AS CATEGORIAS MARXISTAS E A DEFINIÇOM DA GLOBALIZAÇOM COMO FENÓMENO E FORMA DO ACTUAL CAPITALISMO

 

Prefácio


Este pequeno texto é a comunicaçom que o comunista basco, membro de Batasuna e da Rede Basca Vermelha, Iñaki Gil de San Vicente, apresentou nas V Jornadas Independentistas Galegas, organizadas por Primeira Linha (MLN) em Compostela entre 23 e 25 de Abril de 2001.

Este ano, a celebraçom das V Jornadas Independentistas Galegas coincidiu co V aniversário do nascimento de Primeira Linha (Movimento de Libertaçom Nacional), germe do Partido Comunista Patriótico.

Combatendo a globalizaçom capitalista. Luita nacional e internacionalismo no século XXI foi o mote co que nesta ocasiom se realizárom umhas Jornadas que já se convertêrom num inescusável referente de debate e análise política e ideológica para a esquerda independentista da Galiza.

A teoria revolucionária, o método científico marxista de análise e compreensom das leis de funcionamento das estruturas sociais, continua a ser para @s comunistas galeg@s o nosso guia prático para o agir diário, para umha correcta intervençom política que permita avançar no caminho da liberdade nacional e a transformaçom social.

Dado o interesse da comunicaçom do Iñaki Gil, a Abrente Editora considerou oportuno a sua publicaçom como quarto volume da colecçom Documentos e Textos Políticos.



0. Apresentaçom

A tese forte que se defende neste texto nom é outra que a chamada "globalizaçom" é só a forma actual do capitalismo. O modo de produçom capitalista tem umhas características exclusivas que o diferenciam qualitativamente doutros modos de produçom anteriores, com alguns dos quais mantém na actualidade relaçons de superioridade integradora e dominante; estas características, que som o seu conteúdo e essência genético-estrutural, à força e inevitavelmente exprimem-se com formas e fenómenos exteriores mas dialecticamente unidos aos conteúdos e à essência internos. Ao longo da história do modo de produçom capitalista, cujo parto data Marx no século XVII, ainda que se podem pescudar as primeiras contracçons pré-natais já nos séculos XII-XIII, o capitalismo tem evoluído na sua forma e na sua fenomenologia, ou se se quer na sua expressom histórico-genética, enquanto mantivo essencialmente iguais as suas características qualitativas, a sua natureza genético-estrutural.

O conhecimento básico das categorias dialécticas de conteúdo e forma, e essência e fenómeno, ademais de outras como lei, etc., este conhecimento é imprescindível para percebermos a evoluçom do capitalismo. Ponhamos um exemplo, enquanto a demagogia propagandística burguesa, em qualquer das suas modas intelectuais e opçons políticas, insiste na absoluta novidade e originalidade histórica da globalizaçom, diferenciando-a qualitativamente dum "capitalismo" nunca definido com rigor teórico, da nossa parte pergunta-se como é possível perceber que se a começos do século XX 37% da humanidade malvivia na pobreza, a começos do século XXI essa massa de miséria, sofrimento e hiper-exploraçom se tenha agigantado até 83%, e todos os estudos actuais minimamente objectivos mostram a sua cega e imparável tendência à alça. Os intelectuais burgueses só podem responder a esta tendência alcista inegável aduzindo que nom tem nada a ver com a globalizaçom, é mais, que só esta pode deter primeiro, e logo reverter esse aumento. Do marxismo que aqui assumimos, o que ocorre é que o desenvolvimento capitalista está a confirmar as terríveis "profecias" realizadas pola maioria das correntes socialistas do século XIX e muito especialmente as de Marx e Engels. E ocorre que, para esse método de transformaçom da realidade, a globalizaçom é a forma actual do capitalismo.

O debate crucial gira sobre se existe ou nom um corte qualitativo entre a definiçom burguesa de globalizaçom e capitalismo. Neste debate o uso das categorias filosóficas acrescenta outro factor de irreconciabilidade entre o método transformador marxista e a ideologia burguesa. Naturalmente, por método marxista nós entendemos o emprego permanente da dialéctica materialista realizado polos clássicos do marxismo, e muito especialmente o seu uso na crítica da economia política, que é o que figérom Marx e Engels. Semelhante uso da filosofia -a dialéctica hegeliana depurada do seu idealismo e posta sobre os seus pés materialistas- tem sido desde entom objecto de iracundos ataques nom só da intelectualidade burguesa senom também reformista, e até "socialista" e "marxista". Nom é por acaso em modo algum que Lenine advertisse no seu brilhante e imprescindível Cadernos filosóficos que: "é impossível compreendermos O Capital de Marx, e especialmente o seu primeiro capítulo, se nom se tem estudado e compreendido a Lógica inteira de Hegel" . Esta advertência de Lenine foi repetida quase literalmente por outros entre os que destacamos Lukács, e doutras muitas formas por umha larga listagem que nom podemos expor aqui.

A advertência de Lenine e doutros marxistas clássicos foi realizada quando ainda eram desconhecidas obras fundamentais de Marx como, sobretodo para o caso que estamos a tratar, os Grundrisse, obra básica que permite pouparmos muitos esforços, já que com ela Marx nos ensina como aplicou genialmente a Lógica de Hegel ao miolo da sua crítica: como é a mercadoria, o tránsito do valor de uso ao valor de troca, a fetichizaçom que isto origina e os seus efeitos, etc. A importáncia deste primeiro capítulo é óbvia e o próprio Marx foi muito consciente de que ao começar com umhas páginas tam densas e exigentes podia desanimar muitos leitores de seguir co estudo da sua obra, mas dava tanta importáncia ao problema da mercadoria que se negou a fazer concessons teóricas. A razom iremo-la vendo conforme avancemos na crítica do capitalismo na sua fase actual, a globalizada. Nom nos podemos estender agora nos problemas que tem causado a exigência marxista de especial esforço intelectual no primeiro capítulo, para desentranhar a lógica dialéctica que o estrutura e que permite compreender a lei do valor-trabalho, ainda que simplesmente diremos que incluso intelectuais que se autoproclamam "marxistas" propugérom pospor o estudo deste primeiro capítulo e começar polo segundo, polo processo de troca, ou por outros.

Mas, que di exactamente Marx? Olhemos alguns pontos decisivos:

"A primeira vista, parece como se as mercadorias fossem objectos evidentes e triviais. Mas, analisando-as, vemos, que som objectos muito intrincados, cheios de subtilezas metafísicas e de ressaibos teológicos. Considerada como valor de uso, a mercadoria nom encerra nada misterioso, dando o mesmo que a contemplemos do ponto de vista dum objecto apto para satisfazer necessidades do home ou que foquemos esta propriedade sua como produto do trabalho humano. É evidente que a actividade do home fai mudar às matérias naturais de forma, para servir-se delas. A forma da madeira, por exemplo, muda ao convertê-la numha mesa. Nom obstante, a mesa continua a ser madeira, segue sendo um objecto físico vulgar e corrente. Mas enquanto começa a comportar-se como mercadoria, a mesa converte-se num objecto fisicamente metafísico. Nom só se incorpora sobre as suas patas em cima do chao, senom que se pom de cabeça frente a todas as demais mercadorias, e da sua cabeça de madeira começam a sair antolhos muito mais peregrinos e estranhos que se de pronto a mesa começasse a bailar polo seu próprio impulso".

(...)
"O carácter misterioso da forma mercadoria estriba, portanto, pura e simplesmente, em que projecta ante os homes o carácter social do trabalho destes como se fosse um carácter material dos próprios produtos do seu trabalho, um dom natural social destes objectos e como se, portanto, a relaçom social que medeia entre os produtores e o trabalho colectivo da sociedade fosse umha relaçom social estabelecida entre os mesmos objectos, à margem dos seus produtores".
(...)

"Se os objectos úteis adoptam as formas de mercadorias é, pura e simplesmente, porque som produtos de trabalhos privados independentes uns dos outros. O conjunto destes trabalhos privados forma o trabalho colectivo da sociedade. Como os produtores entram em contacto social ao trocar entre si os produtos do seu trabalho, é natural que o carácter especificamente social dos seus trabalhos privados ressalte dentro deste intercámbio. Também poderíamos dizer que os trabalhos privados só funcionam como elos do trabalho colectivo da sociedade por meio das relaçons que a troca estabelece entre os produtos do trabalho e, através deles, entre os produtores. Por isso, ante estes, as relaçons sociais que se estabelecem entre os seus trabalhos privados aparecem como o que som; quer dizer, nom como relaçons directamente sociais das pessoas nos seus trabalhos, senom como relaçons materiais entre pessoas e relaçons sociais entre cousas".

(...)
"O que ante todo interessa praticamente aos que trocam uns produtos por outros, é saber quantos produtos alheios obterám polo seu próprio, quer dizer, em que proporçons se trocarám uns produtos por outros. Aginha quenestas proporçons cobram, pola força do costume, certa fixeza, parece como se abrolhassem da própria natureza inerente aos produtos do trabalho (...) E fai falta que a produçom de mercadorias se desenvolva em toda a sua integridade, para que da própria experiência nasça a consciência científica de que os trabalhos privados que se realizam independentemente uns de outros, ainda que guardem entre si e em todos os seus aspectos umha relaçom de mútua interdependência, como elos fundamentais que som da divisom social do trabalho, podem reduzir-se constantemente ao seu grau de proporçom social, porque nas proporçons fortuítas e sem cessar oscilantes de troca dos seus produtos impom-se sempre como lei natural reguladora o tempo de trabalho socialmente necessário para a produçom, do mesmo modo que se impom a lei da gravidade quando lhe cai a um a casa em riba. A determinaçom da magnitude do valor polo tempo de trabalho é, portanto, o segredo que se esconde detrás das oscilaçons aparentes dos valores relativos das mercadorias".
(...)

"A reflexom acerca das formas da vida humana, incluindo portanto a análise científica desta, segue em geral um caminho oposto ao curso real das cousas. Começa post festum e arranca, portanto, dos resultados pré-estabelecidos do processo histórico. As formas que convertem os produtos do trabalho em mercadorias e que, como é natural, presuponhem a circulaçom destas, possuem já a firmeza de formas naturais da vida social antes de que os homes se esforcem por se explicarem, nom o carácter histórico destas formas, que consideram já algo imutável, senom o seu conteúdo. Assim compreende-se que fosse simplesmente a análise dos preços das mercadorias o que conduziu aos homes a investigar a determinaçom da magnitude do valor, e a expressom colectiva em dinheiro das mercadorias o que os moveu a fixar o seu carácter valorativo. Mas esta forma acabada do mundo das mercadorias -a forma dinheiro-, longe de revelar o carácter social dos trabalhos privados e, portanto, as relaçons sociais entre os produtores privados, o que fai é encubri-las.

Estas formas som precisamente as que constituem categorias da economia burguesa. Som formas mentais adoptadas pola sociedade, e portanto objectivas,em que se exprimem as condiçons de produçom deste regime social de produçom historicamente dado que é a produçom de mercadorias. Por isso, todo o misticismo do mundo das mercadorias, todo o encanto e o mistério que nimbam os produtos do trabalho baseados na produçom de mercadorias esfumam-se aginha que os deslocarmos a outras formas de produçom".

Lendo estas citas do primeiro capítulo de O Capital percebemos nom só a importáncia que Lenine, Lukács e outros marxistas davam ao conhecimento da filosofia dialéctica senom, fundamentalmente, as razons polas que a burguesia e o reformismo rechaçárom desde o primeiro instante esse capítulo em que o seu autor realiza umha crítica total do modo de produçom capitalista e das categorias burguesas. Esse capítulo nom critica só a economia capitalista senom a totalidade material e simbólica baseada na produçom de mercadorias. Pois bem, como veremos, a natureza da globalizaçom como fase actual do capitalismo pode-se perceber perfeitamente desentranhando o conteúdo do famoso e vital primeiro capítulo.


1. O método marxista e as suas categorias

Um dos grandes méritos do marxismo tem sido, e é, o de saber integrar no seu corpo teórico o melhor dos pensamentos e práticas de luita de cada época, ainda que nom fossem revolucionários e incluso fossem exclusivamente democraticistas. A majestosa e impressionante praxe da imensa maioria de marxistas, começando polos próprios Marx e Engels, sustenta-se entre outras cousas nessa capacidade de integraçom de diferentes pensamentos e práticas dentro dum corpo teórico qualitativamente superior. E ao contrário, um dos seus signos de degeneraçom tem sido e é o rechaço dogmático a qualquer contributo exterior enriquecedor. A base última que sustém a dita capacidade de integraçom nom é outra que a teoria geral do materialismo histórico e, no tema que nos atinge -o debate sobre a globalizaçom-a teoria particular do modo de produçom e as suas expressons nas diversas formaçons económico-sociais.

É óbvio que os marxistas clássicos nom pudérom nem quigérom desenvolver todas as conexons entre o materialismo histórico e as fundamentais problemáticas práticas e teóricas que surgiam nas suas épocas por diversos factores que nom podemos expor agora polo miúdo, mas sim que devemos sintetizar, quando menos, em três grandes razons: umha, que a realidade e os factos, a prática social em soma, vai sempre por diante da teoria e dos pensamentos e que só, unicamente, quando a teoria se converte em força material ao arreigar na consciência das massas, só entom, a teoria pode marchar à mesma velocidade dos factos; outra, que as condiçons de opressom e exploraçom que sofrêrom os marxistas clássicos -devido precisamente a nom renunciar a sê-lo-limitárom as possibilidades de desenvolvimento teórico e, última, que por ser marxistas optárom por desenvolver com mais intensidade todo o relacionado directamente com a luita contra o capitalismo nos seus pontos essenciais e urgentes, deixando para depois outras questons que agora nos parecem importantes mas que entom nom o eram tanto.
Som dos que opinam que aqueles marxistas acertárom plenamente em dar prioridade à prática sobre a teoria e, ao tempo, dialecticamente, a supeditar os problemas secundários que a prática definia entom como prioritários. Agora bem, por essa mesma dialéctica, sempre se caracterizárom por deixar sequer apontadas algumhas investigaçons teóricas sobre os problemas entom secundários, como se soubessem que dentro do secundário sempre há umha parte do prioritário.

E de certo sabiam-no porque, como tentei explicar, ao serem capazes de integrar o melhor do pensamento humano também tinham estudado profundamente as diversas correntes filosóficas e a evoluçom da dialéctica idealista como a melhor metodologia de pensamento até o de entom desenvolvida. Assim percebemos porque e para que explorárom com maior e menor intensidade tantos e tantos problemas em aparência desligados uns de outros. Faziam-no porque o método que tinham desenvolvido exigia nom só o estudo do tema concreto que os preocupava, senom obrigatoriamente também as suas relaçons com outros problemas, a sua evoluçom histórica e as suas tendências previsíveis de futuro. Desta forma, pola exigência interna do método, forneciam um monte de sugestons, propostas, linhas de investigaçons posteriores, etc., que nom eram senom outras portas abertas para exploraçons ulteriores nessas direcçons e, sobretodo, deixavam um sistema coerente da totalidade do problema ainda que desenvolvessem, mais ou menos, determinadas facetas suas devido às exigências imperiosas da luita revolucionária.

Compreenderemos melhor o que dizemos se nos determos um poucochinho nos cinco grandes blocos, em e dos que os marxistas clássicos aprofundárom e apreendêrom. Um, as experiências práticas das luitas das massas oprimidas e exploradas, das mulheres, naçons e povos, classes trabalhadoras em todas as suas plasmaçons, classes artesanais e pequeno-burguesas, etc., nom só na sociedade capitalista senom também nas pré-capitalistas, de modo que dispunham dumha impressionante base de informaçom histórico-prática extraída das mesmas luitas e da crítica radical da historiografia burguesa. Dous, o estudo crítico das teorias políticas da sua época, burguesas ou nom, das suas formas de organizaçom e das suas propostas, de modo que dispunham dumha visom muito ampla do que estava a acontecer em todas as classes sociais. Três, o estudo permanente das diversas teorias económicas, dos clássicos e vulgares estudados por Marx até os dogmáticos que fôrom incapazes de ver as mudanças que propiciárom o desenvolvimento do imperialismo de finais do século XIX e começos de XX, de jeito que a crítica marxista ia sempre por diante da economia política burguesa. Quatro, o estudo da filosofia, cultura e ciência contemporánea com especial atençom à dialéctica e à materialidade da praxe humana, ambos confirmados permanentemente polos avanços científicos, ciência que os marxistas tampouco sacralizavam e inseriam sempre nas contradiçons sociais e, último, cinco, a recuperaçom e actualizaçom de boa parte dos ideais éticos, da liberdade sexual e doutro modelo de vida oposto ao capitalista e já denunciados amplamente nalgumhas correntes do socialismo utópico e das utopias, milenarismos, comunalismos e igualitarismos pre-capitalistas.

Nom fai falta dizer que, por um lado, a orde de exposiçom é aleatória, pois cada autor os estudava segundo as suas necessidades e problemas, mas os cinco podem-se apreciar visivelmente nas três geraçons de marxistas clássicos; e, portanto, é inegável a historicidade enriquecedora desses estudos na medida em que as geraçons posteriores poderiam conhecer com mais rigor e exactidom os logros e as deficiências das precedentes, criticando e desenvolvendo-os. Um exemplo temo-lo em Lenine, que como pessoa pertencente à segunda geraçom de marxistas, só pudo apreciar em Marx e Engels três dos cinco componentes citados -economia, política e filosofia-, ainda quando ele mesmo estudou com mais ou menos interesse os cinco blocos citados, e outros secundários em que nom podemos debruçar. É inegável que co tempo iremos descobrindo mais conexons dos clássicos co melhor pensamento da sua época. O mesmo Lenine era muito consciente da historicidade criativa do método marxista e exprimiu-na assim nos seus apontamentos pessoais Sobre a dialéctica:

"A identidade dos contrários (quiçá fosse mais correcto dizer a sua unidade -ainda que a diferença entre os termos identidade e unidade nom tem aqui umha importáncia particular, pois em certo sentido ambos som correctos), é o reconhecimento (descobrimento) das tendências contraditórias, mutuamente excluentes, opostas, de TODOS os fenómenos e processos da natureza (incluso o espírito e a sociedade). A condiçom para o conhecimento de todos os processos do mundo é o seu "auto-movimento", no seu desenvolvimento espontáneo, na sua vida real, é o conhecimento dos mesmos como unidade de contrários. É o desenvolvimento da "luita" dos contrários. As duas concepçons fundamentais (ou duas possíveis?, ou duas historicamente observáveis?) do desenvolvimento (evoluçom) som: o desenvolvimento como acréscimo e diminuiçom, como repetiçom, e o desenvolvimento como unidade de contrários (a divisom dumha unidade de contrários mutuamente excluentes e a sua relaçom recíproca).
Na primeira concepçom do movimento, o automovimento, a sua força IMPULSIONADORA, a sua fonte, o seu motivo, fica na sombra (ou converte-se a dita fonte em externa: Deus, sujeito, etc.). Na segunda concepçom dirige-se a atençom principal precisamente face o conhecimento da fonte do "AUTO"-movimento.
A primeira concepçom é inerte, pálida e seca. A segunda é viva. SÓ ela proporciona a chave para o "automovimento" de todo o existente; só ela dá a chave para os "saltos", para a "ruptura da continuidade", para a "transformaçom do contrário", para a destruiçom do velho e o surgimento do novo".

As implicaçons teóricas e práticas que se extraem tanto da síntese desses cinco blocos do pensamento humano, mais os que se fôrom integrando posteriormente como, por exemplo, a ecologia -que continua e confirma o método materialista dialéctico- ou a epistemologia de género -que melhora e alarga os fundamentos do materialismo histórico-, ou a crítica do neutralismo cientifista -que nos retrotraem às reflexons soviéticas dos anos vinte-, etc., desbordam com muito os objectivos desta exposiçom assim que só podemos dedicar-nos agora a dous capítulos decisivos para perceber a globalizaçom, como som, um, o das contradiçons inerentes ao capitalismo e, outro, que o capital nom é umha cousa estática e imóvel que se reduz aos bens e aforros de indivíduos isolados, os burgueses, senom umha relaçom social que está em permanente evoluçom e movimento.

A síntese de ambos os blocos, do método que tentamos expor, é que ao capitalismo é-lhe inerente a luita de classes e que a luita de classes -ademais das luitas feministas, nacionais, etc.-é um componente interno, genético-estrutural, do capitalismo. Nom existe umha economia separada dumha política, etc., e todas elas separadas a sua vez da luita de classes, nem à inversa. O capitalismo é umha totalidade concreta em movimento em que os seus diversos componentes evoluem na sua forma e na sua fenomenologia segundo a evoluçom da totalidade, mas, a sua vez, também influindo nessa totalidade. Dessa perspectiva, a típica e tópica acusaçom ao marxismo de supeditar mecanicamente a superestrutura ideológica, política, cultural e demais, à infraestrutura económica é, além de insustentável, mais umha demonstraçom de ignoráncia ou má vontade, ou de ambas as cousas a um tempo. Som tantos os textos marxistas que analisam situaçons sociais historicamente determinadas, aplicando essa ágil e esclarecedora dialéctica da totalidade concreta, que é a todas luzes insustentável esse tópico.

A luita de classes é um componente interno ao capital enquanto conjunto das relaçons sociais. Nom é algo externo que influi de fora, senom umha força antagónica e irreconciliável que palpita aberta ou solapadamente em todas e cada umha das decisons do capital. Mas a luita de classes é, por sua vez, muito mais que a luita economicista e sindical por essa cousa que chamam "salário justo" -para Marx e os marxistas é impossível o "salário justo" pois de por si, em si mesmo, na sua essência, todo salário é injusto, é expressom das relaçons de exploraçom, dominaçom e opressom, é portanto umha injustiça, e se o prioritário e estratégico é a luita contra a ditadura do salário, o secundário e táctico é a luita por um "salário o menos injusto possível"-; também é mais que a luita política para a destruiçom do Estado burguês. A luita de classes é o conjunto de enfrentamentos irreconciliáveis entre o Capital e o Trabalho. Quer dizer isto que é a totalidade da existência social a que vive esse enfrentamento e participa em maior ou menor medida nel.

No pólo do Trabalho, ainda que a classe trabalhadora é o seu componente central, nom há que esquecer nem a massa assalariada em si mesma, nem outras colectividades humanas que som exploradas polo Capital para acrescentar os seus benefícios. Da perspectiva do materialismo histórico, tanto a exploraçom sexo-económica da mulher como a exploraçom nacional de povos inteiros, tenhem o objectivo de acrescentar directamente os benefícios da classe patriarco-burguesa e nacionalmente opressora, todo o qual, em última instáncia, está destinado a acrescentar a acumulaçom capitalista. Por isso, na teoria marxista da crise revolucionária, esta produz-se quando o Trabalho tem adquirido e sintetizado todas as opressons materiais e simbólicas inerentes ao capitalismo, quando a luita de classe comum e corrente -económica, política e ideológico-cultural- eleva-se a luita revolucionária dum povo trabalhador pola sua independência socialista e anti-patriarcal. Um componente imprescindível para que a crise chegue a ser revolucionária é que o contexto sócio-económico esteja gangrenado pola crise estrutural em que a lei de queda tendencial da taxa de benefícios absorve e coesiona as crises de sobreproduçom e subconsumo e de desproporcionalidade entre as diferentes esferas de produçom.


2. Essência e conteúdo do capitalismo

O Capital é movimento de auto-expansom e auto-valorizaçom porque sem esse movimento seria vencido polo Trabalho, que também é movimento mas oposto frontalmente. O movimento do Capital surge do facto simples de que o seu objectivo e a producçom de mercadorias e a sua venda, o que lhe exige ademais da exploraçom do Trabalho também a permanente revolucionarizaçom das suas condiçons de existência na busca dumha maior acumulaçom. Mas, ademais, é movimento porque chega um momento em que a propriedade privada dos meios de producçom nom só enfrenta o Capital com o Trabalho senom que enfrenta também, dentro do Capital, os diversos capitalistas proprietários para crescer uns à custa doutros. O movimento do Capital nom cessa tampouco porque a competência a morte polo benefício é umha característica objectiva e quem perde competitividade, freia e detém o seu movimento, é devorado por outros capitalistas. Em síntese, este impulso irracional de supervivência egoista é o que sostém o movimento face a acumulaçom ampliada do Capital. Em todas e cada umha destas situaçons está presente a luita do Trabalho e o fantasma do Comunismo.

O movimento do Capital responde a leis evolutivas em que abrumadoramente dominam as forças irracionais e incontroláveis sobre os racionais e controláveis. Um exemplo simples e breve sintetiza-nos esta tragédia: se todo o mundo gastasse e consumisse anualmente a mesma massa de matéria e de energia que consumem os EEUU, entom precisaríamos para sobreviver o conteúdo material de três planetas chamados Terra. Este irracionalismo suicida responde a causas objectivas porque a força que impulsa a concentraçom e centralizaçom de capitais só pode impor-se mediante a destruiçom nom só das empresas absorvidas senom também do Trabalho e a natureza, ainda que isto dê orige logo a um aumento mais ou menos espectacular da productividade do trabalho. A desapariçom de medianos e pequenos empresários e grandes massas de camponeses e artesaos só pode levar ao acréscimo da populaçom que vive da venda da sua força de trabalho por um salário, quer dizer, à assalarizaçom crescente da populaçom mundial independentemente da quantia do salário cobrado.

Cresce assi a moderna escravatura assalariada, escravatura moderna que se fai palpável quando comprova que quase a prática totalidade desses escravos assalariados nunca poderam deixar de sê-lo e acumular o suficiente como para montar a sua própria empresa, convertendo-se em pequenos empresários. Um dos impedimentos objectivos, talvez o mais importante, é que nunca chegam a poupar o suficiente como para satisfazer o permanente aumento da composiçom orgánica do capital, quer dizer, o facto demonstrado de que as máquinas som cada vez mais caras e cada vez há que modernizá-las ou mudá-las com mais rapidez e menos tempo de uso, o que multiplica os gastos e as incertezas na continuidade do pequeo negócio. Mas se esse obstáculo é quase infranqueável, mais o é logo o facto de que os benefícios tendem à baixa polo que o empresário tem que endurecer a exploraçom e/ou acelerar a inovaçom tecnológica, acrescentando assim o gasto em máquinas e instalaçons, ou seja, acrescentando a composiçom orgánica do capital.

Ao final deste processo, e ao princípio do mesmo processo mas a umha escala superior, deparamos com o terrível fenómeno de que a produçom capitalista é realizada pola imensa maioria da populaçom, seja trabalhadora ou nom, mas sim pertencente de jeito objetivo ao Trabalho, e fica em maos da imensa minoria proprietária dos meios de produçom. Por muito que a propaganda apologética do capitalismo queira ocultar esta lei da socializaçom objectiva da produçom, o único que logra é adiar a sua brutal apariçom nos momentos de crise, quando a imensa maioria da gente comprova que só tem uns ridículos salários de miséria para sobreviver, enquanto a reduzida classe dominante planetária se enriquece até extremos inconcebíveis. Mas a socializaçom objectiva da produçom -que é um dos segredos sobre os que descansa a globalizaçom ao desenvolver o que Marx definiu de vários jeitos, por exemplo, "força de trabalho social", "trabalhador colectivo", etc.,- exige ferreamente que se desenvolvam determinadas contradiçons inerentes como som, umha, o facto de cada empresa ter que buscar a sua racionalidade produtiva interna mas desejar o afundimento e a ruína da empresa do lado, ou se se quer a contradiçom entre a racionalidade parcial e a irracionalidade global exigida pola concorrência mercantil e a propriedade privada.

Esta contradiçom transforma-se noutra ainda mais daninha já que, polo seu cego movimento, o Capital deve multiplicar e revolucionar permanentemente as forças produtivas mas ao tempo, ineluctavelmente, os capitalistas individuais devem limitar o consumo social médio dos seus escravos assalariados para aumentar o seu benefício privado. Deste jeito, a contradiçom entre expansom das forças produtivas que o Capital como relaçom social impulsa para a sua acumulaçom alargada e a necessidade de controlar o consumo e aumentar a exploraçom por parte dos capitalistas individuais, conclui tarde ou cedo acirrando as crises periódicas. Há que dizer, na contra do que se crê, que o consumismo de baixa qualidade das classes oprimidas tem mui poucos efeitos determinantes tanto no surgimento da crise como na saída dela, pois o decisivo no capitalismo é a produçom de meios de produçom e nom a produçom de meios de consumo improdutivo ainda que em determinados contextos e sobretodo para objectivos político-ideológicos de alienaçom, controlo social, manipulaçom, desuniom e enfraquecimento da consciência do Trabalho, nestes e outro casos, o Capital impulsa o consumismo compulsivo de baixa qualidade por parte das massas.

Por último, a lei da socializaçom objectiva da produçom gera também a contradiçom entre a tendência à expansom exponencial da ciência e da técnica e, opostamente, o seu controlo dilapidador, a sua qualificaçom burguesa e desqualificaçom humana, a sua degeneraçom nom em factores de libertaçom da penúria e reduçom do tempo de trabalho alienador senom de multiplicaçom da exploraçom e do poder opressor. Esta contradiçom entre a capacidade creativa do conhecimento humano e a miséria reaccionária do poder tecno-científico capitalista, surge da mesma natureza genético-estrutural do sistema de produçom de mercadorias, que em quanto tal, tem convertido o conhecimento humano, e por ende a natureza por quanto suporte natural do conhecimento, em simples mercadoria. O conhecimento humano e a natureza que é o seu elemento deixárom de ser valores de uso para serem desvirtuados a simples valores de troca.

Desde as suas primeiras obras, Marx insistiu na dialéctica antagónica entre o progresso e a reacçom, mas utilizando umha definiçom de progresso irreconciliavelmente oposta ao progresso burguês. A dialéctica entre progresso, no senso marxista, e reacçom, permite-nos compreender a essência e o conteúdo do capitalismo como sistema de produçom capaz de superar os anteriores mas à vez, simultaneamente, capaz de afundir a humanidade numha miséria qualitativa e quantitativamente pior que as anteriores. Esta dialéctica, incompreensível para a ideologia burguesa, também nos permite compreender as características da globalizaçom como fenómeno e forma actual do capitalismo mundial. Desde as suas primeiras obras, Marx denunciou implacavelmente a "civilizaçom" burguesa e o seu "progresso" que nom é apenas miséria e retrocesso para as massas humanas. A dialéctica entre progresso -luita revolucionária por a superaçom do regime baseado na mercadoria e no valor de troca- e reacçom -luita contrarrevolucionária pola defesa histórica da propriedade privada e a mercadoria-percorre toda a obra de Marx e incluso de jeito mais aberto na de Engels, ainda que com menos brilhantez teórica.
Um dos primeiros rechaços frontais que sufriu o marxismo, e que se vem repetindo desde entom, consiste em negar essa dialéctica e os seus efeitos, sobretodo a lei da depauperizaçom das massas trabalhadoras. Agora nom podemos entrar numha exposiçom desta lei que, como dialéctica que é em si mesma, relaciona a depauperizaçom absoluta com a relativa dentro da permanente luita de classes. A globalizaçom, o mesmo que a "nova economia", e anteriormente, a "nova orde mundial", e o neoliberalismo, e outras definiçons empregadas para legitimar formas e fenómenos sem relacioná-los com a exploraçom, é utilizada como nova e definitiva soluçom contra a fame, a miséria e a catástrofe ecológica. Estas grandes e abstractas palavras que servem para todo, tenhem a vantage de que resulta mui difícil enchê-las de conteúdo porque o sistema burguês de contabilidade está desenhado para ocultar as báguas e os choros, para ocultar a exploraçom e para desvirtuar a realidade fazendo crer à gente que vive num mudo fictício, o da propaganda oficial, sendo o mundo real e objectivo só umha invençom de comunistas e revolucionários.

Como nom podemos entrar agora numha crítica do sistema contável burguês, profusamente empregado polos "informes" do FMI, BM, OMC, grandes conglomerados transnacionais e incluso alguns estudos da ONU; imo-nos referir a um estudo da CIA norte-americana sobre o futuro próximo da humanidade. Segundo a CIA, para o ano 2015 a populaçom mundial terá subido dos 6,1 mil milhons actuais aos 7,2 mil milhons, dos quais os 95% viverám em países subdesenvolvidos. A água doce escaseará em Oriente Médio, África Central, Sueste Asiático e norte de China. Os bosques tropicais continuarám a se reduzir e deparecerám os pántanos e corais. A poluiçom da água e dos mares continuará crescendo e os oceanos quecerám ao igual que a atmosfera, aumentando a desertizaçom e as bruscas mudanças climáticas. Subirám as águas e anegarám grandes zonas. Ainda que se produzirá comida suficiente, a fame e a malnutriçom prevalecerám polas péssimas infraestruturas, problemas políticos, pobreza crónica, etc. O desenvolvimento tecnológico permitirá que as máfias, os terroristas, os países "irresponsáveis" e conflituosos, etc., acedam a armas mais destrutoras. Nestas condiçons, a economia globalizada será positiva e dará estabilidade, mas os seus benefícios nom chegarám ou chegarám mui atenuados a África e Latinoamérica que continuarám afundindo. Também noutras partes do planeta muitos países padecerám "democracias fracas" ante os problemas crescentes, de jeito que na Rússia, China, Coreia do Norte, Irám, Iraque e Oriente Médio, segundo a CIA, também aumentarám as desordes e as revoltas. Portanto, os EEUU deverám erigir-se em guardas da "democracia".

Nom temos, realmente, nengumha dificuldade em identificar neste estudo nom só a confirmaçom actual de tantas analises marxistas em épocas anteriores, senom também a lógica e os projectos das classes dominantes burguesas antes incluso da fase imperialista. Para compreender esta continuidade -continuidade que no método marxista fai parte da dialéctica da discontinuidade-há que entender que a essência do capitalismo está composta polas suas propriedades e relaçons mais estáveis e profundas, as que o diferenciam doutros modos de produçom no qualitativo, e as que se mantenhem apesar das mudanças acrescentadas, também à desapariçom de componentes velhos, ao longo dos decénios. Igualmente há que compreender que o conteúdo capitalista é o conjunto dos processos internos, essenciais, que no seu desenvolvimento perduram como totalidade concreta até que o capitalismo como essência mercantil nom for superado por outro modo de produçom ou fique esgotado e se auto-destrua na sua mesma incapacidade. A razom pola qual o estudo da CIA, com a sua carga justificadora do terrorismo estado-unidense, confirma de novo a analise marxista, a pesar de nom desejá-lo em modo algum, é precisamente porque o marxismo acertou com as tendências estruturais que regem na dialéctica: essência e fenómeno, conteúdo e forma, continuidade e discontinuidade, lei, etc., internas ao capitalismo.

A começos de 2001 figérom-se cálculos segundo os quais, se reduzissemos a populaçom mundial a umha aldeia de 100 habitantes, teríamos que 57 seriam asiáticos, 21 europeios, 14 americanos e 8 africanos; 52 seriam mulheres e 48 homes; 70 nom seriam brancos e 30 sim; 70 nom seriam cristiaos e 30 si; 89 seriam heterossexuais e 11 homossexuais, só 6 pessoas possuiriam o 59% da riqueza e as 6 seriam norte-americanas; 80 viveriam em vivendas nom habitaveis; 70 seriam analfabetos; 50 sofreriam de malnutriçom; 1 (umha) possuiria um computador e, para concluir, 1 (umha) possuiria diploma universitário. Outro estudo recente indica que as 225 pessoas mais ricas do mundo repartem-se desta forma: 143 aos Estados industrializados; 43 a Ásia, 22 a América Latina e ao Caribe, 11 Estados árabes, 4 à Europa Oriental e à CEI e 2 à Sudáfrica. Em total o centro imperialista acolhe a 147 dos 225 homes mais ricos do mundo. Ponhamos o caso do México, um Estado multinacional decisivo porque as suas sucessivas crises de nom pagamento de dívida externa e de hiper-financeirizaçom tenhem sido fitos chaves na estratégia capitalista de acelerar a globalizaçom. Actualmente, 0,0001 da populaçom mexicana, os 100 homes mais ricos, controlam os 29% do PIB deste país, enquanto o poder aquisitivo dos salários do México é substancialmente mais baixo do que há 20 anos, o industrial representa 60 por cento do registado em 1980, e o mínimo, 31 por cento do nível desse mesmo ano, como assinala a Organizaçom Internacional do Trabalho (OIT).

Tod@s sabemos que enquanto em 1960 os 20% mais ricos do planeta ganhavam 30 vezes mais do que os 20% mais pobres, em 1990 a proporçom tem-se desequilibrado até 60 a 1, e em 1997 até 74 a 1. Mas isto nom é todo, visto a escala mais ampla no tempo, se em 1820 a proporçom era de 3 a 1, em 1870 era de 7 a 1, em 1913 de 11 a 1, em 1997 de 74 a 1, e actualmente é de 82 a 1, quando 1200 milhons de pessoas, os 24% da populaçom mundial, sobrevivem com um dólar diário e quase a metade da populaçom mundial fai-no com 389 ptas, menos de dous dolares ao dia, segundo o Banco Mundial. A riqueza combinada das 200 pessoas mais ricas do mundo ascendeu a um bilhom de dólares em 1999; as receitas combinadas dos 582 milhons de habitantes dos 43 países menos adiantados ascendem a 146.000 milhons de dólares. As 225 pessoas mais ricas tenhem umhas rendas equivalentes às dos 47 países mais pobres do mundo. Só 4% da sua fortuna financiaria a alimentaçom, água potável, infraestruturas sanitárias e educativas, etc., dos países pauperizados. A saúde básica custaria 13.000 milhons de dólares mas a Europa e os EEUU gastam-se 17.000 milhons em comida de mascotas domésticas.
Segundo a FAO fam falta 2.345 calorias diárias para umha alimentaçom mínima, mas em 1998 1000 milhons de pessoas achavam-se oficialmente por baixo dessa dose mínima e enquanto nos EEUU o consumo médio é de 3.500 calorias, na África sub-saariana é de 1.700. Enquanto as 3 pessoas mais ricas do mundo possuem activos que valem mais do que o PIB dos 48 países mais pobres do mundo, povoados por uns 600 milhons de pessoas, a infra-alimentaçom severa vem-se acrescentando de 103 milhons em 1970 a 215 em 1990, chegando a quase 300 milhons em 1998. A acaparaçom e expropriaçom da riqueza nas maos do centro capitalista é tal que dos 2.000 milhons de pessoas anémicas só 0,4% pertencem a esse centro industrializado. Nom deve surpreender-nos esta situaçom, porque 10 grandes empresas controlam os 85% do mercado mundial de praguicidas e os 70% dos produtos veterinários, enquanto que as 200 grandes empresas controlam os 80% da agricultura e indústria e os 70% do comércio. É assi como se compreende que a esperança de vida de África tenha descendido até os 50 anos, quando tinha subido dos 40 aos 60 entre 1960 e 1980.

E se reparamos na indústria sanitária, o problema é abrumador e criminal, por nom chamá-lo genocida porque após três anos de pressons da Sudáfrica, Índia e Cuba, as grandes corporaçons farmacêuticas tivérom que aceitar a produçom democrática de fármacos genéricos contra o VIH de jeito que o tratamento por pessoa e ano caiu do 1.800.000 na indústria privada a 50.000 ptas na indústria desses países. Trata-se dumha conquista decissiva que abre expectativas estratégicas sobre a capacidade dum desenvolvimento científico próprio destes e outros países, em contra do poder tecno-científico imperialista. Um poder que se mostra no facto de que 10 grandes corporaçons controlam 84% da I+D em altas tecnologias, e no facto de que os 96% das patentes do mundo estám em maos dos países industrializados, em que os 20% mais ricos da populaçom acaparam, por exemplo, os 93,3% dos acesos à Internet e em que, por nom estendermo-nos, as 10 principais indústrias mediáticas controlam os 86% do mercado da desinformaçom, o monopólio da imprensa e a cultura de massas. Tem-se calculado que a educaçom básica -ler, escrever, aritmética, geometria e pouco mais-no mundo custaria 6.000 milhons de dolares ao ano mas os EEUU gastam nesse mesmo tempo 8.000 milhons em cosméticos. Enquanto, 2.600 milhons de pessoas nom tenhem saneamentos básicos, 2.000 milhons carecem de acesso a medicamentos básicos, 1.200 milhons nom tenhem acceso a água potável, 1.000 milhons carecem de vivenda digna... e ainda que a ONU tem calculado que com algo mais de 85.000 milhons de dólares solucionaria-se o grosso destas injustiças, os gastos de armamento no mundo fôrom de 780.000 milhons.
Segundo o Banco Mundial a cifra de pobres tem sofrido umha suba estimada de 400 milhons de pessoas, passando dos 1.200 milhosns de 98 a 1.600 em 1999. Em menos de meio século tem-se duplicado a diferença entre os 20 países mais pobres e os 20 mais ricos. Em 1998, os 48 países menos adiantados atrairom um nível de investimento estrangeiro directo inferior aos 3.000 milhons de dólares, quer dizer, só 0,4% do total. Há que insistir umha e outra vez que som as mulheres -os 70% dos 1.300 milhons de pessoas pobres som mulheres, nos EEUU umha mulher é espancada cada 15 segundos e 700.000 som violadas cada ano, o mesmo país em que umha pílula genérica anti-conceptiva custa meio dólar e vende-se a 2 dólares e meio-, a infáncia -som ecravizados sexo-economicamente centos de milhons de crianças-e os anciaos os sectores sociais mais danados e golpeados por esta terrível e trágica confirmaçom das "profecias" de Marx, que também ficam confirmadas polo facto certo de que a opressom e o empobrecimento também se tem multiplicado dentro do mesmo centro imperialista, dos EEUU, da Uniom Europeia e do Japom.

Detenhamo-nos um pouco nos EEUU pola sua inegável importáncia nom só como exemplo do presente senom, sobretodo, como prespectiva de futuro. No verao de 1999 conhecia-se o terrível dado de que as 400 pessoas mais ricas dos EEUU possuiam activos por valor de 166 bilhons de pesetas, ao troco actual, o duplo do PIB de Espanha em 1997 e três vezes o ingresso anual conjunto dos mais de 34 milhons e meio de ianques pobres. 43 milhons carecem de assistência médica porque nom podem pagar o seguro, e destes 35 milhons nom tenhem apenas assistência básica. Calcula-se que em Nova Iorque 75.000 pessoas carecem de vivenda e dormem nas ruas, e neste inverno mais de 25.000 pessoas, em geral famílias, tenhem solicitado albergues de emergência superando a cifra de há 12 anos, um aumento do 10% a respeito do ano passado. Estima-se que nas 25 cidades mais importantes dos EEUU tem havido neste ano um aumento de 17% do número de famílias que solicitam albergues de emergência ao ter perdido as suas vivendas. Na actualidade, 17% da infáncia norte-americana é pobre, e 12 milhons de nenos passam fame em bolsas de pobreza típicas das zonas mais atrasadas do planeta. Mas é nas zonas mais ricas, em que desenvolvêrom a pomposa "nova economia", em Califórnia e o Silycon Valley sobretodo, onde a sobre-exploraçom é abrumadora. Em Los Angeles um de cada três habitantes vive baixo o limiar da pobreza, 33% da populaçom. 15% da populaçom é analfabeta. Mais de 80.000 vagabundos buscam sítio onde dormir cada noite.

Enquanto isso, e como exemplo das mudanças no ciclo económico ianque que vai à baixa, o home mais rico do planeta, norte-americano decerto, é o proprietário dumha cadeia de hipermercados que amassou a pequena fortuna de 63.400 milhons de dolares, 11.00 milhons mais do que o segundo, Bill Gates. Estas imensas fortunas amassarom-se nom só espoliando directamente no Trabalho em todo o planeta e no interior dos EEUU, senom também indirectamente, quer dizer, deixando de manter as infraestruturas, os aeroportos, as redes de distribuiçom energética, os hospitais, as escolas e até as prissons públicas, que vam sendo privatizadas. Em Março de 2001, conheceu-se um demolidor informe sobre o caos da infraestrutura produtiva americana. Faria falta a quantidade de 230 bilhons de pesetas em tam só 5 anos para recompor o mínimo e essencial dessas infraestruturas. A situaçom de Nova Iorque é um exemplo do país inteiro pois os 29% das estradas som perigosas e os 25% estám congestionadas, quase 50% é perigoso ou obsoleto, 52 barrages hidráulicas ameaçam com romper e os 75% das escolas incumprem as normas arquitectónicas ou ambientais. Em todo o país, a rede de aeroportos achega-se ao colapso ao nom poder dar saída aos 700 milhons de passageiros, e no ano 2000 os 25% dos voos chegárom com retrasso superior à meia hora, fôrom cancelados ou aterrárom noutra cidade. Muito mais grave é a insegurança do sistema hidráulico, pois mais de 9.000 barrages som perigosas e tenhem risco de ruptura, e nos anos 1999 e 2000 dérom-se 61 alarmes. Califórnia sofre cortes energéticos porque a produçom e a rede eléctrica fôrom abandonadas polos investimentos oficiais e privados, e ainda que haveria que aumentar a produçom em 10.000 megavátios, só se tem chegado a 7.000, e aguarda-se, aliás, que no inverno de 2001-2002 os cortes se estendam a Nova Iorque.

A razom deste caos nom é outra que a aplicaçom sistemática do neoliberalismo desde pouco antes de chegar Reagan à Casa Branca, mas Reagan limitou-se a cumprir as ordes da burguesia que nom estava disposta a sufragar os gastos sociais, públicos e infra-estruturais, obsessionada por acrescentar seus benefícios quanto antes e sem pensar nos efeitos futuros das suas acçons. Outro tanto está a suceder na Gram Bretanha, onde a brutalidade de Thatcher está na orige do caos ferroviário e sanitário, na orige das vacas loucas e da febre aftosa, na queda da qualidade do sistema educativo, etc. Mas a razom essencial, como vimos dizendo, provém da lógica do máximo benefício e da necessidade cega por deter a lei da queda tendencial da taxa de benefício, aumentando directamente a exploraçom e aplicando outras medidas, e indirectamente reduzindo os gastos sociais conquistados polas luitas obreiras e populares. Na realidade, volta a confirmar-se a razom de Marx na sua célebre e sempre actual analise das contramedidas que detenhem a queda do benefício.

Esta sobre-exploraçom responde à lógica da acumulaçom. Umha característica essencial e de conteúdo do capitalismo é que nos períodos de crise, o capital sobrante, excedentário, tende inevitavelmente a buscar benefícios espúreos e artificiais, mas muito rápidos, na especulaçom e nas finanças bolsistas, na economia criminosa, nas máfias, no mercado negro, no que seja, mas nom na investimento no sector dos bens de produçom, ou sector primário segundo a teoria marxista. Por exemplo, o dinheiro branqueado em paraísos fiscais calcula-se em 500.000 milhons de dólares anuais, cifra similar ao PIB espanhol e o triplo de empresas como a General Motors. Esta essência tem-se estudado desde o século XV e vai em aumento ao longo dos séculos posteriores, até chegar a fins do século XX a umha situaçom insustentável porque maneja 70 vezes mais dinheiro que a economia real e nom tem controlos sobre o seu movimento.

Convém saber neste senso que se em 1975 80% da compra-venda de divisas dedicava-se a investir em bens e serviços reais, agorá e só 2-3%, e os 97-98% restantes destinam-se à especulaçom. Outra característica é que o capitalismo tende a reduzir os seus benefícios polas luitas operárias e populares, pola competência interna, polas dificuldades de realizaçom, polo aumento dos custos tecnológicos e do capital fixo, polos crescentes custos causados pola crise ecológica e ambiental, etc. Se temos em conta que o PIB mundial caiu de 4.5% entre o decénio 1970-79 a 2,9% entre o de 1990-99, e no PIB dos sete países mais desenvolvidos a queda é de 5-6% na década de 60 a 2-3% na de 90, entom compreendemos a ferocidade do ataque do Capital contra o Trabalho. Pois bem, a globalizaçom nom é senom o fenómeno e a forma mais actual desse ataque estratégico de longa duraçom.

Neste ataque o Capital também está a recorrer ao uso de instituiçons "velhas" no essencial e no conteúdo, mas "novas" na sua fenomenologia e na sua forma. Estou-me a referir ao papel central do FMI, BM, OMC, ONU, NATO, etc., além dos próprios Estados do centro imperialista. Há que lembrar que, salvando as distáncias, já em 1815 as potências que vencêrom a Napoleom criarom a Santa Aliança no Congresso de Viena, um poder reaccionário decisivo para impulsionar sem querê-lo outra fase do capitalismo atrasado europeu. Desde entom, nas grandes crises como a de 1871, fim do século XIX com o Congresso de Berlim, Tratado de Versalhes, etc., o Capital tem sabido dotar-se dos instrumentos oportunos para pôr orde na sua hierarquia interna e para, desde essa orde, atacar brutalmente o Trabalho. Desde meados da década de 70, começárom a proliferar as reunions para dar um novo pulo às instituiçons de Bretton Wood de 1944, superadas polos acontecimentos. Sem essas e outras mudanças e reforços acelerados durante a década de 80 com o neoliberalismio e a de 90 com a "nova orde mundial", com os seus efeitos sobre a financeirizaçom e o livre mercado, nom se teria chegado nunca à actual fase globalizadora.

Só assi compreendemos a estreita relaçom entre os Estados-berço das grandes transnacionais e as suas devastaçons polo globo. As mais de 35.000 multinacionais que controlam 70% do comércio mundial tenhem pátria como veremos; que mais do 40% das transacçons comerciais de mercadorias e serviços se realizem entre elas, as suas sedes e as suas filiais, e que controlem 75% dos investimentos mundiais, todo isto e mais nom anula a importáncia dos Estados-berço, e ainda menos dos três grandes blocos imperialistas hegemonizados polos EEUU. Também neste assunto está a repetir-se mas a umha escala tremendamente superior, o mesmo processo que se deu nas fases anteriores de centralizaçom de capitais e empresas, quando ao estender-se o Estado-burguês e abranger zonas ainda com regulaçons medievais impunha as novas regulaçons burguesas e ajudava com todos os seus recursos a que os territórios e as suas empresas artesanais, ou nom, se fossem supeditando às empresas mais grandes ou destruindo-as.

Essencialmente falando, o poder de imposiçom dos proprietários capitalistas dos 100 maiores grupos industriais do mundo ocupam uns 14 milhons de pessoas, este poder nom se diferença quanto a conteúdo do que dispunham as mais pequenas indústrias de finais do século XIX e começos de XX quando expandírom por todo o globo as entom novíssimas tecnologias da electricidade e o telégrafo submarino, ou das empresas de meados de XIX em diante quando se lançárom a construir caminhos de ferro por toda a parte. Que o PIB da Indonésia e Noruega seja similar, respectivamente, ao volume de vendas de General Motors e Toyota só exprime a aceleraçom dumha tendência já inegável no século XVI ao comparar o poder dalgumhas casas financeiras europeias com o poder de pequenos e até medianos Estados deste continente. Simplesmente estám a cumprir-se as leis de concentraçom e centralizaçom de capitais, o que fai com que as 200 sociedades mais importantes e que representam 25% do facturado mundial empreguem 0,75 da mao de obra disponível a nível planetário. Agora bem, na terra existem nom menos de 211 Estados formalmente independentes mas destes só 17 deles contam com algumha ou várias dessas 200 grandes multinacionais. Pior ainda, dessas 200 grandes nem mais nem menos que 176 tenhem as suas raizes em 6 Estados-berço, 74 nos EEUU. Se estudarmos as grandes transnacionais nom estado-unidenses, vemos que o Japom tem 152, a Gram Bretanha 75, o Estado francês 47, a Alemanha 42, o Canadá 22, a Itália 15 e, por exemplo, o Estado espanhol 1. Muito mais cru é saber que 80% tenhem o seu Estado berço nalgum dos Estados do G-7, e que a Suiça, a Suécia, a Holanda, a Aústria e a Coreia justo passam da dúzia.


3.-Fenómeno e forma da globalizaçom

Os poucos dados acima oferecidos mostram perfeitamente a dialéctica essência e fenómeno, e conteúdo e forma do capitalismo porque, dum lado, mostram como este modo de produçom é essencialmente idêntico ao longo dos séculos; por outra banda, mostram como, a pesar deles e por isso mesmo, vai desenvolvendo o seu conteúdo, ampliando-o e estendendo-se, também retrocedendo, cedendo e sendo derrotado polo Trabalho e, por último, como o seu auto-movimento nasce da luita de classes entre o Capital e o Trabalho. Esta dialéctica já foi exposta com mais ou menos fortuna por vários autores anteriores ou contemporáneos de Marx, mas só ele logrou dar-lhe um corpo teórico suficientemente sólido como para resistir a prova do tempo e confirmado polos acontecimentos. Assi, já desde as suas primeiras obras pré-económicas e estritamente filosóficas, nom desdenha a importáncia do mercado mundial, e conforme toma consciência da importáncia da economia a sua visom panorámica fai-se definitivamente mundial.

Marx analisa o capitalismo sempre dumha perspectiva do mercado mundial submetido a pressons e exigências dumha potência capitalista hegemónica, e vai analisando como essa hegemonia nasce na Holanda, translada-se à Gram Bretanha e, adiantando-se ao seu tempo, compreende que se afincará nos EEUU. Som tam contundentes as múltiplas citas que o demonstram que nom nos detemos nelas. Depois, e praticamente desde os primeiros debates a favor ou em contra das teses reformistas de Berstein e das críticas de vários autores à lei do valor-trabalho e da queda tendencial da taxa de lucro, que nom podemos explicar aqui, desde entom, as respostas doutros marxistas sempre se baseárom, essencialmente, no conteúdo mundial do mercado capitalista e na superposiçom de diversos modos de produçom sob domínio e direcçom do capitalista sobre eles. Este método, à força, exige ter em conta as formas concretas e as fenomenologias particulares com que o capitalismo se apresentava, primeiro, em cada época histórica de meia duraçom; segundo, em cada área ou zona regional do planeta, com a conseguinte análise das formaçons económico-sociais existentes nelas, terceiro, mais em concreto em cada Estado ou países e naçons ocupadas e oprimidas dentro dessas áreas regionais e, por nom estendermo-nos, último, nas relaçons objectivas que se estabelecem a escala mundial entre os três níveis anteriores. Basta ver o rigor extremo nos debates marxistas sobre o imperialismo ou pouco depois sobre as luitas anti-coloniais em todo o planeta, por pôr duas realidades directamente relacionadas com a globalizaçom, para compreendê-lo.

Como resultado desse enriquecemento teórico, para a segunda década do século XX já se tinha concluído a elaboraçom substancial da teoria que demonstra a correcçom histórica da lei do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo, teoria e lei expostas embrionariamente nas obras de Marx e Engels mas que precisou de quase três décadas para poder assentar numha base incontrovertível. Esta lei sustém que o desenvolvimento do simples e inferior ao complexo e superior, e que exprime as tendências internas e a essência dos fenómenos, dando passage à apariçom do novo e por isso à irrupçom ou bem de conteúdos novos ou bem doutra realidade qualitativamente diferente, novidossa, este desenvolvimento nom se exprime de jeito uniforme em toda a parte da totalidade concreta senom de maneira desigual e com ritmos diferentes, mas sempre de maneira combinada como totalidade, de modo que sob determinadas circunstáncias, os componentes mais atrasados num momento do desenvolvimento podem acelerar o seu ritmo e atingir, superar incluso, os mais desenvolvidos, que se podem ver relegados a um segundo lugar, ou terceiro, retrocedendo relativa ou absolutamente na estrutura da totalidade concreta. Esta lei tem excepcional importáncia para entender que a globalizaçom nom é senom a estratégia mais actual dos imperialismos, sobretodo do estado-unidense, para, dum lado, aumentar as vantages a respeito doutros povos e, doutro, impedir que muitos povos acelerassem a sua velocidade bem avançando na transiçom socialista ao comunismo, bem achegando-se a condiçons pré-revolucionárias e revolucionárias.

A globalizaçom, como vimos dizendo, consiste no conjunto de tácticas e imposiçons que de maneira coerente e estrategicamente pensada, aplica o imperialismo sobre os fenómenos e as formas do capitalismo nom para destrui-lo, quer dizer, para acabar com a sua essência injusta e imoral e o seu conteúdo opressor e explorador, senom precisamente para reforçar e alargar as suas características. Por fenómeno há que entender o conjunto mais ou menos coerente de relaçons e propriedades externas, móveis e diversas, imediatamente acesíveis aos sentidos, do objecto concreto que existe ante nós, e que representa, esse conjunto, o jeito como a essência do objecto exprime-se face o exterior, manifesta-se à realidade objetiva. Por forma há que entender o jeito em que se organizam, conexionam e interaccionam internamente os diversos elementos e processos de conteúdo entre si e nas relaçons externas. Na dialéctica entre conteúdo e forma, esta segunda tem um importante papel na evoluçom do conteúdo, porque a forma pode frear o acelerar as mudanças de conteúdo se se distancia ou se se achega às contradiçons internas do conteúdo, se as obtura e entorpece ou se, pola contra, as ajuda e impulsiona, abrindo mais vias de evoluçom e complexizaçom. E ainda que a forma tem umha independência relativa e supeditada ao conteúdo, dependendo do seu papel reitor no essencial, nunca fica estática e o seu movimento reflecte, além das contradiçons do conteúdo interno, também a própria autonomia da forma.

Esta autonomia da forma, unida ao facto de que o fenómeno nunca coincide com a essência, ambos factores e outros mais em que nom podemos estender-nos, som as causas fundamentais que fam com que o pensamento humano caia no idealismo objectivo ou subjectivo, na unilateralidade, na parte polo todo, na metafísica e em todas as formas de expressom filosófica que periodicamente adquere o positivismo. No tema que agora tratamos, no do estudo da globalizaçom como forma e fenómeno do capitalismo, compreendemos mui facilmente os perigosos riscos de deriva reformista ou, ainda pior, de apologética do capitalismo mais selvage, que bulem no interior dessa maneira anti-dialéctica de pensamento. Digo anti-dialéctica, que nom simplesmente a-dialéctica ou nom dialéctica, porque a maioria dos defensores do capitalismo tenhem passado da ignoráncia a-dialéctica ao dogmatismo anti-dialéctico, militando activamente na justificaçom da orde estabelecida. Assi, por exemplo, a proliferaçom de toda essa série de textos, revistas, palestras e seminários sobre a globalizaçom de umha perspectiva unilateral e parcializada, incapaz de compreender a totalidade do processo na sua evoluçom e que separa e incomunica as diversas manifestaçons das formas particulares elevando-as a outras tantas definiçons absolutas de globalizaçom.

A fins do século XX o denominado Grupo de Lisboa publicou um texto titulado Os límites da competitivivade que chega a identificar até sete definiçons, à parte da que eles proponhem. Olhemo-las: Primeira, a "globalizaçom das finanças e do capital", que implica a abertura dos mercados financeiros, a mobilidade do capital por todo o planeta e a proliferaçom das fusons das empresas multinacionais. Segunda, a "globalizaçom dos mercados e estratégias, especialmente da competência", que unifica e integra as actividades empresariais e as alianças estratégicas a escala mundial. Terceira, a "globalizaçom da tecnologia, da investigaçom e desenvolvimento e dos conhecimentos correspondentes", que baseando-se na multiplicaçom tecnológica facilita a apariçom de redes inter-empresariais. Quarta, a "globalizaçom das formas de vida e dos modelos de consumo" (globalizaçom da cultura), que é umha das definiçons mais comuns e divulgadas e que se centra na mundializaçom da cultura alienadora fabricada polas transnacionais imperialistas. Quinta, a "globalizaçom das competências reguladoras e da governaçom", que é outra das definiçons mais frequentes sobretodo entre quem querem justificar a opressom dos povos sem Estado convencendo-os de que os Estados já estám superados, mas nom o seu, o de quem defende este argumento. Sexta, a "globalizaçom da unificaçom política do mundo", que é umha matizaçom da anterior fazendo fincapé nom tanto na superaçom dos estados -mas nom do próprio-como na "unificaçom política" global e, último, sétima, a "globalizaçom das percepçons e a consciência planetária", que também é umha matizaçom e ampliaçom da quarta e da sexta definiçom ao estender, ou reduzir, o desenvolvimento cultural à "nave espacial Terra" e ao defender o uso da expressom "cidadao do mundo", ou "tripulante da nave espacial Terra".

Antes de passar a ver que oitava ou enésima definiçom que propom O Grupo de Lisboa, há que dizer que as sete anteriores em modo algum som capazes de oferecer umha teoria geral e à vez concreta do que está a se passar na actualidade. Vemos que, que para além do método tipicamente burguês de nom penetrar nunca na totalidade do problema, todas essas definiçons tenhem os típicos tópicos da ideologia burguesa na sua forma contemporánea, os quais som, dumha banda, o culto às tecnologias desligadas de todo contexto sócio-económico e político; doutra, a loa da financeirizaçom e da especulaçom, forma actual da essencial ideologia burguesa de que "o dinheiro fabrica dinheiro" que já desquartizou Marx; ademais, o idealismo culturalista que em lugar de compreender a globalizaçom como efeito da materialidade da exploraçom da força de trabalho, inverte e nega-o ao substitui-lo polo processo de alargamento cultural abstracto e, por último, a actualizaçom da ideologia do "cidadao" essencial à burguesia, como método de embaucamento inter-classista do Trabalho, mas agora desde a batota da "nave espacial Terra", de que "todos somos igualmente responsáveis da sua situaçom", etc.

Ainda que há muitas mais definiçons parciais da globalizaçom e que algumhas delas desenvolvem outras características secundárias da ideologia burguesa, nom se pode negar o mérito ao Grupo de Lisboa ao ter sintetizado tam sucintamente esse bloco clássico. Desde logo que a insistência no desenvolvimento tecnológico, na financeirizaçom, no idealismo culturalista e na ideologia do "cidadao do mundo", com outros acréscimos sobre a inter-culturalidade e a mestizage cultural, sobre a desapariçom do trabalho assalariado e da sociedade industrial, sobre a apariçom da "sociedade informacional", etc., estas e outras explicaçons da globalizaçom nem tam sequer se achega do poder cognoscitivo e transformador do método marxista que tentamos descrever. Ficam na superfície mais superficial e limitam-se a inverter um dos fenómenos e umha das formas, que nem tam sequer todas ou a maioria delas, fenómeno pola essência e polo conteúdo.
Mas o próprio Grupo de Lisboa nom chega tampouco a nengum lado senom que ele mesmo reactiva e resgata um componente essencial da ideologia burguesa democraticista, em concreto o da "sociedade civil" que Hegel se empenhou em manter polas suas simpatias face a Revoluçom burguesa francesa, e que Marx abandonou bem aginha na sua evoluçom, nada mais pôr-se a estudar com algum pormenor "a anatomia interna da sociedade", quer dizer, o seu processo de producçom material. O Grupo de Lisboa fai umha diferença entre competitividade e competência, botando a culpa à primeira e salvando a segunda. Propom quatro "contratos sociais globais" com o que reactualiza a ideologia burguesa do "contrato social", que quase nom tínhamos visto até o de agora. Os quatro som estes: um polas necessidades básicas, outro pola cultura, outro pola democracia e o último, pola Terra. Trata-se de gerar umha "sociedade civil mundial" que realize esse quádruplo contrato social mediante a negociaçom e nunca com violência.

Poderíamos estender-nos um tempo quase infinito comparando as abundantes "obras definitivas" sobre a globalizaçom com as características ideológicas aqui vistas e concluiríamos numha liçom que, como mínimo, já se tem obtido noutras quatro ocasions anteriores quando de categorias marxistas se tem analisado criticamente as interpretaçons burguesas sobre, primeiro, o próprio capitalismo entre os anos 50 e 70 do século XIX; segundo, sobre o tránsito do colonialismo ao imperialismo; terceiro, sobre as causas das luitas anti-coloniais e os seus efeitos a escala mundial desde a segunda década do século XX; quarto, sobre a efectividade última do keynesianismo para salvar ao capitalismo da crise dos anos trinta e eternizá-lo por sempre, e quinto, sobre a efectividade do neoliberalismo, da nova orde mundial, da nova economia e agora da globalizaçom, para lograr ao fim, definitivamente, o que anteriormente nom lográrom -fracassárom- os quatro intentos justificadores da bondade dum modo de produçom que na sua tola e irracional corrida face o máximo benefício dumha ultra-reduzida minoria criminal e genocida tem forçado mui na sua contra o avanço do pensamento crítico, desde aquela válida palavra de orde de começos do século XX SOCIALISMO OU BARBÁRIE, ao mais actual e urgente de COMUNISMO OU CAOS.

 

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