A etapa de reconstruçom
organizativa que está a viver a esquerda independentista neste país vem
acompanhada, como nom podia ser de outro jeito, da conseguinte resposta por
parte do inimigo no que se refere a medidas de controlo, intoxicaçom e
repressom contra o tecido social do movimento patriótico e socialista. O que
vem a continuaçom é umha visom sobre o evoluir da repressom ao movimento na sua
história mais recente, as suas características e umha modesta achega sobre
possíveis chaves para dar umha resposta minimamente digna às sujas manobras da
Espanha e os seus lacaios para reprimir-nos.
Haveria que remontar à
história do MLNG para podermos falar das origens da actual ofensiva
contra-insurgente contra o independentismo galego. Concretamente, teríamos que
viajar a meados dos anos noventa. Por aquele entom pesam, sobre as costas de
umha parte do nosso corpo social, as dolorosas seqüelas da capitulaçom de um
projecto político-militar. Umhas seqüelas que ainda nom deixárom de estar
presentes: ainda hoje há gente presa por têr militado no EGPGC. É umha
realidade que ainda nos condiciona, mas que sofrêrom muito especialmente as
famílias e os amigos e amigas da gente presa. Na recta final da luita pola
transferência à Terra d@s pres@s independentistas, que teve um final exitoso,
esta causa contou com o apoio de uns CAR e umhas JUGA dispostos à unidade de
acçom e umha Mesa polo Traslado à Terra
que foi um exemplo honroso como poucos de soma de forças desde a
intelectualidade galega por umha demanda nom revestida de “correcçom” política
como outras, portanto subversiva a olhos do poder e nom fácil de fazer
compreender, mas polo meio houve anos de divisom e solidade, tempos muito
duros. Mas, coincidindo com o declínio daquela etapa na luita independentista
surgem, contra todo o prognóstico, grupos de jovens que querem começar umha
nova. Irám conformando o germe da AMI, irám funcionando como a AMI
pré-assembleia e em Julho de 96 muit@s del@s participarám na Assembleia Fundacional que se
celebraria em Bueu. Foi umha relativa surpresa para o Estado assistir à criaçom
de umha organizaçom independentista juvenil justamente num momento em que se
acabava de infringir umha derrota militar sem paliativos ao EGPGC e à APU vinha
de se auto-dissolver após ter diagnosticado o seu fracasso como pretendida
força que liderasse a luita pola libertaçom nacional. Na véspera do Dia da Pátria de 95, explodia um caixeiro automático
no bairro corunhês de Monte Alto. Ao dia seguinte, a imprensa publica a notícia
acompanhada de um comunicado assinado por um desconhecido Novo Exército Galego, que
às pessoas mais achegadas do movimento lhes resulta de pouca fiabilidade, mas
que consegue o seu objectivo: criar confusom. Nom demoram a aparecer pintadas
pola Corunha saudando a apariçom do Novo
Exército, que no seu comunicado anunciava umha nova etapa armada. Mesmo
nalgum fanzine se lhe fazia mençom e, em determinados círculos juvenis o
misterioso NEG ocupava um lugar privilegiado entre os temas favoritos de
conversa. A realidade era que nom havia tal Novo Exército Galego; simplesmente
desde a subdelegaçom do governo espanhol na Corunha se estivera a preparar o
terreno para um golpe repressivo exemplar contra a mocidade independentista. Em
Outubro de 96, de jeito praticamente sincronizado, som detidos na própria
cidade da Corunha os moços independentistas Armando Ribadulha Peres e Adolfo
Martín Naia. A Armando detenhem-no à porta da casa e a Adolfo quando baixava
pola avenida de Juan Flórez para acodir a umha cita na praça de Ponte-Vedra com
o próprio Armando Ribadulha e com o autor deste artigo. Desde o dia seguinte às
detençons, a imprensa escrita começou a aparecer pragada de especulaçons à
volta do misterioso Novo Exército e
das supostas vinculaçons da AMI com Jarrai, a que entom era organizaçom juvenil
de MLNB. Aos detidos aplica-se-lhes a Lei Anti-terrorista e
comparecem perante o juiz Carlos Bueren na Audiencia Nacional. Apesar de
que após essa comparecência se desestima a acusaçom de pertença a bando armado,
este extremo nom merece muita atençom por parte da imprensa e sim a merecem
aspectos mais morbosos como a suposta conexom basca. Incluso alguns políticos
de segunda fileira como o corrupto ex-dirigente das Juventudes Socialistas
David Balsa nom desaproveitam o novo filom para potenciar a sua imagem pública
à costa da AMI; nom esqueçamos a cruzada que este indivíduo protagonizou contra
a organizaçom juvenil com a ajuda inestimável de alguns meios de comunicaçom
influentes como La Voz de Galicia ou a cadeia SER. Todo valia,
incluso as NNGG do PP chegárom a acusar a AMI
dos incêndios florestais. O Faro
de Vigo pôs também a sua migalha de delírio na campanha de intoxicaçom,
tirando à luz um suposto informe policial onde se dava a entender a existência
de umha espécie de trama do caos na Galiza, em que participavam a própria AMI e
organizaçons e colectivos tam díspares na sua orientaçom e a sua actividade
como Autonomia Libertária, o SHARP ou os Riazor Blues. Todo este barulho
desinformativo cozia-se sem o concurso dos próprios aludidos, claro. Em
definitivo, penso que este breve relato do que foi o primeiro grande episódio
de repressom que viveu a esquerda independentista nos últimos sete anos vem a
conto porque reúne as características fundamentais do agir repressivo do
inimigo contra o nosso movimento. A intoxicaçom, para criar alarme social, a
desproporçom nas medidas repressivas, para dar exemplo a quem tiver a tentaçom
de ir polo mesmo caminho e a censura, para nom dar a quem sofre a repressom nem
a menor oportunidade de se defender.
A
repressom hoje. Deterioraçom das liberdades públicas e maior assanhamento com o
independentismo
Afondemos pois no que
considero som as três características fundamentais da repressom. O inimigo é
perfeitamente conhecedor da nossa realidade, sabe que o movimento
independentista galego está formado fundamentalmente por estudantes, classe
trabalhadora com condiçons laborais precárias, e desempregad@s. Sabe também da enorme juventude do nosso
movimento. Sabe que muit@s activistas moram ainda na casa dos
país. E sabem como converter tudo isso numha vaza ao seu favor. Para começar,
nom está de mais recordar que estamos num país envelhecido. A isto há que
acrescentar a relativa proximidade no tempo de umha ditadura que durou perto
dos quarenta anos. Há polo menos umha geraçom de galegos e galegas que nom
conhecem mais coordenadas de raciocínio político que as que lhes puderem ditar.
Estamos a falar de um segmento muito significativo da populaçom, com peso
demográfico, logo político, incapaz de interpretar livremente a informaçom que
lhe chega. Quando os meios de comunicaçom se referem à juventude, normalmente o
fazem com umha linguagem especialmente tendenciosa que convida a instalarem-se
em preconceitos acerca da gente nova. Rara vez se verá na imprensa convencional
um artigo que realmente dê informaçom fiável sobre movimentos sociais em que a
juventude tenha especial peso. Polo geral, os meios de comunicaçom adoitam
referir-se a eles como tribos urbanas, com tudo o que isto implica e sabendo,
com certeza, que imediatamente os receptores do material noticioso vam fazer as
suas equaçons ao respeito: tribo urbana, igual a comportamento tribal, igual a
sectarismo, igual a comportamentos anti-sociais e igual a convivência
conflituosa com o resto da sociedade e potencial perigo de entrar em fricçom
com outros grupos com comportamento tribal... e colateralmente, violência,
delinqüência, trafego de jeitos de vida e mercadorias ideológicas fora do
aceitável, etc. É fácil induzir à desconfiança e à hostilidade a quem resulta
impossível de assimilar as mudanças sociais e culturais que se dérom com a
modificaçom de regime e nom está preparado para viver num ambiente diverso.
No caso do independentismo,
o inimigo trata de inverter ao seu favor um factor que a priori tem umha
série de avantagens, que é o facto de termos um movimento muito jovem. A ideia
de mocidade igual a vandalismo e delinquência é farto fácil de instalar entre
um segmento de populaçom de nula cultura democrática. Este segmento da
populaçom nom entende a necessidade da liberdade de expressom, portanto tudo
aquilo que significar intervençom política na rua, leia-se colada de cartazes,
reparto de brochuras ou manifestaçons é desconcertante e molesto para eles. Se
ainda por acima se lhes diz que estes que berram tanto som amigos de ou estám
financiados por... já está servida umha boa justificaçom para exercer a
repressom, mesmo com o aplauso de umha boa parte da sociedade. A isso há que
somar o facto de que certa populaçom com um nível cultural maior e que já nom
conheceu o franquismo também adoita dar crédito a informaçons sesgadas ou
falsas que se dam sobre a esquerda independentista, porque querem, mais que
porque realmente pensem que certas coisas que se dizem sejam verdade. A
sociedade galega, nom o esqueçamos, é de um jeito abrumadoramente majoritário
espanholista. Ainda sabendo que o independentismo galego tem na actualidade um
concurso político totalmente público e transparente, seria de ilusos pensarmos
que o espanholismo vai ficar quieto perante a irrupçom no panorama político
galego de umha força que reivindica um projecto sócio-político antagónico ao
espanhol, desde coordenaads de esquerda e nom patriarcais. Para essa facçom majoritária
da sociedade, é melhor que o independentismo nom tenha nem oportunidades de
manifestaçom pública nem possibilidades de denunciar a repressom contra ele.
Portanto, optam por serem cúmplices dessa repressom. Os partidos políticos que
defendem a Espanha, que som os que se repartem a maior parte do poder
institucional na Galiza, têm um acordo muito sólido sobre como operar o
isolamento sobre o independentismo. À intoxicaçom muito trabalhada sobre o
movimento independentista, que se baseia como já disse nos eixos argumentais
da excentricidade das ideias que
defende, o seu carácter supostamente tribal –isto sobretudo quando se trata da
AMI ou de AGIR- e a natureza nom genuína do movimento, que certamente estará doutrinado
e financiado fora da Galiza, une-se a repressom até onde podem desde o poder
autonómico ou municipal, em perfeita colaboraçom com o Estado. O panorama neste
plano é: leis e normativas absurdas e
arbitrárias que se aplicam também de jeito arbitrário, sançons administrativas
quantiosas, perseguiçom policial sistemática...e tanto por parte de da Polica
Local como por parte da Nacional ou
outros corpos repressivos de carácter estatal. Os poderes complementam-se no
seu labor e cada um desde o seu plano de acçom exerce a repressom numha dimensom
determinada. A polícia Nacional, Guardia Civil, e serviços secretos encarregam-se de acossar e perseguir os
e as filiadas das organizaçons independentistas, alterando a sua vida diária e
pressionando as suas famílias para criar um conflito à volta da pessoa
perseguida que provoque um tronçamento do compromisso independentista polo
colapso na capacidade de resposta do indivíduo perante as resistências que
puder atopar na hora de exercer a sua militáncia no próprio ambiente. Isto
erosiona fidelidades no movimento. À parte disto, a repressom contra o
independentismo como grupo humano é bem conhecida por visível; desde constantes
identificaçons na rua, cada vez que um grupo de pessoas está a exercer em
público qualquer actividade relacionada com a liberdade de expressom, como
podem ser colada de cartazes, umha concentraçom ou o reparto de brochuras (isto
tem umha mensagem subliminal de cara aos transeuntes:estám a ser identificados,
sinal de que som conflituosos) até provocaçons nas manifestaçons por parte de
agentes à paisana ou cargas policiais injustificadas, passando por intimidaçons
a donos ou responsáveis de todo o tipo de lugares públicos para nom permitirem
que celebremos neles actos ou reunions. Pretendem claramente o isolamento
social da esquerda patriótica.
No plano local, temos a
sançom e aplicaçom de normas absurdas que proíbem a realizaçom de murais,
colada de cartazes, reparto de brochuras, negam a cessom de espaços públicos,
pretendem estrangular economicamente a nossa massa social com imposiçom de
sançons administrativas -actualmente há em NÓS–Unidade Popular perto de meio
centenar de filiad@s com multas relacionadas com a infracçom de normas sobre meio-ambiente ou conservaçom do património-. Tudo isto provoca evidentes custos na
massa social independentista, porque desborda a capacidade económica para
afrontar estas sançons, entram em conflito com a familia que recrimina o
compromisso militante e pressiona para abandonarem esse compromisso, além de
marcar socialmente condicionando as relaçons no trabalho, no centro de ensino,
na vizinhança.... e porfim temos a censura, que consiste basicamente no
silenciamento da actividade política e na negaçom do direito à própria defesa
contra a intoxicaçom ou a denunciar os abussos de poder que se cometem contra o
movimento ou contra o prório povo. Tudo isto contribui para o desalento de
certos sectores da massa filiada, sobretudo a mais jovem, que é a mais vital
mas também a mais vulnerável por ser a mais susceptivel de sofrer medidas de
coerçom. Este desalento vem motivado pola evidência de um poder arbitrario que
se manifesta de jeito muitas vezes brutal e prepotente, sem possibilidade
sequer de réplica e ficando a pessoa em quem recai directamente a repressom
numha sensaçom de solidade quase total, de que o grupo nom é o suficientemente
consistente como tal como para dar umha resposta eficaz a situaçons de
repressom individual ou colectiva.
Este quadro que acabamos de
descrever, vai-se ver agudizado polas circunstâncias que atravessa o panorama
político estatal. Numha situaçom em que o Partido Popular está decidido a
aniquilar o independentismo basco, que
é o maior foco de dissidência a que se tem que enfrentar a oligarquia
espanhola, o resto de movimentos de libertaçom também devem estar alerta, já
que o governo espanhol está a forçar o
quadro legal vigente para fazer encaixar umha nova Lei de Partidos Políticos
que permita deixar fora do jogo político a aquelas organizaçons que ponham em
causa o quadro jurídico-político actual. O governo espanhol nom dissimula que a
antedita lei está desenhada para acabar com o MLNB e evitar a sua regeneraçom.
É apenas questom de tempo que pretendam aplicar essa mesma lei ao caso galego.
De facto, é bastante previsível que o independentismo galego seja um objectivo
prioritário na caça às bruxas que se avizinha. Por muito que o grau de conflito
na Galiza nom seja equiparável ao que poda haver em Euskal Herria, a oligarquia
espanhola é consciente de que apenas desactivando todos os focos de conflito
poderá consolidar o seu projecto nacional, umha disciplina pendente que se
converteu no repto histórico do PP
A resposta é evidente.
Afortalar organizativa, política e ideologicamente o movimento é vital. É
necessario a criaçom de um organismo anti-repressivo capaz de dar apoio
jurídico às pessoas represaliadas. Também é necesario potenciar meios de
comunicaçom alternativos, e mesmo que estes meios de comunicaçom tenham umha
colaboraçom estreita com outros que nom sejam de tendência independentista.
Tudo isto é imprescindível ainda que nom chega apenas com isso para garantir a
nossa capacidade para respostar perante a repressom, também faz falta que o
nosso corpo social reforce a sua consciência de si próprio; interiorize que a
solidariedade entre companheiros e companheiras é necesaria e deve ser umha
questom de disciplina, estando dispostos a defender em público @s noss@s
companheir@s, nom alimentar rumores nem fazer críticas infundadas, porque o
rumor é contra-insurgente. É absolutamente imprescindível cultivarmo-nos como
comunidade. Só a coesom como movimento pode dar garantias de nom sucumbirmos
perante futuros golpes repressivos, presumivelmente duros, que suponho nom
tardarám em se dar.