O teatro afegao
Txente Rekondo, do Gabinete Basco de Análise Internacional (GAIN).
Artigo publicado no GARA de 20 de Agosto de 2003
O Afeganistám celebrou ontem (19 de Agosto) o seu dia da independência
do império británico em 1919, no meio dumha crescente vaga de
ataques da resistência contra as forças ocupantes e o governo
fantoche de Hamid Karzai, cada vez mais falto de apoio entre os afegaos e
mais dependente do seu valedor, os Estados Unidos.
Apresentado em ocasions como um "dano colateral" da invasom do Iraque,
o teatro afegao volta a saltar às primeiras páginas dos meios
nestes dias. O aumento dos ataques por todo o país, a presença
constatada dum maior número de militantes da resistência, o despregamento
da NATO, tenhem sido alguns dos argumentos que levam este país novamente
às páginas da actualidade.
Nestes momentos,
o Afeganistám apresenta umha fotografia bastante complexa para os interesses
das potências ocidentais. A atitude prepotente das tropas estado-unidenses
provoca raiva e rejeitamento entre a populaçom civil; os talibáns
estám ressurgindo por todo o país, com umha nova estrutura de
mando, com o Mulla Mamad Omar como líder e dez comandantes em outras
tantas regions; os ataques da resistência aumentan qualitativa e quantitativamente;
os senhores da guerra continuam imersos em disputas polo controlo de zonas
locais; o cultivo do ópio voltou a disparar-se; fora do centro de Cabul
nom existe nengumha administraçom do governo central...
O que ninguém pode ocultar é o avanço organizativo e
militar que está produzindo-se à volta da resistência.
Os talibáns, os membros da Frente Islámica Internacional de
Osama Bin Laden e Hizb-e-Islami de Gulbuddin Hekmatyar, som os seus referentes.
Embora oficialmente nom se tenha produzido umha aliança, alguns dados
permitem assinalar que por trás da organizaçom "Saiful
Muslemeen" (A espada dos Mussulmanos), estariam esses grupos coordenando-se
a nível local. Nestes momentos os objectivos militares dessa organizaçom
abrangem um amplo leque, os membros das tropas estrangeiras, os trabalhadores
de organizaçons estrangeiras, toda a administraçom de Karzai
(polícia, militares...), os clérigos que apoiam o regime de
Cabul...
A cada vez mais
delicada posiçom de Karzai torna também evidente. O seu apoio
público à invasom do Iraque, a dependência dos Estados
Unidos (os seus guardacostas som norte-americanos), as discrepâncias
na sua coligaçom, som sintomas que apontan nessa direcçom e
mostram um governo fantoche, recluído em Cabul e com um apoio mínimo
entre a populaçom.
Por outro lado,
os ataques contra cidades e postos da polícia tenhem suposto um salto
qualitativo na estratégia da resistência afegá. Com essas
acçons enviam umha dupla mensagem. Em primeiro lugar, ao governo interino
de Karzai e aos seus aliados, quem cada vez tenhem a sua moral mais baixa
e as divisons internas fam-se mais patentes. Mas também é umha
mensagem para os seguidores ou potenciais membros da resistência, mostrando
umha esperança de vitória e de mudança.
Em Outubro espera-se a celebraçom dumha Loya Jirga (Grande Conselho)
que debaterá sobre umha nova constituiçom. Porém, o Afeganistam
nom pode examinar-se sob os parámetros ocidentais, o seu sistema político
e social nom cabe nas definiçons ao uso de "democracia",
"estado-naçom", etc. A maioria dos afegaos estám cansados
da guerra e procuram desesperadamente a paz. É certo que o regime talibám
nom guarda bons recordos para eles e que as diferenças étnicas
ainda perduram, porém, e apesar de todo isso, as ánsias por
umha situaçom em paz poderia inclinar a balança face um lado
ou outro.
Por enquanto,
e fugindo de especulaçons futuristas, nem os mais optimistas presságios
de Bin Laden e os seus aliados teriam esperado umha situaçom como a
actual. Como o definiu um militante islamista, "nestes momentos os EUA
tenhem umha perna enlamada no Iraque e a outra enlamada no Afeganistám",
o que o fai mais vulnerável e, ao mesmo tempo, alimenta os objectivos
dos seus inimigos