Entrevista com Ahmed Karim, líder comunista na oposiçom patriótica iraquiana

Viena, 27 de Outubro de 2003

Oferecemos a entrevista que o Campo Anti-imperialista realizou ao militante comunista iraquiano Ahmed Karim, representante da oposiçom patriotica que enfrentou a claudicaçom do PCI, incorporando-se à resistência armada quando a direcçom do partido decidiu integrar-se no governo fantoche pró-imperialista

Como avalia o desenvolvimento da resistência?

Ahmed Karim: Falando francamente, nom esperava umha expansom tam rápida do movimento de resistência. Muitos depositárom todas as suas esperanças no Exército iraquiano e, assim, ficárom frustrados pola traiçom do alto comando. Ao nível da organizaçom popular quase nada pudo ser preparado antes do ataque, embora nós pedíssemos ao regime de Saddam Hussein para garantir-nos liberdades elementares em troca do nosso apoio contra a agressom americana. Além do facto de Saddam ter reagido só relutantemente, foi de qualquer forma demasiado tarde. Considerando estas circunstâncias, o desenvolvimento é maior do que podíamos ter esperado. A resistência militar está firmemente enraizada e apoiada polas vastas massas das classes pobres e nom só por elas. E a resistência continua a crescer - graças também às horríveis atrocidades perpetradas polo exército de ocupaçom. E nom deveríamos esquecer que temos o forte apoio das massas árabes e polo menos a simpatia da maioria da populaçom mundial. Mesmo na Europa muitas pessoas estám ao nosso lado sem ousarem exprimi-lo abertamente. Na verdade, agora é demasiado tarde para os EUA adoptarem umha postura suave e assim embalar a resistência no sono, quaisquer passos que eles dem conduzem a nova escalada.

Pensa que o "Conselho Governante" ("Governing Council") terá êxito em estabilizar a situaçom ao ponto de que os EUA podam transferir o poder para um regime fantoche?

AK: Nom, o Conselho tornou-se umha parte do problema, nom a soluçom. A tropa americana tem de protegê-los, alimentá-los, pagá-los e eles próprios começam a pedir para voltar para casa. O conselho perdeu até mesmo o mais ligeiro traço de credibilidade entre as massas populares, se é que algumha vez tivo algum. Isto está a ser reflectido no facto de que alguns elementos das forças iraquianas que apoiam os EUA e fôrom por eles organizadas na aliança de Londres agora oponhem-se ao conselho. Isto nom significa umha mudança quanto ao seu papel de traidores mas, através deste movimento, que eles tentam aumentar o seu peso frente aos seus mestres.

Como comenta a participaçom do Partido Comunista Iraquiano no Conselho governante americano?

AK: Isto é a pior cousa que eu podia algumha vez imaginar. Antes desta incrível traiçom a liderança do partido já estava moribunda com o seu apoio implícito ao embargo genocida e à agressom militar. Mas agora eles estám completamente queimados, mortos. Qualquer comunista que valha este nome deve estar na primeira linha da resistência, com as massas. Qualquer entidade que sirva a ocupaçom é umha inimiga do povo que só merece ser combatida.

Mas será que isto incita oposiçom e divisons dentro do Partido Comunista e dos meios comunistas?

AK: Enquanto a liderança do partido está a abrir escritórios por toda a parte sob a protecçom das forças de ocupaçom americana, muitos comunistas viram as costas ao partido e juntam-se às fileiras da resistência. O partido, que foi outrora o mais forte partido do Iraque, está como um cadáver. Mas esta crise mortal, esta agonia do partido provocou oposiçom mesmo dentro do comité central. Nem todos estám a apoiar a linha suicida. Dentro em breve verificarám-se divisons.

Como actuarám os comunistas anti-imperialistas a fim de construir umha ala comunista da resistência?

AK: Em primeiro lugar participaremos por todos os meios na resistência e nas suas tentativa de construir umha frente comum de libertaçom nacional. Somente através do combate seremos capazes de reconstruir o movimento comunista. Quanto aos remanescentes do PCI, organizaremos umha conferência em Bagdad. A liderança tentará sabotar as nossas tentativas, mas procederemos com eles ou sem eles. Isto será combinado com umha carta aberta de comunistas patriotas apoiados por quase todos os partidos comunistas árabes. Nem um único partido apoia a ocupaçom americana e o seu conselho governante. Eles apoiam-nos.

Como encara a possibilidade da construçom de umha frente de resistência nacional?

AK: Esta frente é umha necessidade urgente e estou certo de que virá à luz do dia mais cedo ou mais tarde. No final das contas conseguiremos estender umha ponte entre as diferentes lideranças das forças nacionalistas, islámicas e comunistas. Ao nível popular esta cooperaçom já é evidente pois a resistência nom é um assunto de religiom ou de confissom mas sim de autodeterminaçom nacional e social. Contodo, nom podemos dizer quanto tempo levaremos para forjar a frente. É preciso ter em mente que a ocupaçom tem estado na ordem-do-dia há apenas um ano ao passo que nós fomos privados de vida política durante décadas. Precisamos tempo, muito mais tempo para construir a liderança e o comando centrais necessários.

É verdade que a relaçom com a liderança xiita constitui o principal problema político para a resistência?

AK: Nom há umha liderança comum xiita. Por um lado há alguns clérigos que só se preocupam em preservar o seu papel. Eles oponhem-se à ocupaçom nom como umha questom de princípio mas só na medida em que os seus interesses ficam em perigo. Os EUA já entendêrom que o seu conselho governante nom os levará longe e que precisam de outros pilares. Portanto eles estám a cortejar alguns líderes clericais. Por outro lado, é preciso ter em mente que há milhons de xiitas muito pobres. Eles costumavam ser comunistas e agora querem combater a ocupaçom. Eles defendem principalmente o seu interesse de classe, o qual inclui independência frente ao imperialismo. Eles seguirám qualquer liderança que leve a isso. O processo que gira em torno da definiçom do papel político dos clérigos ainda nom acabou e será objecto de novos conflitos. O seu resultado é decisivo para a resistência - e na verdade os EUA também sabem disso. Eles som poderosos e sempre encontrarám pessoas prontas para colaborar.

O que espera do movimento global anti-guerra?

AK: Precisamos sem dúvida deste movimento em vários níveis. Antes de todo nos EUA e na Gram Bretanha para fazer pressom junto aos instigadores da guerra a fim de forçá-los finalmente a retirarem a suas tropas. Em segundo lugar, é necessário para exercer pressom junto aos governos europeus para nom justificarem retroactivamente a agressom e ocupaçom dando dinheiro ou enviando tropas, mesmo que isto aconteça sob a capa das Naçons Unidas. Os cans de guerra americanos e británicos devem ser progressivamente isolados. Em terceiro lugar, a resistência precisa de apoio político directo como o que tem sido dado polo Campo Anti-imperialista. A resoluçom adoptada em Assisi e endossada por dúzias de organizaçons de todo o mundo apelando abertamente à vitória da resistência foi difundido no Iraque e encorajou o movimento de resistência. Aguardamos ansiosamente a demonstraçom internacional nom só contra a ocupaçom como também em favor da resistência, programada para 6 de Dezembro em Roma. Se milhares e milhares exprimirem seu apoio à mesma isto constituirá umha grande bofetada política nos nossos inimigos e nos seus colaboradores europeus, do Médio Oriente e iraquianos.

 




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