A Reforma da RAG e a Repercussom Social dos Mínimos

Apresentamos um interessante artigo de opiniom de Bruno Ruival sobre a situaçom criada pola reforma do padrom lingüístico galego, que serviu para incorporar o nacionalismo galego maioritário ao rego institucional.

Nos começos dos anos 80 dá-se uma situaçom de grande desenvolvimento intelectual a respeito do modo em que a língua da Galiza deveria ser ortografada. Nesse momento formulam-se estritamente as teses para o caso galego: a Autonomista (ou Isolacionista) e a Reintegracionista.


Autonomista ou Isolacionista

O que Pretende?

Pretende dar uma imagem de língua independente, língua dos e das galegas, única e própria. Diferente do português e do castelhano, pretendendo criar na populaçom a identificaçom entre língua e Terra ou Pátria.

Aspecto Visual

O aspecto dessa ortografia é altamente dependente do castelhano, chegando até a reproduzir um dos símbolos mais importantes do expansionismo espanhol como é o grafema <ñ> ou renunciando à própria evoluçom dos nossos hábitos de escrita ao longo da história. Esta ortografia, que é realmente a do castelhano, nom só nega a unidade da língua galego-portuguesa no espaço mas também a unidade da língua ao longo do tempo, apagando a sua história secular.

Resultado

O resultado é um código com uma fronteira difusa com respeito ao castelhano, uma língua minoritária só funcional num pequeno âmbito, num pequeno território e até nem isso, porque é facilmente suplantável polo castelhano, língua de cultura, internacional, e com poder político, ideológico, económico e social.


Reintegracionista

O que Pretende?

Esta opçom pretende elevar a nossa língua ao nível de língua culta e universal, afirmando a unidade da língua como variante do diassistema galego-luso-afro-brasileiro, sem identificar unidade linguística com unidade política.

Aspecto Visual

O aspecto é claramente lusógrafo, quer dizer, emprega a ortografia comum a todos os países lusófonos, podendo tanto manter certas formas autóctones e dialectais como chegar à perfeita superdialectalidade. Restaura o conceito de unidade linguística no espaço e no tempo, recuperando a nossa história secular.

Resultado

O resultado é uma língua de cultura potente, internacional e funcional, com amplas possibilidades comunicativas e de acesso à cultura.

Estágio Inferior

Dentro desta última tese surgiu uma intermédia entre as duas. Poderíamos vinculá-la tanto à primeira como à segunda, se bem teoricamente faz parte indiscutível da reintegracionista, na prática é um código isolacionista. Estamos a falar dos mínimos reintegracionistas, também conhecidos como normativa da AS-PG.

O que Pretende?

Esta opçom é claramente reintegracionista, afirma a unidade linguística do galego-português mas acha que essa reintegraçom linguística pode ou deve ser feita mediante um processo, mediante pequenas reformas ao longo do tempo. É de salientar o carácter transitório desta opçom.

Aspecto Visual

O aspecto é igual que o da tese isolacionista, chegando também até a utilizar o <ñ>. Usa a ortografia do castelhano embora admita determinadas formas morfológicas tradicionais galego-portuguesas, algumas léxicas e regras de acentuaçom e uso de hífen próximos à escrita reintegrada. Deste modo, nom chega a restaurar a unidade linguística no tempo e no espaço, embora teoricamente o pretenda.

Resultado

O resultado é o mesmo que o da tese autonomista: minoritária e nom funcional.


Um Voto em Favor dos Mínimos

Embora a sua prática nom implique a dignificaçom da nossa língua e colocá-la no lugar onde histórica e linguisticamente lhe corresponde, apresenta-se como uma alternativa social mais dentro do conceito de unidade linguística. Esta alternativa concebe-se como um processo, tendo sempre presente que o estágio final é a reintegraçom total.

Embora a sua prática seja recusada por muitos por ser uma prática reformista (nunca melhor dito) e nom apresentar-se à sociedade como alternativa revolucionária, única forma para muitos de conquistar a reintegraçom linguística, temos de ter em conta e valorar o facto de os mínimos terem sido contributo importante para a insubmissom de grande massa social perante a normativa isolacionista, conlevando, esta situaçom, o prolongamento sem concessões do conflito normativo, linguístico, social e político, entretanto nom ficar resolto.

Durante estes vinte anos os mínimos fôrom vistos por parte das instituições como uma grande moléstia produto da fractura social que a sua prática produzia. Temos que lembrar que há aqui dous projectos político-linguísticos diferentes: o galego e o espanhol.

O galego pretende a normalizaçom da língua galego-portuguesa na Galiza e isto só passa polo monolinguismo social e o reintegracionismo linguístico. Neste projecto revêem-se tanto os militantes dos mínimos como os da prática reintegracionista.

O projecto espanhol pretende submeter completamente a língua autóctone da Galiza, e isto passa pola castelhanizaçom e minorizaçom da nossa língua para conseguir o monolinguismo em castelhano.

O projecto espanhol conta, para conseguir os seus objectivos, com o aparelho do Estado: administraçom, aparelho judiciário, aparelho ideológico e poder económico; sendo a instituiçom da Real Academia Galega uma parte mais do emaranhado da superestrutura político-ideológica do espanholismo, nom esqueçamos.

Os mínimos tivérom valor numa etapa específica da luta pola normalizaçom, mas agora desaparecem graças a uma perfeita manobra da Real Academia Galega e a aceitaçom dos seus progenitores. Mas lembremos, os mínimos fôrom até hoje uma amostra mais de dissidência ante o projecto imperialista espanhol. Projecto que segue vigente e com mais força. E uma amostra disto é esse grande passo que dêrom ao ter acabado com esses molestos mínimos. Nom nos confundamos, esta reforma normativa nom é um passo avante na normalizaçom e no projecto linguístico galego. As instituições, entre outros aparelhos do Estado, som controladas pola direita espanholista e actuam, e actuarám, sempre conforme aos seus próprios interesses. Isto nom foi uma pequena reforma revolucionária fruto das pressões nacionalistas-reintegracionistas. É isto uma mera tentativa de acabar com a dissidência, uma das armas (frente às estatais do espanholismo) que dá força social ao reintegracionismo e ao projecto galego. Hoje os mínimos morrem, aparentemente, em base a umas pequenas concessões insignificantes implementadas na reforma da normativa proposta pola RAG sem saldar contas com o princípio fundamental que dá existência aos mínimos: a unidade da língua galego-portuguesa. Os mínimos som esquecidos sem terem cumprido o seu objectivo fundamental.

Hoje, mais do que nunca, a única alternativa seja ou nom revolucionária, mas dissidente e de confrontaçom ao novo impulso castelhanizador é a prática reintegracionista.
A luta pola recuperaçom linguística nom acabou, a luta continua.



Voltar à página principal