Entrevista com o Secretário Geral da FPLP desde a prisom de Jericó

A seguir, oferecemos a traduçom galega de umha interessante entrevista com Ahmad Sa'adat, actual secretário geral da Frente Popular para a Libertaçom da Palestina (FPLP), a organizaçom comunista da resistência nacional palestiniana, protagonista de importantes golpes contra o Estado sionista de Israel e um dos principais alvos das suas forças repressivas. A entrevista foi realizada a Ahmad Sa'adat na cadeia de Jericó por um jornalista francês ligado à LCR.

P. Por quê é que estás na prisom?

R. Estou cá por meras razons políticas. Israel solicitou, com o apoio dos EEUU (como sempre), da Autoridade Palestiniana (AP) a entrega das pessoas envolvidas na morte do ministro de Turismo israelita. A AP, que já nom era digna de confiança, realizou este acordo com a CIA e aplicou um acordo entre Israel e os EEUU que nom tem qualquer base legal ou jurídica segundo a legislaçom palestiniana. Portanto, a minha detençom é ilegal e contrária à justiça. Quanto aos meus camaradas, fôrom julgados segundo a legislaçom israelita por um Tribunal Palestiniano Especial, cujos membros recebêrom sentenças dentre um a dezoito anos de prisom, enquanto, no meu caso, fum detido e encarcerado por ser o secretário geral da Frente Popular para a Libertaçom da Palestina (FPLP), sem acusaçom formal nem julgamento nengum, estando, segundo o acordo que a AP formulou, numha situaçom de isolamento e privado qualquer actividade política e informativa. Mais à frente, o Tribunal Superior de Justiça palestiniano ditou a sentença para a minha posta em liberdade, mas continuo aqui e polos vistos a ninguém interessa tal sentença.

Portanto, estamos numha cadeia palestiniana mas, tu próprio pudeche verificá-lo,os carcereiros som membros da inteligência británica e estado-unidense cuja funçom é vigiar se a AP aplica o que Israel exige, sendo eles quem mandam nesta prisom, o que quer dizer que, na verdade, estamos num cárcere israelita. Vistes como ao entrardes na prisom, os carcereiros palestinianos apontárom os teus dados?, pois no fim do dia eles vam entregá-los aos británicos e estado-unidenses e, a seguir, estes entregarám-nos por seu tuno aos israelitase é por isso que poucos ousam visitar-me.

P. Há uns dias começou o julgamento contra Marwan Bargouthi, que foi largamente coberto polos meios de comunicaçom, por quê é que todos falam dele, enquanto se mantém silêncio absoluto sobre ti e os teus camaradas?

R. Para já, queria esclarecer que é importante e necessário falar sobre o Marwan; eu som um dos que reivindicam tal, nom por ser Marwan Bargouthi, mas porque ele poderia ser o emblema dos prisioneiros palestinianos nas prisons israelitas. Em segundo lugar,e quanto ao silênciosobre a nossa situaçom, afirmo que o primeiro responsável é a AP juntamente com as ONG. Estamos aquí porque se pediu à AP que nos prendesse em Jericó. O visto e prace dosresponsáveis palestinianos para deter e encarcerar membros da resistência palestiniana demonstra sobretodo a confirmaçomdo estado de silêncio e impotência.

Estamos aquí porque no seu dia eliminamos Zeivi, ministro de Turismo israelita de extrema direita e racista que solicitou a expulsom dos palestinianos à Jordánia. Zeivi foi um dos membros do governo israelita que sistematicamente apoiou o projecto de eliminaçom e assessinato do liderato da resistência palestiniana, além de ser um dos que solicitárom o assassinato de Abu Ali Mustafá [secretário geral da FPLP assassinado em 27 de Agosto de 2001 polo Estado de Israel]. Por isso, a resposta tinha que ser do mesmo nível, eliminando os seus responsáveis e dirigentes, mas a AP, em lugar de solicitar a entrega dos assassinos dos nossos dirigentes e resistentes palestinianos, repregou e submeteu-se às exigências do governo israelita, impondo o silêncio mais absoluto como atitude comigo e os meus camaradas.

Todo o que a AP conseguiu fazer é ajudar os israelitas a incorporar o nome da FPLP na listagem de "organizaçons terroristas" dentro da UE, encontrando-nos, desde entom, com o rejeitamento de muitos partidos comunistas para manter encontros connosco. Este rejeitamento já existia, indo em aumento por exemplo, com o Partido Comunista Francês, que veu para encontrar-se com a esquerda palestiniana e rejeitárom formalmente entrevistar-se connosco. O mesmo aconteceu com o Partido Comunista Chipriota. Isso todo contribuiu para aumentar o nosso isolamento e o estado de silêncio que rodeia a nossa situaçom.

P. Falas da unidade das forças palestinianas, como vês esta questom estando detido por um acordo da AP?

R. A questom é muito complexa. Há muitos membros da Al-Fataha e do seu liderato que participam nas concentraçons e manifestaçons exigindo a nossa posta em liberdade, e este sentimento vai em aumento criando contradiçons dentro do mesmo movimento de Al-Fatah sobre o papel que está a jogar a AP e o papel que dela requerem os dirigentes da resistência palestiniana. Resumindo, a AP quer paralisar o movimento de resistência para continuar o diálogo com Israel em contra do desejo do povo palestiniano e dos partidos políticos. Após o fracasso dos Acordos de Oslo, queremos melhorar a situaçom, queremos umha verdadeira estratégia, umha estratégia de defesa e resistência que permita realizar todas as demandas do povo palestiniano, erigidas sobre umha verdadeira sociedade democrática.

O movimento de Al-Fatah, juntamente com todos os partidos palestinianos, concorda hoje em constituir umha presidência temporária que dirija o movimento de resistência palestiniano. Mas o que está claro hoje é que AP nom quer ouvir falar desta presidência temporária que poderia questionar a própria AP. É claro que hoje a AP é um empecilho para o movimento de resistência palestiniano, porque representa, especialmente, os interesses da burguesia palestinana e, ao mesmo tempo, os interesses de Israel e nom representa, de nengumha forma, os interesses do povo palestiniano. A Ap nom tem nengum interesse na continuidade da Intifada, mais é, quer pôr termo à resistência, podendo sentenciar que os interesses palestinianos se oponhem completamente aos da AP. Cada vez que no passado requeremos a unidade palestiniana de todos os partidos, surgia um problema chamado Autoridade Palestiniana.

P. Como vedes a situaçom actual?

R. Para compreendermo-lo, deveríamos voltar aos Acordos de Oslo [de 1993], um mero projecto comercial entre a burguesia palestiniana e a ocupaçom israelita. Israel conseguiu através de Oslo fazer com que a OLP renunciasse ao seu programa e à sua estratégia prejudicando perniciosamente as condiçons da vida diária do povo palestiniano.
Lembras aquela época em que a OLP tinha dificuldades económicas, nomeadamente a raiz da Guerra do Golfo? Pois bem, Oslo vem a oferecer a hipótese de indemnizaçons financeiras graças a uns importantes acordos comerciais. O pacto de Oslo nom é um acordo político que implique a soluçom para o povo palestiniano, senom um programa que inclui questons comerciais e de segurança, com certeza, para Israel. Mas a pesar de todos os resultados desastrosos do pacto de Oslo que tu conheces perfeitamente, há umha realidade básica que o Acordo de Oslo deu e que é impedir e limitar a existência de qualquer outra soluçom que seja reconhecida como tal, se nom passa através do quadro de Oslo e negociando com Israel. A FPLP chama à supressom de todo diálogo ou negociaçom com Israel; hoje por hoje, chegamos a umha situaçom em que a única causa que existe é a que há entre o colonialista e o colonizado, entre a causa do povo palestiniano e a entidade israelita,e perante a que a AP adopta umha postura contemplativa, tratando de recuperar o seu domínio e a sua autoridade custe o que custar.

P. Qual é a estratégia a seguir para recuperar um forte movimento nacional palestiniano?

R. A resistência é a única eleiçom, precisamente polas razons que expugem anteriormente. Actualmente e apesar das dificuldades em que se vive, podemos ver que a continuidade da resistência palestiniana tem conseqüências para Israel no nível económico e social; o desmoronamento vai em aumento, nomeadamente nos últimos meses. Devemos é construir bases populares para a continuidade da resistência e do seu fortalecimento, e cumpre a construçom de umha resistência popular aberta a todos, onde todos os sectores da populaçom encontre o seu papel evitando, assim, os erros do passado quando parte do povo oferecia sacrifícios e a burguesia recolhiaos frutos, sendo ela a única beneficiada. Nom devemos separar a resistência à ocupaçom da luita por umha sociedade democrática; hoje devemos tratar de construir umha OLP democrática, que represente todos os interesses do povo palestiniano com todas as suas classes e, com certeza, que inclua os refugiados que estám no exterior.
O outro elemento básico é que a nossa luita deveria enquadrar-se no ámbito internacional, o que quer dizer que deve enquadrar-se [na luita] contra o capitalismo global. Israel é um Estado cujo objectivo primordial é proteger os interesses do imperialismo internacional na zona e é por isso que a nossa luita tem de ser umha luita contra o capitalismo global. A questom palestiniana é considerada como umha das mais importantes do mundo, polo qual temos de construir umha resistência que esteja ao pé dos movimentos nacionais de libertaçom contra o capitalismo. O apoio que nós necessitamos é um apoio contra o imperialismo mundial e acho que é claro que os movimentos anti-globalizaçomcomeçam a evoluir jogando um papel claro nos últimos anos. Se quigermos ter sucesso, deveremos construir um movimento de resistência popular, mas ao mesmo tempo, nunca temos de separar a luita local e a luita global, tendo em conta que a luita será mais clara quando seja contra o imperialismo, do capitalismo e da globalizaçom.

P. Já falamos da estratégia, mas nom falamos ainda de programa político...

R. Na FPLP achamos que a soluçom sustentada nos "dous Estados para dous povos" é umha soluçom que nom tem vida nem continuidade, em primeiro lugar pola nossa absoluta convicçom de que o método de Israel e o próprio Estado de Israel continuarám a ser como os de agora. Em segundo lugar, cumpre responder duas questons.
Primeira, os refugiados palestinianos e o seu direito ao regresso: estamos a falar da metade do povo palestiniano cujo direito à volta é sagrado, legítimo e fica fora de qualquer discussom. Com soluçom de "dous estados para dous povos", o direito ao retorno nem sequer está exposto ao debate, é possível que os refugiados vivam em Gaza e Cisjordánia?, estás a ver onde começao problema?
Segunda, os árabes de 1948, que som quase um milhom e duzentas mil pessoas e que vivem sob a sombra do governo de Israel asfixiados, oprimidos por um regime colonialista; estám a ver onde realmente radica o conflito? A única soluçom real é o fim da ocupaçom, a volta dos refugiados aos seus lares, às suas cidades, às suas aldeias e depois achar umha Autoridade Democrática sobre a terra da Palestina histórica. Eis a única soluçom legítima e justa, mas com certeza deve ser exposta a nível internacional, sendo esta soluçom, na actualidade, inaceitável para o imperialismo mundial. Devemos ser conscientes de que a nossa batalha há ser longa, mas com o tempo e com a solidariedade internacional atingiremos os nossos objectivos apesar da dificuldade desta etapa. O futuro nom poderia ser senom menos tenebroso, dentro da escala de visom optimista.



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