REVOLTA POPULAR NO URUGUAI

2 de Agosto de 2002

O Uruguai entrou ontem em convulsom político-social. Pola manhá, umha greve geral de quatro horas, convocada pola central sindical uruguaia, o PIT/CNT e a Congregaçom polo Crescimento, paralisou as empresas, repartiçons e organismos estatais. Saques, explosons de revolta e confrontos com a polícia tomárom conta de Montevidéu.

Quatro horas de paralisaçom

A greve geral tivo como centro umha manifestaçom diante do Palácio Legislativo e umha passeata até o Edifício Liberdade, sede do governo. Ali o PIT/CNT e a Congregaçom polo Crescimento, que agrupa 28 entidades agropecuárias, reclamárom do presidente Jorge Batlle medidas de emergência para reactivar a economia nacional. Trabalhadores, empresários e cooperativistas agropecuários exigem de Batlle umha soluçom para a crise que dê ênfase ao apoio à produçom.

Além dos trabalhadores, a manifestaçom tivo a adesom também de sectores médios. Estes sentem-se prejudicados polo feriado bancário, e polo projecto que prevê o pagamento dos correntistas de bancos falidos por meio de títulos públicos com prazo de resgate de dous anos.

16 saques: "Os nossos filhos nom tenhem o que comer"

À tarde, grupos de estudantes, sindicalistas e desempregados prosseguírom os protestos. Sucedêrom-se enfrentamentos com a polícia, que se mantém em estado de alerta máximo. Polo menos 15 pessoas fôrom presas. Ocorrêrom também saques em 16 supermercados da periferia de Montevidéu e outras 14 tentativas frustradas pola repressom. Num dos saques, no bairro Aguada, as 50 pessoas invadírom o supermercado gritando "Roubamos para comer". O próprio proprietário do estabelecimento testemunhou que diziam também: "Estamos na miséria, os nossos filhos nom tenhem o que comer".

Outro saque tivera lugar na véspera, mas o governo o considerara "só um facto isolado". Agora, porém, o discurso mudou. O ministro do Interior, Guillermo Stirling, declarou que "nom som factos espontáneos, fôrom organizados", dixo, embora acrescentasse que "nom sabemos quem está por trás dessa organizaçom".

Semelhanças e diferenças com a Argentina

A explosom de revolta em Montevidéu está sendo comparada com a que explodiu na Argentina em Dezembro passado, derrubando o presidente Fernando De la Rúa, que tivo de sair do palácio de governo polo teito, num helicóptero. A maior diferença é um nível bem superior de unidade política e social das forças populares. O PIT/CNT, por exemplo, abarca o conjunto dos sindicatos uruguaios, enquanto o sindicalismo argentinos sofreu um processo de esfarelamento. No plano político, a Frente Ampla, que actua desde 1971, conseguiu galvanizar os comunistas, socialistas, tupamaros e outras forças de esquerda, tendo perdido por estreita margem a eleiçom presidencial de 2000, vencida por Batlle graças a umha improvisada coligaçom dos dous grandes partidos tradicionais do país, o Blanco e o Colorado.

Enquanto os protestos tomavam as ruas, o governo apresentava ao Parlamento um pacote de reestruturaçom do sistema financeiro. A medida prevê a reduçom do número de bancos e a fusom de alguns deles com o Banco República. Ela é umha das exigências do FMI (Fundo Monetário Internacional) para liberar os créditos solicitados. Umha missom oficial uruguaia negociou com autoridades do Fundo e do governo dos EUA os termos da ajuda, porém tanto a administraçom Bush como a diretoria do FMI exigírom sigilo sobre o teor dos entendimentos.

O director do Escritório de Planejamento e Orçamento do Uruguai, Ariel Davrieux, confirmou que em troca dasmedidas o país receberá 1,5 bilhom de dólares do FMI e outros organismos financeiros para enfrentar a crise. O prazo para o Senado aprovar o pacote financeiro vai até segunda-feira que vem e sem a aprovaçom o dinheiro do Fundo nom será liberado. O feriado bancário decretado polo governo prosseguirá também até segunda-feira, visando alegadamente evitar a fuga de capitais, que vinha ocorrendo à razom de 50 milhons de dólares por dia.

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