DO STALINISMO NA POLÍTICA GALEGA
André Seoane Antelo

Neste ano 2003 em que se cumpre o cinqüenta aniversário da morte de José Staline, som muitos os ensaios publicados destinados a estudar a figura do dirigente soviético e a sua influência na cena política mundial durante as décadas centrais da passada centúria. Logicamente, como nom podia ser doutra forma nestes infaustos tempos de globalizaçom e capitalismo rampante, a maioria destas investigaçons respondem ao paradigma da crítica do sistema staliniano entendido como quinta-essência do projecto político comunista e centram o seu interese em atacar os excessos dictatoriais que som achacados, nom a Staline, senom ao comunismo analisado da óptica das ideologias defensoras do capital. Porém, também existem outras investigaçons e reflexons, surgidas do campo revolucionário, que pretendem aproximar-se da investigaçom do fenómeno do stalinismo com um ponto de vista radicalmente distinto, nom como parte das teorias revolucionárias baseadas na dialéctica materialista, mas como perigosa desviaçom, negadora precisamente dessa mesma dialéctica materialista e portanto carente de qualquer virtualidade realmente revolucionária.

Este artigo, igual que os outros que abordam a temática do stalinismo neste mesmo número do Abrente, situa-se precisamente nesta última categoria de críticas à experiência stalinista, pretendendo ser um contributo para a melhor compreensom do que significou, e ainda significa na cena política galega, a herdança das práticas deformadoras do pensamento e a praxe comunista herdeiras do desviacionismo burocrático vivido pola URSS desde a segunda metade da década de vinte do século passado.

Nom é este o lugar para insistirmos numha descriçom pormenorizada do nascimento e as características constitutivas do stalinismo, para mais tendo em conta que estas questons som abordadas noutro artigo que acompanha o presente nesta mesma publicaçom, mas gostaríamos de fazer incidência na pluralidade das manifestaçons concretas desta desviaçom do marxismo que afectam de igual jeito a aspectos ideológicos, de táctica política e organizativos, alicerçadas todas elas em duas características matriciais que para nós som as definitórias do modelo staliniano. De umha parte o posibilismo político, e de outra o absoluto dirigismo da e na organizaçom supostamente revolucionária.

O posibilismo político tem a sua concreçom no abandono dumha teoria revolucionária, radicalmente crítica de todo o existente, para passar a adoptar um conjunto de regras escolásticas, que pouco tenhem a ver com o marxismo, que som variadas de acordo com as necesidades de perpetuaçom do Estado soviético, no caso concreto da URSS, ou de adaptaçom dos partidos mal chamados comunistas ao quadro jurídico-político existente em cada momento histórico. Com isto queremos exprimir que para o stalinismo o importante nom é avançar face a construçom da sociedade sem classes, senom perpetuar a existência dos seus aparelhos políticos a qualquer preço.

No referente ao dirigismo, só temos que recordar qual foi e qual é a prática habitual do PCUS liderado por Staline e dos seus herdeiros, directos ou espúreos, noutras realidades sociais a respeito da apariçom de críticas sinceramente revolucionárias às políticas erróneas. A criminalizaçom, desprestígio e mesmo a morte de quem se atreveu a criticar o dogma fôrom as práticas habituais. Hoje som outros os mecanismos, quando menos na Europa ocidental, mas o resultado é semelhante. Quem se atreve a pôr em questom que a linha política e ideológica levada avante pola direcçom de umha organizaçom controlada polo stalinismo sabe que vai ser condenado ao ostracismo no seio dela, para passar depois a ser expuls@ se continua a insistir no seu pecado e sendo injuriado de todas as formas possíveis se se empenha em construir umha alternativa à direcçom política desviada.

Passando a avaliar já a pegada do stalinismo na vida política galega, devemos recordar que a sua apariçom data já de mais de 70 anos, ainda que nom atinja um relevo real até depois da guerra civil espanhola. Dous som os partidos que de um jeito mais nítido demonstrárom estar contaminados pola desviaçom burocratista; o primeiro, o PCE, que já nasceu com o cancro no seu seio ao ser fundado como secçom no Estado espanhol da Komintern; o segundo, a UPG, nascida na década de sessenta, e que evoluiu desde posturas próprias dos movimentos de libertaçom nacional de inspiraçom terceiro mundistas até configurar-se sob o esquema de partido comunista clássico nos finais da década de setenta. Sendo estas duas as forças políticas que no campo da esquerda galega tivérom um relevo central, som as que mais nos importam para estudar como o stalinismo fai parte do seu ADN ideológico, mas nom podemos obviar que a grande maioria dos projectos que se reclamárom marxista-leninistas surgidos, ou actuantes, na Galiza, estivérom e estám contaminados em maior ou menor medida por esta desviaçom.

O caso do PCE, PCG desde 1968, é paradigmático, respondendo ao modelo que seguírom a maioria dos PC's da Europa capitalista. Surgido entre os finais da década de 20 e começos da de 30 do século XX, o PCE na Galiza actuou como umha sucursal do PCUS obviando em todo o momento a necessidade imperativa da praxe revolucionária de adaptaçom às condiçons próprias de cada formaçom social. As suas mudanças de rumo ao longo da história, algumhas delas absolutamente contraditórias, exemplificam de um jeito nítido aquilo a que nos referíamos quando falávamos do dirigismo e o posibilismo político. O PCE na Galiza deu boa prova de dirigismo porquanto a sua acçom política estivo sempre baseada nas palavras de ordem emanadas desde Moscovo, Paris ou Madrid, por muito que estas nom fossem as pertinentes para levar avante umha acçom revolucionária no nosso país. Aliás, o seu entreguismo pactuísta, exemplificado no abandono da luita guerrilheira na decada de 50 seguindo as directrizes da política de convívio com o capitalismo promovida pola URSS e na sua absoluta adesom aos pactos da segunda restauraçom borbónica, é mostra suficiente do seu possibilismo político.

De jeito semelhante há que avaliar a acçom da UPG, ainda que as manifestaçons concretas sejam diferentes. Nom podemos esquecer que este partido nasceu inspirado por um grupo de pessoas em que abundavam ex-militantes do PCE, entre eles um líder destacado como foi Luís Soto, o que evidentemente tem influído na sua configuraçom. Porém, a sua praxe tem dado bons exemplos da conduta própria do stalinismo, abundando exemplos da conceiçom das organizaçons populares e operárias como simples correias de transmisom das directrizes da organizaçom política, mostras de adaptaçom posibilista ao quadro jurídico-político imperante, por mais que se dessem com algum atraso; multidom de casos de perseguiçom da dissidência, quer dentro, quer fora do próprio partido; e como nom, magníficos casos de ineptidom teórica e adoraçom polo dogma escolástico.

Como dizíamos acima, nom som estas duas forças políticas as únicas contaminadas polo cancro stalinista no nosso país já que, em maior ou menor medida, os ramos que delas esgalhárom nom soubérom fazer umha crítica totalmente satisfatória dos erros das duas casas matrizes. Em boa medida tem influído muito o facto da confusom à hora de discernir qual é realmente o problema, nom tratando-se apenas dumha questom de maior ou menor radicalismo táctico senom de algo muito mais central na hora de construir umha alternativa revolucionária, isto é, a necesidade de que a acçom esteja guiada por umha constante análise crítica presente em todos os elos da cadeia. Assim, quase todas as organizaçons políticas esgalhadas ou nascidas na esquerda do PCE e a UPG caírom e caem em erros muito semelhantes aos desses outros partidos, que acabárom por levá-los à sua desapariçom na maioria dos casos, mesmo nalgum caso o erro dos críticos foi mesmo maior. Como esquecer a quantidade de grupúsculos que faziam gala dum dogmatismo extremo levando a converter em axiomas imperturváveis as palavras de Marx, Lenine, Staline, Mao, ou mesmo Trotsky; como ignorar as incríveis mostras de sectarismo que levavam a riscar de contra-revolucionária qualquer acçom que nom estivesse sujeita ao controlo do comité central correspondente, como nom lembrar as inexplicáveis mudanças de rumo que levárom alguns proto-guerrilheiros a sentar nas cómodas cadeiras das direcçons do aparelho de Estado...

Mas os acontecimentos do passado tenhem continuidade no presente, e ainda que até o momento temos incidido muito na evoluçom passada das forças stalinistas, em grande medida a sua praxe actual continua a se guiar sob as mesmas regras, por mais que já nom desfilem os tanques pola Praça Vermelha de Moscovo. Se bem a influência política do PCE já nom é nem um pálido reflexo do que foi, e a UPG seja tam só enxergável por trás da cortina do BNG, continua a ser correcto dizer que ambas forças estám presas de umha conceiçom dogmática, dirigista e posibilista da acçom política. Mais hoje, quando ambos partidos som fiéis defensores do status quo democrático-burguês espanhol. Exemplos há muitos, desde a hipócrita atitude diante da política repressiva levada avante polo Estado contra o MLNB, passando pola conceiçom dirigista prenhada de reformismo com que focam o movimento anti-guerra e a Nunca Mais, até chegar ao entreguismo absoluto e absurdo nas reivindicaçons operárias e nacionais, e ao seu papel de críticos e delatores de qualquer acçom dissidente nom permitida polo sistema.

Diante disto, continuam a erguer-se opçons revolucionárias, autênticas, que da modéstia de meios e as limitaçons próprias de quem se enfrenta a um inimigo superior, continuam empenhadas no assalto ao céu. Nom estou a falar tam só neste caso das organizaçons do MLNG, as que de resto também nom podem ficar isentas de crítica, senom da multidom de experiências populares de luita que estám a surgir por todo o mundo e, como nom podia ser doutro jeito, também no nosso país. Experiências que devem aprender dos erros do passado para nom cair na maldiçom de ver-se condenadas a repetir a história.

O nosso dever como revolucionári@s e continuar a aperfeiçoar os instrumentos de que nos dotamos para levar avante a nossa tarefa, isto é, as nossas organizaçons. No caso concreto do MLNG, devemos continuar a empenhar-nos na construçom de um movimento amplo e plural, radicalmente democrático, em que nom tenham cabimento os dogmatismos de nengum género, já que estes continuam a ser a nossa grande peja. Dogmas que nom sempre tenhem porque adoptar a forma habitual clássica das formulaçons herdeiras da experiência soviética, mas que nom por isso deixam de ser menos escolásticos.

 


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