VI Jornadas Independentistas Galegas. Maio 2002

 

HAVERÁ ESPAÇO PARA A REVOLTA?

Alexandre Isaac

 

A integraçom de Portugal na economia capitalista mundial, processo acelerado no período exactamente posterior ao 25 de Novembro de 1975, confrontou a sociedade portuguesa com a agudizaçom de alguns problemas antigos, bem como introduziu novas formas de exploraçom, sobretudo do operariado jovem. umha leitura mais cuidada da situaçom económico-social portuguesa colocará a nu umha realidade preocupante, mas que, tendencialmente, diferirá em muito pouco dos países que integram o bloco imperialista europeu. 

Decorrente desta situaçom sou forçado a subscrever a afirmaçom de Claude Bitot, quando escreve no seu livro “Mundo em Declínio” (Ed. Dinossauro, 2001) que, “os problemas do capitalismo em desenvolver um novo ciclo expansivo manifestam-se nas dificuldades por que passam as novas geraçons”.   

Importa desde já esclarecer que a juventude portuguesa de agora nom atravessa umha situaçom castrante, como a que as jovens geraçons sofriam antes da revoluçom de Abril. Durante a Ditadura fascista nom se encontravam um número tam grande de oportunidades de trabalho e de ensino para a classe trabalhadora, sendo os jovens obrigados à emigraçom em massa e, mais tarde com a Guerra Colonial, à fuga a umha  morte iminente.

Nos campos de batalha africanos perecêrom e ficárom marcados para toda a vida centenas de milhares de jovens, enviados para defender o sistema capitalista português que detinha umha grande dependência colonial. No cenário de brutalidade de um país salazarista as perspectivas de vida dos filhos do proletariado eram poucas ou nengumhas, ficando sempre ligados desde o nascimento à miséria em que viviam os seus pais.

Como tal, o 25 de Abril e o período revolucionário que se seguiu marcou e marcará um salto importantíssimo das estruturas sociais e económicas, que criou umha grande variedade de oportunidades para as novas geraçons. As críticas que se fagam à situaçom presente nom podem contribuir para um branqueamento do passado, nem para alimentar o saudosismo de alguns sectores conservadores e fascistas ainda presentes na esfera social portuguesa.

A juventude portuguesa, na sua grande maioria, encontra-se desarmada ideologicamente. A sua visom política e social é muito facilmente manipulada, quer polos grandes meios de comunicaçom, quer por outros instrumentos ideológicos ao serviço dos interesses do capital. A irreverência juvenil no campo político e social,  exibida durante as décadas de 60 e 70, foi substituída polo consumismo frenético, pola apatia colectiva, polo individualismo desregrado.

Os horizontes dos jovens portugueses fecham-se a cada dia que passa, passando a exibir posiçons tendencialmente conservadoras e fechadas a qualquer perspectiva de transformaçom social. A conduta política pouco ultrapassa o superficialismo e noçons pouco desenvolvidas das situaçons de opressom e desigualdade geradas polo capitalismo. Mesmo as organizaçons juvenis progressistas que mais militantes arregimentam (Juventude Comunista Portuguesa e Bloco de Esquerda), carecem de umha ideologia transformadora da sociedade, limitando-se a luitar por reformas que permitam lavar um pouco a cara ao capitalismo, levando os seus militantes a acreditar na impossibilidade de novas revoluçons, encaminhando-os para um papel de reserva moral da democracia burguesa. Estes sectores mais politizados da juventude tenhem umha grande tendência para cair num humanismo sentimentalista, cheio de mistificaçons e equívocos que nom poucas vezes cumpre com os objectivos de dominaçom da burguesia.

Passados 27 anos após as primeiras eleiçons livres, a taxa de participaçom dos jovens nos actos eleitorais tem acompanhado a descida do total do eleitorado. Num estudo recente do Instituto de Ciências Sociais sobre hábitos sociais e políticos dos jovens lisboetas, 42,9% afirmou nom ter qualquer simpatia partidária, ao passo que 45,4% afirmou simpatia polos dous partidos que tenhem partilhado o poder político ( PS E PSD).

Um dos problemas que estes dados levantam é que a grande maioria dos que afirmam nom ter simpatia partidária, encontram-se num apolitismo crónico, que tem que ser considerado preocupante, tendo em conta o espectro das vitórias eleitorais da extrema direita. Apesar de nom existir organizaçons muito estruturadas de skinheads em Portugal, conseguimos encontrá-los em meios muito influentes da juventude como som as claques de futebol. As suas acçons registam-se muito esporadicamente e por enquanto podem ser apenas consideradas num campo de hipóteses futuras. Em virtude do crescimento da extrema direita em toda a Europa, e com o aparecimento na cena partidária portuguesa de partidos neofascistas como o PNR, o cenário demonstra-se muito animador para estes pontas de lança da ideologia mais reaccionária produzida em Capitalismo. Como é sua tónica, espera-se que muito rapidamente estes grupos explorem a questom da emigraçom e os grandes fenómenos de exclusom social derivados da grande exploraçom a que os emigrantes estám sujeitos. Inclusivamente os partidos que agora partilham o governo, PSD E PP, durante a campanha eleitoral figérom ponto de honra em identificar, quase exclusivamente, a criminalidade com o grupo étnico africano residente em Lisboa e zonas suburbanas.

O falso radicalismo, a violência nom direccionada, um grande conservadorismo face a um número crescente de questons parecem ser as faces visíveis de amplas massas da juventude. Em traços gerais, o cenário de alienaçom massiva dos jovens levanta fortes implicaçons sociais, que ajudam a comprometer as perspectivas futuras de toda umha sociedade. Na análise da situaçom do movimento estudantil outros pormenores serám acrescentados.      

A recente ofensiva do Capital nas empresas, fábricas e escolas nom colheu até ao tempo presente umha resposta firme e combativa por parte das organizaçons da esquerda portuguesa, sindicatos, nem inclusivamente por parte dos movimentos juvenis. Face a estas hesitaçons no seio do movimento operário e estudantil, os recuos no campo social tenhem sido muitos, sendo flagrante a quantidade de medidas e políticas direitistas facilmente aplicadas, face à complacência das organizaçons supracitadas .

O espírito da concertaçom social em nome do “desígnio patriótico da produtividade” e da “competitividade dos mercados”, tem deixado perfeitamente esquecidas reivindicaçons e necessidades prementes da classe trabalhadora portuguesa. Em torno deste cenário, nom é de estranhar que se comece a olhar com desconfiança o papel desempenhado polos sindicatos e polos partidos de esquerda com assento parlamentar (PCP e BE), registando-se umha debandada geral destes movimentos, anteriormente portos de abrigo da classe operária.

Deve-se ter em conta que a participaçom juvenil tanto nas luitas políticas, como no movimento sindical e laboral, restringe-se a cada dia que passa a umha pequena minoria, partidariamente limitada à área da esquerda institucional. A taxa de filiaçom sindical reduz-se de ano para ano no proletariado jovem, existindo um número cada vez maior de empresas sem qualquer representaçom sindical ou comissom de luita organizada. O grande problema é que esta recusa na grande maioria dos casos, nom está ligada a umha postura crítica coerente mas sim, ao grande recuo ideológico do proletariado jovem português, penetrado pola ideologia capitalista, individualista e conservadora.

Durante a preparaçom deste debate fui recolhendo testemunhos de jovens trabalhadores demonstrativos das dificuldades que atravessam, quer do ponto de vista organizativo como classe, quer do ponto de vista da negociaçom com os gestores e patrons das empresas que integram.  

No campo do Trabalho som muitos os problemas por que passam os jovens, alguns sobejamente conhecidos: desemprego, precarizaçom do trabalho, má remuneraçom, negaçom de direitos laborais aos trabalhadores jovens, dificuldades de integraçom nos quadros. A economia “flexível e polivalente” transformou-se num verdadeiro quebra cabeças para os jovens sequiosos de alcançar um nível de vida mais confortável e umha certa independência.

Quando refiro o problema do desemprego, é extremamente importante dar realce ao facto de que, o desemprego em Portugal passou em anos recentes a afectar tanto operários pouco qualificados como, também, os portadores de habilitaçons académicas.

Mas um dos principais factores de tensom é o facto deste desemprego, estar irmanado com um aumento geral da precariedade, desde 1998 o seu crescimento foi de 23%, e da desregulamentaçom das relaçons laborais.

Os sucessivos governos apresentárom ao longo dos últimos anos descidas da taxa de desemprego, chegando este último a atingir mínimos históricos muito próximos do regime de pleno emprego Keynesiano. Neste momento a taxa de desemprego ronda os 4% para o total e 8;6 para os jovens até 25 anos no ano 2000. nom obstante, estes números encobrem a realidade sombria da precariedade.

As estatísticas relativas ao emprego tenhem um valor equívoco. Para além dos critérios que envolvem a confecçom dessas estatísticas serem altamente contestáveis, nos últimos anos multiplicárom-se as acçons de formaçom, e pequenos cursos sob a forma de trabalho, que ajudam a distorcer as estatísticas, aliviando-se assim o espectro social do crescimento do desemprego permanente. Grande número destas acçons de formaçom nom tenhem continuidade, adquirindo assim um valor extremamente duvidoso para o futuro laboral dos jovens que as integram.

A grande maioria dos novos postos de trabalho subordinam os jovens a constantes contratos a prazo, ao trabalho a tempo parcial sem o mínimo de direitos, a fortes discriminaçons principalmente com base no género, trabalhos com horários mais extensos, trabalhando para além dos limites legais, e mais flexíveis. Em Portugal, segundo a CGTP, mais de 730 mil trabalhadores vivem em situaçom de precariedade, sendo mais de 330 mil destes trabalhadores jovens!            

O desenvolvimento das forças produtivas gerou um fraccionamento dos trabalhadores jovens em três partes, isto dito numha perspectiva generalista. Aqueles que detenhem um emprego e um rendimento fixo, sujeitos à exploraçom capitalista, mas que de qualquer maneira podem ser denominados de segmento um pouco mais privilegiado do operariado. Este emprego fixo nom pode ser confundido com emprego permanente. Trata-se de postos de trabalho minimamente estáveis no curto prazo, que garantem umha certa independência aos jovens.

Com a implantaçom das medidas neo-liberais no plano laboral, deu-se um aumento da precariedade do vínculo laboral, que permite ao patronato laborar com baixos custos de mao de obra, minimizando a capacidade reivindicativa da classe trabalhadora. O crescimento destes postos de trabalho tem sido muito pequeno, segundo os últimos dados estatísticos, um em cada três postos de trabalho criados som considerados estáveis. Normalmente estes postos som ocupados por elementos oriundos da pequena burguesia comalgumhas qualificaçons.

Uma outra fracçom, a maior, composta por todos aqueles com dificuldades em encontrar trabalho permanente, cujo rendimento provém ora do trabalho ora de biscates e de subsídios (umha grossa fatia). Esta situaçom precarizante consegue, contudo, adiar a “descida ao inferno” da mais pura miséria, conferindo a estes proletários o “privilégio” de viver nos limiares da subsistência.

Para aqueles que nom saibam, Portugal para além do salário mínimo mais baixo da Uniom Europeia, é o país onde mais trabalhadores subsistem com essa “esmola patronal”. Diversos estudos da Uniom Europeia alertam para o facto de que o nível de vida português ser muito baixo. Segundo a UE, enquanto que um trabalhador português que aufira o salário mínimo precisa de 35 horas de trabalho para comprar um cabaz  de 30 bens essenciais, um trabalhador espanhol precisa de 24 horas.

As famílias desempenham um importante papel na vida desta parcela do proletariado. Servem em muitos casos como almofadas sociais para os jovens, principalmente quando estes atravessam largos períodos sem qualquer tipo de trabalho ou fonte de remuneraçom. As pequenas economias guardadas durante toda umha vida de trabalho som assim delapidadas progressivamente.   

Por último, falta referir aquela parcela da juventude que polas mais diversas razons, mas todas directa ou indirectamente ligadas ao modo de produçom capitalista, depressa cai na mais perfeita miséria, vivendo da mendicidade, do assistencialismo, do furto, prostituiçom, engrossando as fileiras do lumpenproletariado, fenómeno nom só presente nas cidades mas que rapidamente se arrasta polas vilas mais populosas. Portugal tem a mais elevada taxa de pobreza da Uniom Europeia, 22% contra umha média de 17% no espaço da Uniom. Portugal aparece também em primeiro lugar quando se observa o grau de desigualdade na distribuiçom de rendimentos, deve-se acrescentar que este fenómeno conheceu mesmo um aumento  na primeira metade da década de 90.

No quadro da miséria e da exclusom social, é importante referir um dos maiores problemas e flagelos das sociedades contemporáneas quando falamos de jovens, a toxicodependência juvenil. Todos os anos aumenta o número de jovens que se envolvem em “comportamentos de risco”. som várias as causas sociais que se encontram na raiz deste fenómeno, nom  nos cabendo aqui discuti-las todas.

Contudo nom podemos virar a cara ao crescimento de umha economia subterránea que movimenta milhons de Euros e que envolve centenas ou mesmo milhares de jovens que obtêm um rendimento diário através do pequeno tráfico. Como mera curiosidade refira-se que, já surgírom também alguns relatos de patrons que pagam parcialmente ou mesmo na totalidade os salários em heroína, nomeadamente na construçom civil, reconstruindo a frase trabalhar para comer em, trabalhar para nom “ressacar”.

Com o fenómeno da toxicodependência nasce toda umha sociedade que vive na margem da outra, com os seus problemas próprios, com o problema da criminalidade ligada à esfera do consumo e do pequeno tráfico e, com o seu desinteresse total por tudo o que os envolve seja no campo social, seja no campo político. Este envenenamento das classes mais pobres consentido e premeditado polo capitalismo  mundial, para além de lhe garantir a inacçom social e política de um número cada vez maior de jovens, tem-lhe servido para o aumento das medidas repressivas e dos corpos repressivos. Sublinhe-se ainda a importáncia financeira do tráfico de droga para a economia mundial, sendo realizadas milhares de transacçons financeiras todos os dias associadas ao tráfico de estupefacientes .        

 

Devido à sua composiçom eminentemente juvenil e também à sua ligaçom cada vez mais evidente com o mundo do trabalho, importa analisarmos o espectro educativo, essencialmente o movimento associativo de estudantes em torno das várias reformas educativas e, as dificuldades de ligaçom com o resto das forças progressistas na sociedade envolvente.

Um dos primeiros aspectos a ser abordados prende-se com o aspecto classista do ensino, nom só no aspecto meramente económico, mas também do ponto de vista do papel da escola na reproduçom da ideologia capitalista e da moral burguesa. Na grande maioria das universidades portuguesas assiste-se a umha clara política de transmissom de posiçons políticas altamente retrógradas, em alguns casos xenófobas, de manipulaçom e distorçom da realidade. Este esforço conta com a participaçom activa dos próprios conselhos directivos das faculdades e dos corpos docentes. No domínio da transmissom da ideologia este trabalho tem sido muito evidente, a justificaçom da virtude única do capitalismo e da economia empresarial está presente na grande maioria dos cursos leccionados.

É notória a ligaçom umbilical entre o sistema universitário, os partidos políticos de direita e os grandes grupos económicos que operam em Portugal, sendo o muito badalado caso Moderna, com acusaçons de ligaçom ao tráfico de armas, manipulaçons de sondagens, etc., apenas a ponta de um iceberg. Também é cada vez maior o número de ministros recrutados às universidades mais conservadoras, quer a posterior integraçom destes nos quadros das grandes empresas.

Muitos destes reitores e professores acumulam funçons nas universidades com a de gestores de grandes empresas. Proliferam nas faculdades os estágios nom remunerados com altos benefícios para estas empresas, e forte exploraçom para os estudantes, que muito raramente conseguem firmar contratos com essas empresas, independentemente do volume de trabalho conseguido.

Seguindo a doutrina neo-liberal, o sector privado avança, ocupando os espaços outrora pertença do ensino público, por ele próprio já decadente devido a umha grande quantidade de políticas educativas de nom investimento, e de conluio com lobbies muito fortes no domínio educativo. A ideia de promoçom social através do investimento das famílias mais desfavorecidas na educaçom dos filhos, tem caído para o domínio da mitologia.

O actual sistema educativo, quer no secundário quer no superior, acentua as desigualdades sociais em vez de as atenuar, os custos ligados com a educaçom som extremamente elevados. As necessidades de jovens diplomados no mercado de trabalho há muito que fôrom satisfeitas, em vários domínios do aparelho produtivo. Perante este cenário, e como a “corda rebenta sempre polo lado mais fraco”,  a educaçom na sua vertente mercantil promove o rápido abandono escolar por parte dos mais desfavorecidos, reproduzindo em si as oposiçons de classe, registadas em todos os quadrantes da sociedade.

Exactamente por pertencer ao modo de produçom capitalista, o sistema educativo  encerra em si fortes contradiçons que urge aproveitar no sentido de orientar a acçom política nas universidades e escolas secundárias. Nomeadamente as dificuldades de acesso ao mercado de trabalho e as fortes desigualdades sentidas na pele polos filhos do proletariado.

As necessidades de mao de obra qualificada por parte do modo de produçom capitalista permitírom umha massificaçom do Ensino Superior, processo acentuado no pós 25 de Abril, passando a integrá-lo sectores da populaçom com menos meios de subsistência. Contudo, aos filhos do proletariado continua barrado o caminho da educaçom. A esta massificaçom, o sector produtivo nom conseguiu dar resposta, sendo notório o aumento de diplomados com dificuldades em garantir o primeiro emprego.

Em Janeiro de 2001 os Centros de Emprego tinham mais de 23 000 licenciados inscritos, um aumento de 12,8% relativamente ao ano anterior. Portugal é o país da U.E. com mais baixo número de populaçom licenciada mas ao mesmo tempo tem grandes dificuldades em integrar no “mercado de trabalho” os que forma. Existe ainda forte exploraçom da mao de obra qualificada, muitos destes recém licenciados encontram-se subempregados em funçons desqualificadas, verificando-se um crescendo de preocupaçom quando confrontados com a realidade em que participam ou que irám participar. Por enquanto nom se pode constatar que surjam aqui perspectivas revolucionárias, até pola origem de classe de muitos destes jovens.

Como já foi referido na caracterizaçom geral da juventude, neste momento o espaço estudantil está fortemente despolitizado, com altas taxas de iliteracia e analfabetismo funcional, baixo nível cultural, salvo casos pontuais muito nobres, sendo os sectores mais conservadores das universidades os predominantes e, os que desempenham a conduçom da política associativa no interior das faculdades. Existe ainda umha cultura de elite, completamente deslocada do contexto histórico e da composiçom social das faculdades, e que serve os interesses imobilistas de muitas reitorias,  que é importante desmascarar.

Para ajudar a caracterizar esta situaçom de despolitizaçom geral dos estudantes, refira-se que quaisquer eleiçons para as associaçons de estudantes, ou para os órgaos de gestom das faculdades, registam taxas de participaçom entre os 10 e os 15 % do total da populaçom estudantil. Raramente se registam valores acima desta média. Isto demonstra umha atitude completamente passiva e desinteressada, por parte da grande maioria dos estudantes. Este fenómeno conta com o apoio, implícito ou explícito, de todas as organizaçons políticas institucionais que se defrontam no espaço universitário.

Com esta observaçom incluo as organizaçons de esquerda, que, com a sua pequena actividade política no interior das faculdades, ajudam à deserçom progressiva dos estudantes mais conscientes, fartos da manipulaçom dos movimentos estudantis por parte dealgumhas figuras reformistas.

A acçom das juventudes partidárias dos partidos da esquerda reformista, leia-se JCP e BE, nom destoa no quadro geral do Ensino Superior. As suas preocupaçons em pouco ultrapassam as eleiçons para as associaçons de estudantes, preocupando-se mais com pequenas acçons de marketing político do que com a real politizaçom do espaço escolar que integram. Frases como: “isso é de um radicalismo desnecessário” som profusamente repetidas polos seus dirigentes. Mesmo a acçom de massas é feita tendo em conta a agenda política dos seus partidos.

A forma manipulativa como foi conduzida a luita contra as propinas, a luita mais importante recentemente empreendida, é reveladora das orientaçons reformistas ditadas das cúpulas para as bases. O resultado final foi umha derrota estrondosa, que implicou um grande recuo do movimento estudantil que voltava a germinar. Importa referir que este recuo perdura até hoje, e que foi aproveitado polos elementos de direita no interior das faculdades para atingirem umha certa supremacia e umha grande margem de manobra.  

No tempo presente as principais reivindicaçons estudantis prendem-se quase exclusivamente a actos de gestom das faculdades, perdendo-se os estudantes em brigas corporativas. Os pequenos grupos mais radicalizados tenhem dificuldades em agremiar pessoas, e denotam grandes incapacidades de organizaçom e de dar continuidade ao trabalho que iniciam. O exemplo da extinta organizaçom a que pertencia, o Comité Revolucionário de Estudantes Marxista (CREM), é bem elucidativo. Ele surge num contexto histórico de luita no interior da academia, período em que considerámos necessário abrir um espaço de reflexom ideológica e de acçom no campo da esquerda marxista. Era importante desfazer alguns equívocos em torno do marxismo quer no interior do grupo que integrava o CREM, quer no espaço estudantil que nos rodeava.  

Apesar de organizarmos conferências, algumhas participadas com algum entusiasmo, de um órgao de informaçom próprio (apoiado materialmente pola UDP, organizaçom que mais tarde fundou o B.E.), de adquirirmos um certo peso reivindicativo no interior da faculdade, nunca conseguimos alargar a nossa acçom a  outros elementos revolucionários das restantes faculdades, nom resistimos ao confronto com umha organizaçom reformista ligada ao PCP, nem resistimos ao aparecimento de um movimento pretensamente revolucionário na altura, o Bloco de Esquerda. Rapidamente ficamos reduzidos a quatro elementos sem condiçons para dar continuidade ao trabalho em virtude da nossa situaçom académica. O CREM conheceu assim dous anos e meio de  vida a todos os títulos precária.

No interior das faculdades a ligaçom com as luitas do resto da sociedade é nula, o que por vezes parece incompreensível. Os estudantes parecem ter perdido toda a combatividade e irreverência que lhes parecia peculiar. Exceptuando-se a questom de Timor, pois constituiu de um momento para o outro umha verdadeira “causa nacional” em que todos “nos tínhamos de empenhar”, o espaço estudantil fechou-se novamente sob a sua cultura de cátedra, que só intervém para o bem estar moral da Academia.

Esta cultura de elite, de excepçom social, tem contribuído para que o estudante adquira um estatuto de mero boémio, socialmente desprezado por vastas camadas da sociedade. Como futuros trabalhadores, é urgente fazer esta ligaçom estudantes/trabalhadores, através de trabalho de base dentro das faculdades.

Importa agitar as águas das faculdades, combater o pensamento reaccionário, individualista que se instalou, voltar a colocar o mundo real no interior da academia, contrariar toda a informaçom pró-capitalista e imperialista com umha visom colectiva de transformaçom da sociedade. Se a luita contra a lei de financiamento do Ensino Superior ensinou umha cousa, foi a de que é possível radicalizar certos sectores controlados polos reformistas nestes períodos mais calmos. Importa lembrar que várias assembleias gerais de estudantes tomárom decisons contra a vontade política das organizaçons reformistas, através da acçom de elementos mais radicalizados do corpo estudantil. Estes nom podem continuar a negar-se à acçom nem em colaborar com quem tanto criticam, seguindo umha soluçom confortável como o é o silêncio a que constantemente se votam. 

Depois de analisada a situaçom e os principais problemas da juventude portuguesa, importa traçarmos aqui algumhas perspectivas que se devem construir o mais urgente possível. nom se podem considerar tempos fáceis aqueles que se vislumbram para a juventude portuguesa e mundial.

Uma das prioridades é o relançamento de um movimento juvenil revolucionário, ligado quer às luitas juvenis que se avizinham, bem como ao movimento operário e popular que no futuro terá que travar importantes lutas. Imprimir a este movimento um carácter internacionalista, solidário com todos os oprimidos, que oponha o Trabalho ao Capital. Para isto um grande esforço ideológico deve ser levado a cabo, reflectir o passado e o presente, procurar referências tanto actualmente como nesse mesmo passado, tendo em vista a construçom do futuro.

Associar-se às diversas acçons de protesto, afirmando um caracter independente, afirmando as suas reivindicaçons e o seu cunho de alternativa revolucionária, denunciando o reformismo sempre que necessário. Se nom for imprimido um cunho popular ao movimento contestatário muito poucos serám os seus resultados positivos.

Por todo o mundo começam-se a ouvir umha série de protestos contra os malefícios do Capitalismo, vários organizaçons jovens integram esse coro de protestos. Muitas das reivindicaçons estám impregnadas de um caracter pequeno-burguês, nom apresentando umha alternativa económica e social ao capitalismo. É importante construir essa alternativa e assumi-la nas ruas, desconstruindo a ideia de um possível “capitalismo de rosto humano”. Quem desejar o reforço da democracia tem que obrigatoriamente trabalhar polo reforço do movimento operário socialista.

É inegável a importáncia de luitar no quadro do próprio sistema por reformas, este processo amadurece o movimento operário e agudiza a luita de classes. Mas ao contrário dos movimentos revisionistas e pequeno burgueses devemos orientar a luita para a conquista do objectivo principal, a conquista do poder político polo proletariado!

Como ficou visto atrás nom nos espera um trabalho fácil. nom se espere que do dia para a noite se modifique o quadro social da juventude tam habilmente construindo polos vários domínios do poder capitalista, televisom, escola, etc. O verdadeiro trabalho de base ainda está por ser devidamente lançado, as exigências pessoais de início serám muitas.

Haverá espaço para a revolta? A esta pergunta temos que responder com a multiplicaçom de acçons de luita, pola inversom da situaçom da juventude na actualidade, pola construçom de umha alternativa política, com um programa alternativo de oposiçom ao capitalismo e de transformaçom da sociedade.

Para isso temos que combater a indiferença juvenil, o partido mais feroz com que nos temos de defrontar actualmente. nom podemos ter receios em apontar o dedo a todos os mecanismos de dominaçom do Capital, nem à acçom burocratizada das  organizaçons da esquerda parlamentar (PCP e BE).

Desmistificar o carácter reformista e conciliador tanto do PCP como do Bloco de Esquerda, será outra das acçons muito importantes. No momento actual som estas organizaçons que demonstram umha forte capacidade organizativa, conseguindo agregar em seu redor um número considerável da juventude esclarecida para a acçom política. O grande problema está na orientaçom reformista destas organizaçons, quase exclusivamente viradas para os actos eleitorais, deixando a luitas de massas para segundo, ou terceiro plano na estratégia política.

É nosso papel devolver a luita às ruas, radicalizar e consciencializar os sectores mais descontentes da juventude. Como indicava Lenine, melhor que falar de umha revoluçom é fazê-la!

 

O CAMPO OPERÁRIO ESTÁ MINADO POLO INIMIGO

 

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