O MAS boliviano chama o povo a derrocar o governo
19 de Janeiro de 2003

O Movimento Ao Socialismo (MAS), principal força da oposiçom boliviana com 20% dos votos, continua apoiando o levantamento popular contra o governo de Gonzalo Sánchez de Lozada (Goni). Na última semana, o bloqueio de estradas está a cercar a capital, La Paz, ante a impotência das forças repressivas, que já causárom a morte de 18 pessoas, três delas por disparos, e que estám a recorrer aos tanques para romper os bloqueios das forças populares.
Cocaleiros, reformados e outros sectores populares alçárom-se em luita aberta contra o Governo em defesa de umha tabela reivindicativa de quinze pontos, rejeitando qualquer negociaçom que passe por renunciarem às suas justas demandas.

O MAS, força política que aglutina diversos sectores de esquerda e indigenistas, e que conta com um nutrido grupo parlamentar, está a ser pressionado polo Estado boliviano para que chame a negociar, ante o qual o líder cocaleiro e deputado do MAS, Evo Morales, chamou a aumentar a intensidade da luita até provocar a derrocada do Governo e convocar um processo constituinte no país.
Entrementes, os EEUU semelham preocupados ante a evoluçom da situaçom na Bolívia. As organizaçons de esquerda bolivianas denunciárom que um agente da CIA vai ser o novo embaixador dos Estados Unidos no país.
A chegada de Greenlee, o novo embaixador ianque, coincidiu com o início dos bloqueios de estradas promovido polos cultivadores de coca liderados por Evo Morales, que afirmou estar convencido de que o personagem da Casa Branca veu dirigir a repressom contra esses trabalhadores.
Segundo Morales, na década de 80, Greenlee, que era entom funcionário da embaixada, estivo envolvido em dous assassinatos de cocaleiros cometidos por tropas antidrogas assessoradas por norte-americanos.

O embaixador dos EUA anterior, Manuel Rocha, significara-se por ter comparado os cocaleiros com os talibám do Afeganistám, chamando os bolivianos a nom votarem no MAS nas últimas eleiçons de Junho de 2002, que por pouco nom venceu.
Fontes dos trabalhadores em luita asseguram que o número de arrestados durante as últimas jornadas atinge as 400 pessoas, apesar do qual 70% da produçom do país está paralisada em demanda da tabela reivindicativa que unifica diversos sectores populares.
Um outro deputado do Movimento Ao Socialismo, Jorge Alvarado, confirmou a negativa dos cocaleiros a levantar o bloqueio, já que "a experiência tem demonstrado que o povo nom tem outro recurso para pressionar o governo e obter soluçom aos seus problemas".
A seguir, reproduzimos a tabela reivindicativa do povo trabalhador boliviano na sua actual luita contra o Governo burguês:

15 Demandas do Povo da Bolívia

1. REVERSOM dos recursos públicos, das empresas capitalizadas a propriedade do Estado e a sociedade.
2. ALCA, GAS (Rechaço à incorporaçom da Bolívia à ALCA e à venda do Gás às transnacionais).
3. TERRA E TERRITÓRIO. Atendimento às propostas do Movimento Sem Terra, Colonizadores e Indígenas.
4. ASSALARIADOS. Estabilidade laboral, nom tocar o dinheiro para a reforma (BONOSOL)
5. REFORMADOS. Nom à rebaixa de rendas sob pretexto da "bolivianizaçom da economica".
6. COCALEIROS. Revisom da Lei 1008. Meia hectare de coca por família.
7. EDUCAÇOM E SAÚDE. Discussom do orçamento do TGN, incremento do orçamento para os salários.
8. GERAÇOM SANDUICHE. Aprovaçom do seu projecto de lei apresentado.
9. PRESTATÁRIOS. Aprovaçom da Lei apresentada ao Congresso
10. CONALTAVIS. Liquidaçom do FONVIS em maos do controlo social e os adjudicatários.
11. TRABALHADORAS DO LAR. Aprovaçom da Lei apresentada.
12. DESOCUPADOS. Atendimento ao seu Prego Petitório.
13. Associaçom de presos políticos das ditaduras. Aprovaçom da Lei apresentada.
14. Rechaço ao ingresso das tropas norte-americanas.
15. CAIXA NACIONAL DA SAÚDE, dívidas do Estado e da Empresa Privada.
Assinado:

Evo Morales (Deputado Nacional do MAS e Dirigente cocaleiro)
Luis Coquetilla( Central Operária Departamental-Cochabamba)
Oscar Olivera (Coordenadora da Água e Federaçom de Fabris Cochabamba)
Ildefonso Aramayo (Trabalhadores Rendistas)
Estanislao Aliaga (Magistério/ Mestres)
Wilfredo Portugal (Trabalhadores Sem Reforma)
Ramiro Bolaños (FEDTAVIS)
Willy Cabezas (Prestatários)
Nicanor Grandidier (Trabalhadores Desocupados)

Cochabamba, 24 de Dezembro de 2002
Plataforma de Demandas del Bloqueo de Caminos y la Movilizacion Nacional


Bolívia: crescem a luita popular e a repressom do governo

11 de Janeiro de 2003

Umha coordenadora nacional de mobilizaçons nasceu ontem na Bolívia e exigiu atençom oficial às 15 exigências sociais enquanto o Governo mobilizava milhons de soldados e polícias para fazer frente a um protesto massivo apoiado polo principal partido opositor, o revolucionário Movimento ao Socialismo (MAS) que nas últimas eleiçons foi segunda força com 20% dos votos.

Lideranças sindicais, camponeses, estudantes e simpatizantes saírom em apoio ao bloqueio de veículos que os plantadores de coca iniciarám na segunda-feira na regiom de Cochabamba. Mais de 50 detidos é o último dado conhecido das jornadas prévias aos bloqueios de estradas da segunda, dia 13 de Janeiro.
A luita dos camponeses bolivianos polos seus direitos e dos movimentos sociais contra a crescente presença ianque foi em aumento nos últimos meses, contando com o apoio do MAS, cujo líder e deputado Evo Morales foi ameaçado directamente polos grandes empresários do país defazê-lo acabar em prisom se nom der ordem de frear o movimento de massas. As luitas inscrevem-se também no combate à Area de Livre Comércio das Américas (ALCA), protagonizadas polo Movimiento Boliviano de Luita contra a ALCA, formado por mais de 200 organizaçons populares e instituiçons diversas e que na Bolívia tem especial fortaleza.
A situaçom tensa também contará com mais um agravante. Milhares de idosos estám-se organizando para realizar umha marcha de 100 quilómetros até La Paz também na segunda. Eles manifestam-se contrários à implementaçom da norma na regulamentaçom de reformas que afectará ao seu bolso directamente.

A coordenadora nacional de mobilizaçons advertiu que somente umha resposta positiva às reivindicaçons sociais impedirám o bloqueio de carros. O Estado já prevê o uso do exército e da polícia. Segundo a imprensa local, nom foi descartada a possibilidade de ser declarado Estado de sítio na cidade.

As reivindicaçons apresentadas polos cocaleiros som: a reversom da privatizaçom das empresas estatais; a nom integraçom da Bolívia à Área de Livre Comércio das Américas (Alca); e a elaboraçom de um projecto de exportaçom de gás aos Estados Unidos polas costas do Chile.

A coordenadora popular repudia a chegada das centenas de militares norte-americanos a regiom sul, oficialmente para exercícios de acçom cívica. Segundo as organizaçons sociais, trata-se de umha invasom que atinge a soberania nacional.

A relaçom dos pedidos exige também terra para o camponês pobre através da expropriaçom de latifúndios improdutivos e umha pausa na erradicaçom de coca da regiom central de El Chapare, assim como retiro das tropas que eliminam os plantios.

Antineoliberais

Há outras exigências: que acabe a política económica neoliberal vigente e o envio de um terço do orçamento nacional à Educaçom, além de apoio à luita dos reformados e dos pequenos devedores por causa do sistema financeiro.

O Governo rechaçou a proposta dos cocaleiros, de um diálogo de alto nível sobre todas as demandas sociais e só aceita tratar dos problemas com cada sector atingido, a tempo de advertir que nom permitirá os bloqueios. O ministro da Defesa, Freddy Teodovic, ameaçou com que a acçom conjunta das Forças Armadas e a Polícia impedirá o bloqueio.

Fontes jornalísticas locais dim que polo menos 600 mil soldados e polícias som mobilizados a essa regiom para fortalecer as forças de erradicaçom, que somam outros três mil homens.

Segundo a agência de notícias Jatha, isolado polo conflito social, o governo redobrou os seus esforços de diálogo e acordos com sectores em conflito e está a ponto de um entendimento para impedir umha paralisaçom de 48 horas dos transportes, como o que ocorreu na quarta-feira passada com êxito em todo o país.

O comentarista oficial de televisom, Cayetano Llobet, afirmou que o vasto despregamento militar diante da greve dos camionistas - contra a inclusom de um seguro obrigatório contra acidentes - foi umha mensagem sobre a decisom do Governo de enfrentar com força o bloqueio cocaleiro.

Apoio

Em outra frente, a Central Obrera Boliviana decidiu, numha assembleia popular na quinta-feira à noite, apoiar a luita dos cocaleiros e as forças que os acompanham, ainda sem se somar directamente à Coordenaçom Nacional de Mobilizaçons.

Entrevista a Evo Morales
A seguir, apresentamos um fragmento da entrevista concedida polo líder camponês e deputado polo Movimento ao Socialismo (MAS) Evo Morales durante as eleiçons que tivérom lugar na Bolívia no passado verao, em que o MAS foi segunda força mais votada:

Os Estados Unidos deixárom claro que nom o querem como presidente da Bolívia

O embaixador dos USA converteu-se no chefe da minha campanha eleitoral. Dentro do movimento camponês e operário há um forte sentimento contra a intromissom estrangeira, assim que quanto mais falarem de nós, mais nos fortalecem.

Você declarou que, de ser eleito presidente, nom permitirá as acçons da DEA norte-americana no seu território

Nós temos dignidade e soberania e nom temos porque aceitar intervençom uniformada e armada. Se querem respeito pois que nos respeitem.

Acha realista opor-se à maior potência económica do mundo?

As maiorias nacionais nom vivem das ajudas económicas senom do seu trabalho. As ajudas som para a repressom e para a corrupçom. Por isso, o movimento camponês, os donos desta terra: os quíchuas, aimaras e guaranis decidírom recuperar o poder e o território.
Estamos em luita franca contra a globalizaçom. O capitalismo é o pior inimigo da humanidade. É o pior inimigo do meio natural. Todos os povos se levantam contra esse sistema.

Caso você nom seja eleito presidente, participará de algumha forma numha coligaçom de governo com o candidato eleito?

Os nossos aliados continuam a ser os movimentos sociais e nom os políticos, corruptos, vende-pátrias. Certamente, nom vai haver aliança nem com republicanos, nem com nacionalistas nem com falsos esquerdistas.

 

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