O historiador Eric Hobsbawm compara a crise capitalista actual com a queda da Uniom Soviética

25 de Outubro de 2008

Reproduzimos umha entrevista realizada polo británica BBC ao mais prestigioso historiador vivo: o marxista Eric Hobsbawm. Nela, analisa a importáncia e perspectivas da actual crise do capitalismo no planeta, coincidindo com outros autores ao assinalar que estamos "no fim de umha era específica". Entre os paralelos que encontra, salienta a Europa dos anos 30, com o ascenso da extrema-direita, e a queda da URSS, quase duas décadas atrás.

Muitos consideram o que está a acontecer como umha volta ao estadismo e até do socialismo. O senhor concorda?

Bem, certamente estamos a viver a crise mais grave do capitalismo desde a década de 30. Lembro-me de um título recente do Financial Times que dizia: O capitalismo em convulsom. Há muito tempo nom lia um título como esse no FT.

Agora, acredito que esta crise está a ser mais dramática por causa dos mais de 30 anos de umha certa ideologia “teológica” do livre mercado, que todos os governos do Ocidente seguírom.

Porque como Marx, Engels e Schumpter prevírom, a globalizaçom - que está implícita no capitalismo - nom apenas destrói umha herança de tradiçom como também é incrivelmente instável: opera por meio de umha série de crises.

E o que está a acontecer agora está a ser reconhecido como o fim de umha era específica. Sem dúvida, a partir de agora falaremos mais de (John Maynard) Keynes e menos de (Milton) Friedman e (Friedrich) Hayek.

Todos concordam que, de umha forma ou de outra, o Estado terá um papel maior na economia daqui por diante.

Qualquer que seja o papel que os governos venham a assumir, será um empreendimento público de acçom e iniciativa, que será algo que orientará, organizará e dirigirá também a economia privada. Será muito mais umha economia mista do que tem sido até agora.

E em relaçom ao Estado como redistribuidor? O que tem sido feito até agora parece mais pragmático do que ideológico...

Acho que continuará a ser pragmático. O que tem acontecido nos últimos 30 anos é que o capitalismo global vem operando de umha forma incrivelmente instável, excepto, por várias razons, nos países ocidentais desenvolvidos.

No Brasil, nos anos 80, no México, nos 90, no sudeste asiático e Rússia nos anos 90, e na Argentina em 2000: todos sabiam que estas cousas poderiam levar a catástrofes a curto prazo. E para nós isto implicava quedas tremendas do FTSE (índice da bolsa de Londres), mas seis meses depois, recomeçávamos de novo.

Agora, temos os mesmos incentivos que tínhamos nos anos 30: se nom figermos nada, o perigo político e social será profundo e ainda mais depois de todo, da forma com a qual o capitalismo se reformou durante e depois da guerra sob o princípio de “nunca mais” aos riscos dos anos 30.

O senhor viu esses riscos se tornarem realidade: estava na Alemanha quando Adolf Hitler chegou ao poder. O senhor acredita que algo parecido poderia acontecer como conseqüência dos problemas actuais?

Nos anos 30, o claro efeito político da Grande Depressom a curto prazo foi o fortalecimento da direita. A esquerda nom foi forte até a chegada da guerra. Entom, eu acredito que este é o principal perigo.

Depois da guerra, a esquerda estivo presente em várias partes da Europa, inclusive em Inglaterra, com o Partido Trabalhista, mas hoje isso já nom acontece.

A esquerda está virtualmente ausente, Assim, parece-me que o principal beneficiário deste descontentamento actual, com umha possível excepçom – polo menos eu espero – nos Estados Unidos, será a direita.

O que vemos agora nom é o equivalente à queda da Uniom Soviética para a direita? Os desafios intelectuais que isto implica para o capitalismo e o livre mercado som tam profundos como os desafios enfrentados pola esquerda em 1989?

Sim, concordo. Acredito que esta crise é equivalente ao dramático colapso da Uniom Soviética. Agora sabemos que acabou umha era. Nom sabemos o que virá pola frente.

Temos um problema intelectual: estávamos afeitos e afeitas a pensar até entom que havia apenas duas alternativas: ou o livre mercado ou o socialismo. Mas, na realidade, há muito poucos exemplos de um caso completo de laboratório de cada umha dessas ideologias.

Entom eu acho que teremos de deixar de pensar numha ou em outra e devemos pensar na natureza da mescla. E principalmente até que ponto esta mistura será motivada pola consciência do modelo socialista e das conseqüências sociais do que está a acontecer.

O senhor acredita que regressaremos à linguagem do marxismo?

Desde a crise dos anos 90, som os homens de negócio que começárom a dizer: “Bem, Marx predixo esta globalizaçom e podemos pensar que este capitalismo está fundamentado numha série de crises”.

Nom acredito que a linguagem marxista será proeminente politicamente, mas intelectualmente a natureza da análise marxista sobre a forma com a qual o capitalismo opera será verdadeiramente importante.

O senhor sente um pouco recuperado depois de anos em que a opiniom intelectual ia de encontro ao que o senhor pensava?

Bem, obviamente há um pouco a sensaçom de schadenfreude (regozijo pola desgraça alheia).

Sempre dixemos que o capitalismo iria bater com as suas próprias dificuldades, mas nom me sinto recuperado.

O que é certo é que as pessoas descobrirám que, de facto, o que estava a ser feito nom produziu os resultados esperados.

Durante 30 anos, os ideólogos dixérom que todo ia dar certo: o livre mercado é lógico e produz crescimento máximo. Sim, diziam que produzia um pouco de desigualdade aqui e ali, mas também nom importava muito porque os pobres estavam um pouco mais prósperos.

Agora sabemos que o que aconteceu é que se criáom condiçons de instabilidades enormes, que criárom condiçons nas quais a desigualdade afecta nom apenas os mais pobres, como também cada vez mais umha grande parte de classe média.

Sobretodo, nos últimos 30 anos, os benefíciários deste grande crescimento tenhem sido nós, no Ocidente, que vivemos umha vida imensuravelmente superior a qualquer outro lugar do mundo.

E surpreende-me muito que o Financial Times diga que o que se espera que aconteça agora é que este novo tipo de globalizaçom controlada beneficie quem realmente precisa, que se reduza a enorme diferença entre nós, que vivemos como príncipes, e a enorme maioria dos pobres.

 

:: Mais umha entrevista com Habsbawn em Primeira Linha em Rede

Entrevista com o historiador marxista Eric Hobsbawm (+...)

 

 

Voltar à página principal