Saramago, Galeano e Fidel Castro
Heinz Dieterich Steffan

19 de Abril de 2003

Poucos dias após a ruptura pública do prémio Nóbel de literatura, José Saramago, com a revoluçom cubana,a raiz do fusilamento de três seqüestradores de um ferry e de drásticas penas de prisom de "jornalistas dissidentes", Eduardo Galeano desmarca-se, no artigo "Cuba dói", de um "modelo de poder" que está "em decadência" e que "converte em mérito revolucionário a obediência às ordens que descem... dos cumes".

Galeano di que nunca acreditou na "democracia do partido único", nem na omnipotência do Estado como "resposta à omnipotência do mercado"; que a revoluçom tem ido perdendo o "vento de espontaneidade e de frescura que desde o princípio a empurrou", que há "um desastre dos estados comunistas convertidos em estados policiais", o que é umha traiçom ao socialismo", e que o governo cubano tratou os grupos que colaboram com o Chefe da Secçom de Interesses dos Estados Unidos, James Cason, "como se fossem umha grave ameaça".

O escritor sim acredita no "sagrado direito à autodeterminaçom dos povos"; que a "abertura democrática" em Cuba é, "mais do que nunca, imprescindível"; que devem ser os cubanos, "sem que ninguém venha veter mao de fora, quem abram novos espaços democráticos, e conquistem as liberdades que faltam" e que Rosa Luxemburg tinha razom frente a Lenine quando dizia que "liberdade é sempre a liberdade de quem pensa diferente": Freiheit ist immer die Freiheit des Andersdenkenden.

Se Rosa Luxemburg tinha razom face a Lenine ou nom, é um longo debate. O que nom requer debate é o status lógico da sua célebre afirmaçom sobre a liberdade do outro. Igual que o congénito aforismo de Voltaire sobre a liberdade, 150 anos antes, e o imperativo categórico de Immanuel Kant, trata-se de enunciados prescritivos abstractos e gerais que nom servem para resolver umha dificuldade concreta. Para agir ante um problema concreto, cumpre umha ética material, quer dizer, umha ética de conteúdos, nom de umha axiologia formal-abstracta.

No ámbito das verdades abstractas existe, sem dúvida, umha grande harmonia cósmica sobre o direito à dissidência, à liberdade de opiniom e à democracia. Richard Nixon, Ronald Reagan, George Bush, Tony Blair e Ariel Sharon agem justo em nome destes valores, quando queimam vietnamitas com napalm, desmancham com bombas de fragmentaçom crianças na Palestina ou pulverizam afegaos com bombas de combustom.

Nom, a verdade é concreta e se se afirma que a "liberdade é sempre a liberdade do outro", cumpre dizer se este axioma serve quando o outro se chamar Adolf Hitler, ou Ariel Sharon, ou George Bush e os seus executores subalternos.

Eis a essência da discussom sobre os fusilamentos em Cuba, porque é o quid da praxe. Saramago ficou no reino da axiologia abstracta, fiel às suas verdades absolutas, nom carcomidas polas incertezas, contradiçons e tragédias da vida real. "Até aquí chegamos", di, numha reminiscência do consummatum est do nazareno: "Cuba seguirá o seu caminho, eu fico por aqui".

É o evangelho segundo Jesus; mas nom do lugar da vítima, que sustém o seu credo com absolutismo inquebrantável durante toda a via crucis da sua praxe de transformaçom social, até chegar ao seu Gólgota; mas da posiçom do intelectual principista parapeitado na fortaleza das verdades metafísicas abstractas.

A posiçom do romancista lusitano é um reduto intelectual de luxo, quase que escolástico, poderia-se dizer, mas consistente. A do escritor uruguaio é um falso compromisso entre o diagnóstico da realidade e a terapia: é inconsistente. Onde tem que dar respostas concretas para o problema cubano, agasalha-se sob desiderata gerais, quer dizer, combina afirmaçons críticas com aspiraçons utópicas, que ficam fora da realidade do problema. Se Saramago é um mosteiro no outeiro, Galeano é um castelo no ar.

Galeano di que nom acredita na "democracia do partido único". O partido único em Cuba nom nasce, como ele sabe, do Leninismo, mas da compreensom de José Martí, de que qualquer divisom política de Cuba finda no colonialismo.

Abstraindo disto: se o autor nom acredita na "democracia do partido único", em que superstrutura política para Cuba é que acredita? Na democracia do multipartidismo? Nom, tampouco? Entom, com que vai substituir a superestrutura política actual de Cuba?

Eduardo Galeano afirma que devem ser os cubanos, "quem abram novos espaços democráticos, e conquistem as liberdades que faltam", "sem que ninguém venha meter mao de fora". Que belo!

George Bush, quem acaba de meter, nom as maos, senom 270 mil agressoes armados com tanques e bombardeiros estratégicos no Iraque, quem acaba de confirmar numha fábrica de caças F-18, que Washington deve manter todas as vantagens "que tem em armas, tecnologias e espionagem", respeitará sem dúvida este desejo do autor de As veias abertas da América Latina, de que os cubanos podam construir a sua democracia sem qualquer ingerência "de fora".

Cita afirmativamente a revolucionária Rosa Luxemburg -quem foi assassinada a culatradas em Janeiro de 1919 polas hordas do grande capital alemám e deitada ao Canal Landwehr em Berlim, como se fosse um animal- quando di que "sem eleiçons gerais, sem umha liberdade de imprensa e umha liberdade de reuniom ilimitadas, a vida vegeta... em todas as instituiçons públicas".

Floresceria a vida nas instituiçons públicas cubanas se tivessem eleiçons gerais, liberdade de imprensa e de reuniom ilimitada, a umhas quantas milhas de Miami e de Washington, onde os Bush roubárom as eleiçons e donde se tenhem concebido mais de 600 tentativas de assassinato contra o presidente cubano, Fidel Castro?

Num dos seus textos, Galeano di que nom pretende ser objectivo, quer dizer, reserva para si o direito de ser subjectivo ou, o que é o mesmo, nom científico. Por isso, provavelmente, nom vê qualquer problema em propor "a abertura democrática" em Cuba que substituiria a superestrutura política cubana com a "democracia nostra do Terceiro Mundo que começam a gozar os iraquianos.

Claro, ainda nom sabem manejar a nova democracia e o direito à dissidência responsavelmente, mas a pedagogia dos marines mudará isto rapidamente. Há alguns dias, os marines fusilárom vinte civis no Iraque numha manifestaçom pacífica, sem lhes ler os seus direitos, sem respeitar a sua "liberdade de reuniom ilimitada" e sem qualquer julgamento, nem sequer sumário.

Face à cómoda posiçom principista de Saramago e a patética posiçom subjectivista de Galeano, existe umha terceira posiçom frente aos fusilamentos: dissentir com a pena de morte e ser solidário com os heróicos esforços do projecto cubano, de nom cair como "fruta madura no seio dos Estados Unidos", como predixérom os incubadores da doutrina Monroe há 200 anos.

O futuro de Cuba nom está na podrida institucionalidade da civilizaçom burguesa, nem no controlo das suas corruptas elites. O seu futuro está na abertura para a democracia participativa pós-capitalista e desta nom falam nem Galeano nem Saramago.

Como diria Lenine: "Um passo em frente, dous atrás".

 


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