O Próximo Oriente na era de Bush filho

Carlos Taibo

1
Os objectivos da política norte-americana no Próximo Oriente som hoje dois. O primeiro é reconfigurar o panorama estratégico da regiom, fortalecendo a posiçom correspondente ao Estado de Israel e convertendo aquela numha atalaia a partir da qual supervisar os movimentos de eventuais concorrentes como a UE, a Rússia ou a China. O segundo objectivo consiste, naturalmente, em tomar conta de matérias-primas energéticas vitais.

A razom principal que explica porquê o Próximo Oriente é a regiom do planeta mais castigada polos conflitos nom é outra que o facto de coincidirem nela umha localizaçom geoestratégica singularíssima –estamos a falar do lugar em que se unem os três velhos continentes– e as maiores reservas planetárias de petróleo e gás natural.

2

É evidente que EUA está a fracassar visivelmente, no terreno militar, tanto no Afeganistám como no Iraque (dous conflitos, já agora, extremamente similares na sua condiçom no que di respeito aos interesses e às políticas norte-americanas).

Em nengum desses dous países tem conseguido Estados Unidos controlar outra cousa que pequenas partes do território. Ainda que nom só se trate disso: nom tem conseguido fortalecer poderes autóctones que defendam convincentemente os interesses próprios.

Por muito que se invoque a influência de redes como Al Qaida, as resistências locais som tam plurais quanto díspares. Para nada faltar, enfim, Washingtom tem problemas num país decisivo –o Paquistám do general Musharraf– e noutro –a Turquia– que até há pouco parecia
um aliado fidelíssimo.

3

Se a política de Bush filho fosse moderadamente racional, e tendo em conta os fiascos no Afeganistám e no Iraque, haveria que descartar toda perspectiva de acçom militar norte-americana contra o Irám. Como essa política nom reúne tal carácter, estamos na obrigaçom de considerar seriamente, porém, esta última possibilidade. Dous som os motivos que
explicam a agressividade de Washingtom.

Se por um lado o Irám continua a contestar com força Israel, polo outro é evidente o relevo geoeconómico do país. Interrogado anos atrás polas razons que explicavam que a Casa Branca fosse tam condescendente com o programa nuclear militar norte-coreano, e se mostrasse ao invés tam severa em relaçom ao iraniano –muito menos desenvolvido, além do
mais– Wolfowitz, o principal teorizador da política exterior estado-unidense durante o primeiro mandato de Bush filho, respondeu sem mais que na Coreia do Norte nom havia petróleo...

4

Se é probável umha agressom militar norte-americana contra o Irám, é difícil, porém, que a operaçom –mal que bem consciente, apesar de todo, do fiasco iraquiano–, acarrete umha ocupaçom de territórios. Os Estados Unidos sabem, aliás, que o do Irám é muito mais complicado. A república islámica tem ao seu alcance possibilidades certas de prejudicar gravemente os EUA. Lembremos que os seus mísseis podem castigar as instalaçons de extracçom de petróleo da Arábia Saudita, Kuwait, Bahrein e os Emirados, que estám em condiçons de fechar o estreito de Ormuz –por ele discorre boa parte depetróleo mundial– e que podem desestabilizar países tam importantes como o Iraque, o Líbano e a Palestina.

Ainda que nom há motivo maior para defender Ahmadineiad, um dirigente situado na extrema-direita, e convém lembrar que nom faltam os estados árabes que olham com preocupaçom para o programa nuclear iraniano, há de entender-se que este último é umha resposta objectiva a muitas das ameaças que pairam sobre o Irám. Blix, o inspector de armas das Naçons Unidas que alcançou celebridade em vésperas da agressom norte-americana no Iraque, assinalou meses atrás que o Irám tinha direito a se sentir ameaçado. Nom se esqueça que há 150.000 soldados estado-unidenses no vizinho Iraque e que o Pentágono mantém contingentes militares importantes nos também vizinhos Afeganistám e Paquistám.

O programa nuclear militar iraniano, a diferença do norte-coreano, seria umha resposta funcional a alguns dos problemas que o país tem. E ainda está por explicar porquê as potências ocidentais entendem que tal programa é um delito enquanto aceitam, e mesmo encorajam, os programas israelita, indiano e paquistanês.

6

Aliás, as chancelarias ocidentais continuam sem entender porquê a maioria dos palestinianos apoiou eleitoralmente, há quase dous anos, Hamás: o factor principal nom foi em modo nengum o rigorismo

5

Ainda que nom há motivo maior para defender Ahmadineiad, um dirigente situado na extrema-direita, e convém lembrar que nom faltam os estados árabes que olham com preocupaçom para o programa nuclear iraniano, há de entender-se que este último é umha resposta objectiva a muitas das ameaças que pairam sobre o Irám. Blix, o inspector de armas das Naçons Unidas que alcançou celebridade em vésperas da agressom norte-americana no Iraque, assinalou meses atrás que o Irám tinha direito a se sentir ameaçado. Nom se esqueça que há 150.000 soldados estado-unidenses no vizinho Iraque e que o Pentágono mantém contingentes militares importantes nos também vizinhos Afeganistám e Paquistám.

O programa nuclear militar iraniano, a diferença do norte-coreano, seria umha resposta funcional a alguns dos problemas que o país tem. E ainda está por explicar porquê as potências ocidentais entendem que tal programa é um delito enquanto aceitam, e mesmo encorajam, os programas israelita, indiano e paquistanês.

6

Aliás, as chancelarias ocidentais continuam sem entender porquê a maioria dos palestinianos apoiou eleitoralmente, há quase dous anos, Hamás: o factor principal nom foi em modo nengum o rigorismo religioso desta organizaçom, mas o seu firme desígnio de rejeitar os acordos de paz assinados no decénio de 1990. No melhor dos casos, esses acordos tencionavam articular um Estado palestiniano claramente subordinado à lógica colonial de Israel e, portanto, insustentável. Salientemos que isso era assim no melhor dos casos, toda vez que em muitos dos planos de hoje continua a negar-se, nos factos, o horizonte de um Estado palestiniano.

7

Parecem condenados ao fracasso todos os esforços que ignorarem a realidade que acabamos de assinalar, e dentre eles os que apontam para a artificial manutençom de umha Autoridade Nacional Palestiniana que, muito corrupta, tem preferido renunciar às demandas mais elementares.

Nesse senso, e mesmo no caso de atribuirmos aos EUA a consciência de que deve procurar-se algumha fórmula de consenso na Palestina, os projectos correspondentes carecem de credibilidade, em parte porque Israel nom tem renunciado a esvaziar de populaçom palestiniana a Cisjordánia e, em parte, e nomeadamente, porque por fortuna a maioria dos palestinianos tem claro o que ocorre.

8

Porque Israel dita regras de jogo que, cumpre supor, prejudicam, amiúde de maneira grave, os interesses dos Estados Unidos no Próximo Oriente? A resposta mais lógica sugere que, apesar de esporádicas saídas que podem, sim, perturbar os interesses norte-americanos, em termos gerais, e desde muito tempo atrás, Israel é um utilíssimo aríete que impede a apariçom de umha credível contestaçom árabe. Deve sublinhar-se que essa funçom de polícia regional desenvolvida por Israel convém também à Uniom Europeia, que mesmo nestas horas, e perante as ostentosas violaçons dos direitos mais básicos que Israel promove, se mostra firmemente decidida a respeitar um trato comercial de privilégio para o Estado sionista.

9

Se a Washingtom as cousas no Próximo Oriente nom lhe estám a sair como esperava, nom é mais cómoda a posiçom que na regiom corresponde aos principais concorrentes dos EUA. Pense-se, sem ir mais longe, que o controlo energético que a Casa Branca desenvolve tem aumentado a dependência da UE neste terreno, que a Rússia tem que estar por força inquieta perante a activa presença norte-americana no seu confim meridional e que a China, em particular, bem pode ver radicalmente reduzido o seu acesso a matérias-primas que precisa com urgência. É lícito sustentar, em relaçom a isto último, que as agressons militares estado-unidenses no Afeganistám e no Iraque obedecem ao propósito de articular umha operaçom de envolvimento sobre a China.

10

Ainda que –repitamo-lo mais umha vez– os fracassos som muitos no que di respeito ao desígnio geral de Estados Unidos, faríamos mal em esquecer que os negócios de muitas empresas privadas som hoje evidentes. Ao cabo, as grandes firmas estado-unidenses do complexo industrialmilitar, da energia e da construcçom civil estám a conseguir formidáveis lucros no Iraque, em ilustraçom de umha norma central da globalizaçom capitalista: enquanto
os lucros se privatizam, as perdas, polo contrário, socializam-se.

 

Voltar a Abrente 46

Voltar à página principal