Crónica da revoluçom boliviana
17 de Outubro de 2003

A situaçom pré-revolucionária na Bolívia enfrenta o alineamento dos Estados Unidos em apoio do governo reaccionário de Sánchez de Lozada, autêntica embaixada do imperialismo ianque no país. Já na altura das últimas eleiçons, em que o Movimento ao Socialismo (MAS) estivo próximo da vitória, os EUA apoiárom incondicionalmente a direita neoliberal governante.

No desenvolvimento das luitas actuais, a Administraçom ianque conta com pessoas chave no aparelho de estado boliviano, no comando militar, marcando a linha governamental frente à sublevaçom popular através de pessoas concretas colocadas directamente pola CIA nos seus postos. Em concreto, há quatro dirigentes específicos no aparelho de poder boliviano postos directamente ali polos EUA: um dos três máximos dirigentes militares do Grande Quartel de Miraflores, coordenador político-militar que processa a informaçom fornecida ao exército boliviano e à embaixada ianque; o coordenador geral das chamadas Três Armas bolivianas, militar responsável polas agressons militares contra as massas empobrecidas alçadas; o terceiro homem dos ianques é responsável pola logística e abastecimento do exército boliviano, que como se sabe é armado polo Governo federal estado-unidense; por último, o adido de Defesa na Embaixada norte-americana em La Paz, nexo entre a residência presidencial boliviana e a Embaixada imperialista.

Como se pode ver, o poder na Bolívia é ocupado fisicamente por representantes ianques, que sustentam Sánchez de Lozada no seu posto contra a exigência da maioria social boliviana.

E, entretanto, o Outubro boliviano continua a demonstrar a força da revoluçom. Multitudes nunca vistas na história contemporánea do país levantadas contra o poder pró-ianque. A maré humana, ensangrentada pola repressom militar que já assassinou perto da cententa de pessoas, continua a clamar pola renúncia presidencial e a convocatória de umha Assembleia Constituinte que possibilite um novo sistema político.

Contínuas manifestaçons

As manifestaçons ocorrem continuamente em várias das mais importantes cidades do país, enquanto na capital o Palácio de Governo se mantém guardado por tanques de guerra e um anel de ninhos de metralhadora.

"É este o referendo popular. Está claro para todos que o povo quer que Sánchez Lozada se vaia. Esta é a democracia do povo", dixo o mineiro Jaime Solares, encabeçador da Central Operária Boliviana (COB). "As bases ordenárom que este maldito governo e sua camarilha devem ir embora. Os mineiros, os cocaleiros e camponeses nom abandonarám a cidade nem a bala, até o assassino Sánchez de Lozada ir embora", advertiu Solares, aplaudido pola multitude.

Eram incontáveis milhares, tantos que transbordavam da gigantesca Praça San Francisco. Milhares de camponeses chegavam dos pequenos vales do sul, rompendo o cerco policial, e se abraçavam com os 5 mil cocaleros de Yungas, que tinham subido da Bolívia tropical para os cumes nevados dos Andes, descendo entom até La Paz. Juntárom-se com os mineiros de Huanuni, com os guerreiros aymaras camponeses de Achacachi, com os moradores que descêrom de El Alto (imenso bairro de lata a 4 mil metros de altitude, cuja populaçom se aproxima rapidamente do 1,1 milhom da capital, La Paz), com os estudantes, operários fabris, professores, donas-de-casa, crianças e jovens. Todos pedem: "Vai-te embora, Gringo" (alcunha do presidente, devido ao forte sotaque americano de seu espanhol, adquirido em anos de residência no exterior).

Um "pacto de sangue" organizativo

O fórum aberto do povo insurreto, convocado pela COB e aglutinando agora todos os sectores sociais, fijo um "pacto de sangue" com os camponeses do "Malku" Felipe Quispe, os cocaleiros do Chapare de Evo Morales, com os rebeldes da Central Operária Regional de El Alto, de Roberto de la Cruz, com os moradores de todos os bairros pobres.

O porta-voz de comunicaçom da COB, Arsenio Alvarez, explica: "A COB e 40 organizaçons sindicais, gremiais e populares decidírom centralizar a luita em torno da COB. Ninguém está autorizado a negociar pola sua própria conta. Há um pacto entre a COB, Felipe Quispe, Evo Morales e Roberto de La Cruz para aprofundar a mobilizaçom, os bloqueios de estradas e a greve geral."

Chegam à praça os discursos e directivas do poder popular, o poder da rua: aprofundar a mobilizaçom social, reforçar a greve geral, endurecer e ampliar o bloqueio das estradas, cavar trincheiras em cada zona da cidade, erguer barricadas nos caminhos, conformar os comités de autodefesa e defender os meios populares de comunicaçom. Todos em vigília, é a palavra de ordem. Todos pedem que o presidente se vaia e o acusam-no polos 70 mortos e 200 feridos a bala nas últimas três semanas.

A greve geral é total

Nas ruas de La Paz há umha greve total e indefinida, um contundente protesto contra o massacre de El Alto. Havia escassez de mantimentos e desabastecimento. Nom havia militares à vista, excepto o cinturom em torno do Palácio de Governo.

Também em El Alto a greve era absoluta. Ali, depois de combater com pedras em cada quarteirom e paus em cada esquina, sangrando, agüentando a metralha enlouquecida dos tanques e militares carapintadas, durante o sábado e o domingo, passou a haver desde segunda-feira um outro poder, o poder comunitário.

Nas zonas empobrecidas de El Alto, com os seus 800 mil habitantes, 400 metros acima de La Paz, ninguém entra nem sai sem a autorizaçom dos comités de moradores, organizados para lutar contra as tropas, para marchar sobre La Paz, para cuidar das crianças e feridos. O povo despede-se dos seus mortos, com um brado de vingança e justiça.

A batalha de Patacamaya

Mais abaixo, em todas as zonas populares, em todos os bairros pobres de La Paz, o controle também é das organizaçons sindicais e populares, organizadas em torno da COB. Todo o Altiplano, de Oruro a Potosi, toda a zona ocidental da Bolívia está nas maos dos camponeses e moradores que bloqueiam as estradas, grandes e pequanas. Ali também há enfrentamentos.

Em Patacamaya, no meio da estrada entre Oruro e La Paz, a 100 quilómetros da sede de governo, mineiros e camponeses resistem aos militares: cruzam-se bombas de gás e balas com pedras e dinamite (substáncia muito usada nas minas de estanho e incorporada ao arsenal do povo boliviano desde a Revoluçom de 1952). Há presos. Os tanques avançam e contenhem por um momento o avanço de 2 mil mineiros cooperativistas de Hunanuni e outros trabalhadores que tentam abrir caminho para La Paz. Quinze minutos depois, os mineiros fazem que os militares retrocedam, na base da dinamite. A batalha é intensa. Por volta do meio-dia, dous mineiros tinham tombado mortos e vários estavam feridos.

Camponesas saem à rua com roupas de festa

Mas em outros pontos o avanço é irrefreável. Já chegavam a El Alto os camponeses de Achacachi. Tinham marchado escorrendo por entre as sombras do Altiplano. Outros chegárom a La Paz polo sul, em pleno dia. Do Vale de Rio Abajo vinhérom 3 mil camponeses, homens e mulheres. Elas vestírom as suas melhores roupas, roupas de festa. Sabem que tenhem um encontro marcado com a história.

Mais ao sul, na localidade de Mallasa, uma fileira de metralhadoras aponta para a estrada. Ao fundo, surgem mais de mil camponeses, todos jovens, entre 14 e 20 anos, todos com paus, prontos para o choque. Atrás, bem atrás, estãám as mulheres, as crianças e anciaos. É a segunda linha de combate.

No centro de La Paz, grupos de professores e jovens gritam palavras de ordem e entoam o velho hino de guerra dos Packochis, os guerreiros aimarás dos tempos da colónia:

O grande dia está chegando
Todos nos levantaremos
Gringo maldito, vás morrer
Sabes bem, enforcaremos-te

Aos poucos, a rebeliom dos pobres foi superando os seus problemas organizativos. A grande disparidade que existia, entre a radicalidade e mobilizaçom de La Paz/El Alto e o interior do país, foi sendo reduzida com o avanço da luita popular em Cochabamba, Oruro, Potosí e Chuquisaca. Na terça-feira, mais de 100 mil pessoas dessas regions ganhárom as ruas. Ontem, em Cochabamba, terceira maior cidade da Bolívia, o povo disputava o controle das ruas com pedras, paus... e dinamite.



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