De histérias, de condenas e de idiotas. A propósito dum artigo de X.M. Sarille
Entre as muitas
reflexons e análises que suscitou o desenvolvimento da crise nacional
que se inicia em Novembro e tem a sua continuaçom na movimentaçom
de massas contra a agressom imperialista ao Iraque ha de ter um merecido lugar
de destaque a que X.M. Sarille assina na Quinta feira 10 de Abril no semanário
A Nosa Terra. Nom vai ganhar tal posiçom, desde logo, por qualquer
suposta qualidade literária do textinho, muito menos por nengumha finura
analítica. De atendermos estritamente a tal critério, o artigo
ficaria nesse monte inacabável de redacçons toscas, tópicas
e gastas (isso si, enfeitadas com certa pretensom de transcendência)
que inçam a imprensa que padecemos e elevam pressuntos analistas a
guardáns de nom se sabe que essências democráticas. O
salientável das linhas que nos ocupam reside, precisamente, em constituir
um dos primeiros exemplos de emulaçom -por parte dumha pessoa dita
progressista- dessa conhecida récua de jornalistas especializados na
beligeráncia anti-independentista e na dissecçom da conflituosidade
social galega em coordenadas para-policiais. A diferença, porém,
com um Carlos Luís Rodríguez, um Xavier Navaza ou um Demetrio
Peláez, é clara. Estes têm umha velha funçom encomendada;
qualquer repasso às hemerotecas pode dar-nos um perfil atinado do mui
definido posto que estas personagens jogam na engrenagem mediática
do fascismo alimentado ao acubilho do PP galego, e da recompensa em espaços
jornalísticos que se deriva daquela. Que nós saibamos, X.M.
Sarille, além de activista pola língua e autor dumhas medíocres
colunas de ortodoxia autonomista revestidas com celofám independente
e crítico, carece de qualquer vínculo com a oficialidade política
que reparte prebendas e estabelece correcçons e incorrecçons
éticas a toque de corneta. Isto faz, pensamos, particularmente grave
o caso, e ainda que o artigo carece de originalidade, ganha-a o seu autor
com contorsons tam impúdicas.
O tema elegido polo nosso ponente é o da violência política
e, de maneira lateral, o dos projectos que a esta se ligam. Sobre violência
poderíamos falar de avondo e, para começar, quiçá
nom estivesse de mais estabelecer (ou postular) umha certa relaçom
de proporcionalidade informativa quando damos com tema tam espinhento. Quer
dizer, que nestes tempos convulsos nos que tantos clamam contra o estado de
excepçom permanente instaurado nos EEUU, bom seria, à vez que
se informa sobre os ataques ao PP, deitar a olhada no Estado espanhol e à
nossa geografia política mais próxima e começar a acender
alarmas por regressons tam graves que só míopes ou malintencionados
podem esquivar; sem esgotar ninguém com um relatório exaustivo,
bem poderiam aproveitar as suas caras influências e espaços mediáticos,
dos que outr@s andamos tam carentes, para contar como é que certas
alternativas políticas vivem na ilegalidade de facto frente a opulência
de meios e inúmeras possibilidades dos tocados pola graça do
pragmatismo: exibiçons de agressividade e violência como pendurar
umha faixa ou escrever umha consigna num muro som hoje puníveis com
prisom em certos Concelhos; alcaldias progressistas podem suspender festas
e concertos; mobilizaçons convencionais som ilegal e explicitamente
filmadas, e participantes em actos de protesto convenientemente identificad@s,
insultad@s ou agredid@s. Tinha pensado dar ao senhor Sarille umha referência
concreta para consultar sucessos como estes nas hemerotecas, mas ia-lhe ser
difícil topá-los, e até mesmo n'A Nosa Terra teria que
recorrer a óculos de certa gradaçom para fazer-se umha composiçom
de lugar do rápidas e massivamente incontestadas que estám a
ser as medidas de liquidaçom dos ribetes democráticos neste
regime de monarquia espanhola. As colunas das pessoas cívicas que como
ele - já sabemos, partidários de políticas incisivas-
estám entretidas e mui satisfeitas centram-se em denunciar o recorte
das garantias processais em Norteamérica ou a chularia castiça
de Aznar no Congresso dos Deputados espanhol.
Chamadas de atençom tam sentidas e legítimas como surpreendentes.
A sá sensibilidade democrática activada por afastadas injustiças
e incumprimentos institucionais muda em cegueira voluntária quando
a vítima nom é do agrado e carece da bençom necessária.
Porque a vítima -e velaqui o aspecto central do artigo citado- nom
é tal. A começar, porque nom existe nessa condiçom. A
privaçom de direitos fundamentais, a perseguiçom, ou a agressom
física d@s dissidentes fôrom já invisibilizados pola profilaxe
mediática e a interessada deformaçom de movimentos que, como
o autonomista, teimam na sua conversom acelerada em fazer habitável
e legitimável um quadro de despotismo e absoluta ausência desse
direito tam reiteradamente invocado. O que para nós (para qualquer
indivíduo desprejuizado) é umha pessoa violentada na sua condiçom
de cidadao ou cidadá galeg@, é antes disso, um agressor irreflexivo
que, dispondo de todos os meios ao seu alcanço para a livre expressom,
dinamita a paz social e desata a caçaria da direita contra o progressismo
responsável e construtivo. Daí que o senhor Sarille nos cite
com paternalismo modelos de política cívica inteligente e os
contraponha à ira destrutiva do totalitário. Nem que dizer tem
nestas páginas que a história do independentismo e a esquerda,
suponhemos que absolutamente desconhecida para o columnista, nom conhece divisom
talhante entre formas de intervençom social e política, legais,
alegais ou ilegais, e que da imaginaçom e a originalidade -pacífica
ou violenta, ou ambas à vez- têm saído inúmeros
processos políticos protagonizados polas causas emancipadoras. Mas
o totalitário nom reparte panfletos, nom lê, nom propom jamais
campanhas de desobediência pacífica. O totalitário destrói:
pratica sabotagens, golpeia umha cabina telefónica (repare-se na equiparaçom...),
insulta um concelheiro, faz umha pintada... ao cabo, como derivaçom
naturalmente política desse impulso instintivo, tamém é
responsável o que berra independência, o que trabalha em colectivos
anti-repressivos, o que rouba símbolos (refere-se Sarille a quem empregamos
a bandeira patriótica e nom abraçamos o nacionalismo maioritário:
todo um sintoma da doença patrimonialista e de certa concepçom
do País tam cara à sua tribo). Na visom para-policial da política,
em boa parte traço centenário desta Espanha em progressivo estado
de excepçom e dos conversos angustiados por velhos fantasmas domésticos
que enfreariam a sua rápida integraçom no regime, é o
conjunto da actividade social a que é um problema de orde pública.
Para existir a sabotagem tem que existir a pintada, para existir a pintada
tem que existir a organizaçom política, para manter-se esta
tem que publicar-se o periódico e escrever-se o livro. É a teoria
garzoniana das responsabilidades desenvolvidas em círculos concêntricos
-perfeitamente assumidas por La Voz de Galicia na sua notícia sobre
violência política de 12-4-2003-, e pola que mesmo @s familiares
d@ repressaliad@s devem penar a tola imprudência d@s idiotas (a isto
alude o senhor Sarille quando despreza -e desconhece- os longos e honrosos
anos de trabalho anti-repressivo do independentismo: montarán eses
tenderetes de amnistía para apelar á compaixón polo sufrimento
dos que están dentro).
Se o senhor Sarille fosse educado na dialéctica própria da esquerda,
e nom na histórica patologia anti-independentista dum movimento que
pareceu nom digerir com facilidade certos trances do seu passado (e, com certeza,
certas esquizofrénias do seu presente), empregaria o rigor e nom mentiria.
Analisaria a violência política situando-a num contexto sócio-político,
deslindaria-a de formas de intervençom desobedientes e agitaçom
de rua, e criticaria, melhor ou pior, mas com toda legitimidade, quem se movem
deliberadamente fora ou à margem da legalidade de raquitismo democrático
padecida por quem somos e exercemos de galeg@s de naçom. Até
se poderia dar um debate cívico e enriquecedor. Mas ele prefere, como
a direita espanhola, o confusionismo e a suja marrulharia tocada com um pouco
decoroso verniz progressista, se acaso por que comparte categoria de colaborador
em A Nosa Terra com Vázquez Portomeñe e nom com nengum idiota
do horror. Repare-se que no mui plural grupo de quem nom aderem ao discurso
hegemónico sobre a violência -e que simpatizam mais com os escudos
humanos que defendem Bagdad que com os que protegem Telefónica, SCH
ou McDonalds- nom há pessoas nem militantes: só fascistas com
outras roupas. E é que o radical -e aqui o senhor Sarille engrossa
a nutrida lista de seguidores de Savater, por pretensamente democratas e por
pretensamente teóricos- cruzou já a linha que separa a racionalidade
da irracionalidade, a normal e harmónica existência em sociedade
(a das ETTs, o paro juvenil, o bilingüismo harmónico, as marés
negras e a dependência) para habitar no limbo do fanatismo. Fora da
lógica política dos mais e rebaixado até umha sub-humanidade
tribal (a que a clareza cartesiana do colonizador viu sempre n@s oprimid@s
resistentes) só resta golpeá-lo, bater limpamente e cubrir a
obscenidade dos restos com o fume mesto da colaboraçom mediática
e reflexons como a dessa nefasta columninha. A diferença do núcleo
duro do Estado, nom é só o normal funcionamento político-institucional
o que há que proteger das iras d@ radical; tamém, e junto a
ele, a extensa rede social e política que ergueu o autonomismo, enorme
património que a acçom subversiva faz perigar.
Tamém se trabuca aqui o senhor Sarille: os gestores do Estado sabem
de sobra que umha das notas distintivas do nacionalismo do que faz parte é
umha visom e prática seitárias e dum visceralismo extremo contra
o que nom dance ao som da batuta reformista, coerente com o abandono da construçom
nacional desde a esquerda na que muit@s nos haveríamos de topar, ainda
que fosse em breves trechos do caminho. Tamém o sabe essa porçom
de populaçom enquadrada no amorfo centrismo, que tanto se aspira a
ganhar para único e exclusivo aproveitamento eleitoral, e que tivo
a fortuna de poder equiparar e fazer quase intercambiáveis as condenas
de BNG-PP-PSOE sobre os recorridos ataques. Na batalha futura que o Estado
espanhol vai lançar contra toda dissidência nacional real (e
aguardamos trabucar-nos) o obediente autonomismo galego nom se vai ver nem
salpicado, pola simples razom que até propostas concretas nom nacionalistas
como as de Pasqual Maragall som mais temidas, por desestabilizadoras, que
fantasmais declaraçons de Barcelona e governabilidades municipais com
a direita camuflada.
O senhor Sarille pode andar tranquilo pola rua e, de maos dadas com os seus,
especialmente algum artista notável, continuar a predicar e recriar
nos discursos e consignas das mobilizaçons o mito de fabricaçom
espanhola do pacifismo galego, e de passagem congeniá-lo com incendiárias
petiçons de detençons à brigada político-social
que, hoje com outro nome, segue a se especializar no combate à cercada
dissidência política. Como bem saberá a estas alturas,
@s companheir@s Eva Rei e Ángelo Rodrigues fôrom detidos na semana
passada quando andavam tranquilamente numha rua compostelana, acusad@s de
desordes públicas por queimar um moneco com a cara de Aznar numha mobilizaçom
contra a guerra imperialista, de seguro movid@s por algum impulso instintivo.
Que nom se preocupe. Nom pediremos a nengumha pessoa com avais e influência
solidariedade no juízo, no que quiçá haja solicitude
de penas de prisom. Imagina-se alguém o absurdo de pedirmos apoio contra
a repressom a Fernández de Mesa, Blanco Valdés, Jaime Pita,
Sánchez Bugallo? Tampouco lha pediremos ao senhor Sarille, à
mesma altura moral e política de tam cativa gentinha.
Antom Santos, membro de NÓS-UP.