organizaçons independentistas, alterando a sua vida diária e pressionando as suas famílias para criar um conflito à volta da pessoa perseguida que provoque um tronçamento do compromisso independentista polo colapso na capacidade de resposta do indivíduo perante as resistências que puder atopar na hora de exercer a sua militáncia no próprio ambiente. Isto erosiona fidelidades no movimento. À parte disto, a repressom contra o independentismo como grupo humano é bem conhecida por visível; desde constantes identificaçons na rua, cada vez que um grupo de pessoas está a exercer em público qualquer actividade relacionada com a liberdade de expressom, como podem ser colada de cartazes, umha concentraçom ou o reparto de brochuras (isto tem umha mensagem subliminal de cara aos transeuntes:estám a ser identificados, sinal de que som conflituosos) até provocaçons nas manifestaçons por parte de agentes à paisana ou cargas policiais injustificadas, passando por intimidaçons a donos ou responsáveis de todo o tipo de lugares públicos para nom permitirem que celebremos neles actos ou reunions. Pretendem claramente o isolamento social da esquerda patriótica.

No plano local, temos a sançom e aplicaçom de normas absurdas que proíbem a realizaçom de murais, colada de cartazes, reparto de brochuras, negam a cessom de espaços públicos, pretendem estrangular economicamente a nossa massa social com imposiçom de sançons administrativas -actualmente há em NÓS–Unidade Popular perto de meio centenar de filiad@s com multas relacionadas com a infracçom de normas sobre meio-ambiente ou conservaçom do património-. Tudo isto provoca evidentes custos na massa social independentista, porque desborda a capacidade económica para afrontar estas sançons, entram em conflito com a familia que recrimina o compromisso militante e pressiona para abandonarem esse compromisso, além de marcar socialmente condicionando as relaçons no trabalho, no centro de ensino, na vizinhança.... e porfim temos a censura, que consiste basicamente no silenciamento da actividade política e na negaçom do direito à própria defesa contra a intoxicaçom ou a denunciar os abussos de poder que se cometem contra o movimento ou contra o prório povo. Tudo isto contribui para o desalento de certos sectores da massa filiada, sobretudo a mais jovem, que é a mais vital mas também a mais vulnerável por ser a mais susceptivel de sofrer medidas de coerçom. Este desalento vem motivado pola evidência de um poder arbitrario que se manifesta de jeito muitas vezes brutal e prepotente, sem possibilidade sequer de réplica e ficando a pessoa em quem recai directamente a repressom numha sensaçom de solidade quase total, de que o grupo nom é o suficientemente consistente como tal como para dar umha resposta eficaz a situaçons de repressom individual ou colectiva.

Este quadro que acabamos de descrever, vai-se ver agudizado polas circunstâncias que atravessa o panorama político estatal. Numha situaçom em que o Partido Popular está decidido a aniquilar o  independentismo basco, que é o maior foco de dissidência a que se tem que enfrentar a oligarquia espanhola, o resto de movimentos de libertaçom também devem estar alerta, já que  o governo espanhol está a forçar o quadro legal vigente para fazer encaixar umha nova Lei de Partidos Políticos que permita deixar fora do jogo político a aquelas organizaçons que ponham em causa o quadro jurídico-político actual. O governo espanhol nom dissimula que a antedita lei está desenhada para acabar com o MLNB e evitar a sua regeneraçom. É apenas questom de tempo que pretendam aplicar essa mesma lei ao caso galego. De facto, é bastante previsível que o independentismo galego seja um objectivo prioritário na caça às bruxas que se avizinha. Por muito que o grau de conflito na Galiza nom seja equiparável ao que poda haver em Euskal Herria, a oligarquia espanhola é consciente de que apenas desactivando todos os focos de conflito poderá consolidar o seu projecto nacional, umha disciplina pendente que se converteu no repto histórico do PP

 

Que podemos fazer

A resposta é evidente. Afortalar organizativa, política e ideologicamente o movimento é vital. É necessario a criaçom de um organismo anti-repressivo capaz de dar apoio jurídico às pessoas represaliadas. Também é necesario potenciar meios de comunicaçom alternativos, e mesmo que estes meios de comunicaçom tenham umha colaboraçom estreita com outros que nom sejam de tendência independentista. Tudo isto é imprescindível ainda que nom chega apenas com isso para garantir a nossa capacidade para respostar perante a repressom, também faz falta que o nosso corpo social reforce a sua consciência de si próprio; interiorize que a solidariedade entre companheiros e companheiras é necesaria e deve ser umha questom de disciplina, estando dispostos a defender em público @s noss@s companheir@s, nom alimentar rumores nem fazer críticas infundadas, porque o rumor é contra-insurgente. É absolutamente imprescindível cultivarmo-nos como comunidade. Só a coesom como movimento pode dar garantias de nom sucumbirmos perante futuros golpes repressivos, presumivelmente duros, que suponho nom tardarám em se dar.

 

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