O militarismo e as guerras vindouras

Pola sua actualidade e interesse, apresentamos a versom galega de um trabalho de István Mészáros, Professor Emérito de Filosofia e Teoria Política, Universidade de Sussex (Reino Unido) e autor de vários livros incluindo Beyond Capital; Marxist Theory of Alienation; Works of Sartre; Search for Freedom; Philosophy, Ideology and Social Science; The Power of Ideology. Neste trabalho, escrito antes da recente guerra imperialista contra o Iraque, o autor estuda o fenómeno do militarismo como parte consubstancial do capitalismo imperialista e o beco sem saída da aniquilaçom da espécie humana a que conduzirá se nom for globalmente superado polo movimento revolucionário socialista.

 

O militarismo e as guerras vindouras
István Mészáros

1

Nom é a primeira vez na História, nos nossos dias, que o militarismo pesa na consciência dos povos como um pesadelo. Entrar em pormenores seria demasiado longo. Basta, contudo, remontar ao século XIX, quando o militarismo como importante instrumento da tomada de decisons políticas se afirmou, com a erupçom do imperialismo moderno à escala mundial, em contraste com as suas variedades iniciais, muito mais limitadas. No último terço do século XIX, nom só os Impérios Británico e Francês dominavam vastos territórios, como também os Estados Unidos deixárom a sua pesada marca ao tomarem directa ou indirectamente o controlo das antigas colónias do Império Espanhol na América Latina, acrescentando-lhes a sangrenta repressom de umha grande luita de libertaçom nas Filipinas e instalando-se como dirigentes nessa regiom de um modo que ainda persiste de umha forma ou de outra. Também nom devemos esquecer as calamidades provocadas polas ambiçons imperialistas do "Chanceler de Ferro" Bismarck e prosseguidas de forma reforçada polos seus sucessores, que provocárom o desencadear da Primeira Guerra Mundial e o seu rescaldo profundamente antagónico, trazendo consigo o revanchismo de Hitler e pressagiando assim muito claramente a própria Segunda Guerra Mundial.

Os perigos e sofrimentos imensos causados por todas as tentativas de resoluçom de problemas sociais profundamente arreigados através de intervençons militares, seja a que escala for, som sobejamente evidentes. Todavia, se observarmos mais de perto a tendência histórica das aventuras militaristas, verificamos de forma assustadoramente clara que elas revelam umha intensificaçom cada vez maior e umha escala cada vez mais ampla, que vai de confrontos locais até duas terríveis guerras mundiais no século XX e à potencial aniquilaçom da Humanidade, quando chegar a nossa vez.

É bastante pertinente citar, neste contexto, o distinto oficial prussiano e estratega, nom só prático como teórico, Karl Marie von Clausewitz (1780-1831), que morreu no mesmo ano que Hegel, igualmente de cólera. Foi von Clausewitz, Director da Escola Militar de Berlim nos últimos treze anos da sua vida, que, no seu livro publicado a título póstumo - Vom Kriege ("Sobre a Guerra", 1833) -, deu umha definiçom clássica e ainda hoje freqüentemente citada da relaçom entre a política e a guerra: " a guerra é a continuaçom da política por outros meios".

Esta famosa definiçom era sustentável até há muito pouco tempo, mas tornou-se totalmente insustentável nos nossos dias. Pressupunha a racionalidade das acçons que estabelecem umha ligaçom entre os domínios da política e da guerra como continuaçom umha da outra. Neste sentido, a guerra em causa tinha de ser vencível , polo menos em princípio, mesmo se se podiam prever erros de cálculo que levassem à derrota a nível instrumental. A derrota em si nom podia destruir a racionalidade da guerra como tal, dado que, depois da - todavia desfavorável - nova consolidaçom da política, a parte derrotada podia planear outra ronda de guerra como continuaçom racional da sua política por outros meios. Assim, a condiçom absoluta da equaçom de von Clausewitz a satisfazer era a vencibilidade da guerra em princípio, de modo a recrear o "eterno ciclo" da política que leva à guerra e desta à política que leva a outra guerra e assim por diante ad infinitum. Os intervenientes nestes confrontos eram os Estados nacionais. Nom importava quam monstruosos eram os danos infligidos aos adversários, e mesmo ao seu próprio povo (recordem-se de Hitler!), a racionalidade da acçom militar estava garantida se a guerra pudesse ser considerada vencível em princípio.

Actualmente, a situaçom é qualitativamente diferente. Por dous motivos principais. Primeiro, o objectivo da guerra viável na fase actual de desenvolvimento histórico, em conformidade com os requisitos do imperialismo em termos de objectivo - a dominaçom mundial polo Estado mais poderoso do capital, em sintonia com os seus próprios desígnios políticos de "globalizaçom " autoritária impiedosa (disfarçada de "comércio livre" num mercado mundial dominado polos EUA) -, é finalmente nom vencível , pressagiando, antes polo contrário, a destruiçom da Humanidade. Nem o mais peregrino exercício de imaginaçom poderia levar a considerar tal objectivo como racional de acordo com o requisito racional estipulado da "continuaçom da política por outros meios" conduzido por umha naçom, ou por um grupo de naçons contra outra. Impor agressivamente a vontade de um Estado poderoso a todos os outros, mesmo que por razons tácticas de cinismo a guerra defendida seja absurdamente camuflada como umha "guerra puramente limitada" que conduz a outras "guerras limitadas sem fim determinado", apenas pode, por conseguinte, ser qualificado de irracionalidade total .

O segundo motivo reforça grandemente o primeiro. No que se refere às armas já disponíveis para vencer a guerra ou guerras do século XXI, existem pola primeira vez na História armas capazes de exterminar nom apenas o adversário mas toda a Humanidade. Também nom devemos ter a ilusom de que essas armas serám as últimas a serem desenvolvidas. Outras armas, ainda mais eficazmente mortais, poderám surgir amanhá ou depois de amanhá. Além disso, a ameaça de utilizaçom dessas armas é actualmente considerada um instrumento estratégico inaceitável. Assim, juntemos os dous motivos acima expostos e a conclusom é incontornável: encarar a guerra como mecanismo de dominaçom global no mundo actual demonstra que nos encontramos no precipício da irracionalidade absoluta, do qual nom poderemos recuar se aceitarmos o actual curso de desenvolvimento. O que faltava na definiçom clássica de guerra de von Clausewitz como "continuaçom da política por outros meios" era a procura das causas subjacentes mais profundas da guerra e a possibilidade de as evitar. O desafio que consiste em enfrentar essas causas é hoje em dia mais urgente do que nunca: a guerra do século XXI que se perfila no horizonte nom só nom é "vencível em princípio", mas, pior do que isso, é em princípio nom vencível . Por conseguinte, perspectivar o prosseguimento da guerra, tal como o fai o documento de estratégia da administraçom americana, de 17 de Setembro de 2002, fai com que a irracionalidade de Hitler pareça um modelo de racionalidade.

2

Desde o 11 de Setembro de 2001 que Washington tem vindo a impor as suas políticas agressivas ao resto do mundo de forma claramente cínica. A justificaçom dada para a pretendida transiçom da "toleráncia liberal" para o que agora se designa por "defesa firme da liberdade e da democracia" é que, em 11 de Setembro de 2001, os EUA se tornárom vítima do terrorismo mundial, e que esta circunstáncia exige como resposta imperativa vencer umha indefinida e indefinível - mas de facto arbitrariamente definida da forma como convém aos círculos mais agressivos dos EUA - "guerra contra o terrorismo". Considera-se que a expediçom militar no Afeganistám nom passa da primeira de umha série ilimitada de "guerras preventivas" a empreender no futuro. A próxima na lista é o próprio Iraque, grande aliado favorecido da América até há bem pouco tempo, a fim de permitir a apropriaçom polos EUA dos vastos recursos petrolíferos do Médio Oriente - e com o objectivo de assegurar o controlo, estrategicamente crucial, dos mesmos recursos dos potenciais rivais.

Todavia, a ordem cronológica na actual doutrina militar norte-americana é apresentada completamente invertida. Na realidade, está fora de questom umha "mudança de rumo" após o 11 de Setembro de 2001, considerada possível pola dúbia eleiçom de G. Bush para a Presidência em lugar de Al Gore, dado que o democrata Clinton aplicava o mesmo tipo de políticas que o seu sucessor republicano, embora de umha forma um pouco mais camuflada. Quanto ao ex-candidato democrata à presidência Al Gore, declarou em Dezembro de 2002 que apoiava integralmente a guerra contra o Iraque, porque essa guerra "nom significaria umha mudança de regime" mas apenas o "desarmamento de um regime que possui armas de destruiçom massiva". É possível ouvir algo de mais cínico e hipócrita do que isto?

Há muito que estou firmemente convencido de que, desde o início da crise estrutural do capital nos finais dos anos 60 ou princípios dos anos 70, vivemos numa fase do imperialismo qualitativamente diferente, com os Estados Unidos como força esmagadoramente dominante. Chamei-lhe "a nova fase histórica do imperialismo hegemónico mundial" no meu livro Socialism or Barbarism: From the 'American Century' to the crossroads (Socialismo ou Barbárie: do "Século Americano" à Encruzilhada).

A crítica do imperialismo norte-americano - em contraste com as fantasias moldáveis do "imperialismo desterritorializado", que nom deveria acarretar a ocupaçom militar dos territórios de outras naçons - constitui o tema central do meu livro. O longo capítulo intitulado " The potentially deadliest phase of imperialism" (a fase potencialmente mais mortal do imperialismo ) foi escrito dous anos antes do 11 de Setembro de 2001 e fazia parte de umha palestra proferida em 19 Outubro de 1999, em Atenas. Nesse artigo, sublinhei que "a forma derradeira de ameaçar o adversário no futuro - a nova 'diplomacia de canhoneira' - será a chantagem nuclear ". Desde a data em que estas linhas fôrom publicadas, pola primeira vez num periódico grego, até à data de publicaçom do livro, em italiano, em Agosto de 2000, a abominável e prevista mudança de estratégia militar para a derradeira ameaça nuclear - que poderia dar início a umha acçom militar que precipitaria a destruiçom da Humanidade - deixou de ser camuflada, passando a ser a política norte-americana oficial abertamente professada. Também nom deveríamos imaginar que a declaraçom aberta de tal doutrina estratégica é umha tranquila ameaça contra um "eixo do mal" retoricamente propagandeado. No fim de contas, fôrom os Estados Unidos que utilizárom realmente a arma atómica de destruiçom massiva contra os habitantes de Hiroshima e Nagasaki.

Quando reflectimos nestas questons de extrema gravidade, nom nos podemos satisfazer com nengumha sugestom que aponte para umha conjuntura política particular e de transiçom. Antes polo contrário, devemos inseri-las no seu contexto de desenvolvimento estrutural - económica e politicamente necessário - profundamente enraizado. Isto é extremamente importante, se quigermos conceber umha estratégia viável para combater as forças responsáveis polo nosso perigoso estado de cousas. A nova fase histórica do imperialismo hegemónico mundial nom é simplesmente a manifestaçom das relaçons existentes da "grande política do poder ", com vantagem esmagadora para os EUA, contra a qual um realinhamento futuro entre os Estados mais poderosos, ou mesmo algumhas manifestaçons bem organizadas na arena política, poderia afirmar-se. Infelizmente, é muito pior do que isso, pois tais eventualidades, mesmo que pudessem resolver algo, deixariam inalteradas as causas e determinaçons estruturais subjacentes.

Efectivamente, a nova fase de imperialismo hegemónico mundial está preponderantemente sob o controlo dos EUA, ao passo que os outros poderes eventualmente imperialistas no seu conjunto parecem aceitar o papel de se pendurarem na aba do casaco dos norte-americanos, embora de modo algum até à eternidade. Podemos de facto prever sem hesitaçom, com base nas instabilidades já visíveis, a explosom de pesados antagonismos entre as maiores potências no futuro. Mas será que isso em si, ignorando as determinaçons causais que estám na raiz dos desenvolvimentos imperialistas, poderá dar umha resposta às contradiçons sistémicas que estám em jogo? Seria ingenuidade pensar que tal será possível.

Neste ponto, gostaria de sublinhar umha preocupaçom central, ou seja que a lógica do capital é absolutamente inseparável dos imperativos da dominaçom do mais fraco polo mais forte. Mesmo quando se pensa no que em geral se considera o elemento mais positivo do sistema - a competiçom que dá origem à expansom e ao progresso - o seu companheiro necessário é o caminho para o monopólio e a subjugaçom ou o extermínio dos concorrentes que se atravessam no caminho do monopólio auto-afirmativo. O imperialismo, por sua vez, é o resultado necessário da marcha inelutável para o monopólio. As diferentes fases do imperialismo personificam e afectam mais ou menos directamente as mudanças do desenvolvimento histórico em curso.

Relativamente à actual fase em que se encontra o imperialismo, dous aspectos estreitamente relacionados assumem extrema importáncia. O primeiro é que a última tendência material/económica do capital é para a integraçom mundial que, todavia, nom pode assegurar a nível político. Isto deve-se em grande medida ao facto de o sistema capitalista mundial se ter fragmentado ao longo da História sob a forma de umha multiplicidade de Estados nacionais divididos e, na realidade, antagonicamente opostos. Nem sequer as mais violentas colisons imperialistas do passado pudérom produzir um resultado duradouro a este respeito. Nom pudérom fazer com que o Estado nacional mais poderoso impugesse de forma permanente a sua vontade aos Estados rivais. O segundo aspecto do nosso problema, que constitui a outra face da mesma moeda, é que, apesar de todos os esforços, o capital nom conseguiu produzir o Estado do sistema capitalista enquanto tal . Isto continua a ser a mais grave complicaçom para o futuro, nom obstante tudo o que se diz da " globalizaçom ". O imperialismo hegemónico mundial dominado polos EUA é umha tentativa, em última análise condenada, de se impor a todos os outros - mais cedo ou mais tarde recalcitrantes - Estados nacionais como o Estado "internacional" do sistema capitalista enquanto tal. Também neste ponto nos deparamos com umha contradiçom de peso, pois mesmo os recentes, mais agressivos e abertamente ameaçadores documentos de estratégia dos EUA tentam justificar as suas políticas apelidadas de "universalmente válidas" em nome dos "interesses nacionais americanos", recusando ao mesmo tempo essas consideraçons aos outros.

3

Aqui podemos ver a relaçom contraditória entre umha contingência histórica - encontrando-se actualmente o capital americano na sua posiçom preponderante - e a necessidade estrutural do próprio sistema capitalista. Este último pode ser resumido como o avanço material irreprimível do capital no sentido da integraçom monopolística mundial seja por que preço for, mesmo que signifique pôr directamente em perigo a própria sobrevivência da Humanidade. Por conseguinte, mesmo que se poda vencer no plano político a força da actualmente prevalecente contingência histórica dos EUA - que foi precedida de outras configuraçons imperialistas no passado e pode muito bem ser seguida de outras no futuro (se conseguirmos sobreviver aos actuais perigos explosivos) -, a necessidade estrutural ou sistémica emanente da lógica finalmente monopolística mundial continua a ser tam pressionante como sempre. Pois seja qual for a forma específica que umha futura contingência histórica poda assumir, a necessidade sistémica subjacente tem de continuar a ser a marcha para a dominaçom mundial.

Por conseguinte, a questom nom reside apenas em determinados empreendimentos militaristas de alguns círculos políticos, empreendimentos esses que poderiam ser enfrentados e superados ao nível político-militar. As causas som muito mais profundas e nom podem ser combatidas sem a introduçom de mudanças bastante fundamentais nas determinaçons sistémicas mais internas do capital como modo de controlo social metabólico - de reproduçom global - que abarca nom só o domínio político-militar, mas também as mais mediatas inter-relaçons culturais e ideológicas. Até a expressom "complexo militar-industrial" - introduzida numha acepçom crítica polo Presidente Eisenhower, que sabia algumhas cousas sobre esta questom - indica claramente que aquilo que nos preocupa é algo de muito mais firmemente enraizado e tenaz do que algumhas determinaçons (e manipulaçons) político-militares directas que poderiam, em princípio, ser invertidas a esse nível. A guerra como a "continuaçom da política por outros meios" ameaçará-nos sempre no actual modelo de sociedade, e nos nossos dias com aniquilamento total. Ameaçará-nos enquanto nom formos capazes de enfrentar as determinaçons sistémicas na raiz da tomada de decisons políticas, que tornárom as guerras necessárias no passado. Essas determinaçons encurralavam os vários Estados nacionais no círculo vicioso da política conducente a guerras, e as guerras traziam consigo políticas cada vez mais antagónicas que tinham de explodir em guerras cada vez maiores. Para este debate e de forma um tanto optimista, abstraiamo-nos da contingência histórica do capitalismo americano actual e continuaremos ainda em presença da necessidade sistémica da cada vez mais destruidora ordem de produçom do capital, o que realça as mutáveis mas crescentemente perigosas contingências históricas específicas.

A produçom militarista, hoje em dia primariamente personificada no "complexo militar-industrial", nom é umha entidade independente, regulada por forças militaristas autónomas que som também responsáveis polas guerras. Rosa Luxemburgo foi a primeira a colocar estas relaçons na sua perspectiva correcta, já em 1913, na sua obra clássica A Acumulaçom do Capital [1] , publicada em inglês cinqüenta anos mais tarde, e na qual a autora sublinhava profeticamente, há noventa anos, a crescente importáncia da produçom militarista, sublinhando que:
"Em última análise, o próprio capital controla este movimento automático e rítmico de produçom militarista através da acçom legislativa e de umha imprensa cuja funçom consiste em moldar a chamada "opiniom pública". É por isso que este domínio particular da acumulaçom capitalista parece capaz de expansom ilimitada."

Estamos, por conseguinte, preocupados com um conjunto de indeterminaçons que devem ser encaradas como partes de um sistema orgánico. Se queremos luitar contra a guerra enquanto mecanismo de governo mundial, como o devemos fazer, a fim de salvaguardar a nossa própria existência, temos de situar as mudanças históricas que tivérom lugar nas últimas décadas no seu quadro causal próprio. A concepçom de um Estado nacional superpoderoso, que controlaria todos os outros, seguindo os imperativos emanentes da lógica do capital, só pode conduzir ao suicídio da Humanidade. Ao mesmo tempo, deve também reconhecer-se que a contradiçom aparentemente insolúvel entre aspiraçons nacionais - que explodem ciclicamente em antagonismos devastadores - e internacionalismo só pode ser resolvida se for regulada numha base totalmente equitativa, o que é completamente inconcebível na ordem hierarquicamente estruturada do capital.

Assim sendo, a fim de conceber umha resposta historicamente viável aos desafios colocados pola actual fase do imperialismo hegemónico mundial, devemos combater a necessidade sistémica do capital de subjugaçom do trabalho a nível global por meio de qualquer agência social específica que poda assumir o papel que lhe é atribuído nessas circunstáncias. Naturalmente isto só é viável através de umha alternativa - radicalmente diferente - ao caminho do capital para a globalizaçom monopolista/imperialista, no espírito do projecto socialista, incorporada num movimento de massas que desabroche progressivamente. Pois só quando essa "patria es humanidad" - para utilizar as belas palavras de José Martí - se tornar umha realidade irreversível, é que a contradiçom destrutiva entre desenvolvimento material e relaçons políticas humanamente compensadoras será definitivamente relegada para o passado.

Permitam-me concluir citando o que escrevim há três anos e meio atrás sobre a chamada "terceira via", tam cara aos propagandistas do governo "neo-trabalhista" británico e outros quejandos. Foi assim que vi a soluçom e é assim que continuo a vê-lo agora:
"Aqueles que falam de 'umha terceira via' como soluçom para o nosso dilema de Socialismo ou Barbárie , afirmando que nom pode haver lugar para o renascimento de um movimento de massas radical, ou querem desiludir-nos chamando cinicamente à sua aceitaçom esclavagista da ordem dominante 'a terceira via', ou nom conseguem entender a gravidade da situaçom, colocando a sua fé num resultado que desejam positivo e nom conflitual, que vem sendo prometido há quase um século, mas que nunca estivo próximo, nem sequer de mais umha polegada. A inquietante verdade desta questom é que, se nom há futuro para um movimento de massas radical na nossa época, tal como alguns dizem, também nom pode haver futuro para a própria Humanidade.

Se eu tivesse de alterar as dramáticas palavras de Rosa Luxemburgo, relativamente aos perigos que enfrentamos hoje, acrescentaria a "socialismo ou barbárie": "barbárie, se tivermos sorte" - no sentido de que o extermínio da Humanidade é a última concomitante da via de desenvolvimento destrutiva do capital. E o mundo dessa terceira possibilidade, para além das alternativas de "socialismo ou barbárie", apenas serviria para as baratas, que se di serem capazes de agüentar elevados níveis mortais de radiaçons nucleares. É este o único significado racional de terceira via do capital.

A terceira fase actualmente operacional e potencialmente mortífera do imperialismo hegemónico mundial, correspondente à profunda crise estrutural do sistema capitalista como um todo no plano político e militar, nom nos permite tranquilidade nem nos dá segurança. polo contrário, lança a sombra mais negra possível sobre o futuro, se o movimento socialista nom for capaz de resolver com êxito os desafios históricos que enfrenta, no espaço de tempo que temos ao nosso alcance. É por este motivo que o próximo século terá de ser o século do 'socialismo ou barbárie'."

[1] The Acumulation of Capital, Routledge, Londres, 1963.




Voltar à página principal