Trigéssimo aniversário do seu assassinato

Víctor Jara: o menestrel da unidade popular chilena

Augusto Buonicore (texto tirado do sítio web brasileiro Diário Vermelho)

 

Na manhá do dia 11 de Setembro de 1973 a notícia do golpe militar já tinha corrido todo o país. Seguindo umha orientaçom da CUT chilena, Víctor Jara dirigiu-se apressado à Universidade Técnica para se juntar aos estudantes e professores que prometiam resistir. O Campus foi cercado por tropas do exército. A madrugada foi de terror, ouviam-se tiros e explosons por todos os lados. Os que tentárom escapar do cerco fôrom imediatamente abatidos. Víctor buscou, entom, elevar a moral dos sitiados usando a sua melhor arma: o canto.

 

Na manhá do dia 12 de Setembro os tanques iniciárom o ataque contra a universidade. Depois de umha luita desigual, os resistentes fôrom obrigados a se render. Reunidos no pátio, forçados a se deitarem com as maos na cabeça, começárom a ser espancados e humilhados. A multidom foi levada até o Estádio Chile. Mal chegou ao Estádio, Víctor foi reconhecido por um oficial fascista que lhe dixo "Você é aquele maldito cantor, nom é?". Antes que pudesse responder foi barbaramente agredido e conduzido a um local especial do estádio — dedicado aos militantes mais perigosos. O destino de Víctor Jara já estava selado.

 

Os militares levárom-no arrastado ao porom onde foi novamente espancado e torturado. Quando foi reconduzido às arquibancadas o seu rosto estava ensanguentado e mal podia andar ou falar. O clima ali era dantesco. Muitos dos prisioneiros tinham surtos de loucura, tentavam escapar e eram executados. Outros simplesmente se suicidavam.

 

No dia 14 de Setembro, os prisioneiros começárom a ser transferidos para o Estádio Nacional do Chile. Víctor pressentindo que aqueles seriam os seus últimos momentos, pediu papel e caneta e no inferno escreveu o seu derradeiro poema: "Somos cinco mil/ nesta parte da cidade./ Somos cinco mil./ Quantos seremos no total/ nas cidades e em todo o país?/ Somente aqui, dez mil maos que semeiam/ e fazem andar as fábricas./ Quanta humanidade/ com fome, frio, pánico, dor,/ pressom moral, terror e loucura!/.../ Que espanto causa o rosto do fascismo!/ (...)/ É este o mundo que criache, meu Deus?/ Para isto os seus sete dias de assombro e de trabalho?"

 

Mal acabou de escrever os seus últimos versos os carrascos vinhérom buscá-lo. Os companheiros de infortúnio conseguírom milagrosamente salvar o seu poema. Novamente começou a sessom de espancamento. Um oficial fascista gritou várias vezes: "Cante agora, se puder, seu filho da puta!". Víctor, quase sem vida, ainda conseguiu reunir suas últimas forças para cantar a estrofe do hino da Unidade Popular, "Venceremos!". A última etapa do seu martírio começou ali mesmo.

 

Brutalmente agredido, tendo as maos quebradas, foi arrastado aos porons do Ginásio. Esta foi a última vez que o vírom. Dous dias depois, seis corpos desfigurados e perfurados a bala fôrom achados na periferia na cidade. Um deles era do compositor e militante comunista Víctor Jara.

 

Um Filho do Povo

 

Víctor Jara nasceu no pequeno povoado de Lonquén em 1935. Era filho de camponeses. Aos seis anos já acompanhava o seu pai nos trabalhos da terra. As dificuldades familiares levárom a sua mae a se mudar para Santiago levando os seus cinco filhos. Ela empregou-se como cozinheira num pequeno restaurante, no qual o pequeno Víctor também colaborava. No entanto, quando tinha apenas quinze anos umha tragédia mudou a sua vida: a sua mae faleceu vítima de um enfarte.

 

Ele entom resolveu ingressar no Seminário da Ordem do Redentorista. Esta era umha ordem conservadora que se baseava no enclausuramento e numa rígida disciplina eclesiástica. As únicas cousas que o atraírom ali fôrom os cantos gregorianos. Cerca de dous anos depois Víctor pediu desligamento do seminário.

 

Nos anos seguintes participou do coral universitário, de um grupo de mímica e ingressou na Escola de Teatro da Universidade do Chile. No Festival de Teatro Estudantil dirigiu a peça Parecido a la felicidad. Foi um grande sucesso e excursionou por toda América Latina. Em Cuba ficou cerca de três semanas. O país ainda estava fervendo. A revoluçom acabava de sair vitoriosa e iniciava-se a construçom de umha nova sociedade. Víctor ficou empolgado com tudo o que viu e mantivo umha entrevista com um dos jovens comandantes revolucionários que se chamava Ernesto Guevara.

 

No final de 1960 apaixonou-se por Joan, bailarina e professora nascida em Inglaterra. No ano de 1962 Víctor realizou umha longa turné polo Leste-Europeu e pola URSS. Foi nesta longa e atribulada viagem que ele resolveu se tornar comunista. Joan ficou preocupada com a decisom. Visando tranqüilizá-la e justificar a sua posiçom ele escreveu: "Nom pense que serei algum tipo de apóstolo (...) O meu ideal como comunista resume-se a apoiar os que acreditam que, com um regime do povo, o povo será feliz."

 

Víctor tornou-se rapidamente um director respeitado, ganhou vários prémios e tornou-se professor na Escola de Arte Dramática da Universidade do Chile. Além de interpretar e dirigir, ele continuava compondo e cantando. Víctor gravou o seu primeiro compacto com as músicas La cocinerita e El cigarrito. O disco alcançou algum sucesso, o que o projectou no mundo da música popular chilena. O próximo disco contou com as músicas Paloma quiero contarte – escrita para Joan enquanto estava na Europa – e La beata – umha cançom folclórica cómica que narra a paixom de umha beata polo padre da cidade.

 

A cançom foi um escándalo nacional. As rádios proibírom a sua divulgaçom. O governo ordenou o recolhimento de todos os discos e a sua destruiçom. De repente, ele se viu alvo de agressons de todos os sectores conservadores da sociedade. Mas, La beata tornou-se um símbolo da resistência contra a moral conservadora e hipócrita das elites chilenas. A juventude lotava La Peña, casa de cultura de Violeta Parra, para ouvir Jara cantar a música proibida.

 

Cançom e Engajamento

 

Víctor começou a dar a suas cançons um carácter mais de crítica social. Justificando sua posiçom afirmou numha entrevista: "Cada vez mais me comove o que acontece ao meu redor (...) a pobreza de meu próprio país, da América Latina e de outras naçons do mundo (...) Por isso (...) é que preciso da madeira e das cordas de umha viola para dar saída à tristeza ou à alegria, nalgum verso que abra o coraçom como umha ferida ou nalguma linha que nos ajude a sair de dentro de nós mesmos, para ver o mundo com novos olhos". Nesta linha compujo umha de suas cançons mais comoventes e mais conhecidas: Te recuerdo Amanda. Nesta música ele narrou um pouco do quotidiano e da tragédia da vida operária.

 

No início de 1967 Víctor lançou mais um compacto. Desta vez foi dedicado a Che Guevara, que ainda nom tinha sido assassinado na Bolívia. A música principal chamava-se El aparecido. Em 1968 eclodiu o movimento pola reforma universitária. Professores e alunos ocupárom a Faculdade de Música de Artes Cénicas da Universidade do Chile. Quando umha das manifestaçons foi atacada polo Grupo Móvel, batalhom antidistúrbio da polícia chilena, Jara escreveu a música Movil Oil Special. Era umha sátira que procurava relacionar a política de repressom do governo com os interesses da empresas de petróleo estrangeiras. A música virou o hino do movimento polas reformas. A música de Jara ganhou as massas e virou um instrumento de suas luitas.

 

Em Março de 1969, polícias, sob as ordens do ministro do Interior, o democrata cristao de direita Edmundo Zúcovic, atacárom camponeses acampados em terras improdutivas. O saldo foi oito mortos, entre eles umha criança de nove meses, e dezenas de feridos. Jara imediatamente compujo umha cançom denunciando Zúcovic intitulada Preguntas por Puerto Montt — cidade onde ocorreu o conflito. Violentos protestos tomárom as ruas de Santiago.

 

O ambiente cultural chileno estava fervilhando. O movimento cultural se politizava no mesmo ritmo da sociedade chilena. Foi neste clima que se realizou o 1º Festival da Nova Cançom Chilena. Víctor Jara participou com a música Plegaria a un labrador. Pola primeira vez, ele apresentou-se no Estádio Chile. A música de Jara tornaria-se o hino do movimento camponês em todo o mundo. Dizem os seus versos: "Levante-te/ e mira as montanhas/ de onde venhem/ o vento, o sol e a água./ Tu que manejas o curso do rios/ tu que semeastes o voo de tua alma./ Levanta-te/ e olha tuas maos/ para crescer, estende-as a teu irmao,/ e juntos iremos/ unidos polo sangue/ hoje é o tempo que pode ser amanhá./ Livra-nos daqueles que nos domina/ na miséria./ Traga-nos o teu reino de justiça/ e igualdade./ Sopra como o vento/ a flor das quebradas./ Limpa como o fogo o cano de meu fuzil./ Faça-se por fim a tua vontade aqui na terra/ .../ agora e na hora de nossa morte/ Amém."

 

O sucesso da música foi enorme e ele foi lançado à condiçom de principal compositor popular do Chile. As suas cançons tocavam nas rádios e na televisom. O movimento da Nova Cançom Chilena chegava ao seu auge e Víctor Jara era o seu principal expoente.

 

Em janeiro de 1970 Allende foi novamente indicado como candidato e Víctor se engajou na campanha da Unidade Popular (UP). Diante do crescimento da esquerda, recrudescêrom as provocaçons da direita. Os latifundiários montavam milícias armadas contra os camponeses sem-terra. A esquerda chilena organizava manifestaçons contra o fascismo. Neste momento foi assassinado o jovem comunista Miguel-Angel Aguilera. O funerais transformárom-se em grandes manifestaçons que reunírom centenas de milhares de pessoas. Na sua memoria, Jara fijo a cançom El alma llena de banderas. Com esta música concorreu ao II Festival da Nova Cançom Chilena.

 

Allende finalmente venceu as eleiçons com umha margem apertada de votos. Umha multidom tomou as ruas de Santiago. Mas, a batalha nom tinha terminado. Como ninguém obtivo maioria absoluta dos votos cabia ao Congresso, no qual a UP era minoria, confirmar o vencedor. Começou assim umha intensa pressom sobre os parlamentares democrata-cristaos para que nom aceitassem o resultado das urnas.

 

O comandante-em-chefe, general René Schneider, que se opunha ao projecto dos golpistas foi brutalmente assassinado por um comando direitista. A tragédia ocorreu entre a eleiçom de Allende e a sua indicaçom polo Congresso. O país ficou consternado e o resultado acabou sendo desfavorável às forças de direita. O congresso acabou reconhecendo a vitória de Allende.

 

O seu primeiro álbum após a posse foi El derecho de vivir en paz. A cançom que dava nome ao disco era dedicada à luita do povo vietnamita e a Ho-Chi-Minh. Víctor compujo outra música para criticar as correntes que ficavam em cima do muro entre a UP e a direita golpista. A música que ficou muito famosa se chamava Nem chicha nem limoná — "nem assim, nem assado". Numha clara provocaçom às posiçons dúbias dos democrata-cristaos. Desta época era, também, a nom menos provocativa Las casitas del barrio alto – traduçom livre da música Little boxes de Malvina Reynolds e que ficou mundialmente famosa na voz de Pete Seeger. Víctor adaptara-a à conturbada realidade chilena e figera dela umha dura crítica às elites chilenas, moradoras do Bairro Alto, que se envolviam até em atentados contra generais legalistas.

 

Víctor passou a ser vítima de umha campanha orquestrada polos sectores conservadores. Ele era, ao lado de Neruda, o principal artista do Partido Comunista e da UP. Um artista que colocou todo o seu enorme talento a serviço da transformaçom social no Chile. Ele próprio respondeu aos seus detractores: "Ao escolher ser um membro do partido comunista, principal inimigo das forças reacionárias chilenas e odiado por elas, preparei-me para sofrer perseguiçons e ataques pessoais bem piores do que as ofensas gratuitas que os porta-vozes da conspiraçom reaccionária me tenhem dirigido".

 

No olho do furacám

 

Em 1971 um agrupamento esquerdista matou o ex-ministro democrata-cristao Edmundo Zukovic. O mesmo que foi alvo da música Preguntas por Puerto Montt. A direita acusou Víctor de ser um dos instigadores do assassinato. Esta foi a justificativa utilizada para o rompimento político entre a Democracia-Cristá e a UP, contribuindo para o enfraquecimento do governo.

 

Víctor combatia principalmente a direita, mas criticava as correntes esquerdistas, particularmente o MIR. Este vivia em permanente conflito com o governo Allende. Em 1972 ele foi ao centro do furacám: a Universidade de Concepción. Naquela cidade nasceu o MIR e lá ele tinha a sua maior força. Víctor conclamou a manutençom da unidade popular e o decidido apoio ao governo Allende. Esta atitude acarretou a ira da extrema-esquerda que o acusou de reformista.

 

No final de 1972, eclodiu a greve dos camioneiros que foi seguida por umha greve no comércio, nos transportes urbanos, nos hospitais etc. Começou a faltar alimentos nas grandes cidades. Proliferou o mercado negro. As organizaçons populares formárom brigadas para o abastecimento da populaçom mais pobre. Realizárom-se tentativas heróicas de furar o cerco imposto pola greve nos transportes. Víctor Jara engajou-se nesta luita, organizando a distribuiçom de alimentos. Mais tarde integrou umha das brigadas de trabalho voluntário que foi ao interior ajudar na colheita e no transporte do milho para os centros urbanos.

 

No início de 1973 realizárom-se novas eleiçons para o Congresso Nacional. Víctor percorreu o país fazendo campanha para os candidatos do Partido Comunista. Cantava nas fábricas, nos canteiros de obras, nas escolas e nas favelas. A campanha trouxo mais umha vitória para a UP, que obtivo mais votos do que tinha conseguido na eleiçom de Allende em 1970.

 

A violência recrudescia nas ruas. O jovem operário da construçom civil Roberto Ahumada, militante da UP, foi abatido a tiros numha manifestaçom pacífica contra o fascismo. Víctor conhecia Roberto e a sua esposa e compujo para ele a cançom Cuando voy al trabajo. Mais tarde o próprio comandante Arturo Araya, adido naval de Allende, seria assassinado por terroristas. As constantes ameaças levárom Víctor Jara e sua família a se afastarem de Santiago e mudarem para Isla Negra, próximo da casa de Neruda.

 

Em Isla Negra compujo Manifesto, umha exposiçom dos motivos que o levavam a cantar: "Eu nom canto por cantar/ nem por ter boa voz,/ canto porque a viola/ tem sentido e razom,/ tem coraçom de terra/ e asas de pombas brancas,/ é como a água benta,/ benditas glórias e penas,/ aqui se encaixou meu canto,/ como dixera Violeta,/ viola trabalhadora/ com cheiro de primavera./ Que nom é viola de rico/ nem cousa que se pareça,/ o meu canto é dos andarilhos/ para alcançar as estrelas/ que o canto tem sentido/ quando palpita nas veias,/ do que morrerá cantando/ as verdades verdadeiras,/ nom as lisonjas fugazes/ nem as famas estrangeiras/ senom canto de umha lonja,/ até o fundo da terra./ Ali onde tudo chega/ e onde tudo começa,/ canto que foi valente/ sempre será cançom nova."

 

Víctor ainda participou da grande manifestaçom de 3 de Setembro, na qual cerca de um milhom de pessoas saírom às ruas gritando: "Allende, Allende, o povo te defende!". Víctor seguiu em frente carregando umha faixa que dizia: "Trabalhadores da cultura contra o fascismo". Sem o saber, esta seria a última homenagem que o povo chileno prestaria ao seu valoroso presidente.


Neruda conclamou ao povo que realizasse umha grande campanha de denúncia contra o fascismo. Realizárom-se, entom, exposiçons, recitais, programas de rádios e de televisom alertando sobre o perigo que representaria a vitória da direita. Víctor foi chamado para dirigir um programa no Canal Nacional de Televisom. O tema de abertura era umha cançom antifascista feita em co-autoria com Pablo Neruda intitulada Aqui me quedo. Iniciava assim: "Eu nom quero a Pátria dividida/ nem por sete machados desangrada./ quero a luz do Chile no alto levantada/ sobre a nova casa construída".

 

Neste grande esforço de denúncia dos planos golpistas e dos perigos do fascismo para o povo chileno ele compujo ainda o magistral Viento del Pueblo. "De novo querem manchar/ minha terra com sangue operário/ os que falam de liberdade/ e tem as maos manchadas/ os que querem separar/ a mae dos seus filhos/ e querem reconstruir/ a cruz que arrastara cristo. /.../ Nom me assusta a ameaça/ patrons da miséria./ A estrela da esperança/ continuará sendo nossa."


Na madrugada do dia 11 de Setembro eclodiu o golpe militar. A grande parte das emissoras ligadas à UP tinha sido ocupada polo exército. Mas ainda foi possível ouvir parte do último discurso do companheiro presidente: "só me cabe dizer aos trabalhadores: eu nom vou renunciar. Colocado diante de umha opçom histórica, pagarei com a minha vida à lealdade do povo".

 

Víctor dirigiu-se apressadamente à Universidade Técnica. Às 16:30 horas do mesmo dia fijo umha última ligaçom para a sua esposa. "Tenho que ficar aqui. Vai ser difícil voltar com o toque de recolher. Quando ele for suspenso na primeira hora da manhá, vou para casa. Maezinha, eu amo-te!". Víctor jamais voltou a ver sua família e umha noite sombria desabou sobre o Chile. Umha noite que durou mais de 15 anos.

 

PS: Os dados biográficos de Víctor Jara fôrom extraídos da obra Cançom Inacabada escrita pola sua esposa Joan Jara e publicada pola Editora Record.

 



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