Entrevista com Rafael Reyes, comandante das FARC-EP

Março de 2003

A entrevista que se segue foi efectuada pola Red Resistência num acampamento do sul do país. O entrevistado é o comandante Rafael Reyes, responsável pola formaçom de quadros de um dos blocos insurgentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Exército do Povo (FARC-EP). Recrutamento, trabalho clandestino, o "Novo Poder", guerra mediática e a nova fase da guerra nas cidades som alguns dos temas analisados, e que podem ajudar-nos a combater a desinformaçom fomentada polos média capitalistas à volta da guerrilha comunista colombiana.

Red Resistencia: Comandante Rafael Reyes, qual o seu papel nas FARC-EP?

Rafael Reyes: Entrei nas FARC-EP como combatente raso, a seguir fôrom-me dando algumas responsabilidades que me permitírom receber umha formaçom integral como guerrilheiro revolucionário. O meu trabalho centrou-se sobretodo no aspecto político-organizativo, organizando comunidades, contribuindo internamente para o trabalho do organismo político, elevando a capacidade das células, que som as estruturas políticas mais importantes no seio das FARC-EP. Aqui estou cumprindo o meu papel como comunista, que é ajudar na formaçom política e ideológica e cultural do colectivo das FARC.

Isto foi umha escola importante para mim. Antes de entrar na guerrilha umha pessoa tenta imaginá-la, mas só quando se está dentro se percebe que isto é umha verdadeira universidade da revoluçom. É na prática diária que se vai aprendendo a conhecer as pessoas, a entender suas dificuldades e o porque da sua incorporaçom ao nosso exército revolucionário. Isso é um processo teórico-prático. Nas FARC-EP temos um conceito de formaçom integral dos quadros revolucionários. A este aspecto da formaçom damos umha grande importáncia, já que nos permite nom só preparar-nos ao nível do discurso como também no campo militar. Aqui há que aprender todas as especialidades que existem na guerrilha, como o manejo de explosivos, artilharia, organizaçom de massas, propaganda, etc.

Di-se que as FARC-EP som um Partido Comunista. Como pode um partido político ser ao mesmo tempo um exército revolucionário?

Somos umha organizaçom político-militar revolucionária que se orienta de acordo com os princípios do marxismo-leninismo e do pensamento do nosso Libertador Simón Bolívar e de todo o pensamento revolucionário da América Latina. A nossa organizaçom político-militar tem umha estrutura orgánica como força militar formada por esquadras, guerrilhas, companhias, colunas, frentes e blocos. Mas também umha estrutura hierárquica, pois cada umha destas estruturas tem seus comandos, quer sejam comandantes, substitutos ou terceiros no comando. A esquadra é a estrutura básica militar, mas em nossa organizaçom é ao mesmo tempo umha célula política. Assim como na esquadra existe o comando militar, a célula também tem os seus próprios dirigentes políticos. Neste nível já existe formaçom de quadros político-militares. A célula comunista para nós tem umha importáncia vital, pois é ali que manejamos as questons quotidianas da vida, especialmente aquilo que tem a ver com a formaçom de quadros. É na célula que o combatente desenvolve sua capacidade política. Na célula o guerrilheiro deve estudar todos os documentos de nossas conferências, dos Plenos do Estado Maior Central, de actualizaçom política, etc. É ali na célula que nos vamos formando nas ideias revolucionárias.

Como se entra nas FARC-EP?

A maioria dos nossos combatentes provenhem de estratos sociais muito humildes. Muitos deles fôrom vítimas do terrorismo do Estado e decidem entrar na guerrilha porque aqui vem um futuro e sobretodo vem a garantia de defender a sua própria vida. A maioria som jovens que nom tivérom oportunidades, porque o Estado nom lhes deu nada. Também temos guerrilheiros que provenhem de estratos médios e altos. Trata-se sobretodo de luitadores sociais aos quais nom lhes restou outra alternativa senom a luita armada a fim de continuar a sonhar por umha sociedade mais justa. A idade de recrutamento nas FARC-EP é dos 16 aos 30 anos. Nos nossos acampamentos pode haver menores de idade mas nom estám ali na qualidade de combatentes. Estes menores estám a receber a educaçom que o Estado lhes negou. A nossa organizaçom fai umha selecçom muito rigorosa dos seus integrantes. Um jovem antes de entrar para a nossas fileiras passa por todo um processo. A primeira cousa que fazemos é explicar-lhe do que se trata. Que compromisso vai assumir com a nossa organizaçom. Para isso é necessário explicar-lhe o que som as FARC-EP, porque luita, qual o seu projecto político, quais as suas normas, regulamentos e estatutos. Todo isto para que o jovem tenha todos os elementos para decidir se deseja realmente entrar no nosso exército e assumir assim seu compromisso com o projecto revolucionário. O jovem combatente compromete-se em primeiro lugar a luitar em defesa dos interesses do seu povo. Em segundo lugar, a levar adiante o plano estratégico das FARC-EP. Em terceiro, a cumprir com os planos e tarefas que decorram do mesmo plano. E em quarto lugar a cumprir os regulamentos, princípios e estatutos, assim como a seguir as linhas políticas e ideológicas da organizaçom.

A decisom de incorporar-se ele tem que tomá-la livremente. Nós nom fazemos nengum tipo de recrutamento forçado. A entrada nas FARC-EP é voluntária. Aqui o guerrilheiro nom recebe nengum salário. Dá-se-lhe todo o que precisa para viver e combater.

Como se vai ascendendo na estrutura das FARC-EP desde guerrilheiro raso até Comandante em Chefe?

O jovem atravessa todo um processo de formaçom político-militar, cultural e ideológica. Na etapa de recrutamento os jovens vam a umha escola básica de recrutas que pode durar de três a cinco meses. Ali adquirem o conhecimento básico do guerrilheiro. A primeira cousa que vam conhecer é o porque luitamos. Damos-lhe a conhecer o "Programa Agrário dos Guerrilheiros", a "Plataforma para um Governo de Reconstruçom e Reconciliaçom Nacional", que é o programa do Movimento Bolivariano pola Nova Colômbia; estudam-se também três documentos importantes: os estatutos, o regime interno disciplinar e as normas internas de comando, que som a coluna vertebral das nossas normas. Umha vez finalizada esta etapa pode-se dizer que está pronto para entrar no grosso da tropa.

Estando já nas unidades das FARC, o jovem inicia a sua carreira como profissional revolucionário. As nossas normas dim que depois de dous anos, de acordo com a sua experiência, comportamento, valor, entrega e espírito de superaçom, assim como a sua responsabilidade e à qualidade do seu trabalho, já se podem dar cargos de responsabilidade ao guerrilheiro. A primeira cousa que fazemos é promovê-lo a comando. Inicia-se como substituto de esquadra. É a partir desse momento que começa a receber graus: comandante de esquadra, substituto de guerrilha, comandante de guerrilha, e assim por diante até que vai adquirindo graus de maior responsabilidade como pode ser o de substituto ou comandante de coluna. Neste nível o combatente já pode actuar como comandante de frente ou membro de Estado Maior de Frente.

Depois de ser comandante de frente começa-se a receber outros graus como o de ser membro do Estado Maior de Bloco, comandante ou substituto de Bloco. Para ir depois adquirindo maiores responsabilidades até chegar a ser membro do Estado Maior Central, e dali ser membro do Secretariado, que é o cargo máximo e que actualmente é integrado por sete camaradas. O camarada Manual Marulanda Vélez actua como membro do Secretariado e como Comandante em Chefe das FARC-EP.

O que proponhem as FARC-EP ao povo colombiano?

O objectivo final do nosso projecto revolucionário é a tomada do poder a fim de construir umha nova sociedade, umha Nova Colômbia em paz com justiça social. É conseguir levar à prática o "Programa Agrário dos Guerrilheiros". Para alcançar esse objectivo é necessário percorrer algumhas etapas. Estamos afirmando a necessidade de formar um governo de convergência democrática, um governo de reconstruçom e reconciliaçom nacional com um programa muito concreto que está reflectido na "Plataforma de 10 pontos" aprovada na VIII Conferência das FARC-EP e foi reajustado no último plenário do Estado Maior Central de Março de 2000. Como organizaçom ampla, estamos a propor ao povo colombiano, às maiorias, que apoiem e levem adiante o projecto do Movimento Bolivariano pola Nova Colômbia .

Estamos impulsionando outras propostas organizativas para levar adiante o projecto estratégico das FARC-EP. Estamos organizando as Milícias Bolivarianas nas comunidades, nos bairros, no campo. Neste processo estamos a vincular todos aqueles que queiram luitar pola defesa dos interesses do povo, da sua terra, os que estám contra a corrupçom, o Terrorismo de Estado, os que queiram defender sua vida, assim como vincular todos aqueles que queiram luitar por umha mudança deste regime de terror na Colômbia.

Estamos a organizar e estruturar o Partido Comunista Clandestino para dar ao povo mais um instrumento de luita, sem que as suas vidas corram os riscos da actividade política aberta. A nível das organizaçons sociais estamos contribuindo para que se fortaleçam todas as expressons comunitárias a fim de que as comunidades podam exigir ao Estado que invista no social os grandes recursos económicos que estám a dilapidar no monstruoso aparelho de guerra estatal.

Estamos dando a conhecer as nossas propostas ao povo colombiano. Estamos dando a conhecer porque luitamos, qual é a nossa proposta de paz com justiça social, de mudança, de substituiçom de cultivos ilícitos. Por isso é que estamos a convidar o povo a que se organize e luite para alcançar estes objectivos.

O Partido Comunista Clandestino (PCCC) e o Movimento Bolivariano pola Nova Colômbia som organizaçons clandestinas. Por que este carácter?

A oligarquia militarista deste país, aliada ao imperialismo norte-americano, pujo em prática todos os métodos repressivos contra o povo colombiano. Utilizando os grupos paramilitares tentou semear o pánico e o terror a fim de que as pessoas nom se vinculassem ao processo revolucionário. Este método é conhecido polo nome de "tirar a água ao peixe". Há comunidades que fôrom duramente golpeadas polo Terrorismo de Estado, quer através de massacres como de assassinatos selectivos. Fôrom massacrados a sangue e fogo por este regime excludente e intolerante. Foi o próprio povo que nos dixo que é preciso trabalhar em outras condiçons e foi por isso que decidimos que enquanto nom houver condiçons para avançar um trabalho político aberto, o nosso trabalho deverá efectuar-se de forma clandestina. É por isso que o PCCC, o Movimento Bolivariano e as Milícias Bolivarianas tenhem um carácter eminentemente clandestino.

Existe umha grande ofensiva do Estado colombiano e dos meios de comunicaçom do estabelecimento para deslegitimar a luita das FARC-EP. O que fam para contrariar esta ofensiva?

Com a queda da Uniom Soviética, os ideólogos burgueses e os meios de comunicaçom ao serviço do grande capital tentárom desvirtuar a luita revolucionária. Há umha grande campanha de desinformaçom e de operaçons psicológicas que fam parte desta guerra sofrida pelos colombianos. Com isto pretendem convencer o povo de que desapareceu o espaço para a luta de classes, que hoje já nom é possível a luita dos povos e que a luita armada perdeu validade. Pretendem convencer-nos de que nom existe outra alternativa ao capitalismo selvagem.

Na Colômbia, os militares atribuírom-se a tarefa de ganhar-nos a guerra a partir dos gabinetes e através dos media. Esta é umha guerra cada vez mais mediática. Os comunicados militares do exército som na maioria dos casos puras mentiras. A luita nesse terreno é muito desigual, umha vez que nom contamos nem com os meios nem com os recursos que eles tenhem ao seu serviço.

A nossa organizaçom está neste momento a fazer um grande esforço para combater nesta frente de batalha. Editamos a revista "Resistência" em vários níveis: ediçom nacional, ediçom internacional, ediçom por blocos e por frentes. Ao nível dos blocos editamo-la com a importante tiragem de 20 mil exemplares por cada bloco. Além da revista publicamos comunicados, volantes, afixáveis, etc. Por outro lado, estám a funcionar as emissoras da Voz de la Resistencia de la Cadena Bolivariana. Cada bloco conta com umha emissora FM. A meta é que cada frente conte com sua própria emissora e sua própria revista Resistencia.

Como é o trabalho das FARC-EP com as comunidades?

Com as comunidades estamos procurando construir o "Novo Poder". Isto explica nossa política de exigir aos alcaides que renunciem. Vemos que os alcaides já nom estám a cumprir nengum papel ao serviço das comunidades. Essa experiência já a vivemos com os inspectores de polícia. As pessoas começárom a desconhecer a sua autoridade e dirigiam-se a nós para solucionar os seus problemas. Dizíamos às comunidades que os acordos a que chegassem nós os faríamos respeitar, mas com a condiçom de que as partes em conflito deveriam aceitar as decisons e ficar amigas. Isso tem funcionado e por isso os inspectores de polícia perdêrom a sua razom de ser.

Actualmente, os alcaides é que perdêrom a sua razom de ser. Primeiro, porque esses alcaides esquecem as comunidades que os elegêrom. Muitos alcaides só trabalham para os sectores que os apoiárom nas urnas, esquecendo os demais. Segundo, a maioria das alcaidias convertêrom-se num foco de corrupçom, injustiça e clientelismo. A estes alcaides estamos a exigir que renunciem. É por isso que estamos convocando as comunidades a se organizarem elas próprias, gerirem e administrarem os seus recursos, umha vez que elas conhecem as suas próprias necessidades. Nós e a comunidade vamos estar ali fiscalizando esse novo embriom de poder local que estamos a criar nos municípios e nas freguesias. É a isso que chamamos "O Novo Poder". Isto já é umha realidade em muitas comunidades. Com isto procuramos, antes de todo, que as comunidades recuperem o seu protagonismo. Em segundo lugar, que comecem a fazer o inventário das suas riquezas, da terra, como está distruída, que conheçam quem som os que produzem a riqueza e quem som os que se aproveitam delas, como de distribui, e estamos a dizer a essas comunidades que fagam um inventário das suas necessidades reais, para poder investir eficientemente os recursos.

As FARC-EP entrárom numha fase de guerra nas cidades. Qual é o objectivo desta nova etapa?

O mapa demográfico da Colômbia mudou radicalmente nos últimos 30 anos. Hoje em dia, quase 85% da populaçom colombiana vive em centros urbanos, em resultado do deslocamento forçado que levou muitos camponeses a procurarem refúgio nas cidades. Dentro da sua estratégia de guerra, o inimigo pretende deixar deserto o campo através do seu projecto paramilitar. Por um lado pretende apoderar-se das suas terra, e polo outro tirar-nos o apoio que temos na populaçom camponesa, que é muito elevado. Foi assim que nos últimos anos estes deslocados venhem-se assentando nos cinturons de pobreza das grandes cidades. A realidade é que os camponeses fôrom com os seus problemas para a cidade. Fôrom perseguidos no campo e agora som perseguidos na cidade. Anteriormente, eram bombardeados no campo de forma indiscriminada. Agora também o som nas cidades. Para eles, isto nom é um fenómeno novo. A isto temos de somar o desemprego, a marginalidade, o desamparo estatal e a pobreza absoluta. Há sectores que estám aguentando fame física. Todo isto fai com que estes sectores excluídos da riqueza do país luitem pola melhoria das suas condiçons de vida. E é aí que estamos nós com as nossas propostas. Estamos a organizar ali as milícias, o PCCC e o Movimento Bolivariano a fim de preparar o povo colombiano para a insurreiçom armada. Com o objectivo de acabar de umha vez por todas com este regime de terror e exclusom.

Neste momento temos milícias em todas as cidades colombianas. Em Bogotá e Medellín já se começárom a sentir. Logo a sua actuaçom será sentida em toda a Colômbia, umha vez o povo colombiano nom aguenta mais esta situaçom de repressom e injustiça social.


 




Voltar à página principal