Carta de Mia Couto presidente dos EEUU
Março de 2003

O escritor moçambicano de maior reconhecimento internacional dirigiu umha carta a Bush em que expom a sua visom da guerra e da política exterior norte-americana, com dados inapeláveis contra o seu imperialismo.

CARTA AO PRESIDENTE BUSH
Mia Couto

Senhor Presidente:

Som um escritor de umha naçom pobre, um país que já estivo na vossa
lista negra. Milhons de moçambicanos desconheciam que mal vos tínhamos feito. Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderíamos constituir ? A nossa arma de destruiçom massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fame e a miséria.

Alguns de nós estranhárom o critério que levava a que o nosso nome fosse manchado enquanto outras naçons beneficiavam da vossa simpatia. Por exemplo, o nosso vizinho - a África do Sul do "apartheid" - violava de forma flagrante os direitos humanos. Durante décadas fomos vítimas da agressom desse regime. Mas o regime do "apartheid" mereceu da vossa parte umha atitude mais branda: o chamado "envolvimento positivo". O ANC estivo também na lista negra como umha "organizaçom terrorista!". Estranho critério que levaria a que, anos mais tarde, os talibám e o próprio Bin Laden fossem chamadas de "freedom fighters" por estrategas norte-americanos.

Pois eu, pobre escritor de um pobre país, tivem um sonho. Como Martin
Luther King certa vez sonhou que a América era umha naçom de todos os americanos. Pois sonhei que eu era nom um homem mas um país. Sim, um país que nom conseguia dormir. Porque vivia sobressaltado por terríveis factos. E esse temor fijo com que proclamasse umha exigência. Umha exigência que tinha a ver consigo, Caro Presidente. E eu exigia que os Estados Unidos da América procedessem à eliminaçom do seu armamento de destruiçom massiva.

Por razom desses terríveis perigos eu exigia mais: que inspectores das
Naçons Unidas fossem enviados para o vosso país. Que terríveis perigos me alertavam?

Que receios o vosso país me inspiravam? Nom eram produtos de sonho, infelizmente.

Eram factos que alimentavam a minha desconfiança. A lista é tam grande que escolherei apenas alguns:

- Os Estados Unidos fôrom a única naçom do mundo que lançou bombas atómicas sobre outras naçons;

- O seu país foi a única naçom a ser condenada por "uso ilegítimo da
força" polo Tribunal Internacional de Justiça;

- Forças americanas treinárom e armárom fundamentalistas islámicos
mais extremistas (incluindo o terrorista Bin Laden) a pretexto de
derrubarem os invasores russos no Afeganistám;

- O regime de Saddam Hussein foi apoiado polos EUA enquanto praticava as piores atrocidades contra os iraquianos (incluindo o gaseamento dos curdos em 1998);

- Como tantos outros dirigentes legítimos, o africano Patrice Lumumba
foi assassinado com ajuda da CIA. Depois de preso e torturado e baleado na cabeça o seu corpo foi dissolvido em ácido clorídico;

- Como tantos outros fantoches, Mobutu Seseseko foi por vossos agentes conduzido ao poder e concedeu facilidades especiais à espionagem americana: o quartel-general da CIA no Zaire tornou-se o maior em África. A ditadura brutal deste zairense nom mereceu nengum reparo dos EUA até que ele deixou de ser conveniente, em 1992;

- A invasom de Timor Leste polos militares indonésios mereceu o apoio dos EUA. Quando as atrocidades fôrom conhecidas, a resposta da Administraçom Clinton foi "o assunto é da responsabilidade do governo indonésio e nom queremos retirar-lhe essa responsabilidade";

- O vosso país albergou criminosos como Emmanuel Constant, um dos
líderes mais sanguinários do Taiti cujas forças para-militares massacrárom milhares de inocentes. Constant foi julgado à revelia e as novas autoridades solicitárom a sua extradiçom. O governo americano recusou o pedido.

- Em Agosto de 1998, a força aérea dos EUA bombardeou no Sudám umha fábrica de medicamentos, designada Al-Shifa. Um engano? Nom, tratava-se de uma retaliaçom dos atentados bombistas de Nairobi e Dar-es-Saalam.

- Em Dezembro de 1987, os Estados Unidos foi o único país (junto com Israel) a votar contra umha moçom de condenaçom ao terrorismo internacional. Mesmo assim, a moçom foi aprovada polo voto de cento e cinqüenta e três países.

- Em 1953, a CIA ajudou a preparar o golpe de Estado contra o Irám na
seqüência do qual milhares de comunistas do Tudeh fôrom massacrados. A lista de golpes preparados pola CIA é bem longa.

- Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA bombardeárom: a China
(1945-46), a Coreia e a China (1950-53), a Guatemala (1954), a Indonésia (1958), Cuba (1959-1961), a Guatemala (1960), o Congo (1964), o Peru (1965), o Laos (1961-1973), o Vietname (1961-1973), o Camboja (1969-1970), a Guatemala (1967-1973), Granada (1983), Líbano (1983-1984), a Líbia (1986), Salvador (1980), a Nicarágua (1980), o Irám (1987), o Panamá (1989), o Iraque (1990-2001), o Kuwait (1991), a Somália (1993), a Bósnia (1994-95), o Sudám (1998), o Afeganistám (1998), a Jugoslávia (1999).

- Acçons de terrorismo biológico e químico fôrom postas em prática
polos EUA: o agente laranja e os desfolhantes no Vietname, o vírus da peste contra Cuba que durante anos devastou a produçom suína naquele país.

- O Wall Street Journal publicou um relatório que anunciava que 500.000 crianças vietnamitas nascêrom deformadas em conseqüência da guerra química das forças norte-americanas.

Acordei do pesadelo do sono para o pesadelo da realidade. A guerra que o Senhor Presidente teimou em iniciar poderá libertar-nos de um ditador. Mas ficaremos todos mais pobres. Enfrentaremos maiores dificuldades nas nossas já precárias economias e teremos menos esperança num futuro governado pola razom e pola moral. Teremos menos fé na força reguladora das Naçons Unidas e das convençons do direito internacional. Estaremos, enfim, mais sós e mais desamparados.

Senhor Presidente:

O Iraque nom é Saddam. Som 22 milhons de maes e filhos, e de homens que trabalham e sonham como fam os comuns norte-americanos.

Preocupamo-nos com os males do regime de Saddam Hussein que som reais. Mas esquece-se os horrores da primeira guerra do Golfo em que perdêrom a vida mais de 150.000 homens.

O que está destruindo massivamente os iraquianos nom som as armas de Saddam. Som as sançons que conduzírom a umha situaçom humanitária tam grave que dous coordenadores para ajuda das Naçons Unidas (Dennis Halliday e Hans Von Sponeck) pedírom a demissom em protesto contra essas mesmas sançons.

Explicando a razom da sua renúncia, Halliday escreveu: "Estamos
destruindo toda umha sociedade. É tam simples e terrível como isso. E isso é ilegal e imoral". Esse sistema de sançons já levou à morte meio milhom de crianças iraquianas.

Mas a guerra contra o Iraque nom está para começar. Já começou há
muito tempo. Nas zonas de restriçom aérea a Norte e Sul do Iraque acontecem continuamente bombardeamentos desde há 12 anos. Acredita-se que 500 iraquianos fôrom mortos desde 1999. O bombardeamento incluiu o uso massivo de uránio empobrecido (300 toneladas, ou seja 30 vezes mais do que o usado no Kosovo).

Livraremo-nos de Saddam. Mas continuaremos prisioneiros da lógica da guerra e da arrogáncia. Nom quero que os meus filhos (nem os seus) vivam dominados pelo fantasma do medo. E que pensem que, para viverem tranquilos, precisam de construir umha fortaleza. E que só estarám seguros quando se tiver que gastar fortunas em armas. Como o seu país que despende 270.000.000.000.000 dólares (duzentos e setenta bilions de dólares) por ano para manter o arsenal de guerra. O senhor bem sabe o que essa soma poderia ajudar a mudar o destino miserável de milhons de seres.

O bispo americano Monsenhor Robert Bowan escreveu-lhe no final do ano passado umha carta intitulada "Porque é que o mundo odeia os EUA ?" O bispo da Igreja Católica da Florida é um ex-combatente na guerra do Vietname. Ele sabe o que é a guerra e escreveu: "O senhor reclama que os EUA som alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Que absurdo, Sr. Presidente ! Somos alvos dos terroristas porque, na maior parte do mundo, o nosso governo defendeu a ditadura, a escravidom e a exploraçom humana. Somos alvos dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque o nosso governo fijo cousas odiosas. Em quantos países agentes do nosso governo depugérom líderes popularmente eleitos substituindo-os por ditadores militares, fantoches desejosos de vender o seu próprio povo às corporaçons norte-americanas multinacionais ? E o bispo conclui: O povo do Canadá desfruta de democracia, de liberdade e de direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia. Algumha vez o senhor ouviu falar de ataques a embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas? Nós somos odiados nom porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Somos odiados porque o nosso governo nega essas cousas aos povos dos países do Terceiro Mundo, cujos recursos som cobiçados polas nossas multinacionais."

Senhor Presidente:

Sua Excelência parece nom necessitar que umha instituiçom internacional
legitime o seu direito de intervençom militar. Ao menos que possamos nós encontrar moral e verdade na sua argumentaçom. Eu e mais milhons de cidadaos nom ficamos convencidos quando o vimos justificar a guerra. Nós preferíamos vê- lo assinar a Convençom de Kyoto para conter o efeito de estufa. Preferíamos tê-lo visto em Durban na Conferência Internacional contra o Racismo.

Nom se preocupe, senhor Presidente. A nós, naçons pequenas deste
mundo, nom nos passa pola cabeça exigir a vossa demissom por causa desse apoio que as vossas sucessivas administraçons concedêrom apoio a nom menos sucessivos ditadores.

A maior ameaça que pesa sobre a América nom som armamentos de outros. É o universo de mentira que se criou em redor dos vossos cidadaos. O perigo nom é o regime de Saddam, nem nengum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal nom está fora. Está dentro dos EUA. Essa guerra só pode ser vencida polos próprios americanos.

Eu gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentaçom e consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos umha arma de construçom massiva: a capacidade de pensar.



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