Três fusilados em Cuba
Heinz Dieterich Steffan
14 de Abril de 2003

O fusilamento de Lorenzo Copello Castillo, Bárbaro Sevilla García e Jorge Luis Martínez Isaad,
"os três principais, mais activos e brutais chefes dos sequestradores" de umha lancha cubana, na sexta-feira 11 de Abril de 2003, tem deslocado momentaneamente a agressom estado-unidense no Iraque das primeiras páginas jornalísticas latino-americanas e desatado umha intensa discussom entre amigos e inimigos da revoluçom.

As execuçons colocam três dimensons diferentes de discussom: a ética, a legal e a pragmática. A primeira di respeito à legitimidade ou justificabilidade da pena de morte. Eu, pessoalmente, quer dizer, como cientista materialista e humanista, som contra a pena capital, em qualquer circunstáncia e por qualquer entidade, quer em tempos de guerra ou de paz; quer por um Estado laico, quer por um ente teocrático, um sujeito social ou um indivíduo.

Esta posiçom baseia-se em três argumentos. No aspecto moral, considero que nengum ente noconsiste em que toda justiça humana é falível e que, portanto, ainda as melhores intençons e procedimentos de justiça nom podem excluir a execuçom de inocentes. A irreversibilidade da pena capital torna impossível a correcçom desses erros, tal como vemos actualmente na libertaçom de muitos condenados, polos novos métodos de análise de ADN.

A decisom ética sobre a pena capital, tem que tomá-la cada pessoa por si própria, porque cada quem é apenas reponsável polos seus próprios actos. Há, com certeza, perfis nacionais muito diferentes sobre este problema, segundo as idiosincrasias culturais de cada lugar. As minhas discussons com os meus amigos cubanos tenhem-me ensinado que muitos cidadaos deste país julgam a pena de morte legítima.

A dimensom legal das execuçons é mais fácil de discutir do que a moral, porque se reduz à pergunta de que se o procedimento do juízo sumário utilizado neste caso está amparado na legislaçom do país. Complica-se, no entanto, quando se introduz a relaçom entre o direito nacional e o internacional no debate, umha vez que leva directamente à discussom da soberania nacional face ao Estado global, em tempos da intervençom militar dos Estados Unidos no Iraque.

A terceira dimensom do problema é a pragmática, quer dizer, a interrogante acerca de que se os três fusilamentos beneficiam ou prejudicam a revoluçom cubana. E nesta discussom há que levar em conta três aspectos metodológicos que som fundamentais para a qualidade do juízo a que tal discussom conduz.

O primeiro aspecto metodológico refere-se ao status lógico de todo juízo, acerca do conveniente ou inconveniente do procedimento usado polas autoridades cubanas. Todo enunciado que afirmar a conveniência das execuçons para a causa cubana, igual que todo enunciado que sustentar serem contraproducentes, é hipotético, umha vez que di respeito a um cenário empírico do futuro. Neste senso, nengum dos dous tem, a priori, a razom. Só no futuro é que se verá o acertado ou errado da medida.

O segundo aspecto metodológico atinge à base de informaçom que tenhem as autoridades cubanas sobre esses sequestros, a qual parte de umha conspiraçom estado-unidense para preparar condiçons de intervençom militar na ilha. O leitor comum nom dispom desta informaçom. E lembramos que a qualidade de um diagnóstico depende tanto dos procedimentos e da capacidade de análise do sujeito investigador, como da quantidade e qualidade dos dados disponíveis. A gravidade da conspiraçom e os seus tempos de implementaçom nom som do nosso domínio de conhecimento, mas provavelmente sim do das autoridades cubanas.

O terceiro factor metodológico di respeito à qualidade do analista. E, neste aspecto, nom há dúvida. Fidel Castro é um dos melhores analistas estratégicos do mundo, com umha grande inteligência, umha enorme capacidade de síntese do essencial, umha ampla cultura geral, umha aguda compreensom do vector tempo, umha extraordinária experiência de vida, umha espantosa capacidade para fazer alianças e umha volumosa base de dados.

Todos estes factores garantem que a decisom das execuçons, que é umha decisom de rupturas, nom de alianças, foi tomada em pleno conhecimento do custo político que ia ter na opiniom pública mundial.

Entre outros: a) a condena de Cuba na Comissom de Direitos Humanos das Naçons Unidas (ONU); b) umha violenta campanha propagandística do imperialismo estado-unidense para distrair dos seus crimes no Iraque, secundada polo imperialismo europeu e os seus governos lacaios latino-americanos; e c) um bónus propagandístico para Washington, na sua preparaçom psicológica de umha intervençom militar em Cuba.

Este custo político dos fusilamentos para o governo cubano é muito alto. A pergunta é: por que é que Fidel estivo disposto a pagá-lo? A resposta sumária é clara: nom tê-lo feito, teria significado um custo político maior. E qual teria sido? Enfrentar-se em condiçons mais desfavoráveis ainda para Cuba à conspiraçom do império.

No momento do sequestro, o microdrama do crime já estava indissoluvelmente ligado aos preparativos propagandísticos da agressom militar estado-unidense contra Cuba. De facto, nom importa se os sequestradores tinham consciência do papel que estavam a jogar na política mundial ou se involuntariamente tinham entrado numha rede maior fora do seu controlo e competência, como numha tragédia grega; objectivamente, tinham-se convertido no que os militares estado-unidenses chamam umha "base avançada de operaçons" dos preparativos bélicos de Washington contra Cuba.

As declaraçons de altos funcionários estado-unidenses, incluindo o seu embaixador na República Dominicana e o irmao do presidente, o governador da Flórida, Jeb Bush, no senso de que, após o "êxito" no Iraque, Washington deve dar cabo do "regime cubano"; a reduçom drástica dos vistos para cubanos que querem emigrar e a política provocadora do chefe da Secçom de Interesses de Washington em Havana, James Cason, tinham levado em Havana à conclusom de que Washington tinha principiado a construçom da logística para a intervençom bélica. Numha palavra, que a agressom tinha começado já.

O fusilamento dos sequestradores, igual que a anterior detençom e as drásticas condenas contra a quinta coluna de "jornalistas independentes" em Cuba, tinham, portanto, um claro fim: arrebatar ao inimigo a iniciativa estratégica e fazer a guerra nos termos de Cuba, nom nos do agressor.

Se a invasom ao Iraque era umha clara "mensagem para Cuba", como di Washington, Fidel enviou umha mensagem nom menos clara aos neofascistas na Casa Branca e na Flórida: Vocês declarárom a guerra e os primeiros dos vossos soldados já caírom. Se continuarem a guerra de agressom, as vossas tropas de intervençom pagarám um alto preço em vidas humanas. Parem-na, antes de que seja tarde de mais.

Se esta estratégia pode deter os planos dos neofascistas, nom se sabe. Mas, em qualquer guerra, tanto a social quanto a convencional, os contendentes tentam que seja o oponente a pôr os mortos. Porque esta é a apocalíptica essência da vitória numha guerra.

Oxalá que o establishment estado-unidense perceba que em Cuba enfrenta um dos maiores estrategas militares da história e nom um inepto burocrata com ínfulas de estratega militar, como no Iraque.

Oxalá que saibam decifrar a trágica mensagem dos fusilamentos, para que nom haja mais derramamento de sangue.


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