Sílvio Rodríguez perante a Assembleia Extraordinária cubana
VOTO NA MINHA PÁTRIA SOCIALISTA PERFECTÍVEL; PARA DIZER QUE FECHO FILEIRAS COMO QUANDO ERA UM MILICIANITO DE CATORZE ANOS


Publicado em Granma, 26-06-2002

Comandante Fidel,
General Raúl,
Presidente Alarcón,
membros da Assembleia,
convidados,
seres que me escuitam:

Compreendo a responsabilidade histórica de manifestar-se hoje aqui, nesta Assembleia Extraordinária, e impressiona-me a beleza do acto.

Ao confirmar princípios que tenhem dado sentido às nossas vidas é como se quigéssemos gravá-los na trama do tempo. A intençom nom é petrificar este instante, porque as petrificaçons significam morte, mas anunciá-lo hoje e amanhá, como costumam fazer os apaixonados nas árvores e os muros. Estamos a escrever os nossos nomes num tronco, numha parede do tempo e todas as nossas histórias, as colectivas e as pessoais, fundem-se numha, que clama polo que a nossa Cuba está a clamar desde que tivo noçom de si própria: por liberdade, por soberania, por justiça.

Neste empenho há tantos nomes entrelaçados que nom creio possível fazer umha contagem exacta. Uns som recolhidos pola história e outros nom. Como diria Brecht: "Aonde fôrom os alvanéis na noite que rematárom a Muralha Chinesa?" Os pequenos eventos som parte da matéria que conforma a história. De todo o tipo de fragmentos estamos feitos e cada naco, por minúsculo e modesto que semelhar, ajuda a desenhar o grande mosaico deste acto. E quem o duvidar, que passe lista aos ofícios, às histórias que aquí se reúnem, fractais de aspectos e espaço precisos numha rede nacional.

É rara a entrevista em que nom perguntam sobre a minha condiçom de deputado, às vezes com admiraçom, outras com reproche, mas sempre com curiosidade. A mim, como som cubano afeito à Revoluçom, nom me surpreende que o filho de duas famílias pobres esteja a fazer parte da Assembleia, mas como nunca tivem vocaçom de político sempre me sobrecolhe o privilégio de falar em nome de muitos.

No entanto, há umha famosa enciclopédia, editada neste ano, em 2002, que di: Rodríguez Silvio: A sua influência sobre toda umha geraçom, juntamente com os seus companheiros da "nova trova cubana" tem sido reconhecida no mundo todo, inclusive por quem nom está de acordo com as suas ideias políticas.

Eu confesso que primeiro tivem ideias e depois -na realidade muito depois- é que me perguntei sobre o significado da palavra política. Também primeiro deixei à solta a minha vocaçom de fazer cançons e depois é que me perguntei por que é de que forma estava a fazê-las.

É por isso que nom sei a que pouco aconselháveis ideias políticas é que se refere essa enciclopédia. Nom sei se está a referir-se a que a minha primeira cançom que pudesse considerar-se "política", a escrevim sendo recruta, no campamento militar de Manágua, lá por 1964 ou 1965, e tratava da discriminaçom racial. Nom sei se se referirám a quando, em Fevereiro de 1968, Haydée Santamaría nos convidou a cantar no Centro da Cançom Protesto da Casa das Américas. Suponho que nom, porque entre os três trovadores nom reuníamos a quantidade suficiente de cançons "políticas" como para fazermos um concerto.

- De que é que vocês protestam?- costumavam perguntar-nos a brincar alguns companheiros mais velhos do que nós, os que nos tomavam por jovens algo rarinhos e desviados.

Eu sempre julguei que todas as ocupaçons e preocupaçons humanas cabem na poesia e na arte, e com certeza na cançom. E que é dever da nossa sociedade socialista defender que assim seja, porque nesses testemunhos se imprimirá parte da nossa memória histórica como povo, além de parte da nossa capacidade de inventiva. Acho que as artes nom só tenhem o direito, mas o dever de exprimirem-se, porque isso, juntamente com os dados que achegam a imprensa e outras manifestaçons, contribui para deixar um registo histórico o suficientemente variado como para que o amanhá compreenda todas as nossas características e poda aprender de nós.

Por exemplo, acreditando na poesia e na arte, aos 20 anos cheguei à conclusom de que a Revoluçom nom era propriedade privada de ninguém, que a Revoluçom era de todo quem fosse capaz de fazê-la e defendê-la. Polo que dixem aos burocratas que se julgavam administradores dos sonhos:

La pobre gente que dispone
de la vida por oscuros corredores,
¿qué se hará?
Y los que venden la palabra,
los que ríen, los que no hablan
¿quiénes los despedirán?
Serán como el insecto aquel,
muriendo solo, sin después
Morir así es no vivir.
Morir así es desaparecer para siempre.

Acreditando na poesia e na arte fum ao mar com a Frota Cubana de Pesca, donde voltei intacto com estas interrogantes:

Compañeros de historia,
tomando en cuenta lo implacable
que debe ser la verdad, quisiera preguntar
-me urge tanto-
¿qué debiera decir, qué fronteras debo respetar?
Si alguien roba comida
y después da la vida, ¿qué hacer?
¿Hasta dónde debemos practicar las verdades?
¿Hasta dónde sabemos?

Obsesso da poesia e a arte, pedim a devoluçom de 11 pescadores em frente do Escritório de Interesses. Nesses dias, alguns apostavam em bloquear-nos e ao mesmo tempo, o povo nomeava-nos os seus representantes num festival. Também naquela altura, junto do Grupo de Experimentaçom Sonora, fum um dos compositores de "Granma", obra que celebra o 20 aniversário desse barco chegando às nossas costas.

Qué sabrá mi niño de doce olas
que no se posaron junto a la arena.
Qué sabrá mi niño de doce olas
que cogían camino al coger vereda.
Qué sabrá mi niño de doce olas
que no se rompieron en el peñasco.
Que sabrá mi niño de doce olas
que volaron tras empujar su barco.

Um dia inesperado chega umha carta de Camagüey, a pedir umha cançom sobre Agramonte. E crente da poesia e a arte mambisas cometo aquela aproximaçom da estatua do El Mayor:

El hombre se hizo siempre
de todo material:
de villas señoriales
o barrio marginal.
Toda época fue pieza
de un rompecabezas
para subir la cuesta
del gran reino animal,
con una mano negra
y otra blanca mortal.

Fiéis à poesia e às artes, muitos artistas aterramos em Angola, em plena guerra. Alguns chegamos em Fevereiro de 76 e passamos meses a fazer percursos de Cabinda até Cunene, conhecendo heróis -alguns dos quais estám nesta sala-, às vezes dando as boas noites a companheiros que na manhá seguinte já eram matéria de cançons. Entre eles Arides e Ciro Berrios, por quem sempre valerám a pena aqueles sentimentos que diziam:

Si caigo en el camino
hagan cantar mi fusil
y ensánchenle su destino,
porque él no debe morir.

Talvez vivências e cançons como estas tenham dado lugar às afirmaçons da enciclopédia de que falei e também a essas misteriosas ideias políticas que nunca esclarecêrom e se supom que professo. Talvez expressons como "eu morro como vivim" nom semelhem suficientemente devotas da poesia e da arte, e tenham incomodado alguns. Neste tipo de estigma mal velado que querem impingir-nos, quando menos significa umha leitura medíocre da relaçom que tivemos com os povos. Porque dizer que a gente nos quer apesar das nossa ideias políticas é querer contar umha trola que ninguém que tenha estado num concerto nosso a traga.

Pola minha parte, teria que dizer a essas ilustres personalidades que, desde que fum eleito deputado em virtude da democracia -como nós a entendemos-, acho que som um signo vivente da pluralidade desta Assembleia, já que tenho sido um homem questionado por conflituoso, por criterioso, por libretero, ou quando menos por imprevisível (como se calhar estám a demonstrar estas palavras).

Porém, estou aqui como parte do meu povo, da minha história, da minha Revoluçom e do meu amigo e irmao Fidel, fazendo-me partícula desta aventura, desta expediçom realista e surrealista que dirigimos e protagonizamos todos com ele, para dizer que voto na minha Pátria Socialista perfectível; para dizer que fecho fileiras como quando era um milicianito de catorze anos, molhando-se à noite com um Máuser velho, à espera da bomba atómica que lhe tocava de manhá.

E porque isto acontece já nom som mais do que o filho de Dagoberto e Argélia, um apaixonado mais a escrever no tempo -e apesar do tempo- num longo ramo que nos chega desde gloriosas profundezas, onde muitos conhecidos e desconhecidos, fazedores e filhos deste povo, gravárom belezas de todos os tamanhos e significados.

Companheiros, permitam-me um recanto onde deixar estes mínimos versos:

Puede que algún machete
se enrede en la maleza;
puede que algunas noches
las estrellas no quieran salir;
puede que con los brazos
haya que abrir la selva,
pero a pesar de los pesares,
como sea, ¡Cuba va!

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