A reivindicaçom das selecçons galegas no programa de defesa dos direitos nacionais

A convocatória da selecçom galega de futebol para disputar o seu primeiro jogo neste mês de Dezembro reabriu o debate social sobre a necessidade de contarmos com representaçons desportivas em competiçons oficiais internacionais. Porque esse é o verdadeiro debate que se oculta por trás das incipientes iniciativas institucionais do novo Governo autonómico, após a sistemática negativa da Junta da Galiza anterior a nem que fosse permitir a criaçom de umha selecçom dessas que chamam "autonómicas". Se olharmos a negativa da Junta do PP com algumha perspectiva, logo deparamos com o fio que une a sua inflexível posiçom com a do franquismo na mesma matéria, desde que em 1936 rompera com a existência de selecçons galegas no primeiro terço do século passado, nomeadamente durante a II República espanhola. A negaçom continuada das instituiçons existentes na Galiza entre 1936 e a actualidade sublinha, no plano simbólico do desporto-espectáculo, a continuidade da radical negaçom do facto nacional galego por parte de umha mesma "família política", a franquista, de que o PP é herdeiro natural. Nessa medida é que deve ser positivamente avaliada a convocatória de Dezembro: como tímido signo "aberturista".

De resto, o debate actual tem pouco a ver com a política desportiva, situando-se mais próximo de ámbitos como a articulaçom oficial da simbologia e a identidade colectivas por parte da instituiçom autonómica actual. Um dos primeiros argumentos que surgem contra a confusom de ambos planos é o de que o fomento de expressons institucionais do espectáculo desportivo profissional nom significará umha mudança de fundo que estenda a prática desportiva como hábito saudável no conjunto da populaçom. E é verdade, por isso convém distinguirmos os planos e esclarecer para que é que nom serve e para que sim pode servir contarmos hoje com selecçons desportivas próprias.

Nom devemos cair tampouco no reducionismo de considerar a despudorada utilizaçom do desporto-espectáculo por parte do actual sistema como causa do embrutecimento e a alienaçom sociais existentes. É mais exacto concebermos a instrumentalizaçom do desporto-espectáculo como umha representaçom, no plano simbólico, e de certa forma também material, dos valores e interesses que de maneira efectiva funcionam numha dada formaçom social. De facto, tenhem existido no último século experiências de diferentes focagens do desporto entendido com espectáculo de massas, entre as que podemos citar a Olimpíada Popular organizada em Barcelona no ano 1936, como convocatória antagónica à oficial organizada polo nazi-fascismo na Alemanha no mesmo ano. Umha convocatória para cuja realizaçom contribuírom os clubes galegos ligados à classe trabalhadora, que enviariam umha delegaçom galega a um evento internacional alternativo ao olimpismo oficial, finalmente frustrado polo golpe fascista.

O desporto reduzido a lamentável espectáculo

Comecemos entom por esclarecer a diferença entre a actual concepçom do desporto-espectáculo e o que deveria ser umha política desportiva ao serviço da maioria da sociedade, que parta da concepçom do desporto como ferramenta de formaçom em novos valores, de saúde social e promotor da interacçom em termos de cooperaçom e transformaçom. Quer dizer, umha orientaçom contrária à que o capitalismo neoliberal imprime: elitista, das minorias, gregarista, só aparentemente afastada das disputas sociais, quando na verdade serve ideologicamente ao chauvinismo, ao espírito da concorrência e até ao sociobiologismo (1) que definem a ideologia neoliberal, e aos interesses económicos de potentes lobbies directamente imbricados na engrenagem sistémica (2).

Além do papel ideológico em favor da estabilidade social e política, incluída a sua funçom de válvula de escape das violências e frustraçons que o próprio sistema origina, nom deve ser esquecido o papel económico que joga em favor desses grupos de pressom empresarial e mediática. Umha funcionalidade que é bem clara em contextos de crise socioeconómica, como os que de maneira crónica sacodem a América Latina, onde a violência que concitam os estádios cumpre à risca o papel predeterminado, tendo-se passado da antiga "preparaçom para a guerra" que representava o desporto, para o de "substituto da guerra" no palco da conflituosidade social moderna. A luita de classes encontra nos estádios umha das mais efectivas panelas de pressom que libertam as energias da frustraçom acumulada na quotidianeidade de um sistema opressivo e de contradiçons extremas.

Fique portanto como primeiro ponto assente a denúncia da utilizaçom que o sistema actual fai do desporto profissional, nomeadamente o futebol, como ópio do povo, através por exemplo da deificaçom de entidades privadas com claríssimo ánimo de lucro, elevadas à categoria de máximos representantes de projectos nacionais. Em último termo, debruçamos diante da incapacidade do sistema para aglutinar por outras vias mais racionais a unanimidade à volta de um projecto sócio-político e nacional exclusivo da grande burguesia dominante. Milhares de euros desviados dos orçamentos das instituiçons municipais e das televisons públicas, operaçons urbanísticas e financeiras diversas ao serviço da especulaçom empresarial dos dirigentes desportivos, por vezes também políticos em activo ou simplesmente subsidiadores de campanhas eleitorais, sobredimensionamento da actualidade das pugnas nos relvados, escritórios e comités de disciplina desportiva, como autêntica cortina de fumo ante os problemas e conflitos sociais realmente existentes.

Entretanto, o verdadeiro investimento em infraestruturas desportivas nos bairros, no apoio às entidades de base, à extensom do amadorismo e da prática generalizada entre a populaçom, som desprezados e submetidos à discriminaçom em razom do poder aquisitivo dos grupos sociais. A presença do desporto como prática libertadora, socializadora e saudável esmorece na maior das indigências enquanto o desporto-negócio-espectáculo recebe milionárias injecçons financeiras das instituiçons públicas. Garante-se assim que sirva económica e ideologicamente à classe dominante e, no caso do Estado espanhol, ao projecto nacional a ela associado, o consagrado pola intocável Constituiçom de 1978. Estamos diante de mais umha expressom de poder do grande aparelho estatal que defende essa "unidade de mercado" que verdadeiramente interessa à oligarquia espanhola e a importantes segmentos das burguesias periféricas associadas para perpetuarem a sua hegemonia.

Nem a Galiza nem o Estado espanhol som excepçom nisto. Habitamos um mundo ao contrário em que as massas precarizadas adoram umha minoria de privilegiados profissionais do espectáculo desportivo, sem que tal nem sequer sirva para a extensom das práticas desportivas como ingrediente do crescimento colectivo e dos valores da cooperaçom, o esforço polo bem colectivo e a ética da resoluçom pacífica dos conflitos entre estados. Em lugar disso, no caso do nosso país, o futebol profissional e todo o circo montado à sua volta serve para alimentar economicamente grandes e medianos empresários que manejam com critério estritamente empresarial os respectivos clubes e para promover políticos localistas e demagogos, quaisquer que forem as cores da opçom eleitoral ou o clube que defendam. Todo isso incluindo o compromisso explícito com o projecto nacional espanhol que nos nega como povo, e a própria concepçom patriarcal, nomeadamente no caso do futebol, que fai do espectáculo desportivo "cousa de homens".

Temo-lo visto, claro, durante anos a fio no caso dos dous maiores clubes de futebol da Galiza, o Desportivo e o Celta, em maos de empresários que combinam a liderança "desportiva" com a militáncia no Partido Popular. Mas também mais recentemente durante o mandato do BNG de Jaime Velho em Ferrol, quando este pulava na Malata como convicto racinguista, de cachecol verde ao pescoço, celebrando o ascenso do clube local, ao tempo que concedia milionárias verbas anuais das fracas arcas municipais para financiar as actividades da Sociedade Anónima Desportiva presidida polo espanholista empresário local Isidro Silveira. Folga dizer que as dotaçons desportivas nos bairros continuam hoje nesse concelho igual de precárias que sempre, após o abandono do governo municipal polo racinguista presidente da Cámara do BNG e os seus sócios do PSOE.

A evidência e contundência das afirmaçons precedentes dá para pensar se realmente vale a pena nem sequer considerarmos qualquer reforma do desporto profissional tal e como o capitalismo espanhol o concebe e fomenta, e se nom adiantará mais fugirmos do que nom passa de ser mais um esteio do sistema que dia a dia combatemos.

Renunciar à participaçom ou apostar na transformaçom?

Porém, umha análise mais demorada da questom conduz-nos a nom deixar tam importante ámbito de intervençom social em maos de quem aspira a reduzir-nos a súbditos do seu sistema e clientes do seu mercado, nem no fascismo que fai da intervençom no seio das torcidas um dos seus mais férteis ámbitos de actuaçom. As nossas profundas convicçons contrárias à rede de obscuros interesses que configuram o desporto-espectáculo como hoje é concebido e praticado nom podem fazer-nos renunciar a incidir na transformaçom social também neste terreno, em nome de umha suposta pureza ideológica.

Para já, porque nem sempre foi exactamente como hoje é a relaçom entre sociedade, política e desporto, nem tem porque continuar a ser sempre assim. Já citamos o compromisso de uns clubes ligados a forças socialmente progressistas na Galiza dos anos 30, e o seu envolvimento na organizaçom de umhas Olimpíadas alternativas e populares em que o nosso país chegou a estar representado. Mas existem exemplos mais próximos de que é possível exercer umha significativa incidência nesse sector a partir de um movimento social forte que combata o poder reaccionário que de maneira ininterrupta detém o controlo de tam importante maquinaria de propaganda e controlo ideológico na Galiza desde 1936.

É o caso da influência que o nacionalismo afro-americano chegou a ter na massa de adeptos e desportistas profissionais na década de 60, durante a etapa de maior apogeu do movimento dos Panteras Negras. As cámaras de todo o mundo filmárom a demonstraçom de força dos medalhistas dos 200 metros e dos 4 x 100 da selecçom norte-americana nos Jogos Olímpicos do México 68, vestidos com a estética nacionalista negra e a reivindicarem, subidos ao pódio e punho em alto, a causa da naçom afro-americana. Também os desportistas e público de Porto Rico costumam utilizar a sua participaçom em competiçons internacionais para reivindicarem a independência nacional e o fim da ocupaçom ianque do país. E a Galiza tem exemplos de compromisso com a causa do País por parte de desportistas profissionais. Como nom lembrar a digna negativa do jogador do Compostela Nacho a umha eventual convocatória da selecçom espanhola, contrapondo a inequívoca vontade de fazer parte da Selecçom Galega?

Outras torcidas associam-se na Europa a luitas sociais da esquerda, tentando combater a influência do fascismo em nom poucos colectivos de adeptos de clubes de elite, chegando a encenar-se nos próprios estádios a luita de claques anti-sistema e ligadas aos nacionalismos resistentes contra outras de clara adscriçom fascista e pró-imperialista. No Estado espanhol há alguns exemplos disto.

Sem cedermos o mais mínimo à natureza reaccionária e gregária que costuma alentar os ambientes de nom poucas torcidas, incluídas algumhas esteticamente ligadas a posiçons revolucionárias, cabe actuar no seio dos sectores sociais que no nosso país participam do chamado "mundo do futebol" e, em geral, do desporto-espectáculo, convertendo-o em mais um campo de intervençom em defesa da identidade nacional e de denúncia do mercantilismo e a alienaçom consubstanciais ao capitalismo. Longe de promovermos actuaçons irracionais que tam bem aproveita a extrema direita e o chauvinismo espanhol à volta das competiçons desportivas, o nosso objectivo deve ser combater os localismos e o espanholismo, reivindicando a consciência nacional e o direito da Galiza a contar com representaçom directa e própria em todas as competiçons desportivas a nível internacional. É nesta perspectiva politizadora que fai sentido a legítima e necessária reivindicaçom de selecçons galegas que nos últimos anos animou a presença de claques anti-fascistas nos estádios da Galiza, desligadas dos círculos de poder dos clubes e até hoje desprezadas polas instituiçons públicas, vendo na possibilidade de um simples reconhecimento para umha selecçom "autonómica" umha ameaça para a ideologia espanholista que o mundo institucional fomenta.

A substituiçom do Partido Popular à frente do Governo autonómico possibilitou que se desse um primeiro passo, muito tímido, no caminho certo. A convocatória de um jogo amigável em Compostela, ante a selecçom oficial de um Estado reconhecido, tem umha grande importáncia simbólica para um povo como o galego, tam necessitado de medidas tendentes a afiançar a nossa consciência colectiva, de povo e de naçom sujeito de direitos e nom simples apêndice regional espanhol.

Algumhas conclusons

É necessário nom cairmos na confusom a que o sistema nos conduz ao identificar o futebol profissional na sua dimensom mediática e simbólica com a existência de umha verdadeira política desportiva ao serviço do nosso povo, que infelizmente ainda nom existe. Ficando essa distinçom bem estabelecida, cabe reclamarmos para a nossa naçom a máxima representaçom nas competiçons internacionais, incluindo a integraçom no olimpismo, a partir da criaçom de umha instituiçom desportiva nacional que una todas as diversas federaçons e sirva para iniciar o caminho para a constituiçom de um Comité Olímpico Galego. Em definitivo, o objectivo é, também neste ámbito, romper com a invisibilidade em que o espanholismo quer manter-nos, evitando limitar-nos a integrar selecçons alheias à Galiza e defendendo a necessidade de contarmos com a nossa própria representaçom nacional em todos os ámbitos, incluído o desportivo. O reconhecimento e funcionamento de selecçons galegas actuará no nível simbólico e identitário como mais um reforço no caminho da nossa normalizaçom como povo que reclama a plena soberania, incluindo umha firme oposiçom contra a hegemonia e orientaçom que os grandes grupos de poder exercem sobre o desporto profissional na actualidade.

Já numha luita paralela é que se enquadra a democratizaçom do acesso à prática desportiva e a substituiçom dos valores que a rodeiam na actualidade, exigindo novas políticas por parte das instituiçons locais e nacionais, e fomentando um associativismo de base que aspire a construir alternativas contrárias à actual orientaçom empresarial e lucrativa dos clubes. Nom podemos esperar a que umha indeterminada revoluçom, espanhola e/ou internacional, nos permita orientar de maneira radicalmente diferente o funcionamento da nossa sociedade. Por isso, também neste ámbito, devemos defender desde já o fim da discriminaçom que nos condena a carecermos de qualquer signo nacional distintivo e a sermos espectadores passivos de um negócio alienante e nada desportivo. É nessa perspectiva global que devemos situar o nosso apoio decidido à dinámica dos colectivos sociais que defendem a constituiçom de selecçons e instituiçons desportivas de carácter nacional, à margem das homólogas espanholas e ultrapassando a negaçom de direitos que a Constituiçom espanhola nos impom neste campo.

A timidez dos passos dados polo novo Executivo nom convida a um excessivo optimismo. O responsável da Direcçom Geral para os Desportos na nova Junta já anunciou que renuncia a maiores ambiçons, conformando-se com a disputa de jogos amigáveis por temor a provocar "polémicas". Na mesma linha parece inscrever-se a rectificaçom do que inicialmente foi anúncio de que os jogadores levariam o nome do País na parte frontal das camisolas, após umha campanha mediática dirigida a ridicularizar a possível existência de selecçons nacionais galegas e contra a etiqueta "Galiza" como distintivo das mesmas.

Será necessário que os sectores do movimento popular envolvidos no trabalho social à volta dos chamados desportos-espectáculo, nom cedam na pressom às instituiçons, estendo-se a reclamaçom de novos jogos oficiais para as nossas selecçons em cada vez mais especialidades desportivas, masculinas e femininas, junto a outras medidas como a anulaçom da absurda obrigatoriedade de as desportistas galegas e os desportistas galegos integrarem as selecçons espanholas quando som convocados.

Passo a passo, o avanço das posiçons galegas e populares neste campo criará mais um cenário para a recuperaçom dos nossos direitos nacionais, sem perdermos de vista a sua integraçom num projecto socialmente avançado, anti-capitalista e igualitário. Só nessa perspectiva é que, rejeitando o modelo actual, achamos todo o sentido à luita polas selecçons nacionais galegas, com a aspiraçom de as integrarmos na defesa do desporto como ingrediente social massivo e horizontal ao serviço do conjunto de um povo galego livre e emancipado.

Maurício Castro

 

Notas

1. A sociobiologia é umha tendência contemporánea nas ciências sociais que, a partir de umha perspectiva reaccionária, tenciona explicar em termos "científicos" o carácter contrário ao igualitarismo do capitalismo, mediante o apelo a umha suposta "base genética" que explicaria as diferenças sociais entre os indivíduos.

2. Se calhar o Real Madrid é quem melhor representa no contexto europeu essa imbricaçom perfeita que o chamado "desporto espectáculo" representa, na figura do seu presidente. Assim, Florentino Pérez fai parte do núcleo duro da oligarquia espanhola, presidindo o Grupo ACS, um dos mais potentes do sector da construçom, infraestruturas e energia no ámbito peninsular. Recentemente, protagonizou a compra de Unión Fenosa, multinacional que até essa altura contava com capital galego maioritário, e cuja operaçom, segundo os meios de comunicaçom, resolveu directamente em poucos minutos o próprio Florentino Pérez mediante um simples telefonema. Também politicamente conta o mesmo personagem com umha trajectória ligada ao núcleo duro do actual sistema, depois de ter já ocupado alguns cargos institucionais durante a última etapa do franquismo. Como dirigente da UCD desde 1979, e posteriormente como "construtor do PP", nomeadamente a partir das grandes operaçons assumidas polas suas empresas na Comunidade de Madrid, mercé das boas relaçons que mantém com os dous sectores do PP na capital espanhola, os representados por Ruiz Gallardón e Esperanza Aguirre. É também amigo pessoal do chefe do Estado, com quem partilha de quando em quando passeios de iate polo Mediterráneo. A todo o anterior haverá que acrescentar o papel que o Clube que Pérez preside sempre ocupou como máximo estandarte no ámbito do simbolismo chauvinista do espanholismo.

 

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