APROXIMAÇOM AO FENÓMENO DO MAS BOLIVIANO

Wilbert Villca Lopez trabalha com formaçom no MAS (Movimento Ao Socialismo), o partido de esquerda que foi o fenómeno nas eleiçons bolivianas de 30 de Junho, com o seu candidato, Evo Morales, ficando a apenas 2 pontos do presidente eleito, Gonzalo Sánchez de Lozada.
Wilbert é um indígena quéchua do Altiplano boliviano, que imigrou com a família para as terras mais baixas do Oriente (a parte da Bolívia mais perto do Brasil). Aos 27 anos de idade e 11 de militáncia, tem o corpo franzino, a pele morena, os olhos amendoados e o chapéu negro tam comuns entre seu povo.

"Os desafios que a conjuntura gerou"

Às vezes, ele pensa para dar umha resposta, mas esta vem sempre com segurança e precisom. É um dos quadros camponeses da última safra de luitas, com que conta o MAS, e a Bolívia, "para resolver os desafios que a conjuntura gerou para nós".

Ele explica a sua precoce militáncia: "Víamos que a actividade política era reservada a certa gente, que parece destinada a ela pola natureza. E que nós, também por natureza, tínhamos apenas que votar. Um traía, experimentávamos outro, e assim, nom sei, talvez há 500 anos. Isso nos cansou. Inclusive na esquerda. Demo-nos conta de que eram todos sobrinhos e tios, os tios governando, os sobrinhos na universidade, muito radicais, mas todos da mesma família".

Como é essa conjuntura? Melhor, por certo, depois das eleiçons, onde o MAS passou de trêsdeputados para 27 deputados e oito senadores? Wilbert prefere nom alardear esse vertiginoso avanço e responde falando dos desafios.

"O desafio de trazer à tona toda a força economizada polo povo e gerar umha capacidade de reversom do poder dominante. A direita, naturalmente, di: 'Vamos ajudá-los'. Deve dizer isso. Mas nós dizemos que agora vamos desenvolver todas as nossas forças".

O MAS, origem e trajectória

O resultado eleitoral de 30 de Junho nom caiu do céu. Desde as rebelions populares do ano 2000, que levárom o presidente Banzer a decretar o estado de sítio, estava claro que algo grande e importante se movia nas profundezas da consciência e da organizaçom do povo boliviano. As elites governantes começárom a fazer concessons: nomeárom um ministro indígena, umha ministra camponesa, um alcaide camponês (na Bolívia, os alcaides governam as 16 províncias e nom som eleitos).

"Mas todo isso sem permitir que escapasse o poder de decisom, nem muito menos o de transformaçom. Som concessons simbólicas, para confundir a rebeliom indígena-camponesa. Buscam confundir-nos, dividir-nos e silenciar as luitas", avalia Wilbert.

O MAS nom quer o poder de decisom, e muito mais o de transformaçom. Embora a sigla exista em outros países latino-americanos, o MAS de Evo Morales tem sua origem, trajectória e pensamentos próprios, para nom falar das notáveis raízes populares que possuem.

O actual Movimento Ao Socialismo nasceu em 1995, de um congresso nacional de camponeses, indígenas e "colonizadores" (participantes dos projectos de colonizaçom agrária no Oriente, nos anos 50 e 60). No início nom se chamava MAS, e sim Instrumento Político, mais tarde ASP (Assembleia pola Soberania dos Povos), depois Esquerda Unida. Nas eleiçons de 1997, ainda como Esquerda Unida, elegeu quatro deputados, dos quais um era Evo Morales (e outro "traiu", informa Wilbert). A sigla actual surgiu nas eleiçons municipais de 1999, quando o resultado já foi notável, especialmente na regiom de Chapare.

A coca, os "cocaleros"

Chapare é o reduto indiscutível do Movimento, embora ele tenha hoje penetraçom nacional, inclusive nas cidades. É umha regiom de migraçons relativamente recentes, depois do declínio da mineraçom de estanho, nos anos 70. E é também a principal área de cultivo da coca.

Wilbert reage com indignaçom à tentativa da mídia internacional, que procura confundir os "cocaleros", cultivadores de coca, com os narcotraficantes da cocaína. Descreve como a "máfia invisível" dos narcotraficantes, implantada durante as ditaduras dos anos 70 e 80, com a complacência, se nom o apoio, dos Estados Unidos. E destaca que "a coca, como expressom de nossa cultura milenar, sempre foi sagrada", como um símbolo de identidade com a mae-terra. Consumida em folhas para mascar, ou como chá, à moda do Altiplano, é um estimulante, mais rico em cálcio que o leite, mas inofensiva, nada tendo em comum com a cocaína, produto de um processo industrial.

Ideias, aliados, bases

No plano das ideias, o MAS proclama as suas raízes populares, especialmente camponesas, as sua forte marca antiimperialista, assim como os seus objectivos revolucionários e socialistas, de um socialismo libertário mais inspirado nos "ayllus", as comunidades indígenas dos Andes, que na matriz leninista de 1917. A sua inspiraçom ideológica busca a construçom de um pensamento original latino-americano, fugindo de sistemas importados, inclusive o marxismo, no qual detectam umha superestimaçom do papel revolucionário do proletariado urbano e umha subestimaçom das massas camponesas (ideia que aparece também no MST brasileiro).

Na cena política surgida das eleiçons, o MAS é o segundo maior partido no Parlamento, depois do MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário) do presidente Lozada, e apresenta-se como o polarizador de umha oposiçom popular. Há outras forças com as quais poda compor? Sim: Reyes Justiniano, um académico, único deputado eleito polo PS (foi convidado para ser o vice de Evo, recusou e hoje arrepende-se). E o MIP (Partido Indígena Pachacuti) de Felipe Quispe, que elegeu seis deputados. Este às vezes recrimina no MAS posiçons excessivamente moderadas, conciliadores, como a aceitaçom de militantes de extracçom comunista, mas votou em Evo Morales no segundo turno parlamentar.

Há ainda, destaca Wilbert, "quatro emergências" no plano social, nem sempre representadas na cena político-partidária: a "emergência camponesa", com hegemonia aimará (o outro grande tronco indígena boliviano, ao lado do quéchua); a Coordenadora da Água de Cochabamba, umha espécie de confederaçom de entidades populares; o movimento cocaleiro, de tipo camponês-sindical, que projectou Evo Morales; e o Movimento dos Sem-Terra, que segue a via do seu congénere mais antigo no Brasil.

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