A
integraçom de Portugal na economia capitalista mundial, processo acelerado
no período exactamente posterior ao 25 de Novembro de 1975, confrontou a
sociedade portuguesa com a agudizaçom de alguns problemas antigos, bem como
introduziu novas formas de exploraçom, sobretudo do operariado jovem. umha
leitura mais cuidada da situaçom económico-social portuguesa colocará a
nu umha realidade preocupante, mas que, tendencialmente, diferirá em muito
pouco dos países que integram o bloco imperialista europeu.
Decorrente
desta situaçom sou forçado a subscrever a afirmaçom de Claude Bitot, quando
escreve no seu livro “Mundo em Declínio” (Ed. Dinossauro, 2001) que, “os
problemas do capitalismo em desenvolver um novo ciclo expansivo manifestam-se
nas dificuldades por que passam as novas geraçons”.
Importa
desde já esclarecer que a juventude portuguesa de agora nom atravessa umha
situaçom castrante, como a que as jovens geraçons sofriam antes da revoluçom
de Abril. Durante a Ditadura fascista nom se encontravam um número tam grande
de oportunidades de trabalho e de ensino para a classe trabalhadora, sendo
os jovens obrigados à emigraçom em massa e, mais tarde com a Guerra Colonial,
à fuga a umha morte iminente.
Nos
campos de batalha africanos perecêrom e ficárom marcados para toda a vida
centenas de milhares de jovens, enviados para defender o sistema capitalista
português que detinha umha grande dependência colonial. No cenário de brutalidade
de um país salazarista as perspectivas de vida dos filhos do proletariado
eram poucas ou nengumhas, ficando sempre ligados desde o nascimento à miséria
em que viviam os seus pais.
Como
tal, o 25 de Abril e o período revolucionário que se seguiu marcou e marcará
um salto importantíssimo das estruturas sociais e económicas, que criou
umha grande variedade de oportunidades para as novas geraçons. As críticas
que se fagam à situaçom presente nom podem contribuir para um branqueamento
do passado, nem para alimentar o saudosismo de alguns sectores conservadores
e fascistas ainda presentes na esfera social portuguesa.
A
juventude portuguesa, na sua grande maioria, encontra-se desarmada ideologicamente.
A sua visom política e social é muito facilmente manipulada, quer polos
grandes meios de comunicaçom, quer por outros instrumentos ideológicos ao
serviço dos interesses do capital. A irreverência juvenil no campo político
e social, exibida durante as décadas
de 60 e 70, foi substituída polo consumismo frenético, pola apatia colectiva,
polo individualismo desregrado.
Os
horizontes dos jovens portugueses fecham-se a cada dia que passa, passando
a exibir posiçons tendencialmente conservadoras e fechadas a qualquer perspectiva
de transformaçom social. A conduta política pouco ultrapassa o superficialismo
e noçons pouco desenvolvidas das situaçons de opressom e desigualdade geradas
polo capitalismo. Mesmo as organizaçons juvenis progressistas que mais militantes
arregimentam (Juventude Comunista Portuguesa e Bloco de Esquerda), carecem
de umha ideologia transformadora da sociedade, limitando-se a luitar por
reformas que permitam lavar um pouco a cara ao capitalismo, levando os seus
militantes a acreditar na impossibilidade de novas revoluçons, encaminhando-os
para um papel de reserva moral da democracia burguesa. Estes sectores mais
politizados da juventude tenhem umha grande tendência para cair num humanismo
sentimentalista, cheio de mistificaçons e equívocos que nom poucas vezes
cumpre com os objectivos de dominaçom da burguesia.
Passados
27 anos após as primeiras eleiçons livres, a taxa de participaçom dos jovens
nos actos eleitorais tem acompanhado a descida do total do eleitorado. Num
estudo recente do Instituto de Ciências Sociais sobre hábitos sociais e
políticos dos jovens lisboetas, 42,9% afirmou nom ter qualquer simpatia
partidária, ao passo que 45,4% afirmou simpatia polos dous partidos que
tenhem partilhado o poder político ( PS E PSD).
Um
dos problemas que estes dados levantam é que a grande maioria dos que afirmam
nom ter simpatia partidária, encontram-se num apolitismo crónico, que tem
que ser considerado preocupante, tendo em conta o espectro das vitórias
eleitorais da extrema direita. Apesar de nom existir organizaçons muito
estruturadas de skinheads em Portugal, conseguimos encontrá-los em meios
muito influentes da juventude como som as claques de futebol. As suas acçons
registam-se muito esporadicamente e por enquanto podem ser apenas consideradas
num campo de hipóteses futuras. Em virtude do crescimento da extrema direita
em toda a Europa, e com o aparecimento na cena partidária portuguesa de
partidos neofascistas como o PNR, o cenário demonstra-se muito animador
para estes pontas de lança da ideologia mais reaccionária produzida em Capitalismo.
Como é sua tónica, espera-se que muito rapidamente estes grupos explorem
a questom da emigraçom e os grandes fenómenos de exclusom social derivados
da grande exploraçom a que os emigrantes estám sujeitos. Inclusivamente
os partidos que agora partilham o governo, PSD E PP, durante a campanha
eleitoral figérom ponto de honra em identificar, quase exclusivamente, a
criminalidade com o grupo étnico africano residente em Lisboa e zonas suburbanas.
O
falso radicalismo, a violência nom direccionada, um grande conservadorismo
face a um número crescente de questons parecem ser as faces visíveis de
amplas massas da juventude. Em traços gerais, o cenário de alienaçom massiva
dos jovens levanta fortes implicaçons sociais, que ajudam a comprometer
as perspectivas futuras de toda umha sociedade. Na análise da situaçom do
movimento estudantil outros pormenores serám acrescentados.
A
recente ofensiva do Capital nas empresas, fábricas e escolas nom colheu
até ao tempo presente umha resposta firme e combativa por parte das organizaçons
da esquerda portuguesa, sindicatos, nem inclusivamente por parte dos movimentos
juvenis. Face a estas hesitaçons no seio do movimento operário e estudantil,
os recuos no campo social tenhem sido muitos, sendo flagrante a quantidade
de medidas e políticas direitistas facilmente aplicadas, face à complacência
das organizaçons supracitadas .
O
espírito da concertaçom social em nome do “desígnio patriótico da produtividade”
e da “competitividade dos mercados”, tem deixado perfeitamente esquecidas
reivindicaçons e necessidades prementes da classe trabalhadora portuguesa.
Em torno deste cenário, nom é de estranhar que se comece a olhar com desconfiança
o papel desempenhado polos sindicatos e polos partidos de esquerda com assento
parlamentar (PCP e BE), registando-se umha debandada geral destes movimentos,
anteriormente portos de abrigo da classe operária.
Deve-se
ter em conta que a participaçom juvenil tanto nas luitas políticas, como
no movimento sindical e laboral, restringe-se a cada dia que passa a umha
pequena minoria, partidariamente limitada à área da esquerda institucional.
A taxa de filiaçom sindical reduz-se de ano para ano no proletariado jovem,
existindo um número cada vez maior de empresas sem qualquer representaçom
sindical ou comissom de luita organizada. O grande problema é que esta recusa
na grande maioria dos casos, nom está ligada a umha postura crítica coerente
mas sim, ao grande recuo ideológico do proletariado jovem português, penetrado
pola ideologia capitalista, individualista e conservadora.
Durante
a preparaçom deste debate fui recolhendo testemunhos de jovens trabalhadores
demonstrativos das dificuldades que atravessam, quer do ponto de vista organizativo
como classe, quer do ponto de vista da negociaçom com os gestores e patrons
das empresas que integram.
No
campo do Trabalho som muitos os problemas por que passam os jovens, alguns
sobejamente conhecidos: desemprego, precarizaçom do trabalho, má remuneraçom,
negaçom de direitos laborais aos trabalhadores jovens, dificuldades de integraçom
nos quadros. A economia “flexível e polivalente” transformou-se num verdadeiro
quebra cabeças para os jovens sequiosos de alcançar um nível de vida mais
confortável e umha certa independência.
Quando
refiro o problema do desemprego, é extremamente importante dar realce ao
facto de que, o desemprego em Portugal passou em anos recentes a afectar
tanto operários pouco qualificados como, também, os portadores de habilitaçons
académicas.
Mas
um dos principais factores de tensom é o facto deste desemprego, estar irmanado
com um aumento geral da precariedade, desde 1998 o seu crescimento foi de
23%, e da desregulamentaçom das relaçons laborais.
Os
sucessivos governos apresentárom ao longo dos últimos anos descidas da taxa
de desemprego, chegando este último a atingir mínimos históricos muito próximos
do regime de pleno emprego Keynesiano. Neste momento a taxa de desemprego
ronda os 4% para o total e 8;6 para os jovens até 25 anos no ano 2000. nom
obstante, estes números encobrem a realidade sombria da precariedade.
As
estatísticas relativas ao emprego tenhem um valor equívoco. Para além dos
critérios que envolvem a confecçom dessas estatísticas serem altamente contestáveis,
nos últimos anos multiplicárom-se as acçons de formaçom, e pequenos cursos
sob a forma de trabalho, que ajudam a distorcer as estatísticas, aliviando-se
assim o espectro social do crescimento do desemprego permanente. Grande
número destas acçons de formaçom nom tenhem continuidade, adquirindo assim
um valor extremamente duvidoso para o futuro laboral dos jovens que as integram.
A
grande maioria dos novos postos de trabalho subordinam os jovens a constantes
contratos a prazo, ao trabalho a tempo parcial sem o mínimo de direitos,
a fortes discriminaçons principalmente com base no género, trabalhos com
horários mais extensos, trabalhando para além dos limites legais, e mais
flexíveis. Em Portugal, segundo a CGTP, mais de 730 mil trabalhadores vivem
em situaçom de precariedade, sendo mais de 330 mil destes trabalhadores
jovens!
O
desenvolvimento das forças produtivas gerou um fraccionamento dos trabalhadores
jovens em três partes, isto dito numha perspectiva generalista. Aqueles
que detenhem um emprego e um rendimento fixo, sujeitos à exploraçom capitalista,
mas que de qualquer maneira podem ser denominados de segmento um pouco mais
privilegiado do operariado. Este emprego fixo nom pode ser confundido com
emprego permanente. Trata-se de postos de trabalho minimamente estáveis
no curto prazo, que garantem umha certa independência aos jovens.
Com
a implantaçom das medidas neo-liberais no plano laboral, deu-se um aumento
da precariedade do vínculo laboral, que permite ao patronato laborar com
baixos custos de mao de obra, minimizando a capacidade reivindicativa da
classe trabalhadora. O crescimento destes postos de trabalho tem sido muito
pequeno, segundo os últimos dados estatísticos, um em cada três postos de
trabalho criados som considerados estáveis. Normalmente estes postos som
ocupados por elementos oriundos da pequena burguesia comalgumhas qualificaçons.
Uma
outra fracçom, a maior, composta por todos aqueles com dificuldades em encontrar
trabalho permanente, cujo rendimento provém ora do trabalho ora de biscates
e de subsídios (umha grossa fatia). Esta situaçom precarizante consegue,
contudo, adiar a “descida ao inferno” da mais pura miséria, conferindo a
estes proletários o “privilégio” de viver nos limiares da subsistência.
Para
aqueles que nom saibam, Portugal para além do salário mínimo mais baixo
da Uniom Europeia, é o país onde mais trabalhadores subsistem com essa “esmola
patronal”. Diversos estudos da Uniom Europeia alertam para o facto de que
o nível de vida português ser muito baixo. Segundo a UE, enquanto que um
trabalhador português que aufira o salário mínimo precisa de 35 horas de
trabalho para comprar um cabaz de
30 bens essenciais, um trabalhador espanhol precisa de 24 horas.
As
famílias desempenham um importante papel na vida desta parcela do proletariado.
Servem em muitos casos como almofadas sociais para os jovens, principalmente
quando estes atravessam largos períodos sem qualquer tipo de trabalho ou
fonte de remuneraçom. As pequenas economias guardadas durante toda umha
vida de trabalho som assim delapidadas progressivamente.
Por
último, falta referir aquela parcela da juventude que polas mais diversas
razons, mas todas directa ou indirectamente ligadas ao modo de produçom
capitalista, depressa cai na mais perfeita miséria, vivendo da mendicidade,
do assistencialismo, do furto, prostituiçom, engrossando as fileiras do
lumpenproletariado, fenómeno nom só presente nas cidades mas
que rapidamente se arrasta polas vilas mais populosas. Portugal tem a mais
elevada taxa de pobreza da Uniom Europeia, 22% contra umha média de 17%
no espaço da Uniom. Portugal aparece também em primeiro lugar quando se
observa o grau de desigualdade na distribuiçom de rendimentos, deve-se acrescentar
que este fenómeno conheceu mesmo um aumento
na primeira metade da década de 90.
No
quadro da miséria e da exclusom social, é importante referir um dos maiores
problemas e flagelos das sociedades contemporáneas quando falamos de jovens,
a toxicodependência juvenil. Todos os anos aumenta o número
de jovens que se envolvem em “comportamentos de risco”. som várias as causas
sociais que se encontram na raiz deste fenómeno, nom
nos cabendo aqui discuti-las todas.
Contudo
nom podemos virar a cara ao crescimento de umha economia subterránea que
movimenta milhons de Euros e que envolve centenas ou mesmo milhares de jovens
que obtêm um rendimento diário através do pequeno tráfico. Como mera curiosidade
refira-se que, já surgírom também alguns relatos de patrons que pagam parcialmente
ou mesmo na totalidade os salários em heroína, nomeadamente na construçom
civil, reconstruindo a frase trabalhar para comer em, trabalhar para nom
“ressacar”.
Com
o fenómeno da toxicodependência nasce toda umha sociedade que vive na margem
da outra, com os seus problemas próprios, com o problema da criminalidade
ligada à esfera do consumo e do pequeno tráfico e, com o seu desinteresse
total por tudo o que os envolve seja no campo social, seja no campo político.
Este envenenamento das classes mais pobres consentido e premeditado polo
capitalismo mundial, para além de
lhe garantir a inacçom social e política de um número cada vez maior de
jovens, tem-lhe servido para o aumento das medidas repressivas e dos corpos
repressivos. Sublinhe-se ainda a importáncia financeira do tráfico de droga
para a economia mundial, sendo realizadas milhares de transacçons financeiras
todos os dias associadas ao tráfico de estupefacientes .
Devido
à sua composiçom eminentemente juvenil e também à sua ligaçom cada vez mais
evidente com o mundo do trabalho, importa analisarmos o espectro educativo,
essencialmente o movimento associativo de estudantes em torno das várias
reformas educativas e, as dificuldades de ligaçom com o resto das forças
progressistas na sociedade envolvente.
Um
dos primeiros aspectos a ser abordados prende-se com o aspecto classista
do ensino, nom só no aspecto meramente económico, mas também do ponto de
vista do papel da escola na reproduçom da ideologia capitalista e da moral
burguesa. Na grande maioria das universidades portuguesas assiste-se a umha
clara política de transmissom de posiçons políticas altamente retrógradas,
em alguns casos xenófobas, de manipulaçom e distorçom da realidade. Este
esforço conta com a participaçom activa dos próprios conselhos directivos
das faculdades e dos corpos docentes. No domínio da transmissom da ideologia
este trabalho tem sido muito evidente, a justificaçom da virtude única do
capitalismo e da economia empresarial está presente na grande maioria dos
cursos leccionados.
É
notória a ligaçom umbilical entre o sistema universitário, os partidos políticos
de direita e os grandes grupos económicos que operam em Portugal, sendo
o muito badalado caso Moderna, com acusaçons de ligaçom ao tráfico de armas,
manipulaçons de sondagens, etc., apenas a ponta de um iceberg. Também é
cada vez maior o número de ministros recrutados às universidades mais conservadoras,
quer a posterior integraçom destes nos quadros das grandes empresas.
Muitos
destes reitores e professores acumulam funçons nas universidades com a de
gestores de grandes empresas. Proliferam nas faculdades os estágios nom
remunerados com altos benefícios para estas empresas, e forte exploraçom
para os estudantes, que muito raramente conseguem firmar contratos com essas
empresas, independentemente do volume de trabalho conseguido.
Seguindo
a doutrina neo-liberal, o sector privado avança, ocupando os espaços outrora
pertença do ensino público, por ele próprio já decadente devido a umha grande
quantidade de políticas educativas de nom investimento, e de conluio com
lobbies muito fortes no domínio educativo. A ideia de promoçom social através
do investimento das famílias mais desfavorecidas na educaçom dos filhos,
tem caído para o domínio da mitologia.
O
actual sistema educativo, quer no secundário quer no superior, acentua as
desigualdades sociais em vez de as atenuar, os custos ligados com a educaçom
som extremamente elevados. As necessidades de jovens diplomados no mercado
de trabalho há muito que fôrom satisfeitas, em vários domínios do aparelho
produtivo. Perante este cenário, e como a “corda rebenta sempre polo lado
mais fraco”, a educaçom na sua vertente
mercantil promove o rápido abandono escolar por parte dos mais desfavorecidos,
reproduzindo em si as oposiçons de classe, registadas em todos os quadrantes
da sociedade.
Exactamente
por pertencer ao modo de produçom capitalista, o sistema educativo encerra em si fortes contradiçons que urge
aproveitar no sentido de orientar a acçom política nas universidades e escolas
secundárias. Nomeadamente as dificuldades de acesso ao mercado de trabalho
e as fortes desigualdades sentidas na pele polos filhos do proletariado.
As
necessidades de mao de obra qualificada por parte do modo de produçom capitalista
permitírom umha massificaçom do Ensino Superior, processo acentuado no pós
25 de Abril, passando a integrá-lo sectores da populaçom com menos meios
de subsistência. Contudo, aos filhos do proletariado continua barrado o
caminho da educaçom. A esta massificaçom, o sector produtivo nom conseguiu
dar resposta, sendo notório o aumento de diplomados com dificuldades em
garantir o primeiro emprego.
Em
Janeiro de 2001 os Centros de Emprego tinham mais de 23 000 licenciados
inscritos, um aumento de 12,8% relativamente ao ano anterior. Portugal é
o país da U.E. com mais baixo número de populaçom licenciada mas ao mesmo
tempo tem grandes dificuldades em integrar no “mercado de trabalho” os que
forma. Existe ainda forte exploraçom da mao de obra qualificada, muitos
destes recém licenciados encontram-se subempregados em funçons desqualificadas,
verificando-se um crescendo de preocupaçom quando confrontados com a realidade
em que participam ou que irám participar. Por enquanto nom se pode constatar
que surjam aqui perspectivas revolucionárias, até pola origem de classe
de muitos destes jovens.
Como
já foi referido na caracterizaçom geral da juventude, neste momento o espaço
estudantil está fortemente despolitizado, com altas taxas de iliteracia
e analfabetismo funcional, baixo nível cultural, salvo casos pontuais muito
nobres, sendo os sectores mais conservadores das universidades os predominantes
e, os que desempenham a conduçom da política associativa no interior das
faculdades. Existe ainda umha cultura de elite, completamente deslocada
do contexto histórico e da composiçom social das faculdades, e que serve
os interesses imobilistas de muitas reitorias,
que é importante desmascarar.
Para
ajudar a caracterizar esta situaçom de despolitizaçom geral dos estudantes,
refira-se que quaisquer eleiçons para as associaçons de estudantes, ou para
os órgaos de gestom das faculdades, registam taxas de participaçom entre
os 10 e os 15 % do total da populaçom estudantil. Raramente se registam
valores acima desta média. Isto demonstra umha atitude completamente passiva
e desinteressada, por parte da grande maioria dos estudantes. Este fenómeno
conta com o apoio, implícito ou explícito, de todas as organizaçons políticas
institucionais que se defrontam no espaço universitário.
Com
esta observaçom incluo as organizaçons de esquerda, que, com a sua pequena
actividade política no interior das faculdades, ajudam à deserçom progressiva
dos estudantes mais conscientes, fartos da manipulaçom dos movimentos estudantis
por parte dealgumhas figuras reformistas.
A
acçom das juventudes partidárias dos partidos da esquerda reformista, leia-se
JCP e BE, nom destoa no quadro geral do Ensino Superior. As suas preocupaçons
em pouco ultrapassam as eleiçons para as associaçons de estudantes, preocupando-se
mais com pequenas acçons de marketing político do que com a real politizaçom
do espaço escolar que integram. Frases como: “isso é de um radicalismo desnecessário”
som profusamente repetidas polos seus dirigentes. Mesmo a acçom de massas
é feita tendo em conta a agenda política dos seus partidos.
A
forma manipulativa como foi conduzida a luita contra as propinas, a luita
mais importante recentemente empreendida, é reveladora das orientaçons reformistas
ditadas das cúpulas para as bases. O resultado final foi umha derrota estrondosa,
que implicou um grande recuo do movimento estudantil que voltava a germinar.
Importa referir que este recuo perdura até hoje, e que foi aproveitado polos
elementos de direita no interior das faculdades para atingirem umha certa
supremacia e umha grande margem de manobra.
No
tempo presente as principais reivindicaçons estudantis prendem-se quase
exclusivamente a actos de gestom das faculdades, perdendo-se os estudantes
em brigas corporativas. Os pequenos grupos mais radicalizados tenhem dificuldades
em agremiar pessoas, e denotam grandes incapacidades de organizaçom e de
dar continuidade ao trabalho que iniciam. O exemplo da extinta organizaçom
a que pertencia, o Comité Revolucionário de Estudantes Marxista (CREM),
é bem elucidativo. Ele surge num contexto histórico de luita no interior
da academia, período em que considerámos necessário abrir um espaço de reflexom
ideológica e de acçom no campo da esquerda marxista. Era importante desfazer
alguns equívocos em torno do marxismo quer no interior do grupo que integrava
o CREM, quer no espaço estudantil que nos rodeava.
Apesar
de organizarmos conferências, algumhas participadas com algum entusiasmo,
de um órgao de informaçom próprio (apoiado materialmente pola UDP, organizaçom
que mais tarde fundou o B.E.), de adquirirmos um certo peso reivindicativo
no interior da faculdade, nunca conseguimos alargar a nossa acçom a outros elementos revolucionários das restantes
faculdades, nom resistimos ao confronto com umha organizaçom reformista
ligada ao PCP, nem resistimos ao aparecimento de um movimento pretensamente
revolucionário na altura, o Bloco de Esquerda. Rapidamente ficamos reduzidos
a quatro elementos sem condiçons para dar continuidade ao trabalho em virtude
da nossa situaçom académica. O CREM conheceu assim dous anos e meio de
vida a todos os títulos precária.
No
interior das faculdades a ligaçom com as luitas do resto da sociedade é
nula, o que por vezes parece incompreensível. Os estudantes parecem ter
perdido toda a combatividade e irreverência que lhes parecia peculiar. Exceptuando-se
a questom de Timor, pois constituiu de um momento para o outro umha verdadeira
“causa nacional” em que todos “nos tínhamos de empenhar”, o espaço estudantil
fechou-se novamente sob a sua cultura de cátedra, que só intervém para o
bem estar moral da Academia.
Esta
cultura de elite, de excepçom social, tem contribuído para que o estudante
adquira um estatuto de mero boémio, socialmente desprezado por vastas camadas
da sociedade. Como futuros trabalhadores, é urgente fazer esta ligaçom estudantes/trabalhadores,
através de trabalho de base dentro das faculdades.
Importa
agitar as águas das faculdades, combater o pensamento reaccionário, individualista
que se instalou, voltar a colocar o mundo real no interior da academia,
contrariar toda a informaçom pró-capitalista e imperialista com umha visom
colectiva de transformaçom da sociedade. Se a luita contra a lei de financiamento
do Ensino Superior ensinou umha cousa, foi a de que é possível radicalizar
certos sectores controlados polos reformistas nestes períodos mais calmos.
Importa lembrar que várias assembleias gerais de estudantes tomárom decisons
contra a vontade política das organizaçons reformistas, através da acçom
de elementos mais radicalizados do corpo estudantil. Estes nom podem continuar
a negar-se à acçom nem em colaborar com quem tanto criticam, seguindo umha
soluçom confortável como o é o silêncio a que constantemente se votam.
Depois
de analisada a situaçom e os principais problemas da juventude portuguesa,
importa traçarmos aqui algumhas perspectivas que se devem construir o mais
urgente possível. nom se podem considerar tempos fáceis aqueles que se vislumbram
para a juventude portuguesa e mundial.
Uma
das prioridades é o relançamento de um movimento juvenil revolucionário,
ligado quer às luitas juvenis que se avizinham, bem como ao movimento operário
e popular que no futuro terá que travar importantes lutas. Imprimir a este
movimento um carácter internacionalista, solidário com todos os oprimidos,
que oponha o Trabalho ao Capital. Para isto um grande esforço ideológico
deve ser levado a cabo, reflectir o passado e o presente, procurar referências
tanto actualmente como nesse mesmo passado, tendo em vista a construçom
do futuro.
Associar-se
às diversas acçons de protesto, afirmando um caracter independente, afirmando
as suas reivindicaçons e o seu cunho de alternativa revolucionária, denunciando
o reformismo sempre que necessário. Se nom for imprimido um cunho popular
ao movimento contestatário muito poucos serám os seus resultados positivos.
Por
todo o mundo começam-se a ouvir umha série de protestos contra os malefícios
do Capitalismo, vários organizaçons jovens integram esse coro de protestos.
Muitas das reivindicaçons estám impregnadas de um caracter pequeno-burguês,
nom apresentando umha alternativa económica e social ao capitalismo. É importante
construir essa alternativa e assumi-la nas ruas, desconstruindo a ideia
de um possível “capitalismo de rosto humano”. Quem desejar o reforço da
democracia tem que obrigatoriamente trabalhar polo reforço do movimento
operário socialista.
É
inegável a importáncia de luitar no quadro do próprio sistema por reformas,
este processo amadurece o movimento operário e agudiza a luita de classes.
Mas ao contrário dos movimentos revisionistas e pequeno burgueses devemos
orientar a luita para a conquista do objectivo principal, a conquista do
poder político polo proletariado!
Como
ficou visto atrás nom nos espera um trabalho fácil. nom se espere que do
dia para a noite se modifique o quadro social da juventude tam habilmente
construindo polos vários domínios do poder capitalista, televisom, escola,
etc. O verdadeiro trabalho de base ainda está por ser devidamente lançado,
as exigências pessoais de início serám muitas.
Haverá
espaço para a revolta? A esta pergunta temos que responder
com a multiplicaçom de acçons de luita, pola inversom da situaçom da juventude
na actualidade, pola construçom de umha alternativa política, com um programa
alternativo de oposiçom ao capitalismo e de transformaçom da sociedade.
Para
isso temos que combater a indiferença juvenil, o partido mais feroz com
que nos temos de defrontar actualmente. nom podemos ter receios em apontar
o dedo a todos os mecanismos de dominaçom do Capital, nem à acçom burocratizada
das organizaçons da esquerda parlamentar (PCP e
BE).
Desmistificar
o carácter reformista e conciliador tanto do PCP como do Bloco de Esquerda,
será outra das acçons muito importantes. No momento actual som estas organizaçons
que demonstram umha forte capacidade organizativa, conseguindo agregar em
seu redor um número considerável da juventude esclarecida para a acçom política.
O grande problema está na orientaçom reformista destas organizaçons, quase
exclusivamente viradas para os actos eleitorais, deixando a luitas de massas
para segundo, ou terceiro plano na estratégia política.
É
nosso papel devolver a luita às ruas, radicalizar e consciencializar os
sectores mais descontentes da juventude. Como indicava Lenine, melhor que
falar de umha revoluçom é fazê-la!
O CAMPO
OPERÁRIO ESTÁ MINADO POLO INIMIGO
Voltar
às VI Jornadas Independentistas Galegas