Celia, um furacám militante

10 de Setembro de 2008

Numerosos meios contrainformativos de todo o mundo informárom nas últimas horas do inesperado falecimento, num acidente de carro, da revolucionária cubana Celia Hart, cujos artigos traduzimos e publicamos nalgumha ocasiom no nosso portal.

Nom queremos deixar de aderir, neste pequeno canto do planeta chamado Galiza, ao lamento pola perda de umha revolucionária cubana e da Pátria Grande de Bolívar, reconhecida admiradora de Fidel Castro, Che Guevara e Leon Trotski. Fazemo-lo traduzindo e reproduzindo o artigo do companheiro Néstor Kohan, do Colectivo Amauta da Argentina, em cujo site pode ser consultado o texto original em espanhol.

Celia, um furacám militante

Néstor Kohan

É umha perda enorme. Parece-nos mentira. Celia Hart Santamaría acabou de falecer com o irmao Abel, num acidente automobilístico em Havana. Soubemo-lo ontem à noite. Pablo Kilberg, incansável amigo da revoluçom cubana e de Celia (que som a mesma cousa), chamou-nos e deu-nos a triste notícia. Mesmo agora, quando ela fazia mais falta do que nunca! Muita impotência. Umha senaçom muito feia na boca, na garganta, no estômago.

Todo o mundo a apresenta como “a filha de”. Nom está mal. A mae foi Haydeé Santamaría Cuadrado [ 1922-1980] , militante revolucionária, emblema e símbolo da revoluçom cubana, companheira de Fidel Castro desde os primeiros dias, assaltante do quartel Moncada, fundadora da Casa das Américas. O pai, Armando Hart Dávalos [1930-], dirigente histórico da revoluçom cubana, fundador do Movimento 26 de Julho também junto a Fidel, ministro da Educaçom da revoluçom e inspirador da sua célebre campanha de alfabetizaçom. Além dos pais, Celia contava entre os familiares com Abel Santamaría Cuadrado [1927-1953], colaborador político de Fidel desde antes do golpe de estado de Batista, depois assaltante do quartel Moncada, capturado vivo, torturado e assassinado pola ditadura de Batista.

Mas Celia era muito mais do que “a filha de” ou a “sobrinha de”. Tivo, tem e terá umha luz e brilho próprio. Quem duvida?

Travei relaçom com Celia através do pai dela. Foi Armando quem mais nos insistiu com a necessidade de conhecermos Celia. Havia entre ambos, pai e filha, umha relaçom muito forte, afectiva e emotiva, mas também intelectual e política. Todo escritor, quando escreve, tem em mente um diálogo com alguém. Animo-me a dizer que Armando era um dos interlocutores imaginários de Celia, tal como Fidel Castro. Sempre tinha em mente as suas opinions, num diálogo real ou imaginário. Cada vez que Celia me escreveia, confessava: “imagino o que estará a pensar o meu pai” ou “o que deve pensar Fidel disto que estou a dizer”, “estou certa que Fidel deve adorar isto”.

Cheguei a Celia por intermédio de Armando. Há mais de umha década, no meio do deserto moral e intelectual dos anos ’90, durante o reinado feroz e implacável do neoliberalismo em todo o mundo, Armando Hart escreveu-nos depois de ter lido um trabalho sobre Marx e o terceiro mundo, publicado na revista Casa de las Américas. Entusiasmado como um rapaz, enviou-nos umha conferência dele sobre o Manifesto Comunista. À troca de cartas e trabalhos seguiu-se o encontro pessoal, graças ao amigo e companheiro Fernando Martínez Heredia igualmente guevarista como pai e filha.

A ligaçom com Armando estreitou-se. Ele prologou-nos um livro sobre o marxismo latino-americano que lamentavelmente até agora nom foi públicado em Cuba (embora já estivesse diagramado e pronto). Tivem ainda a honra de lhe prologar um livro dele sobre Marx, Engels e a condiçom humana. Depois, numha das suas visitas à Argentina, Armando Hart véu como expositor à Cátedra Che Guevara. Nessas conversas com o pai, além de Martí, Engenheiros, a Reforma Universitária, Mella, Guiteras e Fidel, de Marx e Engels, do Che e Freud, sempre saia o tema da sua filha Celia. Era recorrente. Armando tinha-lh umha admiraçom que nunca ocultou. Dizia-nos, umha vez e outra vez: “Celia é como Haydeé [a mae da Celia], mas agora em tempos do pós-modernismo”.

A primeira vez que a vim, Celia nom começou falando da revoluçom latino-americana, de Fidel, do Che ou de Lenine, Trotsky ou os bolcheviques. Nom! Quando ainda nom abríramos a boca, as primeiras palavras que nos dixo, com um sorrios amplo de orelha a orelha, fôrom: Estou mui celosa da tua relaçom com o meu pai”. Assim era ela, tremendamente irónica e carinhosa ao mesmo tempo, profundamente humana, muito querida, acima de todo. A antítese vivente do “aparelho” impessoal que transforma a política dos revolucoinários em qualquer cousa desalmada, fria, administrativa, burocrática. Cheia de afecto, de ternura, de humanismo, podíamos discutir sobre qualquer problema da conjuntura latino-americana, de Chávez, do futuro de Cuba, dos gusanos de Miami ou do que fosse e, no meio da discussom, sempre, invariavelmente, intercalava umha brincadeira, umha piada, umha ironia ou umha alusom inesperada a um amor dela, amigo meu. Celia falava, intervinha e escrevia desacralizando, rompendo os moldes e as palavras de ordem efectistas de de volante, desenferrujando as formas pétreas dos discursos acartonados e murchos da esquerda tradicional. Era um torvelinho de ideias. Falava a umha velocidade incrível, por vezes difícil de acompanhar. Gerava muito entusiasmo nos jovens. Comprovei-no em Cuba e também na Argentina. (Há pouco tempo, irmaos chilenos diziam-me que pensavam convidá-la ao país trasandino).

Nestes anos temos conversado sobre muita cousa, sobre acordos mútuos e também sobre nuances diversas. Quando a dispersom era forte, Celia disparava-me com um sorriso: “bom, já sabe sque eu sou física de profissom”. E aí aflorava um sorriso. Descontraíamos e entom continuávamos.

Celia jogou um papel enorme na batalha das ideias dos últimos tempos, dentro e fora de Cuba. A meu modesto entender, a palavra de Celia Hart foi muito útil e muito eficaz. Serviu, como dizimos na Argentina, para “abrir cabeças”, quer dizer, para fazer pensar. Celia ajudou a pensar! Provocou as distintas tribos da esquerda latino-americana, obrigando-as a se escuitarem mututamente (já agora, umha tarefa nada fácil).

Os comunistas tradicionais, formados no mundo cultural da Uniom Soviética, empurrou-nos contra a parede e obrigou-nos a abandonar os preconceitos infundados e a ler, por fim, o “inomeável” e “demoníaco” Leon Trotsky, tantas vezes apagado de fotos e de histórias pola censura e também pola autocensura de várias geraçons educadas no stalinismo. Embora seja para o discutir, tivérom que se pôr a ler Trotsky. Um ou outro reagiu com rancor, mas a maioria adoptou umha outra atitude, mais suave e racional, tomou como um desafio a proposta da Celia e, a partir de ali, houvo que voltar a pensar e a repensar velhos dogmas, hoje comidos da traça e completamente ineficazes. Quem podia acusar Celia de desconhecer o mundo cultural e político do Leste europeu, afim à URSS, aquele que caiu com o muro de Berlim, se ela tinha vivido anos e tinha estudado física, precisamente, na República Democrática Alemá (RDA)? Quem podia acusar Celia de ser “contrarrevolucionária”, “quinta coluna” ou sabe-se lá o quê, se ela amava –nom só admirava, amava mesmo– Fidel Castro?

Aos trotskistas, latino-americanos mas tambiém europeus, Celia increpou-nos e falou-lhes de Fidel e do Che sem papas na língua, com argumentos polticamente rigorosos e também com amor. Dixo-lhes, umha vez e outra vez, que o internacionalismo nom se declama em panfletos e revistas universitárias ou na retórica de salom, que a revoluçom cubana enviou quase meio milhom de combatentes internacionalistas a Angola e à América Latina toda. Celia obrigou-nos a reclamar pola liberdade dos cinco revolucionários cubanos encarcerados nos EUA. Interpelou-nos, cada vez que pudo, para abandonarem fórmulas cristalizadas e poderem olhar com outros olhos, nom tam preconceituosos, Cuba e a sua revoluçom.

No caso do maoismo, alguns dos seus dirigentes estavam muito zangados com Celia polas suas críticas a Staline (figura também questionada, dito seja de passagem, por Armando Hart Dávalos num trabalho dele onde comenta a famosa biografia de Isaac Deutscher, autor que deu a ler à filha desde muito nova). Em Havana, ao secretário-geral de um partido maoista apresentamos-lhe Celia para que conversasse pessoalmente com ela e pudesse dessa maneira compreender quem era e como pensava, além dos seus artigos, talvez desse jeito rompessem alguns preconceitos.

Insistimos. A grande virtude de Celia consistiu em que as suas intervençons, nom sempre planificadas nem calculadas com serenidade (o que lhe gerou nom poucas angústias e dores de cabeça quando a imprensa burguesa tentava manipulá-la ou tergiversá-la), obrigárom a esquerda a pensar. A pensar! Essa actividade nem sempre praticada quando a prentensa “ortodoxia” do marxismo (seja qual for a família ideológica em questom, pertença-se ao guetto que se pertencer) se transforma num salvo-conduto para rumiar e repetir frases feitas, sem reflexom própria nem pensamento crítico.

No mundo cultural das esquerdas, Celia era olhada como umha “rara avis”. Fidelista trotskista? Crítica da burocracia e do mercado e defensora a morte da revoluçom cubana? Guevarista acesa que nom aceita participar de homenagens oficiais e institucionais ao Che? Como assim? Que mo expliquem!... terá pensado mais de um.

Acontece que os massacres e os genocídios militares da América Latina, perpetrados sob mandado do imperialismo norte-americano, nom só queimárom corpos e desaparecêrom pessoas. Também queimárom livros e pretendêrom desaparecer pensamentos.

A proposta iconoclasta e,num ponto, ecuménica, de Celia nom partia do zero nem era produto de umha nova fórmula alquimista. Era um ponto de chegada. Antes que ela o propagandizasse com a sua prosa tam pessoal, onde o brilho literário nom era indiferente à dança das musas, outros companheiros tinham tentado conjugar essa síntese de tradiçons culturais e políticas diversas.

Por exemplo, Michale Löwy, no seu livro O pensamento do Che Guevara de 1970 (ediçons várias [incluída umha galega da Abrente editora, n. de Primeira Linha em rede]), tentara reivindicar o Che na sua integridade —nom só como guerrilheiro heróico, mas também como pensador marxista de alto voo—, defender a revoluçom cubana e promover o guevarismo sem deixar de se inspirar em Leon Trotsky, em Rosa Luxemburg, no jovem György Lukács. Muito perto de Löwy, o companheiro Carlos Rossi [pseudónimo] escreveu dous anos depois, em 1972, La revolución permanente en América Latina (pode ser consultado in amauta.lahaine.org). Ali Rossi analisava toda a história contemporánea da nossa América, desde as teorias do desenvolvimento desigual e combinado e a revoluçom permanente, enquanto assumia a estratégia de luita armada a escala continental da revoluçom cubana e o guevarismo. Dous antecedentes inequívocos das propostas e ensaios políticos de Celia.

Quando Celia nos pediu no ano passado, em Junho de 2007, que apresentássemos na Argentina o seu livro Apontamentos revolucionários, Cuba, Venezuela e o socialismo internacional ([Buenos Aires, Fundaçom Frederico Engels, 2007], colecçom de artigos dela da Internet, e grande parte publicados polo nosso comum amigo e companheiro Luciano Alzaga, quem muito contribuiu para difundir o pensamento de Celia e para a tornar conhecida fora de Cuba), dixemos-lho publicamente. Ali lembramos esses dous trabalhos “esquecidos”, prévios ao livro de Celia e precursores com trinta anos de distáncia do dela. Longe de qualquer petuláncia ou auto-suficiência, tam comum entre alguns gurus da esquerda académica, ela nem se ofendeu nem se zangou. Nom tentava descobrir por enéssima vez a pólvora. Com humildade extrema, quase exagerada, Celia respondeu que ela se considerava umha “recém chegada” ao mundo da teoria política e social e reconhecia que as suas propostas heterodoxas (vejam-se como se virem) nom nasciam do nada, sendo prolongaçom de umha tradiçom prévia.

Essa era a Celia! Esse gesto pintava-a de corpo inteiro. Nom necessitava vangloriar-se de nada. Simplesmente, porque tinha muito para idzer. Só os medíocres necessitam obstinar-se com as formas, porque carecem de conteúdo próprio. Essa noite, na apresentaçom do seu livro, quase douscentos jovens sobrelotárom o lugar. Celia terminou falando em cima de umha mesa, rodeada de um mar de militantes de diversas tribos de esquerda (nom apenas argentina, até sandinistas havia e Celia discutiu com eles, sem deixar de reivindicar a revoluçom de 1979). Ela sozinha conseguiu reunir as diversas capelas da nossa dividida esquerda, depois de anos e anos de hegemonia populista, reformista e pós-moderna.

O próprio Löwy fai referência a Celia na sua última investigaçom sobre o Che e o guevarismo actual. Quando o investigador brasileiro nos enviou os rascunhos de um capítulo do seu livro para receber sugestons e opinions, perguntamos-lhe: “Nom vás incluir entre os guevaristas actuais a Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR) do Chile? E Celia em Cuba?”. Da mesma forma, com a mesma humildade, o historiador e invstigador inclui-os na ediçom final. Sobre ela, Löwy fai referência ali a “os escritos fogosos de Celia Hart”, destacando-os entre as últimas expressons do guevarismo contemporáneo (veja-se Michael Löwy y Olivier Besancenot: Che Guevara: una braise qui brûle encore [Che Guevara umha brasa que ainda queima] Paris, Mille et une nuits, 2007. Capítulo “A herança guevarista na América Latina”, p. 153). Quando esse livro ganhou a rua, os seus dous autores, inspirados em Trotsky mas também no Che Guevara, fôrom acusados imediatamente —como se fosse algo gravíssimo— de “guevaristas”...

Irrefreável, cheia de entusiasmo militante, Celia escrevia sempre com urgência. Mandava aos amigos os seus textos a pedir observaçons de última hora, perguntava em que página do livro se encontra tal ou qual citaçom e assim discutíamos, com franqueza, com lealdade, fraternalmente, sem duplas mensagens, sem calcular favores institucionais ou conveniências mesquinhas.

O derradeiro intercámbio que tivemos foi sobre umha subvariante do trotskismo argentino: o monerismo, corrente que a convidou pola última vez ao nosso país. Quando nos pediu a nossa opiniom, voltamos a reiterar-lhe o que sempre lhe tínhamos manifstado. A partir de umha posiçom de respeito pola abnegaçom de umha militáncia muitas vezes sacrificada, considerávamos inocultável, e assim o transmitimos a ela, a enorme distáncia que separava no morenismo umha retórica altissonante e umha escritura acesa de umha prolongada história mundana, terrenal, em grande medida reformista. Proporcionamos-lhe exemplos concretos da história argentina que Celia nom tinha porquê conhecer. Condutas nem sempre dignas nem decorosas que, a nosso modo de ver, nom derivavam da ‘maldade’ e menos da ‘traiçom’ individual de tal ou qual dirigente político —geralmente esforçados e mui sacrificados— mas de umha concepçom e umha estratégia política a nosso modo de ver errónea, muitas vezes acriticamente institucional e eleitoral.

A partir deste exemplo pontual e de muitos outros interrogantes partilhados durante anos, com Celia conversamos sobre as polémicas históricas que numha dada altura enfrentárom os partidários de Nahuel Moreno com os de Mario Roberto Santucho, assassinado pola ditadura militar em 1976 (um dos principais líderes do guevarismo na Argentina e no cone sul latino-americano —onde partilhou trincheiras e organizaçons com o chileno Miguel Enríquez, o uruguaio Raúl Sendic e os irmaos bolivianos Inti e Coco Peredo). Celia sempre me repetia a mesma frase, transmitiu-mo oralmente, olhos nos olhos, em mais de umha conversa, e também por escrito: “Tu sabes, querido Néstor, que o meu partido é o do Che Guevara e o de Robi Santucho”. Nunca deixou de mo repetir.

Celia tinha teimas. Umha delas era a necessidade do diálogo real e unidade concreta entre as diversas esquerdas. Nom unidade com fracçons do poder, mas unidade das esquerdas, onde as diferenças nem sempre som contradiçons antagónicas.

Por exemplo, quando em Setembro de 2007 o Colectivo Amauta e a Cátedra Che Guevara organizárom um corte de avenidas (Callao e Corrientes, em pleno centro portenho) e umha classe pública em defesa dos presos políticos, Celia nom falhou. Junto a mensagens recebidas de todo o mundo, a extensa, emotiva e comprometida carta que Celia nos enviou polos presos representou com dignidade a voz cubana nessa actividade unitária, onde convergiam correntes mui diversas. Celia agia eludindo qualquer tentaçom de se guiar pola razom de Estado. Nom tinha em mente nem priorizava os relacionamentos diplomáticos entre o Estado do seu país e o governo de Kirchner, estando mais preocupada com a situaçom dos presos políticos argentinos na altura em greve de fame. Era o mais lógico.

Mais tarde, o Colectivo Amauta e a Cátedra Che Guevara lançárom a iniciativa de organizar um Seminário Guevarista Internacional para Junho de 2008. Celia voltou a escrever-nos. Contou-nos que tinha sido convidada para inaugurar um monumento oficial ao Che na cidade de Rosario (Argentina), onde junto a sectores de esquerda também concorriam outros afins ao governo de Kirchner e a correntes da social-democracia local. Segundo ela nos dixo, nom aceitou aquele convite. Esclareceu-nos que ela nom procurava luzir-se fazendo “portaçom de apelido prestigioso”. Tampouco queria contactos oficiais do governo argentino nem lhe interessavam. Optou por apoiar a iniciativa do Seminário Guevarista Internacional, mas com proposta própria. Ofereceu-se para participar pessoalmente (viagem que nom se pudo concretizar, pois os organizadores nom oficiais nom contavam com dinheiro para a passagem dela) e, aliás, prometeu bater-se por convencer os numerosos nucleos inspirados no trotskismo para que apoiassem a iniciativa que se fazia em defesa do Che e da revoluçom cubana. Esclarecemos-lhe que provavelmente essas organizaçons nom apoiariam, mas ela insistiu e tentou convencê-los. Assim o fijo saber a vários companheiros a quem remeteu cartas com as suas propostas. Diante de várias organizaçons piqueteras, lemos a sua adesom ao evento, com grande entusiasmo.

Porque Celia aderiu a esta outra iniciativa? Terá sido por amizade pessoal? Sinceramente, eu nom acho. Estou certo que também tinha muitos amigos e admiradores nas fileiras afins ao acto oficial. Talvez nos enganemos, mas suspeitamos que a sua intençom apontava sempre para tirar o Che do póster e da estátua, para o recuperar como quem foi realmente, alguém indomesticável, que nom gerava suspiros condescendentes ou nostálgicos, mas zangas, diatribas e incomodidades na sociedade oficial e nas correntes reformistas que tanto a doestárom.

Na derradeira conversa que mantivemos antes deste desafortunado acidente, Celia telefonou-me de Buenos Aires. Estivera poucos dias na Argentina. Quando me dixo que nom ia poder participar desta vez na Cátedra Che Guevara insultei-na carinhosamente, dada a confiança mútua e tínhamos. Riu à gargalhada. Voltou a pedir desculpa e daí a conversa derivou para os problemas da política argentina e o debate latino-americano sobre a insurgência colombiana e os ataques de Uribe. Celia tampouco vacilou nesse tema. Começou com o entusiasmo de sempre a defender os irmaos e irmás das FARC colombianas e transmitiu-nos o seu convencimentode que hoje mais do que nunca a esquerda latino-americana nas suas diferentes variantes e grupos devia apoiar a insurgência. Interrompemo-la lembrando-lhe que os telefones na Argentina estám intervindos pola polícia e que nom convinha discutir sobre esse tema dessa maneira. Riu-se muito quando lhe dixem que lembrasse que nom estava em Cuba, e que era melhor que retomasse as práticas dos tempos em que a mae e o pai tinham que se cuidar dos corpos repressivos e de inteligência. Esse foi o nosso derradeiro diálogo, há escassamente uns dias.

Assim foi sempre Celia. Um tanque vietnamita a ingressar na embaixada ianque, um tanque soviético a tomar por assalto Berlim. Imparável! Nada a detinha. Um furacám de energia militante.

Nunca assumiu nem lhe interessou umha posiçom ‘decorativa’. Podia ter vivido cómoda, a gozar, alheia à política, dos seus apelidos prestigiosos. Essa opçom nom a seduziu nadinha. De facto, estou certo que a desprezava. Sempre o seu interesse era militante, inclusive se isso lhe trazia ‘problemas’ polos sarilhos em que se metia. As suas palavras preferidas nom eram “Temos que beber uns copos qualquer dia” (embora também tenhamos tomado), pois priorizava invariavelmente o debate político, as tarefas, os desafios militantes de escala continental, sem perder o humanismo quotidiano.

Nada de nostalgia polo passado, toda a vontade posta para a frente. Talvez por isso Celia amava tanto Julio Antonio Mella, quem algumha vez escreveu “Todo tempo futuro tem de ser melhor”.

Muito longe geograficamente de Celia, mas sempre muito perto dela no coraçom e nos ideais, enviamos um abraço enorme ao seu pai, Armando Hart, aos seus filhos, a toda a sua família, aos companheiros de Cuba e de todo o mundo, que tanto a quigérom e a quererám.

Querida companheira Celia, até a vitória sempre!

Buenos Aires, 8 de Setembro de 2008

 

 

Voltar à página principal