Depois de Bagdad

O QUARTO REICH

20 de abril de 2003


Entrevista com o coronel Leonid Ivashov, vice-presidente da Academia russa
de Geopolítica


Depois de Bagdad

Sovietskaya Rossia

Leonid Grigorevich, Como valoriza a marcha dos acontecimentos no Iraque?
Como é possível que depois da encarniçada defesa de Basora frente aos agressores anglo-americanos, o exército de Hussein entregasse Bagdad práticamente sem combate?

Assim é. Os iraquianos começárom a operaçom de defesa de umha forma enérgica, com a estratégia adequada e com arrojo. E no entanto, Bagdad por cuja defesa cabia esperar o maior combate, caiu com umha facilidade pouco habitual. Como imaginar este giro inesperado nom só para o agressor mas para o mundo inteiro?

Como já tivem ocasiom de comentar em artigos anteriores, antes e após o início das acçons militares, umha das chaves, o factor fundamental
na eficacia da defesa do Iraque, ia estar no estado real da elite político militar do estado.

Todo o que tivemos ocasiom de observar na batalha por Bagdad nom se pode
qualificar de outro modo como a perda do controlo sobre as tropas, da que se deriva a incapacidade para organizar a defesa.

O sistema, ao momento derivou em actos caóticos, desordenados, das divisons dispersas, desmoralizando os defensores da cidade.

Nom se pode excluir a possibilidade de que grande parte da direcçom militar morresse vítima das bombas antibúnker ou de un acto terrorista. Ou bem, e isto é algo que nom quero acreditar, houvesse traiçom por parte de essa mesma cúpula dirigente.

A lógica dos primeiros dias de guerra e da conduta do estado maior da coligaçom, permite-nos chegar à conclusom de que os agressores pugeram as suas esperanças precisamente na traiçom dos altos cargos do regime. O aparelho propagandístico estava já listo para este suposto: a rendiçom da 51ª divisom, a morte de Saddam, o assassinato de T. Aziz, etc.

Na primeira etapa da operaçom nom se produziu nengumha traiçom. Mas na segunda, quando o desenlace final da guerra resultava mais evidente e
a única dúvida era saber quanto tempo mais se poderia resistir, nom descarto que mais de um integrante da direcçom militar pudesse tremer.

De todas as formas, já digo que apenas som conjecturas.

-Pensa você que todo terminou?

Acho que é umha conclusom algo precipitada.

Sim, Bagdad sofreu umha derrota militar, reflexo claro de umha abismal diferença na correlaçom de forças, mas a guerra nom concluiu de nengumha maneira, do mesmo jeito que nom finalizou no Afeganistám, por muito tempo que leve Washington informando do êxito das suas acçons militares.

A desgraça é que o mundo em geral, ficou impávido olhando com tranquilidade como ajustavam contas com um estado, cujo único crime consiste em representar a melhor perspectiva petrolífera a longo prazo (até 2050). Claro que houvo mobilizaçons massivas, a gente saiu à rua em todo o mundo. Mas de aí nom passou. Na prática ninguém ajudou o Iraque, incluídos os potenciais companheiros de lista negra.

A Comunidade de naçons recorda muito a um pacífico rebanho que intui que o levam ao matadoiro, mas onde cada um confia em esquivar o destino do Iraque.

A situaçom no país e a regiom passou a ser muito mais inestável e perigosa do que era antes da agressom. Iraque é completamente ingovernável. Bagdad está sendo açoutado por umha vaga de pilhagem, todas as estruturas minimamente necessárias para o funcionamento do estado fôrom destruídas. O panorama é desolador: vazio de poder, ruína económica e social, nom existem os corpos de segurança, nom funcionam os sistemas básicos de abastecimento.

Estamos ante umha enorme catástrofe humanitária. É lógico esperar a apariçom de epidemias, o aumento brusco da mortalidade por inaniçom, a aparición de milhares de refugiados. Todo isto vai-se superpor a umha resistência caótica frente aos ocupantes, às disputas interétnicas e
religiosas. Por isso digo que me parece prematuro afirmar que todo acabou no Iraque. O certo é que temo que os acontecimentos nom figérom senom começar.


Nestes anos tivem que ouvir muitas vezes dos tadjicos, uzbecos, quirguises e russos como a época da URSS era um paraíso para a Ásia Central em comparaçom com a situaçom actual na regiom. Acho que muitos iraquianos e nom só eles, recordarám com nostálgia os tempos de Hussein.
Confiar em que os americanos implantem, umha formosa vida democrática, é ingénuo. Na batalha mundial polo controlo dos recursos do planeta, observa-se claramente a lógica da conduta da elite governante nos EUA e das transnacionais. O objectivo é evidente: apropriar-se das reservas de hidrocarburos e se for necessário, a eliminaçom da populaçom "sobrante" de esses países possuidores das fontes de riqueza.

Em várias ocasions falei e escrevim de como o bem-estar dos mil milhons de habitantes do dourado primeiro mundo, o pagarám com a sua vida milhons de pessoas dos países atrasados da terra. Nom há que ir muito longe para procurar exemplos. O mais cercano temo-lo na Rússia, com a sua miséria, catástrofes, conflitos.

O mundo também é testemunha de como os soldados americanos, británicos e israelitas tratam os árabes como material onde provar o seu armamento e desenvolver a filosofia neo-maltusiana. As epidemias na África, a apariçom do vírus da neumonia na China, a espiral de conflitos bélicos em todo o mundo som obra da mesma mao.

Que acha que cabe esperar dos EUA em adiante e quem pode ser o
seguinte na fila: Síria, Coreia do Norte, Irám?

Tem razom ao pensar que os EUA nom se vam conformar com o Iraque. Quem será o seguinte? Responder a esta questom é mais fácil se sabes as "qualidades" que devem possuir os aspirantes a engrossar essa listagem.

Dispor de importantes reservas petrolíferas e estar disposto a conservar a soberania nacional sobre as mesmas. Na Coreia do Norte nom há petróleo, tem ao lado China, e a diferença de Rússia é capaz de defender os seus interesses. Ademais umha parte importante da populaçom sul-coreana alberga sentimientos anti-americanos. O mais provável é que com Coreia optem polos métodos políticos, diplomáticos e económicos de pressom.

Ataques de envergadura contra os vizinhos do Iraque, polo menos a curto prazo nom acho que devamos esperar. Os EUA apostárom forte nesta guerra e som os primeiros interessados en recuperar quanto antes o processo de extracçom
de petróleo.

O que nom seria disparatado é pensar em bombardeamentos selectivos sobre Síria.

Para as futuras vítimas da coligaçom anglo-saxona é importante nom perder tempo e reforçar com urgência as suas posiçons políticas, aumentando a sua capacidade defensiva. Irám, Síria e Arábia Saudita poderiam fechar um
acordo de defesa conjunta. Um acordo ao que se poderia aderir Líbia, Egipto e outros países de Oriente Próximo. Esta uniom poderia contar com o apoio da UE, dos países do suleste asiático. De isto depende a sua salvaçom.

Se estes países se dirigirem à Russia para a compra de novo armamento, poderiam contar com a nossa ajuda?

Atendo-nos ao reparto de forças na areia política actual, induvitavelmente nom.

A cooperaçom militar da Rússia com os países de Oriente Próximo e Irám, encontra-se baixo controlo total de Washington e Tel-Aviv. Neste sector da política russa tenhem os seus homens bem colocados inclusive a nível de ministros. Ao menor toque de atençom vindo do outro lado do oceano, os poderes russos ponhem-se firmes e começa a repressom contra as empresas e estruturas que tentam servir algo novo a países com sentimentos anti-americanos ou anti-semitas.

Síria leva tempo tentando comprar-nos os mais modernos sistemas de defesa anti-aérea. Irám necessita estaçons de rádio-localizaçom e armamento defensivo em geral. Mas já digo que Tel-Aviv e Washington nom o permitem.
Inclusive a tecnologia e maquinaria civil que puderem servir por exemplo para confeccionar equipaçom militar, entra dentro dos envios proibidos.
Baixo estas condiçons acabaremos perdendo esse mercado.

- E acredita você que seriam factíveis propostas encaminhadas a que empresas russas como "Luk Oil" pudessen participar na reconstruçom do Iraque?

Penso que Rússia já pode ir-se despedindo da dívida iraquiana de 8 mil milhons de dólares. Proporám-nos fazê-lo dentro do quadro do Clube de Paris, e o nosso governo acabará aceitando finalmente. Os meios investidos por companhias russas no Iraque nos últimos anos também no-los "perdoarám" os americanos com a excusa de negócios ilegais com o regime de Hussein. E se se apiadarem de nós e nos permitem participar em algo da reconstruçom, imporám-nos condiçons onde as perdas superarám às vantagens. Por exemplo, impondo-nos o compromisso de nom suministrar a países de Oriente Meio e Próximo nengumha produçom militar ou que seja susceptível de uso militar. E para surpresa de qualquer pessoa normal Rússia aceitará. Todo seja polo bem das nossas relaçons de país aliado dos EUA e da "eterna" e "indestrutível" amizade de Putin e Bush. Sinceramente gostaria de equivocar-me na minha análise e conclusons, mas temo que ocurrirá como digo.




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