Intervençom de Francisco Martins Rodrigues, director da revista comunista
portuguesa Política Operária, no debate "O governo convida-nos
a matar iraquianos. Que resposta?" desenvolvido 7 de Fevereiro em Lisboa.
O que falta para termos um movimento antiguerra
Em Portugal há
muitas vozes a condenar a guerra que aí vem, mas nom existe um movimento
de massas. E sem manifestaçons e protestos envolvendo dezenas, centenas
de milhares, é impossível inflectir o rumo da política
e obrigar o governo a desligar-se da aventura imperialista.
Esta vergonhosa pasmaceira portuguesa, em contraste com o que vai polo mundo,
será culpa das massas deste país, anormalmente apáticas,
alienadas, chauvinistas e ignorantes, ou algumha cousa está mal com
a agitaçom e propaganda antiguerra dos sectores conscientes? Nom temos
dúvida de que é a vacilaçom da esquerda que provoca a
apatia da massa.
1. Quando muitos
dos críticos de Bush ponhem o movimento antiguerra na expectativa das
inspecçons da ONU e das "provas" que estam sempre para aparecer,
quando admitem o ataque armado ao Iraque desde que nom seja "unilateral"
mas votado no Conselho de Segurança, quando acham justificada uma invasom
para punir o Iraque por transgressons que justamente os "queixosos",
os Estados Unidos, praticam impunemente há décadas - estamos
perante umha "oposiçom à guerra" invertebrada e hipócrita,
que na realidade lhe abre caminho.
Impressionam-se alguns com a possibilidade de Saddam ter mesmo armas de destruiçom
massiva. Parece que nom se lembram de que os Estados Unidos e Israel, dous
autênticos Estados párias, as têm de certeza e de que os
EUA já demonstraram que nom hesitam em usá-las. Isto para além
de todos os outros: Gram-Bretanha, França, Rússia, China, Paquistám,
Índia...
Por isso é absurda a consigna "Nem Bush nem Saddam" que alguns
e algumhas na esquerda agitam, julgando-a muito hábil. Saddam ao pé
de Bush é um pobre demo. Os crimes por que o seu regime é responsável
som um pormenor ao pé dos milhons que os EUA mataram ou mandaram matar
na Coreia, Vietname, Salvador, Guatemala, Chile, Indonésia, Panamá,
Iraque, Afeganistam, Palestina, Colômbia... - nom vale a pena continuar
a lista. Pôr no mesmo plano Bush e Saddam é colocar-se no terreno
do imperialismo "esclarecido", que condena os "excessos de
parte a parte" para que tudo continue na mesma.
Outros fam questom em condenar agora a ditadura que oprime o povo iraquiano,
como se o que está em curso fosse um movimento pela sua libertaçom.
Nom vêem que as acusaçons a Saddam som iscos para desviar as
atençons do crime que vem sendo cometido contra esse povo, martirizado
por doze anos de bombardeamentos e sançons. Nom vêem que essa
compaixom é um elemento na sórdida campanha orquestrada que
visa instalar aí um governo fantoche, igual ao do Afeganistam, e colocar
o país sob o protectorado dos EUA, à custa de milhares de mort@s
e destruiçons sem conta.
Embarcar no alarido em torno das armas de destruiçom massiva, dos perigos
do regime de Saddam, das resoluçons da ONU, etc., é afinal esquecer
que o Iraque é um mero peom neste jogo, como ontem foram a Jugoslávia
e o Afeganistam, e amanhá será a Coreia do Norte ou o Iram.
A partida trava-se entre os grandes blocos imperialistas, entre os EUA e a
UE, sobretodo, cuja rivalidade está em crescendo devido à crise
do capitalismo. Os Estados Unidos querem afirmar a sua supremacia sobre a
Europa, pô-la na sua dependência total, e quem paga a factura
som, como sempre, os países do Terceiro Mundo.
2. A forma como
esta crise tem vindo a ser fabricada, manipulada e avolumada, a compra de
votos no Conselho de Segurança a troco de dólares, o debate
despudorado sobre a conduçom das operaçons militares, o destino
a dar às/aos refugiad@s, a composiçom do futuro governo "amigo"
a instalar no país, a partilha do território e do petróleo
- já permitem enfileirá-la entre os exemplos mais revoltantes
de banditismo imperialista. O que impede entom a esquerda de apontar as guerras
de pilhagem como necessidades intrínsecas do próprio sistema,
denunciar o capitalismo como um sistema terrorista e Bush como o chefe dos
bandoleiros? Porquê a contençom que certa esquerda revela perante
os EUA, dando-lhes um aval "democrático" mesmo quando os
criticam? Porque vacila a esquerda em filiar o expansionismo guerreiro norte-americano
na linhagem do expansionismo hitleriano? Porque chega ao extremo grotesco
de as suas acusaçons ao imperialismo serem com frequência mais
recuadas que as de algumhas personalidades moderadas? Porquê as reticências
em apoiar incondicionalmente a resistência heróica do povo palestiniano
ao genocídio? E donde surgiu esse argumento fantástico de certos
adversários da guerra: "Se os EUA estám preocupados com
as armas de destruiçom massiva, entom porque nom atacam a Coreia do
Norte em vez do Iraque?" Sugerir ao grande salteador que assassine A
em vez de B - aí está de facto uma maneira original de "luitar
contra a guerra"!
Deixando-se arrastar pela tendência para marcar o seu distanciamento
em relaçom aos regimes que som alvos do Pentágono, a fim de
"nom dar o flanco" às acusaçons de conciliaçom
com as ditaduras e o terrorismo, a esquerda mete-se justamente na armadilha
em que a direita a quer encurralar: pom-se na defensiva, mostra-se "respeitadora
dos valores democráticos", admite no fim de contas a legitimidade
de o campo imperialista governar o mundo em nome da "democracia"
e dos "direitos humanos" - desde que o faga "com moderaçom"!
Nada disto é casual. A esquerda enreda-se em falsas questons em vez
de dizer que o mundo está nas maos de uma clique de criminosos, às
ordens do grande capital, porque dizê-lo é pôr em causa
toda a ordem social. De facto, se se reconhecer que somos governados por criminosos,
a pergunta seguinte é: que espécie de regime é este,
que escolhe chefes mafiosos para seus dirigentes? Mas é justamente
essa questom que devemos levar à consciência das massas: pôr
termo à barbárie actual implica ir à luita directa contra
o capitalismo.
3. A busca instintiva
de uma oposiçom à guerra que nom saia do âmbito do que
é aceitável para a burguesia empurra muit@s na área da
esquerda para procurar apoio nos grandes poderes que poidam fazer barreira
aos EUA: Alemanha, França, Rússia, China, o Papa... Falando
por claro: tentam apoiar o movimento anti-imperialista num bloco imperialista!
As contradiçons de Chirac e Schroeder com Bush som reais, mas a ideia
alimentada por um certo europeísmo "progressista" de que
a Uniom Europeia poda fazer uma oposiçom genuína à política
de conquistas dos Estados Unidos, em nome de valores democráticos,
pacíficos e humanitários, é puro ópio para o povo.
A UE opom-se à conquista do Iraque por recear ficar na dependência
energética total dos EUA. A sua única meta é atingir
o poderio militar e a capacidade económica dos EUA, a invejada eficácia
ianque na exploraçom e controle d@s trabalhadoras/es. Por isso é
suicida pôr o movimento na dependência de interesses que nom hesitarám
em fazer uma reviravolta quando virem que os EUA levam a sua avante. As potências
que agora se oponhem a Bush-Blair passarám depressa da rábula
da "legalidade internacional" à lógica do "Se
nom podes com eles, junta-te a eles". Foi o que aconteceu na Jugoslávia
e no Afeganistám.
Discutir a legitimidade da guerra no plano de quem respeita ou desrespeita
as resoluçons da ONU é ocultar o que está em jogo. O
que importa é dar consciência às massas do reaccionarismo
exacerbado de todas as grandes potências e alertar para o perigo de
o proletariado das metrópoles se encostar às vantagens comparativas
que o imperialismo lhe oferece para este fechar os olhos ao genocídio
dos povos subjugados, que se vai sucedendo, com este ou aquele pretexto.
E isto, a esquerda nom o está a fazer. Visivelmente acomodada à
tranquila "normalidade democrática" e às suas pequenas
batalhas institucionais, a nossa esquerda nom quer abrir os olhos para os
gigantescos embates que se avizinham entre blocos imperialistas, para a escalada
no genocídio dos povos das "periferias", para a fascistizaçom
das instituiçons e para o ataque em toda a linha às/aos trabalhadoras/es.
4. Até
agora, a reacçom do nosso movimento antiguerra à cedência
da base das Lajes, à assinatura pelo governo da "Carta dos Oito",
às declaraçons de Barroso, a querer fazer passar o seu servilismo
pró-americano por prova de "independência", nom está
de modo nenhum à altura do envolvimento real do país na aventura.
E isto porque muitos preferem ignorar que a luita contra a guerra nom é
pacifismo abstracto, nom é uma mera questom de opiniom; é uma
luita política entre nós e o nosso governo, que exige um confronto
directo contra todos os que usam o nosso nome para colaborar na aventura.
A questom das Lajes devia estar em discussom nas ruas. Se o Governo alega
que a cedência da base "é automática no âmbito
dos acordos da NATO", isso obriga-nos a reclamar o fim desses acordos.
Se Portugal está envolvido, devido à NATO, na obrigaçom
de servir de porta-avions atlântico dos EUA em todas as aventuras guerreiras
em que estes se lancem, isso significa que a permanência de Portugal
na NATO é intolerável.
Alegam alguns que estas será uma reivindicaçom pouco realista
porque as massas ainda nom a sentem como viável. Claro que nom sentem,
e continuarám a nom sentir enquanto as forças de esquerda nom
deitarem maos à campanha. Será preciso agitá-la e explicá-la
até as massas acreditarem nela e a tomarem como sua. Nom foi sempre
assim que a esquerda ganhou terreno no passado?
Muita da timidez e tacanhez da nossa propaganda antiguerra tem a ver com o
isolamento em que nos mantemos. No decurso das acçons contra esta guerra,
devemos criar laços internacionalistas com outras forças anti-imperialistas
consequentes que muito nos podem ensinar em matéria de linha política
e de formas de acçom, em desafios directos à política
governamental e à intimidaçom policial.
A este respeito, anunciou há dias um partido de esquerda que apresentará
uma moçom de censura ao governo se este oferecer tropas para a invasom.
É só isto que a esquerda tem a dizer numa emergência destas?
Mesmo sem enviar tropas, o Governo nom está já a colaborar na
guerra? E uma moçom de censura, nesta situaçom, nom é
um acto simbólico que transforma a oposiçom à guerra
numha opereta? Nós propomos que a esquerda apele pública e solenemente
à desobediência ás ordens anticonstitucionais deste governo,
que convide cada cidadao a luitar contra a guerra por todos os meios ao seu
alcance.
5. Estom a aparecer
muitas personalidades a fazer campanha contra a guerra, o que é óptimo.
O que nom é bom é ver forças de esquerda, encantadas
com este "maná", ajoelharem-se perante essas personalidades,
convictas de que cada "general" que se passe para o nosso lado irá
arrastar uma quantidade de "soldados", e reclamarem silêncio
às posiçons radicais para nom deitar a perder a "unidade"
finalmente conseguida. É uma velha doença que vem dando os seus
frutos envenenados desde o tempo do fascismo. O movimento só cresce
com activistas conscientes, dotados de espírito revolucionário,
nom com massa amorfa atrás das figuras ilustres. O movimento só
pode ampliar-se a partir dos mais consequentes para os mais vacilantes e nom
o oposto.
Mas, queixam-se muitos, há falta de militantes para a campanha antiguerra
(na realidade, há falta de militantes para todo). Talvez seja altura
de reconhecer que a esquerda deste país, envergonhada dos "excessos
revolucionários" (!?) e na ilusom de chegar melhor às massas,
desistiu de formar uma vanguarda. Recuou-se para o nível mais acessível,
para o anti-imperialismo de via reduzida, trocou-se a crítica ao sistema
capitalista pela crítica aos seus excessos mais gritantes, e o resultado,
em vez da prometida "política para milhons", foi o vazio.
A actual luita contra a guerra será uma boa oportunidade para pôr
a debate esta aberraçom.
Por último,
uma objecçom que ouvi ainda ontem: "Se a guerra já nom
pode ser impedida, de que serve ir para a rua?" Primeiro, ainda nom sabemos
se a guerra é inevitável. Mas sobretodo existe umha grande diferença
entre assistir a um crime de braços cruzados ou estar em luita contra
ele. A nossa intervençom pode nom evitar a guerra, mas há com
certeza umha grande diferença para o nosso futuro, para aquilo que
iremos fazer amanhá em novas situaçons semelhantes, para aquilo
que será a esquerda neste país. Por isso, o próximo dia
15 de Fevereiro tem tanta importância. Temos oito dias à nossa
frente. Vamos aproveitá-los.