AS PROPOSTAS DE REESTRUTURAÇOM DO ESTADO. O REAGIR DO NACIONALISMO ESPANHOL. Publicado no nº 23 de Abrente (Janeiro de 2002)
André Seoane Antelo
O balbordo suscitado na
cena pública galega após as declaraçons de Manuel Fraga
a El Correo Gallego, no passado mês de Fevereiro de 2002, obrigam a
fazer umha reflexom analítica, principalmente porque se vírom
acompanhadas do aplauso dos vozeiros das duas organizaçons políticas
actualmente na oposiçom parlamentar, o que provocou nom pouca confusom.
Para qualquer observador/a
pouc@ atent@ poderia parescer que o mundo voltou do revés, de certo
é umha situaçom um tanto peculiar achar um clima de consenso
tam amplo entre a totalidade das forças políticas com representaçom
no parlamentinho. Mas nom podemos passar por alto que o PSOE, o PP e o BNG
convergírom nom num debate político menor, senom na definiçom
de qual deve ser o articulamento institucional de Espanha, o qual nom pode
surpreender porquanto as três forças partilham um mesmo projecto
estatal. Um mesmo projecto ao qual nom se pretende mais que matizar, em maior
ou menor medida, mas do que nom se questionam os seus alicerces básicos:
submissom às directrizes do capital espanhol e manutençom da
"unidad nacional".
De facto, a questom principal
nom é avaliar os pormenores da convergência das posturas de Tourinho,
Fraga e Beiras, senom entendermos porque o presidente da Junta recupera precisamente
agora as propostas de reforma do Senado e da participaçom dos conselheiros
autonómicos nas delegaçons espanholas nos órgaos da UE,
coincidindo, aliás, nas suas formulaçons com as teses de destacados
dirigentes do PSOE de outras partes do Estado.
Para irmo-nos centrando, devemos avançar que o nosso objectivo neste artigo é demonstrar como o capitalismo espanhol está a passar por umha aguda crise em que corre o risco de ficar relegado a umha posiçom ainda mais subsidiária da que actualmente ocupa no palco mundial. A agudeza desta crise é tal que obriga a pôr em cima da mesa um debate que solvente definitivamente o "problema espanhol", quer dizer, que feche definitivamente o inconcluso processo de construcçom da naçom espanhola como projecto estatal burguês. Este é o debate de fundo que se encontra atrás dos fogos de artifício das declaraçons e réplicas que desde o mês de Fevereiro se venhem sucedendo na imprensa galega.
Umha proposta original?
Para percebermos melhor de que é que estamos a falar é preciso fazermos um pequeno relatório histórico que nos situe no contexto real. Em primeiro lugar, cumpre ter em conta que a proposta de modificaçom do Senado com base na sua conversom num foro de representaçom dos governos autonómicos surgiu desde as fileiras do PSOE já no ano 1992, quando este partido ainda geria o governo estatal. Foi o daquela presidente da cámara alta, Laborda, o encarregado de formular um debate político oficial a respeito do tema. Fique pois desbotada a originalidade de Dom Manuel, umha vez que a sua proposta primigénia, conhecida como o projecto da Administraçom Única, é de 1994.

A conjuntura política
do momento, -mediatizada pola degeneraçom em que se viu sumido o PSOE,
a qual cristalizou numha profunda crise interna, da que ainda nom saiu, e
no seu deslocamento do governo em benefício do PP-, impossibilitou
que esta proposta de reforma fosse concretizada. Porém, nom foi definitivamente
abandonada, senom que continuou a ser defendida, com diferentes matizes, por
parte dalguns sectores "regionais" deste partido.
Aliás, as propostas
concretas de modificaçom do quadro institucional, -bastante vagas e
indefinidas-, fôrom acompanhadas dum constructo ideológico baptizado
com o nome de "patriotismo constitucional" ou "patriotismo
democrático".
O desenvolvimento da tese
do "patriotismo constitucional" também estivo, e está,
pragado de vaguidades e falta de concreçom prática, possibilitando
que recentemente, desde o ano 2001, o PP figesse própria esta definiçom.
De facto, o termo "patriotismo constitucional" oficializou-se de
tal jeito que até o próprio Borbom o tem empregado nos seus
discursos.
Mas, que é o "patriotismo constitucional" e por que é apresentado agora na palestra pública de forma tam reiterada? Pois simplesmente é o nome que se está a dar a algo tam conhecido como é o nacionalismo espanhol. Sustento ideológico do imperialismo que precisa dumha iminente posta a ponto para que, se nom ganha, polo menos mantenha a efectividade que demonstrou até o de agora.
O Estado espanhol à
beira da periferia do sistema
A situaçom pola
que passa o Estado, como instrumento ao serviço do capitalismo espanhol,
é de extrema gravidade. Os défices herdados dum processo de
construçom nacional desenvolvido de jeito incompleto passam umha factura
muito alta precisamente agora, no momento em que o capitalismo a nível
mundial está a sofrer um processo de re-ordenaçom caracterizado
pola maior concentraçom de capitais em áreas ainda mais reduzidas.
Para mais, a área
regional do capitalismo em que se insere o Estado espanhol está a concluir
um periodo fundamental na sua construçom. De nom solventar urgentemente
o "problema nacional", o Estado espanhol nom poderá afrontar
os reptos que se lhe exigem para nom passar a ocupar um terceiro plano dentro
da UE. De facto, o risco que se está a correr nom é o de ficar
na actual posiçom de potência de segunda ordem, mas de descer
até um degrau mais baixo situando-se no límite da periferia
do sistema económico mundial.
Estas afirmaçons
contradim a imagem que o governo do PP pretende dar no seio do próprio
Estado, mas acham-se amplamente contrastadas por umha série de indicadores
emanados de diferentes instituiçons para nada suspeitas de sere anti-capitalistas.
Remetemos pois para os informes da OCDE; para o Informe do desenvolvimento
Humano 2000, emitido pola UE; e mesmo para os dados dos inquéritos
do INE para quem quiger avaliar qual é que é a autêntica
situaçom económica pola qual atravessa o capitalismo espanhol.
Mas haveria que apontar que a maioria dos informes estatísticos emitidos
polas administraçons estatais espanholas, caso da EPA, acham-se falseados
de tal maneira que até os analistas burgueses duvidam publicamente
da sua fiabilidade, polo qual recomendamos empregar dados de organismos internacionais,
preferivelmente privados.
Pola nossa vez, simplesmente
queremos salientar umha série de tendências que ao nosso parecer
som absolutamente definitórias: a crescente descida nos benefícios
empresariais no último quinquénio; o incremento do desemprego
e a precariedade laboral; a queda em picado dos indicadores de bem-estar social.
Para além disto, o peso do Estado no seio da UE é cada vez menor.
De facto, o risco iminente de perder a maior parte dos fundos estruturais
de coesom que se recebiam até agora, -fundos que servírom basicamente
para abrandar as tensons sociais derivadas dos processos de "reconversom"
da grande indústria, da pesca e do agro-, será umha realidade
tangível brevemente, quando se incorporarem à UE umha série
de países do leste europeu.
E dizemos que é
umha realidade tangível posto que o mais interessado na cessom destes
fundos de coesom aos países orientais e o capitalismo mais poderoso
do continente, o alemám, que mais dumha vez tem manifestado as suas
críticas à economia subsidiada do Estado espanhol.
Para findar a faena, a
situaçom de preminência de que disfruta o capital espanhol na
Latinoámerica e Marrocos, como potência sub-imperialista, está
seriamente ameaçada.
No caso marroquino é
a concorrência de França, -para mais inri age nos últimos
tempos em aberta aliança com o capitalismo teutom-, quem supom umha
ameaça mais grave ao pretender deslocar a influência espanhola.
Batalha na que o capital castizo pouco tem a fazer diante dum dos principais
pólos de acumulaçom de capital da UE.
Mas na Latinoámerica
a problemática é diferente; se bem o capital espanhol age neste
espaço numha situaçom bastante cómoda, só superada
polo nível de investimento dos EUA, a recente crise argentina tem disparado
o alarme sobre os riscos dumha política económica de espoliaçom
em que a taxa de lucro tende a ser decrescente quanto mais se avançar
nela.
A estes problemas nas
áreas exteriores de influência directa há que somar as
fracassadas tentativas de introduzir-se nos mercados do leste europeu, em
que as intençons espanholas fôrom frustradas polo abafante peso
da aliança dos capitais franco-germanos.
Acrescente-se a esta ineficiência
económica os evidentes fracassos internos na hora de impor às
naçons periféricas do Estado a plena submissom diante da bota
do imperialismo espanhol; bem como as grandes dificuldades para manter em
pé umha estrutura militar acorde com as actuais necessidades do cenário
mundial. E compreenderemos porque é que o bloco de classes hegemónico
no Estado espanhol está tam preocupado por assentar de vez a "unidad
de la patria española", agora sob a formulaçom do "patriotismo
constitucional".
É evidente que, se nom se reforçar a unidade do Estado, ao capital espanhol será-lhe impossível afrontar a corrida para nom ficar fora do pelotom de cabeça do sistema-mundo, já que sem umha abundante dose de ópio nacional as classes trabalhadoras e povos oprimidos nom aturarám as exigências impostas por Madrid.
A incompetência
dum fato de parasitas
Além da difícil
situaçom objectiva, há que agregar-lhe um factor em que ainda
nom entramos, fundamental para compreender as impotências reais da oligarquia
espanhola. Trata-se da cerrilidade mental e da prepotência, historicamente
comprovada, que tem caracterizado os dirigentes, económicos e políticos,
da Espanha. Prepotência assentada na matriz parasita dos terratenentes
mesetários e hoje contagiada ao conjunto do bloco de classes dirigente.
Tem sido esta característica
a que explica que o capitalismo espanhol nom tenham dedicado umha parte importante
dos seus benefícios ao investimento em capital fixo, renovaçom
tecnológica, qualificaçom da força de trabalho, estabilizaçom
e melhoria das condiçons de vida de amplos sectores das massas trabalhadoras,
especialmente no que se refere à manutençom da sua capacidade
aquisitiva, etc... como melhor jeito de preparar-se para afrontar possíveis
crises.
Levando em conta que os
capitalistas espanhóis som especialistas no "jogo em curto",
carecendo da mais mínima capacidade de previsom estratégica,
a ninguém pode surpreender que a questom do "patriotismo constitucional"
e todo o que leva aparelhado seja abordado do jeito que se fai. Ou seja: tarde,
mal e arrasto.
O PP, ao agir como voz
directa dos interesses da oligarquia espanhola, responde portanto às
suas características. Assim, a sua noçom do "patriotismo
constitucional" nom é mais do que umha re-ediçom do clássico
ideológico da "indisoluble unidad de la patria" e da "España:
unidad de destino en lo universal".
De facto, esta "renovada" formulaçom do nacionalismo espanhol,
como já dixemos, nom foi assumido por este partido até datas
muito recentes; e mesmo assim, nom foi acompanhado por nengumha proposta de
reformulaçom do aparelho institucional do Estado; ora bem, sim por
umha ofensiva ideológica espanholizadora, fundamentalmente no ámbito
do ensino, e dumha brutal perseguiçom e acosa das alternativas políticas
independentistas, nomeadamente do MLNB.
Por seu turno, as propostas
do PSOE, com todas as suas indefiniçons, expressom da actual situaçom
de crise deste partido, ainda que no essencial concordam com a ideia da "indisolubilidad
de la patria española" manifestam umha vontade de integrar na
gestom do Estado dum jeito mais directo as burguesias das naçons periféricas,
para além de fazer umha formulaçom do nacionalismo espanhol
mais acorde aos tempos. Quer dizer, eludem o grao grosso da ideologia imperial
e incidem na falácia da "España multicultural e integradora"
.
É evidente que
o PP exprime a vontade da oligarquia, que diante da situaçom de crise
pretende fazer ouvidos xordos; Ao contrário, o PSOE, já desligado
da gestom directa do Estado, converteu-se em porta-voz dos sectores menos
retrógrados da oligarquia e de parte das burguesias periféricas,
coincidindo parcialmente nas suas formulaçons com as morganizaçons
políticas do nacionalismo institucionalizado.
O cenário galego
Eis a explicaçom
da coincidência no cenário político galego das posturas
de PSOE, BNG e PP; partidos que a dia de hoje representam, ou pretendem representar,
a diferentes fracçons da burguesia galega e as suas classes associadas.
Se bem a nossa burguesia tem-se carecterizado pola sua covardia e submissom
diante da oligarquia espanhola, no momento actual a situaçom tem-se
tornado tam crítica que obriga ao capital autóctone a plantar
cara, ainda que seja dum jeito tam tímido como o de reclamar um mínimo
partilhamento do poder político desde o Senado. Lembremos que boa parte
das empressas galegas estám altamente subsidiadas, especialmente em
sectores estratégicos como agro, pesca e grande indústria; o
que pom em perigo a sua sobrevivência de continuarem avante as tendências
actuais de reduçom dos fundos europeus.
Porém, convém ter muito claro que se a oligarquia espanhola
se tem caracterizado polo seu fechamento mental, nom menos certo é
que as burguesias periféricas tenhem-no feito pola sua incapacidade
para sacudirem-se o jugo imposto por Espanha, preferindo ser sempre "cola
de leom que cabeça de rato", por mais que se trate dum leom desdentado
e cego.
Assim, se antes falávamos
da desconfiança que inspiram as incapacidades históricas da
oligarquia espanhola na hora de agir como bloco dirigente dumha potência
capitalista de primeira ordem, nom há que minusvalorizar as incapacidades,
com diferentes matrizes, que tenhem manifestado as burguesias catalá,
basca e galega para impulsionar processos de construçom nacional nos
seus respectivos contextos.
Evitemos pois cair na
ilusom de acreditar no giro "nacionalista" vivido por Manuel Fraga
como precedente imediato da constituiçom da burguesia galega como classe
nacional, já que nom se trata de tal cousa. Simplesmente trata-se da
manobra dumha fracçom subsidiária da oligarquia espanhola, -dumha
"classe regional" (posto que para ser nacional deveria ambicionar
dotar-se dum Estado próprio)-, para manter-se, quando menos, com os
mesmos privilégios de que vinha gozando dentro do Estado como elo transmissor
face o centro da mais-valia extraída ao povo trabalhador galego. Realmente,
a novidade da actual situaçom nom vem da postura defendida polo PP
nem polo PSOE na Galiza, mas porque a estes dous partidos se tem somado um
BNG que cada dia avança mais face a sua plena inserçom no sistema.
Um BNG que aprofunda mais e mais no interclassismo, que como a história tem demonstrado, nom é outra cousa que um enganabobos para que as classes trabalhadoras acreditem na confluência de interesses com os seus exploradores; e que fai denodados esforços para ser reconhecido como força política normalizada: reconhecendo a legitimidade do quadro jurídico-político emanado da segunda restauraçom borbónica e abjurando de posturas, -nom já explicitamente independentistas-, senom mesmo da reivindicaçom do direito de autodeterminaçom.
A viabilidade da proposta
da esquerda independentista
Nom é casual que
enquanto estám a produzir-se estes movimentos dentro das forças
políticas defensoras da "unidad de la nación española",
tenha recrudescido extremamente a ofensiva político-policial contra
o MLNB. Ofensiva que nom é vivida de igual maneira polos movimentos
de libertaçom nacional das outras naçons do Estado devido ao
seu carácter embrionário, como é o nosso caso, mas que
padeceremos de atingirmos um desenvolvimento minimamente exitoso.
Devemos ter em conta que
o projecto político da esquerda independentista é objectivamente
muitíssimo mais viável do que o que oferece o imperialismo.
De certo, a possibilidade de triunfo do capitalismo espanhol no seu objectivo
de conseguir resituar a sua posiçom como potência de segunda
ordem é praticamente nula, mesmo que consiga derrotar as resistências
das naçons oprimidas do Estado. A tendência a nível mundial
à concentraçom de capitais implica, tal é como se tem
avaliado mil e umha vezes, umha reduçom das áreas onde se concentra
o poder, e Espanha vai caminho de ficar na periferia dumha dessas áreas.
Para além disto,
ainda de triunfar qualquer das tentatias de salvar o capitalismo espanhol
da sua debacle, o preço que teriam que pagar os povos, as classes trabalhadoras
e as mulheres oprimidas polo Estado espanhol seria muito elevado.
Polo contrário,
o MLNG apresenta umha alternativa, que por revolucionária, é
muito mais realista. Só superando o quadro do capitalismo, só
estando à frente da construçom nacional o Povo Trabalhador Galego,
é possível eludir a miséria que nos aguarda de continuarmos
na direcçom que Espanha nos impom.
O realmente utópico é achar umha soluçom de continuidade no quadro actual, quer seja esta a assunçom do Estado espanhol tal e como o conhecemos, quer seja umha possibilidade de reforma na linha da proposta de Fraga. Lembremos que já vai umha década desde que se colocou essa possibilidade reformista e ainda nunca se concretizou numha proposta real.
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