Entrevista a Evo Morales, líder do Movimento ao Socialismo (MAS) boliviano
Numha altura em que a Bolívia é sacudida polo alçamento das massas contra a entrega do gás boliviano às transnacionais e contra umha situaçom insustentável que o convertem no país mais pobre do continente, oferecemos a traduçom galega da entrevista realizada por Paulina Castro e Carlos Ramírez ao deputado do MAS e um dos líderes da oposiçom revolucionária ao Governo reaccionário de Gonzalo Sánchez de Lozada.
- Evo Morales:
Muito obrigado pola chamada. Evidentemente, na semana passada em Genebra e
mediante os membros das Naçons Unidas informei-me de que o governo
no dia 8 e 9 vai negociar com o grupo consultivo do Clube de Paris a venda
do gás e pedir polo menos os 5.000 milhons de dólares de antecipo
para venda do gás.
Além disso, os últimos documentos que encontrámos cá
na Bolívia, confirmam que se baseou nas negociaçons com algumhas
transnacionais.
Mas o governo di publicamente que nom está nada avançado e seguro,
que primeiro vai consultar o povo boliviano quando já se está
a negociar a venda do gás e o adianto corresponente que significa umha
espécie de hipoteca ao povo boliviano, fundamentalmente para as novas
e futuras geraçons.
Na Bolívia, como os senhores sabem, há umha convulsom como em
Cochabamba, que está a preparar-se para umha grande marcha. Em La Paz
há umha paragem cívica de carácter indefinida. As marchas
noutros departamentos continuam. Os bloqueios nom som tam efectivos mas sim
continuam, sobretudo os bloqueios de caminhos. Ontem informárom-nos
alguns membros do mesmo governo que o governo está a preparara um estado
de sítio.
O que querem fazer é legalizar o estado de sítio, para deter
dirigentes ou para processá-los como sempre se pensou.
Ontem, em Chapare, os nossos companheiros da rádio camponesa recebêrom
o telefonema de um coronel das forças armadas, a dizer que se acautelem,
que o governo anda a arranjar um estado de sítio.
Isso demonstra que alguns membros do alto comando militar estám com
o povo boliviano, com o movimento camponês, para defender o gás.
Eu o que quero esclarecer é o seguinte: nom é que o povo boliviano
se oponha à venda do gás. O que sim nom queremos é que
se vaia o gás nestas condiçons, quando o gás está
em maos de transnacionais, os hidrocarburos em maos de transnacionais.
segundo estúdios do Colégio de Engenheiros, do Colégio
de Economistas, de um grupo de profissioais que se organizam para defender
o gás, eles dim-nos: vender o gás nestas condiçons é
somente para que a Bolívia ganhe por ano 50 milhons de dólares.
Ms se for nosso, umha vez industrializado, a Bolívia beneficiaria-se
com 1.300 milhons de dólares. Eis o tema central. Eis porque há
um sentimento nacional de cómo obter os hidrocarburos para os bolivianos.
- Paulina Castro: Evo, quero voltar ao tema do estado de sítio. Com efeito, a denúncia de um autogolpe que está a gestar o governo foi feita por ti no passado dia 17 de Setembro. No entanto, ontem o partido de Acçom Democrática Nacionalista da Bolívia denunciou que no domingo 12 de Outubro o presidente Gonzalo Sánchez Lozada decretará o estado de sítio para pôr fim às mobilizaçons. Mas o mais grave é que vam começar as detençons dos principais dirigentes das organizaçons sindicais, como preámbulo do estabelecimento desse estado de sítio. Qual é a situaçom de segurança que estás a viver tu?
- Evo Morales:
O que quero dizer-vos é que o ministro da Defsa, Carlos Sánchez,
desde há um mês, a seguir da assunçom dessa pasta, tem
estado a organizar um autogolpe e primeiro organizou os esquadrons da morte.
Na ditadura estes esquadrons assassinárom dirigentes políticos
e dirigentes sindicais.
No último golpe tam fascista de 1980, esse golpe de estado foi só
para matar Marcelo Quiroga de Santa Cruz, grande dirigente intelectual da
classe média socialista. O Partido Socialista estava a crescer na Bolívia,
e esse golpe foi para assassinar Marcelo. Igual que naquela altura da ditadura,
este senhor Sánchez, que é maquiavélico, na bolívia
conhecido polo Montesinos boliviano, agora organizou os grupos dos esquadrons
da morte mas também organizou a nómina para assassinar dirigentes.
Primeiro Evo Morales; segundo Óscar Olivera, som oito principapais
dirigentes que estám na listagem. Essa informaçom tirei-na de
um general do exército que está inactivo. Por isso dizia que
umha boa parte das forças armadas estám com o povo na defesa
dos recursos naturais.
- Paulina Castro: Evo, especificamente tés informaçom sobre a situaçom de segurança dos líderes sindicais a dia de hoje?
- Evo Morales:
como ainda nom há estado de sítio, os dirigentes estám
nas suas zonas a organizar as mobilizaçons, mas o certo é que,
quando já há denúncias da Assembleia Permanente de Direitos
Humanos e da Comissom de Direitos Humanos dos Deputados sobre a legalizaçom
do estado de sítio. Esta legalizaçom vai ser para a detençom
dos dirigentes, inclusive o descabeçamento do movimento popular atentando
à vida dos dirigentes sindicais.
Esta manhá, conversei cedo, via telefónica, com o companheiro
Óscar Olivera, dirigente fabril, muito comprometido nas luitas sociais,
e com umha jornalista. Com muita preocupaçom dixo: "acautelem-se
ao governo nom lhe vai interessar a vida dos dirigentes".
Isto é o que está a acontecer neste momento. Mas isso nom assusta.
Acabam de informar-me, aqui no gabinete onde estou, que alguns comandantes
das forças armadas nos advertírom: "que se cuide o Evo
Morales, a extrema esquerda pode tentar atentar contra ele".
Nom vai ser a extrema esquerda, vai ser o império. Mas fam chegar essa
classe de mensagens, com que tentam ameddrontar-nos.
Há um bilhete entregado polo embaixador dos Estados Unidos ao vicepresidente
da república no mês de Abril, em que dizia que o MAS, conhecido
como um instrumento político da libertaçom, estaria a gestar
um golpe de estado e os mesmos deputados de Evo Morales, matariam Evo Morales.
Assim tratam de confundir. Quando os chamados índios, indígenas,
quando os povos originários nos organizamos eleitoralmente e decidimos
recuperar o poder aos donos absolutos desta nobre terra, do governo e o império
gestam-se golpes de estado para que os índios nom podam ser governo
democraticamente. Tenho certeza que quando as democracias ou as eleiçon
snom estám ao serviço do império e do sistema, os Estados
Unidos acabam com as democracias para descabeçar os movimentos populares
ou instrumentos políticos da libertaçom.
- Paulina Castro: Conforme avançam as mobilizaçons na Bolívia,
o liderato de Felipe Quispe fortalece-se. Na semana passada, entrevistamos
Felipe Quispe em Paralelo 21 e dixo-nos que o povo aimara está alçado
em armas.
Na segunda-feira, o mesmo Quispe ameaçou o governo com cercar La Paz,
capital da Bolívia, e agora comprovamos que isso já está
a acontecer.
Gostava de saber qual é a tua opiniom sobre esta radicalizaçom
do conflito em que os sectores mobilizados se mostram dispostos inclusive
a enfrentar-se numha guerra civil. Queria saber se partilhas a estratégia
de Felipe Quispe e qual é a tua proposta para a soluçom do conflito.
- Evo Morales:
Eu nom quero magnificar a situaçom no país. Esse tema de levantar-se
em armas pode ser umha arma para o governo e para o império, porque
em Chapare conhecemos como o governo inventava alguns soldadozinhos mortos
e com esse motivo dizia que havia terrorismo e narcoterrorismo e chantajeava
a comunidade internacional e tirava mais diheiro para a corrupçom.
Nalguns casos, eu vejo que quem fala de guerra civil, de enfrenar arma a arma,
som mais instrumentos do governo e do império.
Aquí há bloqueios de caminhos, marchas pacíficas nas
cidades e as balas e gases venhem de parte do governo boliviano.
- Paulina Castro: quer dizer, tu nom partilhas o discurso mais confrontacional de Felipe Quispe?
- Evo Morales:
nós no momento que entramos nas eleiçons nacionais e no momento
que temos sido deputados, juramos defender a constituiçom, embora tenhamos
muitas diferenças com ela. A nossa proposta é a defesa da vida,
de procurar a paz. Se falamos em cultura quíchua ou aimara, a base
desta é umha cultura da vida. Luitamos pola justiça e pola paz
com justiça social.
No problema de diferenças económicas, a injustiça social
obriga-nos a mobilizar-nos. Nesta altura, como deputados, impulsionamos um
instrumento político para transformar pacificamente o país,
sem derramamento de sangue. Isso é possível. Primeiro há
que chegar à estrutura do Esado e dali fazer a revoluçom, nom
como alguns dim, primeiro fazer a revoluçom e depois chegar às
estruturas do estado.
- Paulina Castro: O director do sítio Bolpress.com, Osvaldo Calle, assinala-nos que na Bolívia se escuita insistentemente um só grito que di: "guerra civil". Gostava de saber qual é o teu nível de diálogo com as bases sindicais.
- Evo Morales: Eu nom o partilho. Evidentente, alguns conteúdos infiltram-se ou incluso a mesma gente do governo se infiltra às mobilizaçons sociais e di guerra civil para que haja um massacre. Nós nom temos essa posiçom.
- Carlos Ramírez Powell: Há um mês e meio, tu nom pudeche assistir à conferência da OMC em Cancún na procura dos acordos. Podes relatar-nos o que foi que figeche umha vez que che foi negada a entra ao país? Qual foi o seguinte passo que deche a respeito da situaçom de Cancún?
- Evo Morales:
Eu tinha informaçom de que eram 38 dirigentes da Latino-América
que estavam na lista da CIA, na lista do império. Porém, faltando
poucos dias para viajarmos a Cancún sai um aviso do México segundo
o qual 38 dirigentes latino-americanos nom tenhem visto para o México.
Eu dizia que se enganárom porque eu tenho passaporte diplomático
e nom tenho por que pedir visto ao governo mexicano. O embaixador mexicano
cá na Bolívia esclareceu que eu podia entrar no México,
que nom estava vetado.
Mas desde o momento em que sai a notícia no México, dos 38 dirigentes
que nom tenhem visto, é umha prova que estám na listagem da
CIA, do império.
Eu tinha de viajar a Cancún para as mobilizaçons contra a OMC,
porque nom é possível que 125 transnacionais bloqueiem o comércio
internacional, que sejamos submercados destas transnacionais. Felizmente,
fracassou esta reuniom.
Por razons de segurança, a bancada do MAS decidiu nom viajar, por isso
nom viajei. De todas as maneiras, nós somos parte de um movimento internacional
de luita contra a globalizaçom.
Há umhas duas semanas estava a retornar de umha viagem por África
e a Europa, e no aeroporto de Frankfurt dous companheiros bolivianos estavam
a ser ilegalmente expulsos. Diziam-lhes que eles nom podiam entrar ali à
procura de trabalho. Como é possível que tanto falem os países
desenvolvidos da globalizaçom. A globalizaçom teria que ser
primeiro para o ser humano, nom só para o comércio e o mercado.
Estava-se a expulsar dous companheiros que fôrom arranjar emprego à
Europa. Mas quando os europeus chegam à Bolívia, acaparam milhons
de hectares, transnacionais como a REPSOL da Espanha, e saqueiam permanentemente
os nossos países, nós nom os expulsamos. Partilhamos os lucros
económicos.
De que globalizaçom é que nos falam quando é permanente
o racismo e a discriminaçom. Se nos expulsam da Europa, haverá
que expulsar de aqui as transnacionais, que acapararm milhons de hectares
na Bolívia.
Para pessoas que luitam polas terras, dim-nos que nom há terra, mas
sim há para latifundiários. E quando o movimento sem terra ou
gente com terras insuficientes toma pedras, os militares despejam-nos.
Nós luitamos pola vida, a justiça, pola terar e o estado de
direito. Felizmente, na Bolívia vai crescendo a consciência nacional
para transformar pacificamente o país. Já muitos sectores propugérom
a refundaçom da Assembleia Constituinte. Nós queremos refundar
o país, ser actores do nosso próprio destino, do nosso próprio
desenvolvimento e nom seguir dependendo de um sistema e um modelo e dos seus
representantes.
- Carlos Ramírez Powell: Com esta resposta, vem obrigada a seguinte pergunta. Há vias de negociaçom abertos com o executivo boliviano, há diálogo com o executivo ou está cortado?
- Evo Morales:
Nom. Nós sempre estivemos abertos ao diálogo, mas o governo
é que nom quer. O movimento camponês propujo diálogo mas
o governo pom como condiçom que se levantem as mobilizaçons.
Isso é dizer: nom ao diálogo.
Nós queremos que seja honesto e sincero, onde se tratem temas centrais
como o tema do gás e dos hidrocarburos.
Lamentavelmente, nom há neste momento nengumha abertura ao diálogo
com o governo boliviano.