Entrevista a Mohamed Hassan, intelectual marxista etíope especialista no Oriente Médio

Apresentamos a traduçom galega de umha recente entrevista (Julho de 2003) a Mohamed Hasan realizada por D. Pestieau e publicada polo Center for Reserch on Globalization. Mohamed Hasan é um marxista etíope especialista no Oriente Médio. Foi diplomata no seu país e actualmente mora na Bélgica e trabalha como professor. É autor de diversos trabalhos sobre a Arábia Saudita e sobre a origem do waabismo, bem como sobre os chamados Irmaos Mussulmanos do Egipto e sobre os relacionamentos entre o Islám e a luita contra os EUA no Oriente Médio.

- Pergunta. Manifestaçons todos os dias, mais de 50 soldados estado-unidenses mortos desde o final da guerra de agressom dos EEUU; a resistência à ocupaçom é cada vez mais feroz no Iraque. Cómo se explica isto depois da afundamento do regime após a rapidíssima tomada de Bagdad?

Resposta. Eu falaria de retirada do exército e do governo, nom de afundamento. Nom houvo rendiçons massivas. A resistência nacional iraquiana declarou nos meios árabes que dará a conhecer no seu dia o que aconteceu na tomada de Bagdad, mas que essa nom é agora a questom. Penso que o comando iraquiano estudou a experiência do Afeganistám. Ali tampouco houvo rendiçons dos talibám: retirárom-se de Kandaar com a maioria do seu armamento
intacto.

- P. Mas os EUA tenhem a pesar de todo o poder nas suas maos no Iraque, nom tenhem?

R. Hoje existem dous governos no Iraque. Um deles dirige de dia o país, mediante a ocupaçom e o terror militar e psicológico que tenta impor. Mas nom sabe o que sucede na realidade. Este governo de ocupaçom carece realmente de polícia. Tratou de construi-la a partir da antiga mas em vao: esta está infiltrada por elementos do Partido Baas, fiel a Saddam Hussein. Nom tem tempo para formar em poucas semanas umha polícia nova de todo. Este governo nom tem quase nengum elemento na administraçom. A base comunal desta administraçom desapareceu. E, sobretodo, este governo nom tem exército iraquiano, que desapareceu. O exército iraquiano estava composto por oficiais recrutados entre os alunos mais brilhantes das universidades iraquianas. Mas estes nom colaboram na reconstruçom do exército. Os soldados manifiestam-se porque nom se lhes paga. Aqui também a administraçom nom tivo tempo de formar novas forças dóceis.

Tanto mais que incluso os próprios aliados iraquianos mais próximos dos EUA como Chalabi, os acusam agora de seguir umha política puramente colonial. Um professor desta tendência declarou a este respeito: "O Partido Baas é um componente da vida iraquiana, deve poder participar em futuras eleiçons; nom devia ter sido proibido". Provavelmente estes lacaios de Washington compreendam melhor que é necessário outra focagem táctica.

Mas os estado-unidenses estám cegados polo seu chauvinismo. Os seus militares chegárom a violar e a matar mulheres iraquianas. Entram nas casas, saqueiam-nas e o espezinham todo; entram nos quartos das mulheres, que é a pior ofensa que se pode fazer na cultura iraquiana. Saddam Hussein tinha razom em dizer aos iraquianos quando os estado-unidenses estavan às portas de Bagdad: "Veredes a verdadeira natureza do colonialismo e o nom consentiredes".

- P. Será que o Saddam Hussein está ainda vivo? O senhor fala de um segundo governo, o quê é que entende por isso?

R. Sim, há umha espécie de governo que age quando os estado-unidenses dormem. Um governo que fai colocar retratos de Saddam nas praças públicas, que fai pintadas sobre todo o que representa a ocupaçom estado-unidense. O exército dos EUA passa o tempo a tirar todo isso durante o dia e ao dia siguinte tem que voltar a começar, como relata o diário árabe al- Quds.

A imprensa estado-unidense assinala que iraquianos a quem se comina a pôr as suas moradas a disposiçom da Administraçom dos EUA recebem a visita de representantes do antigo regime instando-os a nom fazê-lo. Há fortes indícios de que umha parte da estrutura do Partido Baas se retirou no momento da tomada de Bagdad e que está a se reorganizar.

Quanto a Saddam Hussein, todos os meios árabes coincidem em afirmar que as suas cartas som autênticas. Está portanto vivo e chama à resistência, a minimizar todas as divergências entre sunnitas e xiítas, entre curdos e árabes, entre partidários do seu regime e adversários.
Mas a resistência é mais ampla e reagrupou-se numha resistência nacional iraquiana que persegue o fim da ocupaçom. Todas as mais questons que podem dividir os iraquianos som agora secundárias ante umha ocupaçom ilegal que viola a carta de Naçons Unidas. Umha ocupaçom cujos motivos oficiais como a presença de armas de destruiçom massiva, aparecem hoje claramente como um vasto engano. Som os iraquianos quem devem decidir sobre o seu governo, nom o ocupante estado-unidense. Os EUA perdêrom já no Iraque.

- P. Os EUA perdêrom já no Iraque?

R. Pois é; quigérom excitar as tensons entre xiítas e sunnitas para provocar umha guerra civil; isto fracassou. O sentimiento nacional iraquiano dominou. A peregrinaçom de xiítas a Kerbala permitiu sobretodo a volta de milhares de opositores xiítas armados, refugiados no Irám, mas que som também anti estado-unidenses. Naturalmente tenhem a visom de um Estado islámico para o Iraque, mas unem-se a outras forças da resistência que tenhem outros pressupostos ideológicos...

Numha das suas cartas, Saddam Hussein chama os iraquianos "a utilizar as mesquitas, os casamentos e os enterros como outras tantas ocasions para se oporem à ocupaçom estado-unidense". Vam situar militares estado-unidenses em cada casamento, em cada enterro? Os serviços de informaçom dos EUA nom podem detectar as mil e unha maneiras de comunicar-se da povo iraquiano.

Quigérom requisitar as armas em poder dos iraquianos: recuperárom 250 armas e algumhas velhas bombas. Orá bem, o governo iraquiano entregou seis milhons de armas à populaçom justo antes da guerra! Prometêrom umha vitória rápida aos seus soldados, mas é todo o contrário o que se perfila.

O exército dos EUA está também dividido em classes. Os oficiais estado-unidenses instalados em hotéis com ar condicionado como o Hotel Palestina podem dizer que a situaçom melhora. Mas os soldados rasos, filhos de operários, que assam dentro das suas equipas entre 45 e 55 graus à sombra, fustigados polos partisanos iraquianos, detestados desde a criança até a avó, nom vam aturar isto muito tempo. Nom som de descartar revoltas.
No Viet Nam do Sul, os estado-unidenses dispunham de um exército de apoio de um milhom de vietnamitas, de umha rede de agentes e polícias vietnamitas e de certa base social, limitada mas existente. No Iraque, esta base nom existe...

Israel, EEUU e a pressom contra o Irám

- P. O Irám também está em plena ebuliçom. Por outras razons, um largo movimento de estudantes enfrenta o regime. Ao mesmo tempo, os EUA intensifica as pressons denunciando o programa nuclear em curso. Por quê essa vontade de hegemonia estado-unidense?

R. Desde 1992, a imprensa israelita designa o Irám como o seu principal inimigo no Oriente Médio. Como o Iraque ficou muito debilitado pola primera Guerra do Golfo, o Irám convertia-se numha possível potência com umha capacidade nuclear em desenvolvimento. Dado que o país está bastante povoado, é difícil bombardear objectivos estratégicos. Israel tentou portanto organizar provocaçons e encorajar a oposiçom monárquica ligada ao antigo Xá da Pérsia para enfraquecer o regime iraniano. Porque, apesar de umha política pragmática, e inclusive oportunista, o Irám está dirigido por umha burguesia nacional de carácter antiimperialista. A qual, em certa medida, acrescentou ainda mais a sua influência depois das guerras contra o Afeganistám e o Iraque.

- P. Acrescentou a sua influencia? O Irám semelha no entanto rodeado polos EUA que ocupam o Iraque e o Afeganistám.

R. Tomemos um mapa para explicá-lo bem. Em primeiro lugar, depois da retirada do poder dos talibám no Afeganistám, o país está balcanizado e repartido entre os senhores da guerra. Deste modo, a província de Herat, ao oeste do Afeganistám, está sob o controlo de Ismael Khan e indirectamente sob o controlo do Irám. A seguir, a Aliança do Norte, que fai parte da coligaçom no poder, está apoiada pola Rússia e polo Irám. Um diário paquistanês afirma deste modo que o ministro da Defesa, Qasim Fahim, da Aliança do Norte, estabelece vínculos com a resistência e com antigos comunistas. A Aliança do Norte, de resto, nom colabora com a facçom pró-estado-unidense em torno do presidente Karzai na luita contra as forças de resistência anti-estado-unidenses. E um dos organizadores desta resistência, o dirigente islamista Gulbudin Hekmatyar, é um aliado do Irám.

Hoje em dia, praticamente todas as organizaçons antiimperialistas, de inspiraçom religiosa ou progressista, luitam contra a ocupaçom dos EEUU e dos seus aliados. A oposiçom é muito mais forte do que contra a Uniom Soviética nos anos 80.

Os estado-unidenses som fustigados em todo o país, apanhados na armadilha como um urso atacado por milhares de mosquitos. E o seu homem, Karzai, nom controla nada, carece de base entre a populaçom e está permanentemente protegido por 300 soldados de EUA!

O eixo Rússia-Irám no petróleo asiático

- P. Quais os outros elementos que explicam a hostilidade para os EUA?

R. A aliança da Rússia e o Irám é muito forte, nom só no Afeganistám, e é um contrapeso aos planos dos EUA na regiom. Esta aliança apoia também a República da Arménia face ao seu vizinho do Azerbaijám, próximo da Turquia e dos EUA. Fai frente à Geórgia, grande aliado dos EUA na regiom. Ora, pola sua posiçom, a Arménia bloqueia os planos de fazer passar o petróleo do Azerbaijám para a Turquia em lugar de para o Irám.

Também está toda a aposta polo petróleo do mar Cáspio e cuja exploraçom é disputada, umha vez que se acha em águas internacionais. O Irám é o principal obstáculo para a sua exploraçom por parte das multinacionais petroleiras dos EUA. Aliás, está o apoio dado polo Irám aos movimientos antiimperialistas como o de Hezbollah libanês, o de Hamas e Yihad Islámica na Palestina e também o do Hezbollah saudita e do Barein. Sem esquecermos o apoio aos movimientos xiítas no Iraque que se oponhem à ocupaçom dos EUA.

Sobre 'reformistas' e 'conservadores' no Irám

- P. Afinal, ao empreender a guerra contra o Iraque e Afeganistám, os EUA conseguiu criar novos e maiores problemas para o si no futuro. Dito isto, está-se desenvolvendo umha contestaçom social contra o governo iraniano, especialmente com um ámplio movimento estudantil. Os EUA semelham apoiar este movimento reformista contra os conservadores. Como há que interpretar isto?

R. Em primero lugar, nom há que fiar-se das etiquetas reformistas e conservadores que som as mesmas que se punham no Ocidente às forças respectivamente pró-capitalistas e pró-socialistas na Uniom Soviética. Desde há um ou dous anos, há, com efeito, conflitos no seio do poder iraniano. Os EUA fam todo o possível para desenvolvê-los e agravá-los. Pola via das emissons de televisom por satélite preconizam a volta do filho do ex-Xá que estivo à cabeça de umha ditadura pró-estado-unidense até 1979.

A crisis económica é profunda, o desemprego é muito elevado com umha populaçom em que 70% tem menos de 30 anos. Umha situaçom bastante semelhante à da Argélia, onde houvo umha urbanizaçom muito rápida, sem desenvolvimento paralelo de umha economia nacional forte.

Rafsanjani, que dirige os que chamam os "conservadores", quer continuar com a política actual, a do desenvolvimento capitalista nacional, a de umha plataforma comercial na regiom (a economia de bazar), apoiando-se sobre as receitas do petróleo. Jatami, que dirige a corrente dita reformista, quer pola sua parte abrir mais o país aos capitais estrangeiros. Hoje, Rafsanjani quer impedir o desenvolvimento de um movimiento, ainda confinado polo momento às universidades, que levará inevitavelmente à guerra civil. E pode contar com o apoio do exército, da polícia, mas também do campo.

- P. Nom há que apoiar as aspiraçons sociais do movimento estudantil?

R. Há que ter ante todo umha visom internacional da situaçom e ver onde está o problema principal neste momento. Defender a soberania e a independência nacional contra o imperialismo nom é só tarefa da burguesia nacional nos países do terceiro mundo. É também a dos comunistas, que nom devem mesclar as contradiçons secundárias (particularmente aquela contra o regime iraní) e a contradiçom principal: a luita dos povos contra a ingerência estado-unidense.

Nesta altura, os EUA querem ante todo desenvolver as contradiçons no Irám para enfraquecê-lo, mas nom o atacarám. Tenhem ainda problemas de mais a resolver sobre o terreno no Iraque e no Afeganistám. Mas a sua meta estratégica é derrocar a regime, do interior ou do exterior. Nos próximos meses, a ingerência dos EUA vai a levar o governo iraniano para posiçons mais antiimperialistas se quer garantir o desenvolvimento de sua burguesia nacional.

O "Mapa de Estrada" contra a resistência palestiniana

- P. Concluamos com algumhas palavras sobre a situaçom na Palestina. O quê pensarmos das propostas de paz avançadas por Bush, a famosa "Mapa de Estrada"?

R. Nom se trata em modo algum de paz. Trata-se de deter a resistência palestiniana que é o motor da conciência do nacionalismo em todo o mundo árabe [2]. É esta resistência também que fai tremer regimes como o do Egipto e o de Arábia Saudita.

Você sabe que no seu encontro em Aqaba (Jordánia) com o palestiniano Abu Mazen e o israelita Sharon, Bush falou de um Estado judeu, a respeito de Israel. Nengum presidente dos EUA tinha falado ainda nestes termos. Um Estado judeu é um Estado que excluirá os árabes israelitas, que excluirá os israelitas nom crentes e que nomeadamente excluirá a volta dos refugiados palestinianos às terras donde fôrom expulsos em 1948. É a visom da dereita protestante estado-unidense que quer transformar a luita de libertaçom nacional palestiniana numha guerra de religions, como na Irlanda do Norte, umha história sem fim.

Quando se sabe que membros do Congresso dos EUA avaliam hoje a hipótese de enviar tropas a Israel para combater o que chamam o terrorismo, vemos aonde é que querem chegar: a esmagar a resistência e criar um suposto Estado palestiniano bantu, como o havia na Sul-África com o Apartheid.

- P. Hoje Israel e os EUA apontam especialmente para Hamas. Nom é umha organizaçom integrista?

R. Em primeiro lugar, atacando Hamas, Israel e os EUA apontam para todas as organizaçons de resistência palestiniana. Incluídas as organizaçons progressistas como a Frente Popular para a libertaçom da Palestina [FPLP] e a Frente Democrática de Libertaçom da Palestina [FDLP].

Em segundo lugar, Hamas é ante todo umha organizaçom nacionalista, motivada por sentimientos religiosos mas cuja prática é a luita pola independência da Palestina. Há que ver o que caracteriza fundamentalmente um movimento num contexto dado. Engels e depois Lenine defendêrom que havia incluso que apoiar o emir do Afeganistám, chefe feudal, quando se tratava de combater a invasom británica deste país a finais do seculo XIX. O mesmo quando líderes islámicos sudaneses se opugérom à colonizaçom.




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