Milhares de camponeses ameaçam com tomar a capital
REVOLTA POPULAR E REPRESSOM POLICIAL NO PARAGUAI

 

16 de Julho de 2002

Depois da Argentina, Venezuela, Peru e Uruguai, agora é a vez do governo paraguaio -acusado por seus opositores de ser corrupto, neoliberal e entreguista- enfrentar umha avassaladora onda de protestos.

A gravidade das manifestaçons, aliada à tentativa do presidente Luis González Macchi de desviar a atençom sobre os graves problemas económicos do Paraguai, levou o governo central a declarar estado de excepçom em todo o país. O governo também tenta responsabilizar o ex-general exilado no Brasil, Lino Oviedo, inimigo político do presidente Macchi, polos distúrbios de ontem.

As manifestaçons fôrom repreendidas pola Polícia Nacional com balas de borracha e gás lacrimogéneo. Com o fim da muniçom, os policiais passárom a usar pedras e muniçom real contra a populaçom.

Segundo fontes de hospitais, duas pessoas morrêrom, cerca de 50 ficárom feridas - duas em estado grave - e mais de 130 fôrom detidas, a maioria em confrontos nas ruas de Ciudad del Este, na fronteira com Foz do Iguaçu. Entre os feridos está um rapaz de 11 anos, baleado na barriga.
A medida, que dá ao Executivo o poder de prender pessoas, fazer buscas em propriedades privadas e proibir manifestaçons públicas, foi complementada com outro decreto autorizando as Forças Armadas a actuar em áreas de segurança interna. O ministro do Interior, Víctor Hermosa, dixo à imprensa que o estado de excepçom foi decretado para "evitar umha situaçom de maior violência".

O estado de excepçom foi decretado por cinco dias, mas deve ser ratificado dentro de 48 horas polo Congresso para que alcance essa vigência.

Várias manifestaçons populares também foram realizadas em Assunçom e em polo menos 20 pontos do país, contra a permanência de Macchi no poder e as políticas económicas do governo. A moeda tem sido desvalorizada e cresce o temor popular de um colapso do sistema bancário.

Em Encarnación, na fronteira com a Argentina, cerca de 4 mil manifestantes fechárom a ponte internacional San Roque González até o meio-dia, sem que ocorressem incidentes.

O confronto mais grave ocorreu próximo à fronteira com o Brasil. Mais de 3 mil pessoas participárom dos protestos que culminárom em confronto com as forças da Polícia Nacional e da Marinha. O protesto começou ainda na madrugada de ontem, e a Ponte da Amizade, que liga Foz do Iguaçu ao Paraguai, ficou interditada das 6h10 às 11 horas. Cerca de 500 paraguaios passárom a noite em Foz preparando o bloqueio da fronteira.

Estes reunírom-se no Centro de Tradiçons Gaúchas (CTG) da cidade para organizar o movimento e chegárom à cabeceira brasileira da ponte no mesmo instante em que outro grupo de aproximadamente 1.500 pessoas chegava no lado paraguaio. Rádios paraguaias convocavam a populaçom para engrossar o movimento. Por volta das 10 horas, entre 3 mil e 4 mil pessoas já tomavam as ruas de Ciudad del Este, com faixas e cartazes pedindo a renúncia de Macchi.

No início, a Polícia Nacional e a Marinha reprimírom o protesto com jactos de água e balas de borracha. Os manifestantes respostavam, lançando pedras e pedaços de madeira. O protesto só foi dispersado perto das 11 horas, com a prisom de várias pessoas.

O fluxo de veículos foi restabelecido na Ponte da Amizade, mas com umha freqüência muito menor do que nos dias normais. Poucos sacoleiros brasileiros se arriscárom a cruzar a fronteira para fazer compras no comércio de Ciudad del Este. O risco de um novo confronto armado era iminente. As ameaças de choques sucedêrom-se durante todo o dia, até que, à tarde, houvo mais um confronto. Um polícia foi ferido com umha pedrada na cabeça.

A maior parte dos manifestantes dispersou-se, mas ainda havia muitos deles nas ruas com paus, pedras e faixas, pedindo a renúncia do presidente. Passárom, entom, a saquear as poucas lojas do centro de Ciudad del Este que permaneciam abertas.

A polícia informou que também fôrom registados bloqueios de estradas nos departamentos de Itapúa, Caguazú, Misiones, Alto Paraná e Central, além de umha concentraçom diante da sede do Congresso Nacional em Assunçom, que reuniu 600 pessoas.

Razons para os protestos

Esta é a segunda pressom popular enfrentada por González Macchi num mês. No início de Julho, após manifestaçons que resultárom num morto e seis feridos, o Senado aprovou a suspensom da lei 1.615 de privatizaçons. Para evitar umha iminente onda de protestos no país, um dia antes o presidente já tinha adiado a privatizaçom da telefónica estatal. A medida nom foi suficiente para aplacar a insatisfaçom com seu governo, que pode nom chegar ao fim do mandato.

Os funcionários públicos estám com os salários atrasados, 20% da populaçom está desempregada. O governo quer um empréstimo internacional de 60 milhçons de dólares, mas nom consegue.

Recentemente, organizaçons populares realizárom umha campanha para pressionar as autoridades com o objetivo de recuperar 16 milhçons de dólares, desviados de dous bancos em liquidaçom no país, delito no qual está indicado como suspeito o próprio presidente da República, Luis González Macchi.

Estas organizaçons, entre elas o Partido Comunista do Paraguai, também apresentárom um plano de emergência baseado em três eixos: luita contra a corrupçom e a impunidade, reforma do Estado e reactivaçom económica. O documento será submetido no próximo dia 21 à consideraçom da plenária do Congreso Democrático e Popular, umha instáncia das entidades que será o organismo encarregado da execuçom do plano.

O Vice-presidente também culpa Macchi

O vice-presidente do Paraguai, Julio César Franco, atribuiu ontem à "ineficácia, corrupçom e impopularidade" do presidente Luis González Macchi a origem dos protestos de rua no país que levárom o governo a decretar estado de excepçom.

Ele condenou a "repressom inusitada" do governo contra a populaçom. Fijo a declaraçom ao canal de notícias por cabo TN, de Buenos Aires, onde se encontrava nesta segunda. "Nom tenho compromissos com González Macchi, mas com o povo paraguaio."

Franco pertence ao Partido Liberal Radical (PLRA) Autêntico, de oposiçom a González Macchi, do Partido Colorado. Quando o presidente Raúl Cubas renunciou, o seu vice, González Macchi, assumiu a chefia do Estado, e as autoridades eleitorais convocárom eleiçons para a vice-presidência, vencidas polo opositor Franco.

O Partido Liberal declarou a sua solidariedade às manifestaçons populares "contra o governo corrupto de González Macchi". Para Franco, a populaçom busca soluçons para a fame, a pobreza, a corrupçom e a impunidade e pede umha reforma do Estado.

"Eu seria um irresponsável em relaçom a todo o povo paraguaio se dixesse que isso (os protestos) é organizado por só um sector. Todo o povo está aí: liberais, conservadores, centro-esquerdistas, camponeses, profissionais", dixo Franco, negando acusaçons de que seu partido está organizando manifestaçons contra o presidente.

"Vou ter o apoio de todo o povo paraguaio", afirmou, referindo-se á possibilidade de ter de assumir a presidência. Franco também pretende ser candidato às eleiçons pesidenciais que irám ocorrer em Maio do ano que vem.

Milhares de camponeses ameaçam com tomar a capital

González Macchi anunciou no passado mês de Junho a suspensom do processo de privatizaçons numha tentativa de acalmar os protestos dos camponeses, que se alçárom contra o plano e obrigárom o Congresso a votar a derrogaçom da Lei de Reforma do Estado para salvar o Governo. Os incidentes provocárom naquela altura um morto e dezenas de feridos. Segundo várias fontes, mais de 6000 camponeses e camponesas ameaçam com tomar a capital.

As manifestaçons fôrom motivadas por reivindicaçons concretas da populaçom vitimada pola crise económica e também podem ter influências dos arranjos políticos que estám a ser feitos com vistas às eleiçons de 2003.

Voltar à página principal