
Isabel González
lembra ao seu irmao, Eduardo, um moço republicano que se entregou,
durante a guerra civil, às forças fascistas com a esperança
de que cumprissem as promesas de indulto que lhe prometeram.
Ela tinha entom 19 anos,
o seu irmao três mais. Desde o seu assassinato, há agora mais
de seis décadas, Isabel, que se exilou em França após
a vitória do exército franquista, leva flores à quinta
onde a gente do lugar lhe contou que o seu irmao fora fusilado e soterrado,
numha vala comum com outros muitos milicianos.
"Nom sabiam que era
eu quem levava as flores, mas todo o mundo as via lá cada verao, cada
ano", lembra emocionada, com umha carta de seu irmao nas maos.
Agora, a Associaçom
para a Recuperaçom da Memória Histórica (ARMH), umha
agrupaçom que nasceu em Janeiro de 2001 com a intençom de animar
o recordo da história recente, trata de recuperar os cadáveres
de dúzias de pessoas, homens e mulheres que, como Eduardo, toparom
o seu final numha vala comum em quintas, montes ou caminhos afastados da comarca
galega do Berço.
"Queremos continuar
a trabalhar para recuperar a memória, é vital recuperarmo-la.
Nas valetas há milhares
de pessoas que defendêrom a primeira democracia", explica Emílio
Silva, porta-voz da ARMH.
Alguns historiadores consideram que quiçá seja este o momento
de restaurar vivências dum período que foi obrigatoriamente esquecido,
ou silenciado, ante o temor das represálias e a dor e o sofrimento
dos factos.
A ARMH gestou-se depois
da exumaçom em Outubro de 2000 de treze cadáveres em Prirança
do Berço, aos quais ainda está por praticar-se as provas de
ADN, previstas para finais deste mês de Julho.
Após este primeiro
trabalho numha vala da Guerra Civil, a associaçom criou um acampamento
de trabalho para este verao nesta zona, sob a legenda "Trabalhar pola
verdade"; um projecto ao qual aderírom doze voluntários,
além de sete arqueólogos.
Os trabalhos desenvolvidos
neste mês de Julho, no lugar onde se pensa estará soterrado o
irmao de Isábel Gonzáles, em Pedrafita de Bábia, dérom
os seus frutos: exumarom-se já os primeiros restos humanos numha quinta
em que a vizinhança de mais de 50 anos lembra, porque o vivêrom
ou porque lho contárom, que lá se realizou um dos inumeráveis
afusilamentos fascistas.
A ARMH, que pretende que
o Governo se faga cargo das exumaçons e das custosas provas de ADN,
estima que nesta quinta de 120 metros de longo por escassos 15 de largo, há
sepultados 37 milicianos republicanos.
A ARMH conta para levar
avante os seus trabalhos com os dados proporcionados polos cada vez mais escassos
combatentes da guerra civil e membros das Brigadas Internacionais que defendêrom,
mesmo com a sua vida, a legalidade republicana frente à barbárie
e o terror fascista.
Após a Guerra Civil, e sobretodo durante a década de 40 e começos de 50, a repressom foi umha das bases do regime franquista, que fomentou os chamados "passeios" nocturnos, que acabavam, habitualmente, em fusilamento. A populaçom conhecia e, ao tempo, silenciava, os lugares onde se cometiam estes assassinatos: nas praias, junto ds estradas, nas aforas das aldeias, etc... O terror fascista fomentou que centos de pessoas, a quem o regime apresentava como fugitivos da justiça, delinqüentes e terroristas, fugissem para os montes, fazendo parte dos númerosos grupos de resistência guerrilheira, máquis, que viviam ocultos lá, e que apresentárom batalha ao franquismo até bem entrada a década de 50.