AS NOSSAS FORÇAS

Iñaki Gil de San Vicente
Membro da Área Internacional de Batasuna

Publicado em Gara (Julho de 2002)

Os independentistas sempre escuitamos doctíssimas afirmaçons que asseguravam que a identidade euskaldun nunca construiria um Estado basco soberano porque a economia, a cultura, a política, etc... desaconselhavam-no e impossivilitavam-no de raiz. Com isso da globalizaçom, a UE, etc..., actualizárom-se estas teses. Actualmente, as cousas continuam igual, com a diferença de que os grosso dos antifranquistas aderírom ao sistema repressivo do PP. Agoiravam a nossa derrota por simples anacronia, por extinçom histórica, como os dinassauros, vamos. Agoiravam que terminaríamos por sentir-nos espanhóis ou, quando menos, cómodos na Espanha, à vontade no poldro de tortura.

Sucedeu o contrário, e, despeitados, recorrem com mais brutalidade à força, a sua força, porque como espanhóis querem manter a unidade do seu estado. Som muitas as decenas de milhons de euros, os interesses burdamente materiais e à vez simbólicos, etc, que a Espanha espolia de Hego Euskal Herria e doutras naçons oprimidas. E as forças dos independentistas? Responder a esta pergunta é vital par sustentar a nossa firmeza com o imprescindível conhecimento teórico da realidade, incluindo os nossos erros e insuficiências, e para lembrarmos que figemos fracassar o ensoberbecido nacionalismo espanhol com nossos acertos e vitórias, apesar dos nossos erros e derrotas. Ao contrário do que superficialmente se poder achar, carece de sentido o derrotismo pessimista, e impom-se o realismo esperançado, consciente das dificuldades e sabedor das forças tendenciais existententes no nosso povo, na nossa sociedade, profundamente democrática e progressista. Todos os estudos sociológicos, inquéritos, sondagens, eleiçons sindicais, actos colectivos, movimentos populares, capacidade de autoorganizaçom e autogestom de base em multidom de reivindicaçons e inquietudes sociais, todo isto confirma-o a diário, para desesperaçom de Madrid. A nossa sociedade tem o suficiente critério racional de pensamento e interpretaçom dos problemas para nom desaparecer abaixo da plúmbea ditadura mediática espanhola que, com os seus recursos de manipulaçom e intimidaçom irracionais, busca impor a passividade acobardada, individualista e autoritária.

Desde logo que existem problemas graves, como em toda sociedade, e o Estado espanhol conhece-os. Um objectivo seu é precisamente incidir nos componentes reaccionários, machistas, xenófobos, burgueses, consumistas, existentes na nossa sociedade, desenvolvê-los e oritentá-los contra a identidade basca. Por tras da burda apologia da "democracia institucional" multiplicam-se toda série de involuçons políticas, económicas, culturais, rumadas a destruir a sociedade euskaldun e reforçar a espanhola. Na nossa sociedade está a livrar-se umha múltiple batalha entre umha básica democracia nom institucional nem oficial, freqüentemente perseguida, e um fascismo estatal crescente; batalha que adquere formas específicas em cada área popular, operária, social e até desportiva, e identitária como síntese. Um exemplo é a fracassada aliança espanhola contra a greve geral do 19 de Junho, vitória popular e operária basca decisiva polas conquistas que possibilita e porque evitou que se reforce o estatalismo abafante e empobrecedor.

Dentro da nossa sociedade está viva umha esquerda abertzale que é outra cousa distinta e superior a umha simples sigla. Um erro reducionista cometido por quem acreditam que a esquerda abertzale é umha soma de votos, cargos, poltronas e fotos. A esquerda abertzale é umha força prática e teórica de massas arreigada no povo que acumulou umha enorme experiência superando repressons, assassinatos, embargos, multas e clausuras, mentiras e armadilhas. Conhecendo melhor do que ninguém a dor e o sacrifício, aprendeu nessa cruel universidade a diferença qualitativa entre o valor relativo da legalidade e o valor absoluto da coerência estratégica. A esquerda abertzale nom nasce na metade do século XX, ainda sendo muito importante nessa década, mas afunde a suas raízes nacionais e sociais em épocas anteriores. É umha esquerda jovem, tam jovem como os que agora mesmo estám a nascer. Umha esquerda em perpétua recriçom, o que explica a sua capacidade de adaptaçom ao novo. Ao ser um processo colectivo de permanente recriaçom, ela mesma nasce no e com o novidoso, ainda que seja terrível, como o é ilegalizaçom de umha das suas partes. Lembremos que existem outras ilegalizaçons e que a mesma Euskal Herria é em si mesma ilegal. Sem negar o impacto da ilegalizaçom de Batasuna, sim há que pô-la no seu justo termo, e compreender que a esquerda abertzale dispom de experiência teórica e prática demonstrada, e que a nossa sociedade é complexa em componentes, rica em autoorganizaçons, múltipla em necessidades e criativa em espaços democráticos como para impulsionar umha rápida e nova localizaçom abertzale.

Euskal Herria é umha força emancipadora e por isso ilegal, porque, no seu interior, a sociedade basca e em especial a esquerda abertzale impulsionam conscientemente as forças tendenciais ascendentes que palpitam, primeiro, no complexo lingüístico-cultural euskaldun e pré-indoeuropeu; segundo, a recuperaçom do papel estratégico da mulher; terceiro, a força do colectivo e do papel do individual no seu interior, definindo a cultura como produçom e administraçom colectiva de valores de uso; e, quarto, a radical deslegitimaçom que tem na nossa cultura todo o relacionado com a militarizaçom social opressora, autoritária, machista e imposta, e a legitimaçom que tem o voluntariado consciente e autoorganizado em qualquer reivindicaçom. Há que insistir no conteúdo tendencial dessas forças, porque em modo nengum é automático nem está predeterminado por inexistentes factores raciais e genéticos ou simplesmente idealistas. Ao contrário. É a paciente, sistemática e calada prática de centenas de milhares de bascas e bascos, cada qual com o seu nível de contributo, é esta praxe em luita autocrítica interna e criatividade crítica externa, a que impulsiona as forças tendenciais e empece que prevaleçam as contraforças reaccionárias que tem nos estados espanhol e francês os seus centros de direcçom estratégica.

A pressom acumulada e crescente destas forças obrigou o "governinho" de Gasteiz, após 23 anos de somnolência egoísta quando nom colaboracionista, a levantar um pouco a sua voz ante Madrid com a Tese de Autogoverno. A militáncia abertzale acelerou a conscientizaçom colectiva, obrigando o "governinho" a reconhecer alguns pontos mínimos e irrenunciáveis para qualquer abertzale. É essa esquerda a que, além do mais, adiverte que o tripartito e sobretodo o PNV tentará fazer batota e tergiversar a Tese no seu exclusivo benefício nos decisivos tempos que se achegam, negando o mérito primordial que corresponde ao independentismo abertzale e tentando utilizar esses logros bássicos, necessários mas insuficientes, contra a mesma esquerda abertzale.

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