Polo seu grande interesse e actualidade, primeiralinha.org, reproduz o texto com o que Xosé Lois Santos Cabanas participou no acto de apoio à greve de fame pola liberdade de expressom que durante 22 dias de Novembro e Dezembro de 2002 mantivérom militantes de NÓS-UP em Compostela. Este pequeno conto foi publicado em 1996 pola editora Noroeste no livro "De noxos e de brétema:contos".
Redigido originalmente na normativa do ILG foi adaptado seguindo os critérios reintegracionistas que caracterizam a linha editorial deste portal.

Remember Vietnam please
Xosé Lois Santos Cabanas

Podedes estar bem seguros de que nom gosto do inglês para nada, prezo a musicalidade do francês, encanta-me o colorido do italiano, e até acho graça à mesma sequidade do catalám, ascolti si us plau, mas a língua inglesa nom a trago, detesto-a, que fique isto bem clarinho, e amola-me bem que sem querê-lo remate um por saber o significado de tantas palavras alheias, se me extremades até me parece que podo traduzir umha frase completa, se muitas vezes me tenho reprimido quando vejo textos nesse idioma, fago por nom olhá-los, remember Vietnam please, nego-me a reconhecer que os entendo sem esforço, nem que estivessem escritos na minha própria língua, como quando me aconteceu aquilo haverá agora de obra de seis anos, e se quadra já vam oito aló, que sejam os que forem, se queredes que vos conte a verdade asseguro-vos que tanto me tem, a mim dá-me igual e a gente quando lho digo vejo eu que tampouco fai nada por querer sabê-lo, pois logo podemos deixar o conto assim, se nom lhe interessa a ninguém o tempo que passou desde entom nom me vou amargar eu concentrando-me para que me venha o mal, que me entram os mareios, dói-me a testa, ou os artelhos, pom-se-me o ponto justo acima do coraçom e entra-me o nervo, abafo e tremo como umha corre, batem-me os dentes como ferrenhas e o Davide, o médico, farta-se de me dizer que nom me esforce que me é pior, e estarrece-me cavilar que está a intoxicar-me com tanta pílula, menos mal que lhe guindo polo comum a metade delas, mas imos logo ao caso, aquele dia, ou noite, que isso tampouco som capaz de precisá-lo neste momento, nom me dava concentrado na leitura, lembrar lembro bem que a revista era de ediçom muito cuidado, e nom vaiades pensar que era umha dessas moderneces todo desenho e macaquice de fotos de gente ou cousas guapinhas mas insulsas, sem sumo, como anúncios em papel couché, muita trapalhada a toda cor mas com os conteúdos, quatro bobices com adubo de escrita pretensiosa, a que digo eu que tentava ler aquele dia era todo o contrário, uns caracteres pensados para facilitar a leitura dum texto disposto com claridade sobre folhas mate, sem ilustraçons que desviassem a atençom do escrito, mas nom era eu homem de centrar-me no artigo, mesmo nem agora sei se falava de História ou de Filosofia, os olhos iam-me ao inglês, à frase reiterativa, resaltada em negrito e itálica remember Vietnam, please, repetia-se sete vezes justas, era como um graffiti intercalado entre as palavras do autor, espalhado entre letras das que nom fum quem de lhes tirar sentido ningum, nem penso que desse hoje, pois a olhada ia-se-me espetar outra vez no lema, remember Vietnam, please, e achei-no sonoro, harmonioso, evocador, e num repente saltárom-me na cabeça os velhos recordos, que bem andava eu daquela, que forte me sentia e quantas ánsias de comer o mundo e de mudá-lo, viva a utopia, e aquelas atrocidades dos ianques, o napalm e todas as histórias que todo quisque conhece e aquí o fascismo e o amor novo e a ilusom e a luita e os medos mas logo a alegria da vitória prelúdio de outras que necessariamente tinham que vir, o povo viet o exemplo a ter em conta para abranger a vergonha do mundo, digo Vietname e basta, Celso Emílio baril, e desta maneira ocorreuse-me o das pintadas, à volta ao spray, que cada canto berrasse silandeiro a consigna remember Vietnam, please, e no instante pugem-me a planear com impaciência, a cor suscitou-me a primeira dúvida, se seria melhor umha fluorescente ou rechamante que ressaltasse reclamando a atençom, à vermelha tenho-lhe carinho de sempre, e acordei ao cabo trabalhar em preto, a sobridade ia-lhe muito bem à mensagem e mesmo esborranchei um papel por fazer provas, e nom por que me preocupasse muito o desenho, procurava a claridade da pintada, que ficasse limpa e pulcra, remember Vietnam, please, depois dei-lhe voltas ao assunto do idioma, se nom ia ser facer-lhe jogo ao império usar o inglês, a língua dos colonizadores, dos mesmos que quigérom esmagar o Vietcong, e tanta gente que nom ia entender nada, e pensei em traduçons possíveis, em galego encontrei a textual muito chorimiqueira, lembrade-vos do Vietname, por favor, já excluira acordade-vos e recordade-vos, que me parecêrom de pouca força, e dei em cavilar em variantes, umha bruta, imperativa, lembrade-vos do Vietname , hóstia, mais vim muito mais justa umha versom concisa, lembrade Vietname, assim, em preto, em paredes de pedra ou brancas, nos zarrados da publicidade, que a gente soubesse que o império pode perder a guerra e que desencadeassem nas suas testas aparvadas pola televisom dos rambos e similares as imagens do massacre dos amados viet, olhava para o papel e via ampliada a minha letra, ciscada polos muros das ruas, lembrade Vietname, mas os olhos pugérom-se-me mais umha vez na revista abertae no inglês, em itálica e em negrito remember Vietnam, please, e a frase bateu-me ainda mais violentamente, ali havia música, ritmo, aquele era o enunciado perfeito para falar desde as paredes, nom cabia versom possível noutro idioma, nom havia porquê dar-lhe mais voltas, adiante em original, e ao dia seguinte fum onde Arturo no sindicato, utilicei todas as minhas dotes de persuasom para força-lo a que colaborasse, falei-lhe desde a bondade política da minha ideia até da flata de perigo, se nos cachavam podiam-nos meter umha multa, agora nom havia risco de rematar na cadeia como antes, e o Arturo dixo-se me estava de conha, e bem lhe conhecim eu pola cara que punha que eu andava a vacilá-lo, é um bom amigo o Arturo mas tenho eu razom em que é muito susceptível, é o Jorge também me falhou, até tentou convencer-me a mim de que o deixasse, se tés tantas ganas de trabalhar, no sindicato sobra o choio, dixo-me, e por suposto que nom lhe figem caso nengum, se estava seguro, e ainda o estou de que as pintadas eram o melhor que se podia fazer naquele momento, se já ando anojado de tanto convénio de três pesetas, há que fazer algo com senso político e deixar-se de economicismos que nom nos levam a ningures, que talmente semelhamos umha cariocamordendo o rabo, assim que fum comprar o spray, sozinho, se nom queriam colaborar era problema deles, nom me faziam falta para nada, já olharia como amanhar-me, mas que nom houvesse ninguém a ajudar fijo-me mudar a táctica, a um só era-lhe muito difícil cobrir toda a cidade, ademais eu estava bem seguro de que apagariam as pintadas de contado, e assim poucos as iam ver, dispersá-las era perder o tempo, pois a minha intençom era que todo o mundo repara-se na consigna remember Vietnam, please, que a sua leitura figesse recapacitar, que desatasse nas cabeças da gente as mesmas sensaçons que produzia na minha, que figesse recordar aqueles tempos aos mais velhos e que aos novos lhes entrasse a curiosidade polo Vietname, os sacrifícios daquele povo, a guerra contra o monstro e descobrissem que o imperialismo é um tigre de papel que pode ser vencido, e acordei logo fazer umha pintada só, bem situada, no centro, no lugar mais concorrido, optei pola parede dum prédio antigo, do XVII dixérom mais tarde que era, mas antes de fazer a pintada grande pensei que era conveniente ir preparando o terreno, mentalizando os próximos leitores da sua apariçom, e para isso percorrim quase todos os bares, tanto de bairros como no centro, e fum deixando a mensagem nos lavabos, remember Vietnam, please, sem nengum incidente excepto um sem importáncia numha taberna das aforas, ali chamárom-me a atençom por entrar nos lavabos das senhoras, pois nom vaiades acreditar que nom me decatara de que cumpria que as mulheres se apercebessem ao mesmo tempo que os homens, o contrário seria discriminaçom sexista e nessas contradiçons nom se pode cair, repimim pois a minha impaciência inicial e aguardei com prudência a que a gente fora familiarizando-se com o texto, ao Jorge mentim-lhe quando me perguntou se era eu o que andava a escrever nas latrinas, já vim que estava noutra onda e nom havia maneira de que entendesse o choio, era quem de pôr-se a terquear comigo para que nom figesse a grande pintada, e daquela já tinha todo preparado, na madrugada seguinte estava diante da parede de pedra, e aplicadamente conformei a mensagem com letras pretas bem debuxadas, remember Vietnam, please,ficou enorme, impressionava, ocupava todo o muro, e fum-me trabalhar sem pressas, tocava aguardar polas reacçons da gente e voltar ali outra vez se apagavam o letreiro, a ideia era essa, a mensagem tinha que estar ali permanentemente, e ainda durou mais tempo do que eu pensara à vista de todos, que a suprimírom dia arriba ou abaixo, depois dum mês, e voltei a fazê-la do mesmo tamanho, se quadra ainda parecia um pouco maior, e foi bem engraçado o que tirárom na imprensa, num artigo assinadao polo Manolo, falando de que a pintura nas paredes erosionava os prédios históricos, a pedra nobre lixada por maos sem sensibilidade, algo assim escreveu, agora nom podo lembrar-me de se o artigo aparecera quando figem a segunda ou se foi depois da terceira ou quarta, o cso é que o Manolo e mais eu inçáramos a cidade de pintadas quando estva proibido, e sai agora com essas, como se achegou ao poder e se passeia estirado com as suas roupas de moda, a defender o casco histórico, com a de vezes que ele mesmo tinha esborranchado nele indo comigo, se bem um pouco cagám sim que era, que as pintadas nom estragam nada, Manolo, a pedra derrama-se com essa maquineta que usa o concelho para apagá-las, mas por isso nom me vam parar, eu hei seguir defendendo a verdade nas paredes mentres nom haja outro sítio onde pô-la, remember vietnam, please , e houvo um mamom que colou um cartaz à beira das letras, em galego o que ti queiras, nom entendia a necessidade da versom original, o que nom sei é como chegárom a descobrir no sindicato que era eu o que fazia a pintada, tivem umha agarrada com Jorge, pujo-se paternal o homem, que seica se me metera outra teima na cabeça, se até dixo que se nom parava de pintar que fazia o que estivesse na sua mao para que me expulsassem, começou a falar de descrédito e de outras parvadas, e qualquer pode imaginar a onde o mandei, essas formas nom lhas aturo a ninguém, por muito que apreze o Jorge nom lhe tolero que se ponha desse modo, e até pode ser que persdesse um pouco os nervos e berrasse de mais , como confesso que me passou o dia que latei ao trabalho e fum por diante da pintada, já era a quinta que figera, remember Vietnam, please, estavam os operários municipais aburatando a pedra com a aparelho aquele, propulsando areia com água a muita pressom, isso sim que é atacar os prédios históricos, e cabreei-me, insultei os trabalhadores e quase chegámos às maos, deveu avisar alguém à polícia e levárom-me detido, tinha eu pensado obrar com frialdade mas nom pudem ficar impassível olhando como suprimiam de novo o meu rótulo, remember Vietnam, please, e é certo que nom actuei correctamente, reconheço que o único que alcancei comportando-me daquela maneira foi que vigilassem quase permanentemente a minha parede de pedra, e assim fijo-se-me muito difícil escrever ali de novo, e eu sigo pensando que é esta a causa de que me pugera tam mal, que nom lhe encontro sentido à minha vida, a cada passo vejo mais preciso estender a mensagem, remember Vietnam, please, cumpre esparexê-la por todo o país, que chegue ao coraçom do povo o seu significado profundo, mas a mim começárom-me os ataques e nomtivem mais remédio que colher umha baixa e andar de médico em médico, as dores que tivem fôrom horrorosas, e o mal-estar a cada passo maior, sempre mareado, e agora trata-me o Davide, conheço-o de há tempo, também é do sindicato e tem sona de psiquiatra bom, que chegárom à conclusom de que as minhas doenças eram psíquicas, e mandou-me que escreve-se algo sobre o que me passava, sem esforçar-me muito, e a tal hora debe estar a ponto de vir e parece-me que vou agachar ou romper estes papéis, se total o Davide nom se vai dar conta de nada, como pode entender ele, tam seguro de si próprio, com a sua autosuficiência, aroma a tabaco holandês e cachimbo entre os dentes, com todas as suas ideias tam ordenadas, clarinhas, sem fisuras, da esquerda brandinha e civilizada, possibilista e sabichom, e nom sei que vê nele Luísa, que parece muito mais disposta, com outra cabeça mais crítica, se o Davide só tem fachada, que é oco por dentro e o pior de todo é que ele se crê porfundo, como cona pode entender ele o ritmo, remember, remember, de que maneira pode imaginar remember como ia soar, remember, remember, a música, remember, cum bom saxo ao fundo e umha voz esganiçando-se, remember, remember, negra e baixa, remember, ponhamos um blues tocado a meia-noite numha taberna amiga, escuitando-o um só ou rodeado de camaradas, remember, remember, ou porquê nom com Luísa, a olharmo-nos os dous, cúmplices, sorrindo, e o blues esvarando na quietude da noite, remember, remember, remember Vietnam, please.

Voltar à página principal