Mais concertos probidos: a censura imposta pola direita espanhola estende-se agora na música

3 de Setembro de 2003

Na Galiza já sabemos o que é a proibiçom de concertos musicais. No passado mês de Abril fôrom sucessivamente proibidos polo Governo municipal de Compostela na altura (PSOE-BNG) um concerto contra a guerra organizado por AGIR, a organizaçom estudantil independentista, e a seguir um outro em que actuaria Soziedad Alkohólica. O motivo: as letras "separatistas" e "anti-espanholas" de grupos participantes como os galegos Matraka Perversa, os cataláns Inadaptats e os bascos Berri Txarrak.

Se alguém pensava que se tratava de casos isolados ou pontuais, agora temos ocasiom de comprovar que a censura espanhola vai a sério e se generaliza. Com a ultra Asociación de Víctimas del Terrorismo (AVT) como instigadora, e de novo com a inestimável colaboraçom dos meios de "comunicaçom", o basco Fermín Muguruza e o galaico-francês Manu Chao vem como os impedem de actuar nas cidades espanholas de Múrcia e Málaga.

A AVT acendeu o ambiente inquisitorial afirmando que Muguruza é "um declarado militante de Batasuna e este evento espezinha a dignidade de umha vítima do terrorismo". Imediatamente, diferentes jornais regionais seguírom a palavra de ordem da Asociación protegida do PP, enchendo páginas de mentiras, difamaçons e insultos contra os grupos musicais bascos. A organizaçom dos concertos tentou entom que Manu Chao actuasse sem Muguruza, deparando com a digna negativa de Chao.

Em momentos como estes, acha-se em falta o posicionamento público de toda essa constelaçom de intelectuais "de esquerdas" que, igual que na Galiza meses atrás, também no Estado espanhol estám a ficar calados ante o avanço das posiçons mais fascistas promovidas polo PP. Há excepçons, mas por acaso venhem da Catalunha. É o caso do cantautor Lluís Llach, que atribuiu a vaga censora à "repressom cultural exercida pola ultradireita governante", que "fai servir a Constituiçom para aniquilar alguns direitos fundamentais das pessoas". Com clareza digna de reconhecimento, Llach denunciou que "neste país começa-se a proibir recitais segundo as tendências políticas de alguns dos músicos". Também denunciou que se podam censurar actos culturais "porque um guitarrista pertence ou é simpatizante de um grupo abertzale ou de HB, que dito seja de passagem, foi ilegal até há poucos dias e foi vergonhosamente ilegalizada".

O próprio Lluís Llach mostrou a sua surpresa por nom ter visto "declaraçons de gente que deveria ser sensível à liberdade de expressom, que para mim sempre será a gente de esquerdas". "A ultradireita", acrescentou, "está tam poderosa que se vê capacitada a fazer estas cousas sem que caiam os dentes a ninguém".

A seguir, reproduzimos um artigo de opiniom assinado por Maite Soroa no jornal basco Gara sobre o mesmo tema:

Os do No-Do vetam Muguruza e Chao

Gara, 3 de Setembro de 2003

A suspensom de vários concertos de Fermín Muguruza e Manu Chao em terras da península, além de umha preciosa mostra do ADN da intransigência, foi qualquer cousa como um toque de corneta militar, decerto para que os explicadores do Regime saíssem dos seus aquartelamentos e pugessem em marcha as suas baterias todas.

E é que quando, após ilegalizar partidos, clausurar meios de comunicaçom e mandar para prisom políticos opositores, se turra também contra os artistas que cantam coplas que desgostam ao mandamais, fai falta um verdadeiro esforço dialéctico para demonstrar que nom nos achamos perante umha ditadura, crua e nua.

Em "La Verdade de Murcia" o chamado a explicar as bondades da censura era um tal J.A. Martínez-Abarca. Sob o título "Rock radikal basco", o escrevente em causa explicava em que tinha consistido este movimento musical, protagonizado por "muitos grupos que nom sabiam nem pegar num instrumento". O sustrato social em que se desenvolveu era "composto sobretudo por filhos de imigrantes maketos sem ofício e aditos ao cavalo, que buscavam redimir-se socialmente mediante a adscriçom ao racismo batasuno ou escoira dos arrabaldes que se dedicava a viver subsidiada poa grande casa mae da rede etarra".

Nom se assustem a leitora e o leitor, porque o LSD ou qualquer outra substáncia deu de si mais pérolas no mesmo artigo. Assim, afirma-se que os rockeiros bascos "em lugar de ilustrar a canalha com versos grosseiros, doutrinavam-nos a berros num novo nazismo comunista que nalguns casos os fazia trespassar a fronteira pirenaica, a "muga", e pegar materialmente nas armas. Casos como o do grupo Kortatu som bem claros ao respeito: se nom tivessem morrido antes dos efeitos da drogadiçom, teriam morrido frente à Guardia Civil". Como podem comprovar, os alucinógenos som maus parceiros do jornalista.

E a partir daí, mais alucinaçons e insultos. A Soziedade Alkohólica toca-lhe o de "récua de arrastados piolhosos próximos da delinqüência" e a Manu Chao, "arquimandrita da populosa pulgaria internacional".

Ramón Serrano Suñer, cunhadíssiom de Franco e propagandista da ditadura, faleceu, mas a sua semente germinou ao longo de toda a "pele de touro". Terminarám por ressuscitar o No-Do.




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