NÓS SÓS
(Consideraçons sobre o Pólo NUNCA MAIS proposto por X.L. Méndez Ferrín)


Um nom sabe como considerar a proposta que X.L. Méndez Ferrín vem fazendo pública nos seus últimos artigos de opiniom por volta da crise nacional provocada polo Prestige (veja-se Faro de Vigo dos passados dias 10 e 13 de Janeiro). De entrada, com certo desassossego, o que provoca constatar a vontade de retrocesso a posiçons primitivas (quase prenacionalistas) dum egrégio representante da nossa cultura e política. Coloca o colunista a necessidade de lançar as forças acumuladas por volta de NUNCA MAIS à contenda eleitoral, unindo no assédio ao PP o amplo leque que vai do PSOE até a esquerda independentista. O sentido comum, com certeza, chama a nom interpretar tal proposta literalmente, mas o recordo daquela velha Posición Soto, unido à referência pública do assinante de ambas as duas, obriga-nos a aclarar certos aspectos fundamentais que costumam esquecer-se em tempos mais ou menos convulsos, quando o medo à soidade fai política por nós.

A Posición Soto, assinada em 1992 por umha dúzia longa de destacados militantes e simpatizantes da FPG, declarava o PP objectivo principal a derrocar no nosso país, propondo umha larga aliança eleitoral de esquerda entre partidos, sindicatos e colectivos sociais de direcçom tanto galega quanto espanhola, e contemplando acordos post-eleitorais com o PSOE. Aquela proposta era contextualizada polo desassossego que produzira a queda da URSS e a preocupaçom ante a emergência de nacionalismos reaccionários no leste, acontecimentos polos que se recomendava rodear o galego dum colchom de esquerda que o proteger. A nova posiçom, porém, nom se explica como umha aliança defensiva, senom que se propom como a única garantia de êxito dumha necessária ofensiva progressista alimentada polo descontentamento popular ante a catástrofe do Prestige. A uniom com as organizaçons de obediência espanhola já nom se propom, como entom, sobre a aceitaçom dum programa comum elaborado por nacionalistas. A aliança que agora se pom com o PSOE de Touriño, Bugallo e Paco Vázquez é de carácter pré-eleitoral.

Supomos provável que o que tam difícil resulta de entender politicamente tenha algum tipo de explicaçom psicológica. A soidade e fraqueza histórica e actual da posiçom independentista num País envolto numha perpétua pugna entre as forças hegemónicas da desnacionalizaçom e a autodestruçom, frente o voluntarismo das diversas tentativas nacionalizadoras, a distáncia à que se visam as conquistas desejadas, o carácter árduo, complexo e mesmo perigoso do trabalho de quem voga contra corrente, bem podem tentar-nos a redefinir objectivos e revisar princípios. A nossa condiçom de minoria semelha tentar-nos por vezes cara a disoluçom em maiorias esteticamente afins, mas cujo funcionamento resulta avondo complexo e contraditório. O próprio Ferrín situa a questom ao afirmar no movimento anti-LOU o precedente imediato da vaga social crítica e contestatária que haveria de alicerçar o Pólo NUNCA MAIS: um movimento estudantil extraordinário, mobilizaçons históricas, generalizaçom do activismo, politizaçom espontánea... fôrom com efeito as notas características dum fenómeno social do que, um ano depois, só fica junto à memória um refluxo generalizado da mobilizaçom universitária, a incapacidade do estudantado para se enfrentar ao professorado umha vez este deixou de ser o seu aliado conjuntural, a falta de oposiçom real no momento de aplicaçom da Lei e a vergonhosa insolidariedade -incluídos aqui muito significativos silêncios- com @s activistas represaliad@s, significativamente com o companheiro Alexandre Ramos, expulso por três anos da Universidade. E, porém, se de algo pode congratular-se o estudantado independentista -além da sua decisiva participaçom na gestaçom, organizaçom e activaçom do movimento- é da clareza e acerto dum discurso que desde o princípio declarou as alianças com a Reitoria, os sindicatos estudantis reaccionários ou a plataforma de Blanco Valdés serem um lastre, que nom umha oportunidade. E isto frente a quem, também daquela, falava de "alianças tácticas", "posiçons frentistas" e "objectivos alcançáveis".

Porque o que sim é certo é que se apresenta como um objectivo mais alcançável umha derrota eleitoral do PP do que a separaçom definitiva da Espanha. O problema é que, contra o que implicitamente defende Méndez Ferrín, a primeira nom pode ser considerada como um passo táctico que implique mecánica e necessariamente o avanço das posiçons nacionalistas face a independência; nem sequer um incremento generalizado da consciência crítica que sirva de plataforma para o descolamento da consciência nacional e a sua cristalizaçom em espaços sociais e políticos delimitados e fixados, longe da nebulosa actual onde deambula umha quase inexistente -por indefinida- sociedade civil nacionalista. Por outras palavras: o independentismo nom pode assumir como positiva umha derrota eleitoral do PP se esta é ao preço de dissolver a alternativa patriótica, fortalecer a normalidade democrática espanhola, reduzir o enfrentamento político à contenda eleitoral, renunciar ao princípio de auto-organizaçom nacional e apoiar o PSOE de Felipe González, os GAL, Paco Vázquez, Basta Ya!, Zapatero e o Pacto de Toledo como alternativa de progresso para o país. E isto por que, frente à Posición Soto e o Pólo NUNCA MAIS, mas acarom das teses historicamente defendidas polo nosso movimento desde o arredismo dos anos 30, a contradiçom da que depende a verdadeira alternativa política para Galiza nom é a que enfrenta a direita do PP a umha esquerda na que -um nom sabe se benévola, ingénua ou irresponsavelmente- se dá por incluir o sinistro PSOE, senom aquela outra que opom a defesa da própria naçom galega aos partidários da sua destruiçom. Em termos adaptados à conjuntura actual, o futuro deste país -da sua verdadeira gente do trabalho, da sua cultura, da sua identidade nacional- depende do enfrentamento (nom só eleitoral) entre quem julgamos que o Nunca Mais! passa polo reconhecimento do direito a que Galiza seja dona das suas costas, senhora dos seus recursos económicos e soberana na definiçom das suas prioridades, e quem nega este direito já for de pressupostos filofascistas, constitucionalistas ou pretensamente cosmopolitas. E nem que dizer temos que os Fernández, Ortega ou Tojeiro fogem espaventados da primeira opçom e sorrim comprazentes ante o inofensivo autonomismo nom nacionalista que governa hoje os rumos do BNG.

Ferrín acerta num ponto: a desuniom debilita a nossa posiçom. Mas ao próprio tempo erra quando menos em dous aspectos fundamentais. O primeiro é considerar um inimigo monolítico, quando a direita espanhola é muito mais heterogénea e diversa que o PP, bem que este seja hoje o gestor do seu programa de máximos. O segundo é julgar que o que cumpre fortalecer unindo é umha esquerda ideal malabaristicamente configurada por BNG, PSOE, IU, NÓS-UP, CUT, UUAA, CIG, FPG, CNT, CCOO, AMI, AGIR, SLG, PCE(r), CAF, UGT,... e um longo etcétera que, sinceramente, apavora concretizar. E isto porque a posiçom patriótica e revolucionária que defendemos, que corre sério perigo de afogo de se lançar a um rio tam revolto e de correntes adversas, cai em contradiçom mortal ao comprometer o seu discurso e a sua referencialidade ao apoio e potenciamento de qualquer das fasquias progressistas de Espanha. Nom está de mais lembrarmos aqui que, conscientes de que o espanholismo é muito mais forte e a situaçom muito mais complexa do desejável, umha maioria de independentistas apostámos há dous anos por um projecto de unidade com o objectivo de fortalecer a nossa posiçom. Daquela, Méndez Ferrín achou no Pólo Espiral umha aposta precipitada, optando finalmente polo fortalecimento partidário da FPG. Pode que o que nos diferenciasse, entom e agora, é o lugar concreto no que situarmos as categorias de "companheir@", "aliad@" e "inimig@". Nós sempre outorgamos à FPG um degrau de cumplicidade maior do que nos merecem o autonomismo e a esquerda espanhola.

Aclaremos antes de rematar que o Pólo NUNCA MAIS, além dumha proposta políticamente errada, é umha formulaçom manifestamente impossível. A actual plataforma, na que o MLNG sim tem vontade de participar (e na que de facto participa com o apoio de todas as suas iniciativas e a integraçom orgánica nas comarcas do país em que se lhe permitiu fazê-lo) por considerá-la umha ferramenta idónea para organizar e mobilizar um descontentamento social maioritariamente espontáneo e prepolítico, já tem demonstrado carecer do carácter aberto e plural em que Ferrín confia. Nom é por acaso que a entrada de AMI, AGIR e NÓS-UP na coordenaçom nacional de NUNCA MAIS tenha sido vetada polo BNG e as organizaçons que a orbitam. Em que posiçom, de que maneira, havia integrar o independentismo umha alternativa política para cuja gestaçom é discriminado e desprezado? Até quando a tentaçom do voto útil há ser a garantia de que o desprezo, a beligeráncia e mesmo a repressom dirigida polo BNG contra o nosso movimento lhe sairá eleitoralmente grátis?

O medo à soidade política é psicologicamente compreensível. Centenas de nacionalistas, antes do que nós, saboreárom a amargura de se entregar a um País desestruturado e carente dumha massiva consciência de ser hegemónica em termos políticos, em muitas ocasions arraiana na cumplicidade com os próprios carrascos. Nem só estamos em pé frente um inimigo poderoso e historicamente empenhado em homogeneizar a sangue e fogo o espaço que gere: luitamos também contra o sucídio, como lucidamente dixeram os arredistas de preguerra (ao que parece pouco lidos por boa parte das suas/seus teóric@s seguidoras/es), quando à sua vez alertavam contra as euforias do galeguismo maioritário ante as promessas da República espanhola (logo reiteradamente incumpridas). A dissoluçom da nossa posiçom -custosamente ganhada em anos de construçom sem concessons dumha identidade e prática- em projectos incertos com companhias perigosas é politicamente irresponsável. Impede erguermos o imprescindível orgulho de ser, de representar umha alternativa que quer ocupar o centro, nom ser nota decorativa ou apontamento intelectual exótico numha maré de galeguismo amorfo e carente de conteúdos; condena o nosso discurso a se desintegrar na formulaçom superficial, branda e tacticista da troca de governo (governinho); hipoteca a nossa linha mobilizadora, agitadora e de combate, germe dum espaço de legitimidade próprio, a um convívio esperpêntico com burocratas e apaga-lumes de toda casta; finalmente, deslegitima quem a propom, que demonstra perigosas cegueiras ou acomodamentos suicidas para umha naçom em extinçom e um povo trabalhador sobreexplorado e em precarizaçom progressiva e ascendente.

Nos inícios do século XX, o nacionalismo irlandês pujo em prática umha formulaçom política que aginha foi vista com simpatia polos sectores mais avançados do galeguismo. O nome em gaélico dessa formulaçom foi Sinn Féin, que em galego traduzimos por "Nós Sós", nom no sentido de "nós isolados", senom no de "por nós próprios". Nós próprios havemos ser, com efeito, quem de erguer a alternativa política para um país que, se realmente quer ser tal, terá que varrer complexos e ociosas políticas diletantistas carentes de base real. A dura luita que nos aguarda nom permite lastres tam mediocres.

Miguel Garcia
Militante de NÓS-Unidade Popular

 

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