A guerra e a estratégia sionista
Richard Weyndling

Publicado em Gara, a 17 de Março de 2003

Que a indústria petroleira manda na Casa Branca nom é um segredo. Tanto Bush quanto Cheney, o vice-presidente, som oil-men e Exxon/Mobil patrocionou a campanha eleitoral que os levou ao poder. Portanto, nom é cínico, mas lógico, deduzir que a campanha contra Sadam responde mais ao desejo de assegurar umha subministraçom de petróleo barato do que a proteger a paz mundial.

Mas há um outro potente grupo de pressom dentro da Administraçom, menos visível, embora talvez mais influente ainda na decisom de lançar umha guerra preventiva no Iraque: o sionismo radical. Este grupo é chefiado por personalidades como Richard Perle, Douglas Feith e Paul Wolfowitz. Tenhem mantido relacionamentos estreitíssimos com a direita israelita durante muitos anos e agora acham-se perfeitamente situados para porem a política norte-americana ao serviço do projecto radical sionista. Eles tenhem um motivo além do petróleo para procurarem a derrocada de Sadam Husein. Controlar o Iraque, para eles, será chave para estabelecerem a hegemonia de Israel no Médio Oriente e solucionarem de vez o problema palestiniano.

Para percebermos a sua estratégia é instrutivo lermos um relatório redigido em 1996 a pedido de Benyamin Netanyahu, na altura primeiro ministro de Israel, e ainda disponível em inglês na Internet (www.israeleconomy.org/strat1.htm). Intitula-se qualquer cousa como "Cortar de raiz: umha nova estratégia para assegurar o reino". O autor principal é Richard Perle, antano conhecido como "o príncipe das trevas" polo seu destacado papel nos episódios mais turvos da administraçom Reagan, e actualmente presidente do Conselho de Política de Defesa encarregado de supervisar a preparaçom militar.

Perle argumenta que, para assegurar o seu futuro e evitar a necessidade de negociar "terra por paz" com os sírios e palestinianos, Israel tem de "moldar o seu contorno estratégico". Segundo Perle, "o eixo deste esforço seria derrocar Sadam". Conseguido tal objectivo, propom instalar Abdala da Jordánia (descendente do profeta e rei árabe com maior legitimidade histórica) como rei de umha parte do Iraque, criando umha grande Jordánia. Neste contexto é que cobra significado importante a celeridade com que Abdula tem cedido território para a instalaçom de mísseis Patriot para a defesa de Israel em caso de guerra.

Com o Iraque sob controlo ocidental, a Síria ficaria isolada (com o seu Estado-cliente Líbano) e muito enfraquecida num contexto pró-ocidental. Perle propom ajudar a Turquia e a Jordánia (ambos reforçados territorialmente após dividirem o Iraque entre elas) para criarem umha aliança de tribos com que derrocar o regime sírio. Isto permitiria a Israel rejeitar de vez as tentativas da Síria de recuperar os "altos do Golám", ocupados em 1967 e 1973.

Mas todo este jogo de geopolítica tem como objectivo final "mudar as relaçons com os palestinianos" e "restaurar a iniciativa estratégica de Israel", afirma Perle. O que é que tal quer dizer? Em 1996, quando o relatório foi publicado, nom era ainda factível falar da realizaçom do sonho sionista, a criaçom de um Estado judeu em toda a terra bíblica de Israel incluindo a Cisjordánia. Mas em 2003, isto já é o programa do novo governo direitista de Sharon e Netanyahu, que prometeu umha aceleraçom da colonizaçom da Cisjordánia e rechaçou talhantemente a criaçom de um Estado palestiniano.

Mas existe um obstáculo muito importante para a criaçom deste grande Israel: as tendências demográficas. Segundo estatísticas israelitas, os árabes, com o seu rápido crescimento populacional, em poucas décadas serám maioria em Israel. Se Israel anexar permanentemente territórios ocupados, este problema virá a agudizar-se. A tendência demográfica é incompatível com um Estado judeu, com o sionismo. A soluçom que se debate abertamente nos meios de comunicaçom israelitas e que promove o governo de Sharon é a expulsom dos palestinianos.

O processo já está em andamento tanto dentro de Israel (com a destruiçom de aldeias beduínas no Negev) como nos territórios (com a ocupaçom de terras e destruiçom do próprio tecido da sociedade palestiniana). Palestinianos que tenhem a opçom de fugir (nomeadamente os cristaos) já estám indo embora. No convulso contexto de umha guerra no Iraque e a igualmente confusa pós-guerra, Sharon poderia executar umha expulsom massiva sem oposiçom real. O Iraque estaria destroçado, a Síria enfraquecida, a Jordánia alargada e reforçada com mais espaço para acolher milhons de refugiados. E se o mundo ocidental nom for capaz de bloquear um ataque ilegal dos EEUU contra um outro país soberano, quem irá impedir que Sharon imponha a sua "soluçom final" ao problema palestiniano?

Quer dizer, que quando Bush, Blair e Aznar prometem que acabar com Sadam traria paz ao Médio Oriente, deveríamos ter claro o que é que estám a propor-nos. Planejam matar centenas de milhar de iraquianos inocentes porque os seus governantes assassinos poderiam ter armas de destruiçom massiva ou porque nom as destruem com suficiente rapidez. E o resultado deste sangrento despropósito? Permitir que um outro governo (democraticamente eleito mas ainda mais assassino), que leva anos a violar resoluçons da ONU e que categoricamente possui armas nucleares, leve a termo umha limpeza étnica massiva.

O tema da guerra no Iraque e o futuro do povo palestiniano som inseparáveis. Por isso foi tam lógico que muita gente que saiu à rua em 14-F para berrar contra a guerra também exigisse liberdade para a Palestina. A iniciativa temo-la nós; se entre todos pudermos parar a guerra, também havemos poder parar o monstruoso projecto de Sharon.




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