O embaixador cubano no Iraque fai balanço da guerra imperialista

A seguir, apresentamos um artigo assinado Ernesto Gómez Abascal, embaixador de Cuba no Iraque durante a recente guerra contra o povo iraquiano. O texto foi publicado na revista cubana Tricontinental e analisa o acontecido no Iraque e o que ainda pode estar por acontecer.

A guerra do Iraque nom terminou, mister Bush
Ernesto Gómez Abascal, Embaixador de Cuba no Iraque até 18 de Abril, depois da invasom norte-americana; artigo publicado na revista cubana Tricontinental

Quando partimos de Bagdad rumo à fronteira jordaniana, em 18 de Abril, figemo-lo com umha mescla de sentimentos que nos oprimia o coraçom, mas também com umha visom otimista do futuro. Deixávamos para trás umha cidade ocupada polas tropas do império neofascista, porém, conhecendo o povo iraquiano, estávamos convencidos de que ele nom permitiria que submetessem o seu país à condiçom de protectorado ou colónia. Hoje já estamos vendo os primeiros sinais da resistência popular que sem dúvida se converterá numha nova etapa da guerra - a etapa de libertaçom nacional.

A guerra para ocupar o Iraque foi planejada desde antes que mister Bush e seu grupo chegassem a Washington, através das fraudulentas eleiçons de novembro de 2000. Nom se tratava, evidentemente, em armas de destruiçom em massa nem de terrorismo, o que ficou ainda mais evidente com o que tem sido publicado e revelado à opiniom pública sobre falsificaçom de provas, informes fraudulentos, terrorismo midiático e pressons de todo o tipo usadas e manipuladas, em boa medida com a cumplicidade da "grande imprensa livre norte-americana", para tratar de justificar a operaçom bélica e o genocídio do povo iraquiano.

Já no ano 2000, a organizaçom ultraconservadora Projecto para um Novo Século elaborara um programa para "reconstruir as defesas dos EUA" que propunha quase todas as acçons que mister Bush levaria a cabo mais tarde com a prática de seu chamado "internacionalismo americano" voltado para a dominaçom global. Muitos dos que participárom da elaboraçom daquelas ideias som superfalcons com cargos na actual administraçom, entre eles Paul Wolfowitz, Richard Perle, John Bolton, Eliot Cohen, Lewis Libby, Dov Sekheim e Stephen Carbone. Alguns som judeus sionistas ou estado-unidenses caracterizados polos seus vínculos com os interesses de Israel e do sionismo.

Algumhas de suas teorias, que tinham os seus antecedentes no início da década de noventa, incluíam a concepçom da guerra preventiva, a prática do unilateralismo que acarretava o desconhecimento da ONU caso esta nom se deixasse dobrar e a ideia de que, para que os EUA pudessem manter o seu papel de potência hegemónica nos próximos 20/25 anos, era imprescindível controlar a regiom do Oriente Médio, considerada como o território que vai do Golfo Pérsico ao Mar Cáspio, reunindo as maiores reservas de petróleo do mundo e constituindo um estratégico entroncamento de comunicaçons. O controle daqueles recursos impediria o desenvolvimento de potências que disputavam a hegemonia estado-unidense. No projecto incluía-se a instalaçom de novas bases militares e já se identificava o Iraque, o Irám e a Coreia Democrática como países cujos governos deveriam ser derrubados. Isso serviu de base para mister Bush proclamar o chamado "Eixo do Mal".

Outro grupo que ocuparia importantes cargos no governo norte-americano estava muito vinculado às grandes empresas petrolíferas. O presidente tinha a sua própria companhia, a Bush Exploration; o vice Dick Cheney integrava a directoria da Halliburton, a mesma que obtivo suculentos contratos na reconstruçom da indústria petrolífera iraquiana; Condoleezza Rice provém da Chevron; o secretário de Comércio presidiu a Tom Brown e a Sharp Drilling; outros fôrom executivos da Exxon e da Enron Corporation. Alguns suspeitam e outros afirmam que a aventura bélica foi planejada respondendo às conveniências dos bolsos desses senhores.

A guerra tivo dous grandes objectivos: mudar a situaçom política no Oriente Médio, a começar pola liquidaçom dos governos que faziam oposiçom aos interesses imperial-sionistas, e apoderar-se das reservas de petróleo do Iraque, consideradas as segundas do mundo.

Desde o dia em que chegárom ao poder, em fins de 2000, os principais dirigentes do governo movêrom-se intensamente para criar as condiçons da agressom, mas encontrárom uns tantos obstáculos - que só fôrom parcialmente removidos quando os trágicos acontecimentos do 11 de Setembro lhes abrírom a possibilidade de se impor sobre a comunidade internacional e desprezar os mecanismos multilaterais, manipulando o argumento da luita contra o terrorismo e da defesa da segurança nacional.

No entanto, eles levárom a cabo a invasom e ocupaçom do Iraque num ambiente político internacional e regional desfavorável. Encontrárom umha forte oposiçom da parte inclusive de países que seriam os seus tradicionais aliados. Nom pudérom obter um mandato da ONU para sua acçom e perdêrom a batalha no Conselho de Segurança. pola primeira vez desde que se encerrara a Guerra Fria constituiu-se um pólo de países importantes - França, Alemanha, Rússia, China, Canadá, Bélgica - que se opugérom à política imperial e nom aceitárom os falsos argumentos, posiçom que foi partilhada pola imensa maioria da comunidade internacional, especialmente polos países do Terceiro Mundo. Os EUA, distintamente da Guerra do Golfo de 1991, nom lográrom criar umha situaçom verossímil para levar avante os seus planos bélicos.

Por sua vez, quase todos os organismos internacionais, inclusive as organizaçons regionais, pronunciárom-se contra a guerra. O Vaticano e o papa pessoalmente desenvolvêrom intensa campanha por umha soluçom pacífica. A mobilizaçom popular em todos os países alcançou dimensons nunca vistas desde a Guerra do Vietnám.

No Oriente Médio, a Turquia, Arábia Saudita e Jordánia - países que possuíam compromissos militares assinados com os EUA e cujas fronteiras com o Iraque teriam facilitado em muito as operaçons -recusárom-se a ajudar apesar das muitas pressons que sofrêrom. Nos países árabes e islámicos, o sentimento anti-norte-americano em nível popular, alimentado desde antes devido à "cruzada" contra eles polo império, nunca foi tam grande - aumentando os temores de regimes corruptos e antipopulares, que, convertidos em protectorados, observam a ira crescente a se acumular nos povos, contra as injustiças, os abusos e a dupla moral praticada contra eles. Muitos tomam consciência de que este continuará a ser um importante factor de decisom política, mesmo que os neofascistas o desprezem.

Vários importantes amigos dos EUA na regiom, como os governos do Egipto, Jordánia e Arábia Saudita, advertírom-nos de que umha invasom e ocupaçom do Iraque poderia trazer conseqüências terríveis e contraditórias para seus interesses, provocar acontecimentos incontroláveis, com repercussom regional negativa. O Novo Império nom levou em conta as experiência dos otomanos e dos británicos no século passado. Apesar de terem perdido a batalha política internacional que precedeu a guerra, lançárom a agressom e proclamárom a vitória aproveitando-se de um desfecho rápido e transitório.

Agora pretendem impor um governo títere em Bagdad, pensando usar para tanto alguns grupos políticos domesticados com abundantes verbas da CIA durante anos no exterior. Tratam de comprar umha burocracia que, unida a esses grupos, lhes sirva para estruturar o novo protectorado. Já conseguírom umha resoluçom do Conselho de Segurança da ONU, a 1483, dando-lhes sinal verde na ocupaçom e destroçando princípios até entom vigentes no Direito Internacional, como o nom uso da força, o respeito à soberania dos Estados, a nom-intervençom e a autodeterminaçom dos povos.

A "autoridade provisória da coligaçom", sob o comando do administrador colonial Paul Bremer, pretende estabilizar o país e neutralizar o amplo descontentamento popular tratando de melhorar a situaçom económica, a partir da rápida utilizaçom dos recursos petrolíferos, cujos dividendos iriam na maior parte para as maos de empresas norte-americanas, as quais os controlariam depois de umha privatizaçom. A estabilidade seria condiçom indispensável ao prosseguimento, a partir de Bagdad, do projecto hegemónico regional. O Iraque prestaria-se, pensam eles, devido à tradiçom laica desenvolvida polo governo do partido Baath nas últimas décadas, para servir como um exemplo de democracia no estilo ocidental, propiciando outras mudanças políticas na regiom. O projecto inclui umha normalizaçom das relaçons do país com Israel, para pressionar e isolar outros países que nom concordam com isso. umha parte desse plano foi mostrada nas recentes reunions de cúpula de Sharm el Sheik e Ácaba, onde o próprio Bush participou.

Mas... lograrám os EUA alcançar esses objectivos?

Os que conhecem o Iraque e o Oriente Médio estimam, em primeiro lugar, que a guerra nom acabou. Na sua prepotência, os agressores estám optimistas demais. Desprezam o valor das ideias, dos princípios, o patriotismo dos povos. O império, dirigido por um grupo neofascista, tem capacidade militar ilimitada de destruiçom e possibilidades de ocupaçom momentánea. Mas é duvidoso que poda manter umha ocupaçom colonial por muito tempo. O projecto de criar umha "autoridade nacional" tem muito poucas perspectivas e a fauna que foi recrutada nom merece confiança, nom tem nengumha base no povo. Foi eloqüente que o senhor Bremer tivesse rejeitado que os próprios representantes iraquianos elegessem um conselho com autoridade incipiente, especificando que este seria designado pola "autoridade".

Manter a ocupaçom de um país de 25 milhons de habitantes, que os hostiliza amplamente, com 438 mil quilómetros quadrados de extensom, vai requerer centenas de milhares de soldados, que teriam que se deslocar num meio inóspito e adverso, dispostos a exercerem umha feroz repressom - o que necessariamente provocará umha escalada da cólera e das acçons do povo.

O povo iraquiano, em boa medida desgostoso e em geral apático face a um governo que cometera erros estratégicos - como a guerra com o Irám, a invasom do Kuwait e umha política que o afectou sensivelmente -, possui umha longa história de luita anticolonialista e independentista. É um povo politicamente educado, com tradiçom nacionalista árabe, com orgulho nacional, com profundo sentimento patriótico, antiimperialista e anti-sionista. Foi o povo que opujo forte resistência à invasom de muitas cidades do sul do país. Se em outros lugares, como Bagdad, nom se levou a cabo a resistência esperada, isso nom pode ser atribuído à falta de sentimentos patrióticos, mas a factores que talvez tenham a ver com a traiçom e a outros factores que ainda nom estám claros; porém, virám à luz mais cedo ou mais tarde.

Desde os primeiros dias da chegada das tropas invasoras a Bagdad, os iraquianos começárom as manifestaçons contra a ocupaçom. Possivelmente, a maioria nom deseja voltar à situaçom política anterior à invasom, mas muito menos aceitam se converter em colónia. Querem que os respeitem como povo e desejam curar as feridas do ultraje sofrido, manter a dignidade nacional administrar o seu petróleo e os abundantes recursos económicos que possuem, nom aceitem que se pisoteie a sua cultura ou se force a adopçom de costumes alheios à sua tradiçom. Nom estám dispostos a admitir que quem dá todo apoio ao terrorismo sionista os obrigue a se reconciliar traiçoeiramente com Israel. Querem ter a possibilidade de praticar umha política externa independente, em prol dos interesses iraquianos e árabes. Um povo que na sua quase totalidade professa a religiom islámica nom se dispom a aceitar imposiçons que menosprezem a sua cultura e a sua história - sejam eles xiitas ou sunitas. Para combater a ocupaçom - como já dixérom os principais líderes religiosos - nom há diferença entre uns e outros; muitos concebem o islamismo como umha ideologia de resistência e libertaçom.

O combate à ocupaçom já começou, embora ainda seja incipiente. Vai-se desdobrando num tipo de guerra onde os resultados já nom dependerám do poderio do sofisticado armamento, mas de outros factores, como os sentimentos e o orgulho patriótico, a justeza da causa, o apoio popular, o conhecimento do terreno, ideias e princípios éticos e morais. Som eles que vam criar superioridade sobre um inimigo que defende umha ocupaçom ilegal, em busca de interesses económicos e hegemonismo político, apoiado no terrorismo mediático e na mentira.

O cenário potencial é complicado mas poderá ser contrário aos interesses de Washington. Já estám aumentando as pressons contra o Irám e a Síria, países vizinhos do Iraque e e opostos ao hegemonismo estado-unidense/sionista. Tentam intimidá-los e responsabilizá-los polo que poda acontecer em solo iraquiano. As tensons na regiom devem aumentar.

Porém, as baixas americanas e a mobilizaçom popular serám um factor determinante. O grupo neofascista de Washington pode ver-se em dificuldades para continuar explicando umha guerra que nom acabou e que ele começa a perder, realizada sob o pretexto repetido à saciedade de encontrar as armas de destruiçom em massa, que nom fôrom achadas, e de supostos vínculos com a Al Qaeda, que nom existem.

A guerra nom acabou, mister Bush. Claro que já nom será aquela conveniente para o império, onde este pode destruir a partir do ar e do cosmos, com as suas criminosas bombas inteligentes guiadas por láser, os seus mísseis Tomahawk, as suas colunas de tanques e veículos blindados. Já nom poderá contar com objectivos predeterminados e visíveis que poda bombardear à vontade. Agora tem que ocupar, que servir de polícia contra o povo, dispersar-se polos povoados, ruas e praças, onde nom falta gente armada com patriotismo.

Quantos iraquianos pensa matar para manter a ocupaçom, mister Bush?

Poderá o mandato outorgado pola Resoluçom 483 livrá-lo da derrota?

Poderá ganhar esta guerra, mister Bush?





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