Entrevista a Alfonso Sastre, autor teatral e exemplo de compromisso revolucionário
6 de Maio de 2003

Em tempos em que a intelectualidade recusa qualquer compromisso real com a causa da transformaçom social, Sastre é um exemplo de dignidade e coerência. De origem espanhola mas radicado no País Basco há 30 anos, nom oculta o seu compromisso com a causa da liberdade desse povo, tendo sido alvo da censura e o desprezo dos meios oficiais espanhóis.

A pesar da sua origem nacional espanhola, Sastre tem-se declarado em numerosas ocasions partidário da "resistência das pequenas naçons frente ao império" e defensor da "tese do carácter positivo das pequenas naçons que se negam a fazer parte da homogeneizaçom". Citando ainda as palavras do autor de "A mordaça", lembramos o seu reconhecimento de que "o sentimento patriótico e nacionalista garante umha certa resistência à homogeneizaçom capitalista".

Reproduzimos a seguir, literalmente, a entrevista que lhe acaba de fazer o diário espanhol El Mundo, com motivo de ter recebido o Prémio de Honra da Sociedad General de Autores espanhola.

Borja Hermoso
El Mundo

O escritor nom tem quem o estreie, mas sim quem o premie: a SGAE concedeu-lhe o prémio de Honra, o qual tem produzido ampolas devido à postura de Sastre favorável à independência de Euskádi.

Basco nascido em Madrid há 77 anos, Alfonso Sastre tem o sotaque dos aitonas arcaicos, entranháveis e rosmons. Mas a palavra subjaz em toda a sua radicalidade, a forma nom esconde o fundo, e os postulados políticos de Sastre -os que brande sobre o que aesquerda abertzale denomina o conflito basco- som carne de diatriba.

Escrevia nas páginas do clausurado Egin e agora fai-no de jeito esporádico nas da continuaçom de aquilo, Gara. A Associaçom de Vítimas do Terrorismo di que é "um perfeito cabrom". A Sociedade Geral de Autores, que hoje lhe entrega o Prémio Max de Honra em Vigo, assegura que o autor de A taberna fantástica, Esquadra para a morte ou A mordaça e Prémio Nacional de Teatro é um nome essencial na literatura dramática da segunda metade do século XX.

Pergunta.- Um Prémio Max de Honra para Alfonso Sastre. O que acha o senhor dos prémios? Nom lhe parecem excessivos de louvor?

Resposta.- Sei lá… Se calhar, embora a sensaçom que um tem é agradável, na medida em que esta é umha profissom escassa em satisfaçons. Na minha vida profissional, com certeza, tenhem abundado mais os desgostos e os problemas do que as alegrias e os êxitos. O sucesso nom é um fruto fácil. E alguns podemos passar umha vida inteira sem atingir um grande.

P.- Bem, tendo em conta certas demonstraçons práticas do sucesso, como Operación Triunfo, Javier Sardá ou Tómbola, para nom falarmos de certos políticos e homens de negócios, cabe pensar que a noçom mesma de sucesso está deprezada, nom acha?

R.- Claro, o êxito tem essa dupla vessante positiva e negativa. É desejável mas perigoso. Um grande sucesso nos inícios de umha carreira pode resultar muito perigoso para um autor. Mas nom ter nengum comporta a morte do autor.

P.- Tem feito o senhor concessons na procura desse reconhecimento?

R.- Talvez as tenha feito. Umha vez, Arrabal criticou-me porque, sustinha ele, entre as minhas primeiras obras de vanguarda e as que a seguir figem mais de tipo convencional, eu me tinha acomodado às formas do teatro burguês. E quiçá tivesse sido assim. Às vezes, um acaba por escrever cousas que se ajustam ao sistema e fai concessons. Também isso nom é mau de todo: Bertolt Brecht, que era um revolucionário, dizia que, se nom se tem um certo acordo com o meio, nom se pode agir depois contra ele.

P.- O mau, no seu caso, é que este reconhecimento de honra dos Max contrasta com a escassa presença do seu teatro nos cenários. Quase nom se estreiam obras do senhor.

R.- Sim, no meu caso este prémio semelha um substituto do que o autor de teatro deseja realmente: que as suas obras se encenem de forma regular e ocupem os cenários. Desde que me inteirei do Prémio Max tem-me vindo à mente essa ideia de sucedáneo do que, na verdade, eu gostaria: estrear obras. Porque, sem irmos mais longe, no ano passado nom se estreou nem umha.

P.- Por quê?

R.- Este é um problema que atinge a maior parte dos autores de teatro, velhos e novos. Agora, os autores estamos marginalizados em relaçom ao trabalho teatral propriamente dito. Quem nos dedicamos apenas a escrever teatro -nom falo de quem, além disso, se envolvem na produçom ou na direcçom de cena- temos complicado isso de que um produtor se interesse pola nossa obra.

P.- Também a sua presença na época do Centro Dramático Nacional [espanhol] é bem complicada, apesar da vontade do seu director, Juan Carlos Pérez de la Fuente. Há pressons políticas para que nom se estreie nada de Alfonso Sastre?

R.- Eu sabia que ele estava muito interessado em fazer um ciclo com Buero, Max Aub e eu próprio; mas também sabia que, numha dada altura, teria problemas para montar algo meu… o que nom sabia é que já os tivesse tido. Nom me surpreende nadinha.

P.- Julga o senhor que é um autor apestado a olhos dos dirigentes políticos deste país [Espanha]?

R.- Apestado é umha palavra muito forte, mas a verdade é que já mo tenhem chamado. Foi Vicente Molina Foix, colaborador habitual de El País. Além disso, de outra parte, eu acho que, desde o 11 de Setembro, essa ideologia toda ultrafranquista que estava dispersa está a organizar-se.

P.- O senhor acredita que dentro do Partido Popular subsistem pousos de ideologia franquista?

R.- O facto de que tenha desaparecido formalmente a ultradireita indica-me que está aí e que agora começa a exprimir-se. Já começárom a utilizar umha linguagem muito clara: falam claramente de vermelhos, da aliança com os comunistas… Igual que se falava na época de Franco.

P.- Veremos um Le Pen aquí?

R.- Mas, para quê? Le Pen nom é mais de direitas do que Bush ou Aznar. Só é mais vociferante.

P.- Voltando à gala dos Max: RTVE decidiu nom emiti-la. Semelha que o espírito dos Goya pervive…

R.- Embora semelhe que já nom caiba esperar nada deles, eu acho que para os políticos teria sido muito interessante ver o que é que os intelectuais tenhem para lhes dizer. Desse jeito, teriam umha espécie de observatório. Mas, claro, eles preferem asfixiar as vozes de quem fai críticas.

P.- A segunda parte da polémica afecta a você: A Associaçom de Vítimas do Terrorismo tem mostrado o seu rejeitamento à concessom deste prémio porque, sustentam, é você "um perfeito cabrom" e apoia a ETA. Quer opinar?

R.- Ataques desse género já os tenho sofrido outras vezes e nom me afectam. Bom, isto antes era objecto de queixa. E no século XIX, de duelo! A sério, o único que me preocupa é que se converte, na realidade, num ataque contra a Sociedade Geral de Autores, que é a que me dá o prémio. Nom gostaria que se sentessem magoados por isto todo.

P.- Tenhem afectado muito à sua carreira as suas posturas radicais?

R.- Tenhem. Eu atribuo grande parte dos meus problemas ao facto de ter-me radicado em Euskal Herria e de ser praticamente um cidadao basco e manter umha postura clara de esquerdas. Levo aqui 30 anos. Quase umha vida. Muitas obras minhas nom tenhem sido estreadas por culpa das minhas posturas políticas.

P.- Acha realmente que a violência da ETA é umha linguagem válida?

R.- Os problemas que há aqui nom som qualitativamente tam distintos dos problemas internacionais, parecem-se ao do imperialismo americano em relaçom ao Iraque. Eu acho que, para o imperialismo, a paz é umha catástrofe. Quando a ETA declarou o cessar-fogo, eu julguei que em Espanha iria haver um explodir de ledice. Mas nom. Desgostárom-se, quase foi umha má notícia. E outra cousa dentro de todo este problema é que o PNB é criticado como se fosse práticamente umha organizaçom "terrorista". Eu creio que realmente nom é o "terrorismo" o que preocupa o poder, mas as ideias soberanistas.

P.- Mas, novamente, que sentido fai a violência como expressom?

R.- Olhe, o sistema, o Estado espanhol, convive com a violência da ETA mais comodamente do que com a paz. O sistema acha-se bem tendo alguém que perseguir.

P.- Como pode ser legítimo defender ideias com a violência?

R.- Eu som contra isso de "condenar toda forma de violência, venha donde vinher", singelamente porque nom todas som iguais. Nom é o mesmo o Che Guevara que um sicário. Para condenar o primeiro, tenho de pensá-lo muito. Para condenar o segundo, nada.

 


Voltar à página principal