ENTREVISTA ÀS FARC-EP COLOMBIANAS

A guerra que enfrenta as FARC contra o corrupto Estado capitalista colombiano atinge grande crueza, ficando em perigo o poder burguês; os ianques ameaçam invasom. Ante a campanha anti-guerrilha dos media ocidentais, acusando a sua justa luita de terrorismo, oferecemos umha entrevista às FARC-EP para conhecer melhor a história e a actualidade revolucionária colombiana. Tenha-se em conta que a entrevista com o porta-voz das FARC colombianas que reproduzimos a seguir nom é da nossa autoria, senom tirada da revista Nação Brasil. Foi realizada no momento do fracasso das negociaçons entre a guerrilha e o Estado.
"Nós somos revolucionários que luitamos por umha mudança de regime. Mas queríamos e luitávamos por essa mudança usando a via menos dolorosa para o nosso povo: a via pacífica, a via democrática de massas. Essa via nos foi fechada violentamente com o pretexto fascista oficial de combater supostas "Repúblicas Independentes" e como somos revolucionários que de umha ou outra maneira jogaremos o papel histórico que nos corresponde, coubo-nos buscar a outra via: a via revolucionária armada para a luita polo poder."
Emilio Corbière
www.buenosairesoculta.com
A ofensiva guerrilheira
na Colômbia, a crise do Estado e o surgimento de elementos balcanizadores
na regiom, estám levantando em Washington a possibilidade de umha intervençom
militar norte-americana nesse país de conseqüências imprevisíveis.
A intençom pacificadora do presidente Andrés Pastrana bate com
a realidade. O "Plano Colômbia" norte-americano, de ajuda
económica e bélica emprestada polo Presidente George W. Bush,
tem generalizado os enfrentamentos entre os insurgentes das Forças
Armadas Revolucionárias (FARC), o Exército de Libertaçom
Nacional (ELN), os efectivos militares estatais e os paramilitares.
Os cadáveres vam-se
acumulando tanto na zona selvática como na urbanizada. Nom parece haver
quartel. As FARC tenhem lançado batalhons irregulares de 500 efectivos
que combatem em guerra de guerrilhas, enquanto o Exército realiza manobras
de guerra convencional enviando 13.000 soldados a reocupar as zonas em poder
da insurgência.
A todo isso se tenhem
somados as intençons intervencionistas do Presidente George W. Bush
anunciadas polos falcons norte-americanos de sua administraçom e por
legisladores como o senador republicano Paul Coverdell, presidente do Comité
de Assuntos Hemisféricos e Terrorismo da Cámara de Representantes
norte-americana e o general Charles Wilhelm, Chefe do Comando Sul desse país.
Uma intervençom
norte-americana nom será um passeio. A geografia selvática colombiana
e sua conexom com outros países da área podem expandir o conflito
ao invés de localizá-lo. Seria como lançar nafta ao incêndio
colombiano.
A tentaçom de Washington
poderia agravar o problema em vez de superá-lo. Este é o dilema
que hoje se levanta perigosamente na América do Sul e a situaçom
nom parece encontrar umha fácil soluçom.
Javier Calderón, membro da Comissom político-diplomática
das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC)
e seu representante para o Cone Sul, aceitou ser entrevistado em Buenos Aires.
O resultado da nota é o seguinte:
- O quê é
o "Plano Colômbia" que o governo colombiano estabeleceu com
os Estados Unidos?
- Colômbia tem por
nome, mas é um plano eminentemente norte-americano elaborado polo Pentágono
e o Departamento de Estado. É um plano de guerra contra o povo colombiano.
A apresentaçom foi feita polo entom presidente Clinton onde o mostrava
como um plano contra a droga. Agora Bush o retoma com apoio bélico.
Mas vejamos um pouco mais de perto: som 1,65 bilhons de dólares, como
parte dos 7,5 bilhons que custa o plano. Esses 1,65 bilhons estám representados
em armas de última tecnologia de guerra norte-americana, nos helicópteros
e nos avions fantasmas que os Estados Unidos levou à guerra na Jugoslávia.
Eles estám entregando este armamento ao Exército Colombiano,
que é um exército campeom em violaçom dos direitos humanos
e reconhecido no mundo como o guarda-costas do narcotráfico na Colômbia.
É este Exército Colombiano, o criador dos denominados grupos
paramilitares que som hoje em dia os novos cartéis da droga. Carlos
Castaño, que era um dos chefes destes grupos, é reconhecido
hoje como o novo Pablo Escobar, o novo grande capo da droga. É a esse
exército, som a esses paramilitares que os Estados Unidos estám
entregando o armamento, entom fica claro que o "Plano Colômbia"
nom é contra a droga precisamente.
- Parte dos militares
ligados a esse comércio tem plantaçons de droga?
- Nom, o papel do Exército
é o de cuidar, proteger o narcotráfico como fai isso o Estado
em geral. Vejamos quem som os narcotraficantes, por umha parte a tradicional
burguesia colombiana maneja o dinheiro do narcotráfico e o investe
na economia colombiana, especialmente no sector financeiro. Os narcos dessa
forma manejando a economia também o fam com a política. Este
manejo ficou muito mais claro no governo anterior do presidente Ernesto Samper
quando provárom que o Cartel de Cali financiou a sua campanha presidencial
e um Congresso majoritariamente ligado ao narcotráfico o absolveu.
À raiz disso se abriu na Colômbia o que se denomina o Processo
8000, que é um processo que envolve os políticos vinculados
com o narco. Som mais de quarenta os senadores e deputados que até
este momento tenhem estado presos pola sua vinculaçom com o narcotráfico.
É claro para o caso colombiano, há provas suficientes da política,
da economia e do exército ligado ao narcotráfico. Nom obstante,
esta é a explicaçom do porquê os Estados Unidos estarem
vinte anos na Colômbia com a DEA por toda a parte e a CIA. Os radares
que tinham no Leste fôrom trasladados à Colômbia com toda
a espionagem de satélite e outros, e, no entanto, em vez de diminuir
a produçom aumenta e aumenta até chegar hoje a 125 mil hectares
de coca semeada e 7 mil de papoula. Isto dá-se precisamente porque
conta com todo o aval do regime, sem descontar naturalmente que o patrocinador
número um da droga na Colômbia que som os Estados Unidos.
- Vocês qualificam-se
de foquistas e aceitam praticar o terrorismo?
- Nom somos terroristas.
Na Colômbia o terrorista é o Estado. Através da história
tem sido um Estado totalmente intolerante que destrói qualquer ideia
política contrária que se apresente, mediante o crime e o terror.
Mostra disso foi o terrorismo de Estado dos anos 50 na Colômbia, que
é conhecida como a época da violência que deixou 300 mil
mortos e outro mais claro é a que vem desde meados dos anos 80 até
agora, período em que também estamos chegando aos 300 mil mortos.
É um Estado realmente terrorista. Por outro lado, de forma algumha
somos foquistas porque é um partido em armas, somos um exército
em todo o território nacional. É um partido com um apoio popular
muito grande, esta é a única forma de explicar porquê
a persistência do movimento armado da insurgência na Colômbia
em 36 anos. Isto só pode ocorrer com um imenso apoio popular.
- É umha utopia
umha eventual tomada do poder?
- Nom, as FARC ocupam
hoje umha posiçom de poder real, tanto que somos um Estado dentro do
Estado. Controlamos cerca de 70 por cento do território nacional, levamos
quase quatro anos que somos governo em 5 municípios, 42 mil quilómetros
quadrados aonde estamos desenvolvendo os diálogos com o governo. É
o único território na Colômbia que nom está em
guerra, é o único território de paz. Somos reconhecidos
hoje no mundo como um Estado dentro do Estado, por isso também no dia
29 de Junho passado nos visitárom 21 Estados, entre eles estados europeus,
o Vaticano e a própria ONU. Essas som visitas de Estado.
- Segundo dim os documentos
conhecidos, emitidos por vocês, a ideia das FARC é construir
umha democracia socialista. Este Estado guardaria as regras da democracia?
- Há 36 anos que nascemos como partido marxista em armas com o objectivo do poder para a construçom do socialismo. Isso originou o nascimento das FARC. Hoje ante o mundo unipolar, segundo o chamam e, especialmente, ante a vigência do modelo neoliberal, com todas as suas terríveis conseqüências para o povo colombiano, justifica-se mais do que nunca a construçom do socialismo. Nós estamos aspirando e, sempre temos feito, a que seja umha saída política que logremos mediante um grande acordo com reformas profundas da estrutura política, económica e social; incluída umha reforma constitucional que poda sentar as bases para criar essa nova Colômbia, com justiça social, para erradicar definitivamente da Colômbia a violência, a desigualdade, a corrupçom e o narcotráfico. Essa é nossa ideia fundamental. Como marxistas sabemos que isto nom se pode fazer com um exército revolucionário por mais poderoso que este seja, que se requer a participaçom da imensa maioria do povo colombiano, inclusive de outros setores sociais; mas este regime mediante o terrorismo de Estado tem destruído todo o tecido político social e a populaçom em geral através dos massacres. Por isso segue sendo muito forte nossa luita por abrir um espaço democrático na Colômbia que permita a seu povo reconstruir esse pedido, esse desejo, político-social e cumprir o papel que lhe corresponde.
- Os Estados Unidos
dizem que as FARC protegem cultivos proibidos e possuem laboratórios.
- Isso é totalmente
falso. As FARC nom tenhem cultivos nem custodia nem trafica absolutamente
nada. A relaçom que nós temos é com os camponeses semeadores
da folha de coca, que som camponeses como qualquer outro e som forçados
a isso. É bom aclarar também que estes nom som camponeses ricos.
Som camponeses pobres, a Colômbia é mais umha vítima do
narcotráfico. Ali fica o vazio, os mortos, a miséria, e o dinheiro
vai para outra parte. Já que falamos dos Estados Unidos é bom
esclarecer que o narcotráfico maneja neste momento umha cifra de 600
bilhons de dólares, 60 por cento dessa soma é lavada nos bancos
norte-americanos, 70 por cento da droga que se produz é para o consumo
dos norte-americanos, os insumos que se requerem para a produçom da
droga provenhem dos Estados Unidos. Esse país é o principal
produtor de maconha no mundo e é um dos principais produtos de sua
agricultura. Actualmente há dous negócios que disputam o primeiro
lugar como o mais rentável, som o das armas e o da droga. Ambos obviamente
tenhem sua casa matriz nos Estados Unidos. Dessa fabulosa soma que a droga
produz, chega para América Latina 9 por cento.
- Que proposta vocês
tenhem para substituir o cultivo da coca e da papoula? Colômbia se caracterizou
historicamente por ser produtora de café.
- Isso vai de acordo com o gosto e às necessidades norte-americanas. Nos anos 70 produzia-se a maconha em grandes quantidades na Colômbia porque era de um gosto excelso para o norte-americano, segundo eles. Logo depois isso nom lhes foi o bastante e nos 80 começárom com umha produçom mais forte de coca e nos 90 passárom a refinar o seu gosto com a heroína e veu a produçom de papoula. Nós dizemos que a única alternativa real para erradicar de umha vez por toda a produçom de folha de coca e de papoula é mediante a substituiçom de cultivos. Mas para que isto seja efectivo e nom aconteça o que ocorreu na Bolívia semanas atrás, onde figérom alguns acordos fictícios que gerárom o levantamento camponês porque nom solucionárom os problemas. Para que isto nom suceda, as FARC defendem que tem que se fazer umha substituiçom de cultivos real. Para que ocorra tem que se fazer um estudo de solos, tenhem que se oferecer créditos, tem que se garantir a comercializaçom e todo o que se refere à educaçom e à indústria. Isso custa umha dinheirama muito grande e esse dinheiro Colômbia nom tem. As FARC defendem que o dinheiro deve ser dado polos Estados Unidos e a Europa, que som os sectores onde está o benefício dos dividendos do narcotráfico. Essa foi a proposta que figemos aos 21 Estados que nos visitárom. Europa vê com bons olhos, mas quem decide finalmente som os Estados Unidos e eles dim nom, o que querem é a guerra e por isso está aí o "Plano Colômbia".
- Com a queda dos cartéis
de Cali e Medellín, quem retomou esse poder? O cartel paramilitar?
- Quando se golpeou o
Cartel de Medellín e logo depois o de Cali, isto foi feito pola concorrência
interna para sacar fora alguns do negócio, fortalecer a outros e também
para subir os preços dos estoques da cocaína que tinham nesse
momento nos Estados Unidos. Vemos que efectivamente erradicam os Cartéis
de Medellín e Cali mas que a produçom nom desaparece, polo contrário,
aumenta. Surgem os Cartéis do Norte do Vale do Cauca, que algumhas
publicaçons mostram muito ligados ao DEA. Esse Cartel foi o que ajudou
também a matar Pablo Escobar e depois liquidar o Cartel de Cali. Os
novos capos da droga som directamente os novos grupos paramilitares que contam
com todo o aval, com todo o apoio, do Exército Colombiano e dos Estados
Unidos. Há um jornalista na Colômbia que tornou público
como estes narcotraficantes recebêrom no ano 2000 um carregamento na
Flórida com o acompanhamento e protecçom do DEA.
- Quanta força
tenhem as FARC em relaçom a outros grupos insurgentes?
- As Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia (FARC) representam um pouco mais
de 85 por cento da força guerrilheira, a outra parte ocupam os companheiros
do Exército de Libertaçom Nacional (ELN) e algo, muito pouco,
resta do que foi o Exército Popular de Libertaçom (EPL), maoísta,
que praticamente está em extinçom.
- Como foi a mudança
do século XIX ao XX, quando houvo a guerra dos mil dias que confrontou
conservadores e liberais? Os conservadores eram os latifundiários e
os liberais expressavam as tendências do liberalismo democratizador...
- Colômbia começa
o século XX com a guerra dos mil dias. O Partido Liberal perdeu esta
guerra, portanto o Partido Conservador estivo trinta anos no poder, até
1930. Um dos crimes daquela época ocorreu em 1916 quando matárom
o general Uribe Uribe, que era um dos referenciais da vanguarda do liberalismo
socialista que quijo fazer umha reforma agrária, toda umha reforma
socialista. Outra "obra" deste regime conservador foi em 1927 quando
os trabalhadores dos bananais no Caribe colombiano figérom umha greve
para reivindicar os seus direitos devido aos salários de fame que percebiam
(em bónus), a polícia dispara contra eles e produz-se o que
se conhece como o "massacre dos bananais", onde morrem milhares
de trabalhadores que logo depois som jogados ao mar dos trens que transportavam
bananas aos portos.
Esta história é que Gabriel García Márquez narra numha parte de seu livro Cem anos de solidom. Dessa obra surgiu o termo "macondo". À raiz do massacre surge o jovem advogado Jorge Eliecer Gaitán que tinha nascido em Bogotá e se tinha especializado em Itália, mediante umha bolsa. Este jovem começou a fazer juízo do regime polo massacre e do Senado se davam grandes debates. Aí iniciou a carreira política Jorge Eliecer Gaitán. Em 1930, nom obstante toda violência do regime conservador, chega polas eleiçons Enrique Olaya Herrera à presidência em representaçom do Partido Liberal. Em 1936 chega outro liberal, Alfonso López Pumarejo, que é o mais liberal que houvo em todo o século XX na Colômbia.
Nesse momento foi criada
a lei de sindicatos, nasceu a primeira central operária, a Central
dos Trabalhadores da Colômbia (CTC) e, entre outras, a reforma agrária
que é conhecida como a Lei 200 e que dá dez anos de prazo para
que os grandes latifúndios improdutivos passem a ser produtivos sob
pena de serem expropriados e entregues aos camponeses.
É precisamente
a meados dos anos 40 quando estes dez anos se completavam, entom o latifúndio
empreendeu umha nova guerra mediante o terrorismo através dos grupos
parapoliciais que se chamavam "Páxaros". Os "Páxaros"
eram umha mescla de policiais e parapoliciais patrocinados, entre outros,
pola Igreja Católica que dos púlpitos diziam que havia que se
exterminar os liberais porque eram massons, porque eram nom sei quantas cousas
criminosas mais. É neste quadro que o governo passa do Partido Liberal
ao Partido Conservador e vem o extermínio, seja liberal, comunista
ou simpatizantes de algum grupo nom conservador. É no ano 1948, com
o governo de Alberto Lleras Camargo, que era liberal mas se confundia com
o conservador que era mais reaccionário, que Jorge Eliecer Gaitán
levanta as bandeiras originais do Partido Liberal e acaba assassinado em 9
de Abril de 1948. Gaitán reivindicava os direitos do povo, era seguido
polas grandes massas populares, fundamentalmente massas urbanas, particularmente
em Bogotá. Os camponeses tinhas raízes mais conservadoras. Por
isso é assassinado no momento em que a Conferência Pan-americana
estava reunida onde estava sendo criado a OEA. Por esse mesmo motivo os estudantes
latino-americanos tinham criado umha contra-conferência, entre os quais
estava Fidel Castro e onde pudo presenciar o que foi denominado de Bogotaço.
O regime conservador di
que ele foi morto polo comunismo internacional, entom o povo bogotano se insurge
e incendeia as instalaçons dos jornais de direita como o periódico
oficial do regime El Tiempo, e também os prédios de alguns dos
ministérios. Parte da polícia passa para o lado do povo e praticamente
quase há umha tomada do poder. O problema é que, como nom era
um movimento propriamente revolucionário, morto o caudilho, ninguém
o podia conter. Logo vem a revanche do regime que na Colômbia se é
denominada de a "época da violência" até finais
dos anos 50. É nesse momento que o Partido Liberal cria as guerrilhas
na Colômbia para se defender dos conservadores no governo e para aceder
ao poder, que era a única alternativa nesse momento, como segue sendo
ainda hoje em dia. A finais dos anos 50, liberais e conservadores fam um grande
acordo que se chama Frente Nacional. Fam umha reforma constitucional e nela
acordam em se alternar no poder durante 16 anos.
- Mas antes tivo o
general Gustavo Rojas Pinilla que chegou para sufocar os movimentos insurgentes...
- O que ocorre quando
o Partido Liberal cria a guerrilha a começos dos 50, é umha
guerrilha que lhe escapa das maos e adquire um caráter popular. É
aí onde o Partido Liberal se assusta e decide propiciar um golpe militar
com o general Gustavo Rojas Pinilla. Por isso quando Dom Rojas Pinilla chega,
realiza umha ofensiva muito grande, nom contra os liberais mas sim contra
os comunistas que tinham grandes destacamentos de colonos e de combatentes
nalgumas regions do país. Chega a bombardear extensas zonas camponesas
e finalmente decreta, ao redor de 57, umha amnistia para as guerrilhas liberais.
Logo depois som assassinados os principais chefes, entre eles estava um comandante
liberal muito querido polo povo, Guadalupe Salcedo. Alguns destes combatentes
que já eram militantes marxistas como Manuel Marulanda Vélez,
que vinha de umha família liberal mas desde o ano 53 já era
militante comunista, também é assassinado. A sua família
foi perseguida desde o ano 48 porque os seus primos e principalmente os seus
tios eram os chefes liberais das regions cafeicultoras.
O tempo passa e o jovem Marulanda com 16 anos foge e entom arma-se com 19 primos para defender a sua vida. É importante o quadro em que as FARC som formadas. Estes companheiros que nom aderem à amnistia porque sabem que vam ser mortos e porque sabem que a sua luita nom se concretizara, retiram-se como colonos na montanha, num lugar da Cordilheira Central chamado Marquetalia. Durante 8 anos, 48 colonos retiram-se nas montanhas com as suas famílias cultivando a terra. Entre eles está Pedro Antonio Marin que adopta o nome do comunista morto, Manuel Marulanda Vélez. No ano de 64, no quadro da "guerra fria" e da política norte-americana de nom permitir outra Cuba, outra revoluçom na nossa América, os Estados Unidos através da direita colombiana lançam as consignas do Parlamento colombiano dizendo que Marquetalia era um entrave soviético que colocava em perigo a segurança norte-americana. Os Estados Unidos dim no ano de 64 exactamente o mesmo que estám dizendo 36 anos depois. Como nom havia o problema do narco nesse momento a escusa foi o "entrave comunista". Eram quatro casas com colonos numha situaçom isolada no alto da Cordilheira. Nom tinham nem sequer umha estrada para chegar e os Estados Unidos, através dos jornais da Colômbia e do mundo, satanizam como fam hoje, para logo conseguirem o que figérom em 27 de maio de 1964: 16 mil homens do Exército Colombiano, com toda a assessoria norte-americana no Plano LASO (Latin American Security Operate).
Esse é o "Plano Colômbia" daquela época, com a palabra de ordem do extermínio total do foco comunista. Os companheiros saem dali por um lugar que somente eles conheciam e tinham preparado, e é nesse momento que estes e outros companheiros que estám em circunstáncias similares decidem que algo deve ser feito. Entom nascem as FARC como partido marxista em armas, com a consigna de "O poder para a construçom do socialismo". É importante aclarar algumhas coisas, nom era um grupo de iluminados que se senta para criar umha guerrilha mas sim que é o produto do desenrolar natural das luitas do povo colombiano, precipitado pola intervençom norte-americana.
- Que houvo com Rojas
Pinilla? Quijo converter-se em outro Perón?
- Rojas Pinilla é
colocado polo Partido Liberal para que cumpra os seus propósitos de
pacificar, isto é, exterminar o movimento popular. Rojas Pinilla tentou
criar sua própria base social, fai algumhas reformas e no ano 57, o
Partido Liberal e o Conservador ponhem-se de acordo para demovê-lo,
e Pinilla vai para a Espanha de Franco. O general tinha sua própria
Evita, que era sua filha Maria Eugenia Rojas, chamada "a capitá
do povo", era ela quem realizava obras de caridade e cousas do tipo.
Estando o ditador no exílio, a filha cria um movimento político,
a Aliança Nacional Popular (ANAPO) que vai crescendo na oposiçom
e ao final dos 60 obtém a maioria no Congresso. Com esta maioria Rojas
Pinilla regressa à Colômbia o qual participa como candidato presidencial
nas eleiçons de 1970. Nas eleiçons de 19 de abril desse ano,
à meia-noite ganhava as eleiçons majoritariamente e nesse momento
o presidente ordenou umha censura total da imprensa e impediu voltar a transmitir
os dados das eleiçons. Quinze dias depois, o governo oficialmente deu
o cômputo do ganhador das eleiçons e o ganhador era o outro candidato,
Misael Pastrana Borrero, o pai do actual presidente. O povo tomou as ruas
durante dous dias chamando o general e a Capitá para que saíssem
para comandar a tomada do Palácio. Enquanto isso a capitá e
o general estavam no Palácio negociando com o governo. Para o povo
isso foi umha traiçom e por isso a ANAPO acabou-se ali. Nas eleiçons
seguintes o general já tinha morrido e a capitá perdeu as eleiçons.
- Como foi a guerrilha
do 19 de Abril?
- A intoleráncia
total do regime que nom permite a existência de umha ideia política
oposta, nem sequer dos sectores médios, fai com que em 1973 essa classe
média também organize a sua própria forma armada nascendo
o M-19, como o braço armado da ANAPO, e com um socialista. Chama-se
assim justamente porque significa Movimento do 19 de abril, que foi o dia
em que Rojas Pinilla ganhou as eleiçons e lhas roubárom. O M-19
revoluciona a Colômbia, fai grandes cousas do ponto de vista operativo.
Pom em cheque o regime nos anos 70, gera um imenso apoio popular mas tem os
pés de barro, porque é um movimento social-democrata e também
midiático. Eles fixam um prazo de dez anos para a revoluçom,
passam quinze e por isso a meados dos 80, acabam renegociando com o governo
inserindo-se no regime. O seu comandante, Carlos Pizarro, é o que assina
a desmobilizaçom e logo depois é assassinado quando se propom
como candidato presidencial polo M-19.
Assume o comando deste movimento político Navarro Wolf que nunca tinha sido guerrilheiro, fai o que eles chamam de "realismo político" e passa a ser ministro do governo neoliberal de César Gaviria e da mesma forma que o que ocorreu à ANAPO, o povo retira o apoio e o M-19 desaparece. As FARC desde seu nascimento defendeu e segue defendendo umha saída política, umha saída negociada. Por isso em 1984 firmamos acordos de paz com o presidente conservador Belisario Betancourt. Figemos um cessar fogo com umha trégua durante oito anos, o governo por sua parte se comprometeu a apresentar alguns projectos de lei ao Parlamento com vistas a democratizar a vida política do país. A ideia era deixar a luita das armas pola luita política, democratizando o país. Em cumprimento destes acordos, as FARC propugérom ao povo colombiano em 1985 a criaçom de um amplo movimento político e assim nasceu a Uniom Patriótica. Em 1986 obtivo vinte parlamentares, centenas de alcaides, milhares de vereadores.
Era um fenómeno
político extraordinário, era o maior avanço eleitoral
de toda esquerda colombiana em toda a sua história.
A resposta do regime nom
se fijo esperar: assassinárom dous candidatos presidenciais da Uniom
Patriótica, assassinárom os senadores, os deputados, os alcaides,
os vereadores, a militáncia. Fôrom cinco mil os mortos da Uniom
Patriótica, um genocídio contra um partido político do
qual nom dim nada, nem os senhores norte-americanos, nem a ONU, nem a OEA.
Ninguém di nada. Mas o extermínio nom foi somente contra a Uniom
Patriótica mas também contra o Partido Comunista, os outros
partidos de esquerda e nom esquerda, partidos democráticos e as organizaçons
sociais, sindicais, estudantis, de direitos humanos. Todos tivérom
igual sorte; por isso eu estava dizendo no começo, que estamos chegando
à cifra de 300 mil mortos novamente vítimas do terrorismo de
Estado.
Em 9 de dezembro de 1990 acaba de completar esta obra macabra, o senhor César Gaviria, hoje secretario geral da OEA, presidente da República naquele momento, estando as FARC em trégua, ordena umha operaçom de ataque aéreo total de extermínio contra as FARC, com ajuda militar norte-americana. Assim se inicia a guerra dos anos 90, que é a que estamos vivendo neste momento e que hoje eles estám perdendo. Um exemplo recente é o de dias atrás quando as FARC derrubou um helicóptero dos primeiros enviados polo "Plano Colômbia", no enfrentamento morrêrom 56 militares. A guerra que eles iniciárom é a que hoje estám perdendo. Esse sonho daqueles 48 colonos com Marulanda Vélez à frente, hoje é um grande exército do povo com presença em todo território nacional. O município que é o mais conhecido é o de San Vicente del Cahuan onde se desenvolvem os diálogos com o governo e com todos os diferentes setores sociais e políticos, e o mesmo com toda a comunidade internacional.
- Dada a violência
é possível realizar algum tipo de eleiçom?
- Nestas condiçons
o governo de Andrés Pastrana chega à ruptura das tratativas
de paz. Mas está perdendo a guerra, prova disso é que hoje temos
550 prisioneiros militares de guerra. Todos profissionais, todos absolutamente
capturados em combate e sobre este ponto em particular estávamos negociando
com o governo umha troca de prisioneiros de guerra. As FARC dá aos
prisioneiros de guerra o tratamento que se deve aos presos políticos
e que é de respeito total à sua integridade física e
moral. Estes militares estám nos nossos acampamentos, comem a mesma
comida que come o guerrilheiro, vestem o mesmo que veste o guerrilheiro, nom
som obrigados a fazer nengum tipo de trabalho nem a receber nengum tipo de
estudo que nom queiram. O que dixo o Exército e os media colombianos
repetem sobre os campos de concentraçom, é porque vírom
uns arames farpados. Naturalmente nesses locais nom temos cárceres
nem muros de cimento, tivo-se que cercar isso com arame e eles mostrárom
os prisioneiros de guerra detrás do cercado, entom os senhores militares
dixérom que isso era um campo de concentraçom.
- Como som tratados
os presos das FARC ou do ELN polo Estado colombiano?
- É terrível.
O primeiro que encontramos na Colômbia é umha prisom que tem
capacidade para 2 mil presos e tenhem 10 mil. Todas as prisons colombianas
tenhem em saúde, alimentaçom e higiene umha precariedade sem
nenguma consideraçom nem respeito à dignidade humana. Inclusive
para nós, na relaçom que temos para com os prisioneiros de guerra,
as maes dos prisioneiros estám organizadas e tenhem excelente relaçom
connosco. Elas mandam os seus presentinhos, as suas cartas aos filhos. Nós
levamos, trazemos as cartas, as fotos, os vídeos, mantemos essa relaçom
e elas podem vir nalgumha oportunidade visitá-los.
- Como foi o fenómeno
guerrilheiro do padre católico Camilo Torres Restrepo?
- A começos dos
anos 60 houvo em todo o continente latino-americano o que se denominou a Teologia
da Libertaçom, dos padres e cristaos de base. Na Colômbia houvo
umha grande quantidade de padres e monjas comprometidos com isso. Muitos deles
fôrom mortos ou reprimidos violentamente, por isso alguns tivérom
que fazer guerrilha, é o caso do padre espanhol Manuel Pérez,
que foi durante mais de vinte anos comandante do ELN e há vários
padres desde aquele momento também nas FARC. Lembremo-nos do nosso
companheiro que foi detido no Brasil há mais de um mês e que
cumpre as mesmas funçons que eu. O padre Camilo (também se chama
Camilo) é um sacerdote do ELN. Os padres também tenhem a mesma
sorte, som reprimidos ou assassinados.
Camilo Torres era sobrinho
do presidente Lleras Restrepo. Ele sim vinha das classes pudentes mas era
um intelectual que estudou em Roma, nas universidades da Europa, regressou
a Colômbia como um intelectual, um prestigioso professor universitário
e converteu-se em líder estudantil dos anos 60. Logo se estendeu aos
bairros mais populares. Estava fundando seu próprio movimento político.
Camilo Torres começa a organizar as massas, torna-se um dirigente extraordinário,
com um discurso muito radical contra o regime. Por este motivo sofre umha
perseguiçom permanente. Camilo Torres sabe que há umha operaçom
para matá-lo e entom nom lhe resta outro caminho do que entrar nas
filas da guerrilha. Creio que ali houvo um erro daqueles que desafortunadamente
temos cometido em toda esquerda nesse processo de aprendizagem. No ELN havia
a palabra de ordem que aquele que ingressava tinha que se virar com a sua
própria arma. No primeiro combate morreu luitando Camilo Torres.
- Hoje que se rompeu
o processo de paz, ela é possível?
- As FARC novamente reivindicam e levantam a sua consigna de um nom à guerra, um sim à saída política. Nom queremos a guerra para o nosso país, estamos contra a guerra total. Hoje som os Estados Unidos que estám manipulando a situaçom de guerra na Colômbia. Nós nom desafiamos os Estados Unidos, nom queremos a guerra mas tampouco aceitamos a chantagem, estamos fazendo frente, nom renunciamos ao propósito de criar umha nova Colômbia com justiça social. Sabemos que o "Plano Colômbia" é umha nova escalada norte-americana contra a América Latina prevendo os levantamentos sociais em resposta a este modelo neoliberal, onde os Estados Unidos voltam a semear bases militares na América Latina. O "Plano Colômbia" já começou e por isso já derrubamos alguns dos seus helicópteros e avions fantasmas. Nom renunciamos ao legítimo direito que temos de sair do subdesenvolvimento, de deixar de ser o quintal dos Estados Unidos e de luitar pola dignidade latino-americana.