O Che Guevara segue vivo

Em 1997, no 30 aniversário do seu assassinato, os quiosques e livrarias de meio mundo ateigarom-se de vídeos, posters, biografias e folhetos. Aparecérom várias ediciçons das suas "Obras Completas". Teoricamente ali estava todo o que escreveu.
Porém o Centro de Estudos Che Guevara (instalado na antiga casa do Che na Havana e presidido por Aleida March) vem de comunicar que essas obras som incompletas.

Além de todos os seus manuscritos e textos originais, neste Centro acha-se a biblioteca pessoal do Che. Os volumes que pacientemente lia e anotava. Desde as obras de Hegel e Marx até as de Lenine, Trotsky, Deutscher, Staline ou Mao Tse Tung.

Dirigido pola socióloga María del Carmen Ariet, o Centro Che Guevara da Havana rompeu definitivamente o silêncio. Mediante um projecto conjunto com a editorial Ocean Press (com filiais em Nova Iorque, Londres e Melbourne) começou a editar todo o que ficava inédito do Che, que é muito mais do que se conhece.

A tarefa do arquivo tem como meta recuperar, sistematizar e publicar toda a obra de Guevara. Nesta instituiçom também se impulsiona e assesoram Cátedras Livres Che Guevara, dedicadas a estudar a sua vida e a sua obra.

A iniciativa da publicaçom nom é alheia a Fidel Castro, quem inclusive revisou pessoalmente o diário do Che -inédito até 1999- "Pasagens da guerra revolucionária: Congo". Foi Fidel quem, em 1987, sugeriu publicamente deixar atrás a bibliografia de factura fundamentalmente soviética (que predominou nas instituiçons educativas cubanas a partir de 1971) para voltar ao pensamento do Che. Naquel famoso discurso de 1987, o principal dirigente político de Cuba reclamou estudar minuciosamente as formulaçons teóricas que Guevara elaborou durante a década de '60.

Inclusive Carlos Rafael Rodríguez, um dos principais quadros históricos do stalinismo cubano (polemista contra o Che nos '60), em 1987, a partir das intervençons públicas de Fidel, reconheceu que Guevara tinha prognosticado o fracasso das políticas soviéticas no terreno económico.

Desde esse momento começárom a ver a luz pública muitos materiais que permaneciam sem editar.

Em 1997, a revista cubana "Contracorriente" publicou umha carta inédita de Guevara a Armando Hart Dávalos (o responsável da alfabetizaçom em Cuba) escrita em Tanzánia em Dezembro de 1965. O Che queija-se dos "tijolos soviéticos' (alusom aos manuais de filosofia oficiais na Europa do Leste) e propom subtituí-los por umha nova maneira de estudar a filosofia, mais histórica e menos metafísica, dando-lhe a Armando Hart um plano de textos e autores.

Pouco depois, em 1999, apareceu publicado o "Diário do Congo", onde Guevara analisa a sua participaçom pessoal na ajuda cubana à revoluçom africana que luitava contra o colonialismo europeu. O diário inclui umha carta inédita de Fidel ao Che onde solicita que regresse a Cuba para preparar-se antes de ir a Bolívia.

En 2000 apareceu, também por iniciativa deste Centro o "Diário inédito da segunda viagem por América Latina 1953-1956". Um texto fundamental para compreender o impacto que produziu no jovem Guevara o processo político da Guatemala de Arbenz e a posterior intervençom dos Estados Unidos.

Em 2001 Orlando Borrego, um dos antigos e mais estreitos colaboradores do Che no Ministério de Industrias, publicou umha pequena selecçom das "Notas críticas ao manual de economia política da Academia das Ciências da URSS" como apêndice ao seu livro "Che, o caminho do fogo". Estas notas som impresciindíveis para compreender a crítica radical e rigorosa do Che Guevara à Uniom Soviética e os países do leste. Neste texto, o Che polemiza com @s que prognosticavam naquel tempo umha queda iminente do imperialismo norteamericano polo seu estancamento, as suas crises de sobreproduçom e a sua queda da taxa de ganho. Enquanto asigna ao imperialismo grande vitalidade, sostem que na URSS "está-se voltando ao capitalismo". Essas linhas premonitórias fôrom escritas mais de duas décadas antes da Perestroika de Gorvachov.

Toda a obra do Che constitui umha crítica implacável tanto ao imperialismo capitalista ocidental como ao stalinismo soviético, que rematou substituindo o vermelho encendido da bandeira do socialismo polo cinzento opaco da burocracia e a mediocridade.
Coroando essas primeiras tentativas, nesta nova iniciativa editorial de Ocean Press e do Centro Che Guevara, aparecerám textos inéditos que, seguramente, gerarám novos debates e polémicas.

O mais sugerente do novo material reside no acceso ao laboratório mental onde Guevara ia ensaiando novas aproximaçons à filosofia e ao marxismo, apartir de um intenso leque de leituras autodidactas. Esses cadernos até agora inéditos permitem apreciar como o Che aproveitava cada momento livre para estudar e para formar-se teóricamente. Por cima da sua motocicleta de mochileiro, num acampamento guerrilheiro na "Sierra Maestra", no seu gabinete do Ministério de Industrias, escondido clandestinamente em Praga, ou na própria selva sudamericana onde foi assassinado por agentes da CIA e o exército boliviano.
Em todos esses lugares repete umha mesma obsessom pola leitura. Sempre a ideia fixa: anotar, registar e pensar em voz alta, propondo permanentemente planos de estudo teóricos e formaçom política.

O médico revolucionário e a filosofia

Um dos materiais, até agora desconhecido, é o livro inconcluso "A funçom social do médico em América Latina" (1954-1956). Analisando o papel do "médico revolucionário em luita contra o capital', este texto que nunca acabou, aborda a necessária inserçom política do profissional no conflito de classes.

Outro dos textos que verám a luz, gira sobre umha das paixons que jamais o abandonou, desde a sua primeira juventude até a sua morte em Bolivia: a filosofia.
Aos 17 anos começou a elaborar em vários cadernos escolares um Dicionário de filosofia, que continuou re-escrevendo até que se incorporou ao Movimento 26 de Julho. Depois de tomar o poder em 1959, nom continuou a sua redacçom, mas sim mantivo o projecto de alentar a escritura de manuais próprios, latinoamericanos, para estudar aos clássicos do pensamento. A carta a Armando Hart de 1965 marca a continuidade dessa preocupaçom que começou a desenvolver em 1945.

Nessas páginas adolescentes o jovem Guevara escreve em forma manuscrita pequenas biografias de grandes pensadores (modifica-as e mecanografia na década de '50). Dedica um espaço central a Carlos Marx e a Federico Engels (onde os contrasta com a descripçom da "doutrina judia do marxismo" que fai Hitler em "A minha luita", ao marxismo de Lenine, mas também a Sigmund Freud, a José Ingenieros, a Arturo Shopenhauer e a Platom. Chama poderosamente a atençom este cruçamento inesperado de interesses teóricos onde o marxismo convive com a psicoanálise. Umha conjunçom explosiva -alheia à esquerda tradicional de aqueles anos- que também se acha nos escritos de Deodoro Roca (o redactor do célebre "Manifiesto Liminar da Reforma Universitária de 1918, em cuja biblioteca cordobesa incursionou extensamente o jovem Ernesto Guevara, amigo do seu filho Gustavo Roca), ou também em José Carlos Mariátegui.

Nesta época Ernesto Guevara começa a confecionar um índice de livros, tarefa que continuará até os últimos momentos da selva boliviana.

Os cadernos de leitura, entre Sarmiento e o Martín Fierro

Nos "Apontamentos de leituras (redigidos em México entre 1954 e 1956), o Che escreve críticas bibliográficas. Entre outras encontramos umha nota sobre Sarmiento e outra sobre José Hernández, além de vários textos sobre o Peru d@s incas, o México d@s maias e aztecas, o Chile d@s araucan@s, e a obra poética de Pablo Neruda que tanto o seduciu.
Quando analisa o "Facundo" de Sarmiento, Ernesto Guevara tenta romper amarras tanto com o liberalismo mitrista que só tem olhos para a sua tarefa de educador como com o nacional-populismo rosista, que únicamente o apresenta como un assassino de gauchos. A tentativa de leitura de Guevara sobre Sarmiento, distante dessa dicotomia, dirige-se por um caminho muito similar ao que proporá David Viñas em "Literatura argentina e realidade política", umha década mais tarde (em 1964). Nesses "Apontamentos de leituras" Guevara afirma que: 'Da sua obra histórica haverá que lembrar o seu amor pola educaçom popular; da sua obra política, a entrega da Argentina à voracidade imperialista dos ferrocarris; da sua obra literaria, a que fará que o seu nome sobrevivira ainda quando todo o demais ficara esquecido, o Facundo'.

Algo análogo sucede nos apontamentos sobre o "Martín Fierro".
Este conjunto de materiais inéditos permite observar o índice de leituras que o Che redigiu entre Março de 1965 e a sua morte. Ali achamos umha nutrida biblioteca de marxismo: Marx, Engels, Lenine, Trotsky, Staline, Mao, Mehring, Plejanov, John Reed, Malcolm X, Mondolfo, Lukács, Althusser e Wright Mills. Também textos clássicos de Clausewitz, Hegel, José Gaos, Maquiavelo, Giordano Bruno, Erasmo e Lucrécio, assim como também Martí, Homero, Goytisolo, Shakespeare, Goethe, García Lorca, umha biografia de Túpac Amaru de Boleslao Lewin e "Todos os fogos", o fogo de Julio Cortázar, entre muitos outros. As notas do Che detenhem-se em Bolívia com um último livro: "Forças secretas" de Federico Nietzsche.

O plano de ediçom

Este ambicioso projecto de ediçom do Centro Che Guevara propom-se publicar nove volumes: Justiça global: Libertaçom e socialismo; O grande debate: sobre a economia em Cuba; Notas de viagem; América Latina: acordar de um continente; Notas críticas sobre a economia política; Ponta do Leste: projecto alternativo de desenvolvimento para América Latina; Deixo-vos agora comigo mesmo: o que fui; Che Guevara: Antologia mínima e Che na memória de Fidel Castro

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