GALIZA QUEIMADA

A Junta da Galiza acaba de reconhecer que entre o 1 de Janeiro e o 31 de Julho de 2002 se registárom no nosso país 965 incêndios, 3.813 conatos e 665 "queimas de matos". Ao todo, a superfície atingida polo fogo até Julho ultrapassava as 11.730 hectares, incluindo nestas 3.484 de monte arvorado e 8.246 de superfície rasa.

Mais de 6.000 efectivos trabalham na Galiza segundo o Governo autónomo nas brigadas contra incêndios, incluindo aliás 311 veículos motobomba, 13 helicópteros de extinçom e 3 de vigiláncia e coordenaçom, 8 avions de carga em terra, um aviom óptico e dous avions anfíbios. Dados que luzem na galeria mas nom servem para atalhar umha peste alimentada por escuros interesses económicos aos quais nom som alheios os políticos responsáveis pola política anti-lume.

A seguir, reproduzimos o extracto de umha análise publicada por NÓS-Unidade Popular na sua revista Voz Própria nº 4 (Verao 2002), sobre esta questom, convidando a adquirir esta publicaçom às pessoas interessadas em aprofundar no tema.

"Para muit@s galeg@s, os incêndios florestais fam já parte dos elementos naturais deste País. A esta terrível apreciaçom tem-se chegado depois de por volta de 40 anos continuados submetidos aos efeitos devastadores do lume. As cifras oficiais (sempre menores que as reais) referentes à Comunidade Autónoma da Galiza som impresionantes: Entre 1.961 e 1.999, produzírom-se um total de 150.400 incêndios que afectárom a 1.477.792 hectares de superfície arvorada e superfície rasa. O que significa que nestas quatro décadas ardeu metade do território nacional. Se imaginarmos que, de cada dous passos que temos que dar, um temos que fazê-lo sobre terra queimada, entom podemos fazer umha ideia bastante ilustrativa da dimensom do problema dos incêndios florestais. Entre 1974 e 1995, a Galiza representou em número de incêndios 45% dos que se produzírom no Estado, chegando alguns anos a representar mais de 50% (em 1995 alcançou 60% dos incêndios de todo o Estado). Quanto à superfície queimada, representou neste mesmo período 25% das hectares que se queimárom no Estado, aproximando-se alguns anos de 50%. Nengum país da Europa atinge cifras semelhantes às que se dam aqui. Sobram comentários a respeito das desastrosas conseqüências que para a nossa Terra estám a ter os incêndios e as próprias medidas despregadas para combatê-los. Sem dúvida, a erosom é um dos factores mais importantes; só num ano, podem perder-se por esta causa milhons de toneladas de terra fértil que a natureza demorará em formar de novo milhares de anos. Outras conseqüências negativas som a diminuiçom da fertilidade do solo, a incidência sobre o meio aquático, morte de plantas e animais, perda económica da madeira e outras riquezas florestais, perda de hábitats e do equilíbrio ecológico, da paisagem cultural, de espaços de lazer... E desde logo, e nom menos importante, a afectaçom sobre a populaçom: desmoralizaçom, apatia e fatalismo. É de senso comum pensarmos que por trás de um fenómeno tam enraizado entre nós tenhem que existir algumhas importantes causas estruturais alimentando ano após anos as labaredas.

Apesar de confrontarmos um problema complexo onde os haja, imos expor sucintamente as consideraçons históricas nucleares em torno do fenómeno incendiário na Galiza. A principal e que engloba todas as mais é a que di respeito ao quadro jurídico-político causante desta patologia social. Um quadro de dependência espanhola sob parámetros económicos capistalistas que exerceu umha profunda desestruturaçom territorial, económica, social e cultural da nossa sociedade rural."

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"O êxito das políticas florestais espanhola e europeia na nossa Terra sintetiza-se com clareza: Êxito dos monopólios do papel, espoliaçom e crise da economia camponesa. O Eucalipto terá um crescimento espectacular a partir dos anos 60, passando da sua prática inexistência a conformar hoje umha formaçom florestal dominante de 174.210 hectares, misturando-se com o pinheiro bravo numha cabida de 159.414 hectares e com outras frondosas numha cabida de 62.723 hectares. Esta situaçom reforça amplamente a dinámica incendiária anteriormente resenhada a partir dos anos 80.

Se antes girava em torno do eixo do soterrado conflito de controlo territorial e de enfrentamentos com o poder estabelecido, agora acrescentará-se o eixo do próprio poder económico da indústria da pasta de papel e de tabuleiros, que será a grande beneficiária e indutora dos incêndios dos nossos montes.

À política florestal da Uniom Europeia, do Estado espanhol e do seu apêndice autonómico na Galiza, incentivando o monocultivo do Eucalipto com o único critério de minimizaçom de custos e o aprovisionamento de matéria prima barata para o bem organizado lobby da indústria da celulose, une-se agora a própria estratégia evolutiva desta espécie australiana altamente inflamável que utiliza o lume para expandir-se sem cessar, num contexto de avançada desertizaçom populacional e desestruturaçom-desorganizaçom da sociedade rural, onde o mato o invade todo convertendo-se num regueiro de pólvora. Milhares de hectares de eucaliptos vam regenerar-se de forma natural depois dos incêndios, implantando deste jeito a política de reflorestaçom das autoridades políticas. Segundo um informe difundido em 1994 por Greenpeace, a Galiza subministrou, a baixo preço, à indústria espanhola do tabuleiro e de pasta de papel metade da madeira queimada no Estado entre 1984 e 1993.

Como continuidade e resultado das políticas passadas anteriormente descritas, na Galiza foi-se afiançando umha rede de fortes interesses económicos florestais que tem como denominador comum as espécies de crescimento rápido (pinheiro e eucalipto) e como lubricante perfeito e sinistro os incêndios florestais. Simplificando muito, esta rede tem três níveis básicos. Em primeiro lugar, o formado polo poder político (instáncias autonómicas, mas também as estatais e comunitárias). Em segundo lugar, o composto polos seus mais importantes expoentes industriais e financeiros no nosso País: o grupo espanhol ENCE, recentemente privatizado, a firma de capital português TAFISA e o grupo com domicílio social na Comunidade Autónoma Galega FIMSA (os três fôrom objectivo de acçons armadas do EGPGC); estas indústrias controlam o ciclo da madeira na Galiza, manejando e controlando o mercado a seu bel-prazer e tornando-o opaco à luz pública. Por último, o nível encarregado da infiltraçom e extensom no tecido social e económico galego da autonomizaçom do sector florestal do resto da problemática económica agrária. Falamos das associaçons florestais SILVANUS, ligada a Jovens Agricultores (PP), Associaçom florestal de Galiza (AFG) e a Associaçom para o Fomento da Riqueza florestal da Galiza (AFRIFOGA), ligada às Unions Agrárias (PSOE).

Estas associaçons, que assessoram os proprietários de montes vicinais em mao comum e espalham os programas de reflorestaçom que promove o poder político, necessitam o apoio do contorno político-administrativo para sobreviverem instalando-se ali onde vem possibilidades de negócio com as plantaçons de eucalipto."

(...)

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