As crises na era senil do capitalismo

14 de Março de 2009

Apresentamos a traduçom galega de um trabalho do economista Jorge Beinstein que ajuda a perceber o alcance da crise capitalista actual, que indica o fim de um modo de produçom histórico na sua etapa de senilidade e autodestruiçom.

As crises na era senil do capitalismo. À espera do quinto Kondratieff que nom vai chegar

Jorge Beinstein

Incerteza 

Incerteza é a palavra que melhor define o clima psicológico actual, todos os precedentes capitalistas desta
crise demonstrárom-se inservíveis na hora de entender o que esta a suceder. A imagem da "terra incógnita", da entrada num território desconhecido vai-se impondo entre as elites das grandes potências. Num artigo recente aparecido em "The Independent", Jeremy Walker resume bastante bem essa nova percepçom: "Encontramos-nos num mar desconhecido, ninguém sabe para onde vamos. O único que sabemos é que a tormenta económica prossegue a sua marcha" (1).

Por sua vez, James Rickards, umha figura chave do aparelho de inteligência norte-americano (formalmente é assessor financeiro do Gabinete do Secretário de Defesa) apresentou a 17 de Dezembro de 2008 um relatório auspiciado pola U.S. Navy onde traça quatro palcos catastróficos sobre o futuro dos Estados Unidos; um (como nom podia ser de outra maneira na era Bush) descrevendo um mega ataque terrorista que aproveitaria a extrema debilidade da economia para desferir um ataque mortal ao Império; outro centrado numha suposta agressom financeira da China, vendendo em massa no mercado dólares e títulos públicos estado-unidenses, provocando assim o derrube de suas cotaçons. Um terceiro palco apresenta a queda livre do dólar e as consequências desastrosas para a sociedade imperial e o resto do mundo e um quarto palco, talvez o mais importante, denominado "Derrube existencial" que prognostica umha depressom prolongada com reduçom do Produto Interno Brunto da ordem de 35 % ao longo dos próximos 6 ou 7 anos, umha taxa de desocupaçom que cedo chegaria a 15 %, etc. (2).

A ilusom do autorregulaçom do mercado financeiro desapareceu, os gurus da especulaçom ocultárom-se ou mudárom de discurso indo a outros deuses; os da intervençom estatal aos que eles há umhas poucas décadas tinham arrojado ao baú dos velhos objectos inúteis. Para fins de 2008 numerosas revistas especializadas de todos os continentes, algumhas destinadas ao grande público, mostravam a fotografia de Lord Keynes desenterrado para salvar do desastre. Mas até agora a nova-velha magia intervencionista tem demonstrado a mais completa impotência; vários milhons de milhons de dólares, euros e outras moedas fortes (fortes?) fôrom lançadas ao mercado em espectaculares operaçons de salvatagem com resultado nulo, o mercado financeiro nom se autorregula, mas tampouco aceita ser regulado. Umha avalanche de acontecimentos tem sepultado por completo os prognósticos conservadoras dos triunfadores de Guerra Fria, o futuro já nom será um mais-do-mesmo e ao se afundar essa linearidade burguesa da história reaparece com umha força inusitada o que Mircea Eliade denominava "o terror à história", neste caso a umha provável sucessom de factos onde os poderes e valores dominantes nom sejam respeitados, desbordados por forças hostis, é no seio das classes dominantes onde esse terror cresce velozmente.

A crise financeira é gigantesca mas também os som as "outras crises", umhas mais visíveis ou virulentas que outras, convergindo até conformarem um fenómeno inédito. Para tomar um só exemplo, a crise energética que expressa por agora o estagnamento e próxima reduçom da produçom petroleira global, foi até há muito pouco um catalisador decisivo da especulaçom e a inflaçom (até dantes da queda económica global do último trimestre de 2008) e espera-nos num futuro nom muito longínquo para nos dar novas pancadas inflacionárias, quando a extracçom desça alguns degraus mais ou quando a depressom económica se detiver. Por outra parte, a crise energética está associada à crise alimentária e ambas assinalam a existência de um impasse tecnológico geral que se estende ao Médio Ambiente e ao aparelho militar-industrial, todo isso concentrado e exacerbado a partir do colapso financeiro nos Estados Unidos, o centro do mundo. 

É possível entom afirmar que as diversas crises outra cousa nom som senom aspectos de umha única crise, sistémica, do capitalismo como etapa da história humana (3).

Ciclos 

Umha componente importante dessa crise psicológica é a constataçom de que certos ciclos que pareciam reger o funcionamento económico tenhem deixado de funcionar, se trata da destruiçom da crença em que depois de um determinado número meses ou anos de vacas magras chegaria o das vacas gordas e que o sistema seguiria seu caminho ascendente.

Os ciclos decenais descobertos por Juglar para 1860 atravessárom boa parte do século XIX, expressando os abalos do jovem capitalismo industrial ainda que afinal do mesmo essas rotinas fôrom ficando esbatidas. Para 1885, numha nota anexa ao Livro III do Capital, Engels assinalava que "se operou umha viragem desde a última grande crise geral (1867). A forma aguda do processo periódico com seu ciclo de dez anos que se vinha observando até entom parece ter cedido o posto a umha sucessom mais bem crónica e longa de períodos relativamente curtos e ténues de melhoria dos negócios e de períodos relativamente longos de depressom...". E atribuía essa mudança à nova configuraçom económica internacional marcada pelo rápido desenvolvimento dos meios de comunicaçom, o alargamento do mercado mundial e o fim do monopólio industrial inglês (4). Os velhos ciclos decenais tendiam a desaparecer porque o capitalismo tinha sofrido mudanças estruturais decisivas.

Mas isso nom afectou outras rotinas do sistema como as ondas longas de Kondratieff, etapas de aproximadamente entre 50 e 60 anos (a primeira metade de ascensom económico e a segunda de descenso) que se vinham sucedendo a partir da revoluçom industrial inglesa. Ao longo da história do capitalismo tenhem sido registados quatro ciclos de Kondratieff, o primeiro iniciou-se a fins do século XVIII e concluiu em meados do século XIX, o segundo terminou durante a última década desse século e o terceiro durante os anos 1940 quando se iniciou um quarto ciclo cuja etapa de prosperidade chegou até fins dos anos 1960, até 1968 se seguimos a proposta de Mandel que prefere estabelecer cortes históricos precisos (5). A partir desse momento, a taxa de crescimento da economia mundial impulsionada polos países capitalistas centrais descreveu umha tendência descendente no longo prazo que nom se detivo até a actualidade e que deveria prolongar num futuro previsível.

Se aceitarmos a periodizaçom de Mandel, a fase descendente do primeiro Kondratieff teria durado uns 22 anos, a do segundo 20 anos e a do terceiro 26 anos; a média é de aproximadamente 22,6 anos, mas a descida do quarto Kondratieff já estaria a durar uns 40 anos (em 2008) e nom é demasiado ousado prognosticar a sua prolongaçom ao menos mais um lustro. Seguindo o modelo teórico, a recuperaçom deveu ter começado para mediados da década passada, isso nom se produziu e também nom ocorreu na actual.

Pior ainda, cada fase ascendente costuma ser associada a grandes inovaçons tecnológicas que modificárom os sistemas de produçom e os estilos de consumo. Assim sucedeu durante a primeira revoluçom industrial com a máquina a vapor e a expansom da indústria têxtil, em meados do século XIX com o aço e o desenvolvimento dos caminhos-de-ferro, a fins do século XIX com a electricidade, a química e os motores, e a electrónica, a petroquímica e os automóveis em meados dos anos 1940 no debut do quarto Kondratieff. Assim "deveu ter sucedido" na década dos anos 1990 atravessada por grandes inovaçons em informática, biotecnologia e novos materiais. No entanto, essas mudanças técnicas nom modificárom positivamente o curso dos acontecimentos; ao contrário, acentuárom as suas piores características. Por exemplo, a informática: quando avaliamos o seu impacto segundo a importáncia da actividade económica envolvida, constatamos que sua principal aplicaçom se produziu na área do parasitismo financeiro cujo volume de negócios (uns mil milhons de milhons de dólares) equivale actualmente a umas 19 vezes o Produto Bruto Mundial. 

Isto permite-me propor a hipótese de que, tal como ocorreu há cerca de um século com os ciclos decenais de Juglar, podemos actualmente sustentar que as ondas longas de Kondratieff perdêrom validade científica, a fase descendente do quarto Kondratieff foi triturada pola nova realidade, a economia mundial completamente hegemonizada polo parasitismo financeiro obedece a umha dinámica radicalmente diferente da vigorante durante a era do capitalismo industrial. 

Contra essa evidência nom faltam os especialistas e académicos apressados a encontrar umha nova rotina restauradora da ordem, alguns proponhem regressar a ciclos mais curtos e violentos ao estilo Juglar (volta ao século XIX?), outros misturam Juglar e Kondratieff introduzindo alguns enfeites provenientes da psicologia social, outros realizam manipulaçons econométricas no ciclo Kondratieff conservando assim a esperança em umha futura recomposiçom ascendente do sistema. É o caso de Ian Gordon, nomeado especialista norte-americano em prognósticos económicos que nom duvida fabricar um súper "quarto Kondratieff" estado-unidense de quase 70 anos, correndo para a direita o início de sua etapa ascendente (desde 1940 a 1950) estendendo até os anos 1980 e propor o fim do descenso (e o começo de um novo e maravilhoso quinto Kondratieff capitalista) para finais da segunda década do século XXI (6).

Senilidade 

O fim das rotinas e o rendimento num tempo de desordem geral estão a assinalar-nos que o mundo burguês nom se encontra perante umha doença passageira, mais umha "crise cíclica" ao interior do grande ciclo, único e supostamente vigoroso do capitalismo, mas perante umha crise de enorme largura onde as doenças se multiplicam nom por um capricho do destino mas porque o organismo, o sistema social universal, esta muito velho.

O capitalismo mundial entrou na etapa senil (7) nos anos 1970 quando o parasitismo devéu hegemónico, ao longo de dita década e do primeiro lustro dos anos 1980 ocorrêrom factos decisivos nos Estados Unidos, entre eles o debut do declínio da sua produçom petroleira, a decisom do governo de Nixon de terminar com o padrom dólar-ouro, a derrota no Vietname ao que depois se agregárom os défices comerciais e promotores crónicos e a subida incessante das dívidas pública e privada, a concentraçom de rendimentos, o consumismo, a elitizaçom e degradaçom do sistema político, etc.

Todo isso derivou a começos do século XXI, quando se desinchou a bolha bolsista, numha situaçom extremamente grave à qual o Império respondeu com umha desesperada fuga para a frente: radicalizou a sua estratégia de conquista de Eurásia, despregando grandes operativos militares (Iraque, Afeganistám) e reanimou a especulaçom financeira inchando a bolha imobiliária e graças a ela voltando a inchar a bolha bolsista. Perante a crise do parasitismo financeiro decidiu impulsionar umha onda parasitária bem maior do que a anterior; nom se tratou de um "erro estratégico", mas de umha consequência estratégica lógica inscrita na dinámica dominante do sistema de poder.

Um primeiro indicador de senilidade é a decadência dos Estados Unidos resultado de um longo processo de degradaçom. A "globalizaçom" desenvolvida desde os anos 1970 implicou um triplo processo; o aburguesamento quase completo do planeta (a cultura do capitalismo devéu verdadeiramente universal ao derrotar a URSS e integrar a China), a financeirizaçom integral do capitalismo (hegemonia parasitária) e a unipolaridade, instalaçom do Império norte-americano como poder supremo mundial. Principal consumidor global e área central dos negócios financeiros internacionais ao qual se agrega o facto decisivo da "norteamericanizaçom" da cultura das classes dominantes do mundo. É por isso que o declínio (senilidade) dos Estados Unidos, para além de suas conseqüências económicas (ou incluindo as suas consequências económicas) constitui o motor da decadência universal do capitalismo.

O Império tem sido ao mesmo tempo carrasco e vítima do resto do mundo, o seu consumismo parasitario tem tido como contrapartida os bons negócios comerciais e financeiros das burguesias da Uniom Europeia, China, Japom, Índia, etc. A inchaçom parasitária estado-unidense foi o amortecedor fundamental da crise de sobreproduçom crónica das grandes potências, mas a bolha imperial agora está a desinchar-se e o capitalismo global entra na depressom.

Um segundo indicador de senilidad é a interacçom entre dois fenómenos: a hipertrofia financeira global e a desaceleraçom no longo prazo da economia mundial. A começos do século XXI temos chegado à financeirizaçom integral do capitalismo, as tramas especulativas impugérom a sua "cultura" curtoprazista e predadora que passou a ser o núcleo central da modernidade. Presenciamos um círculo vicioso; a crise crónica de sobreproduçom iniciada há quatro décadas comprimiu o crescimento económico, desviando excedentes financeiros para a especulaçom cuja ascensom operou como um mega aspirador de fundos restados ao investimento produtivo. Hoje a massa financeira mundial estaria a chegar aos mil milhons de milhons de dólares (só as operaçons com produtos financeiros derivados registados polo Banco de Basileia ultrapassam os 600 milhons de milhons de dólares). 

A economia mundial cresce cada vez menos, mas, além disso, enfrenta-se com um tecto energético que bloqueia o seu desenvolvimento, o que nos sugere o tema da crise energética, quer dizer, da incapacidade tecnológica do sistema para ultrapassar a armadilha do esgotamento dos recursos naturais nom renováveis. Nom esqueçamos que o capitalismo industrial pudo descolar desde fins do século XVIII porque conseguiu independizar-se dos recursos energéticos renováveis que o submetiam aos seus ritmos de reproduçom e impor a sua lógica aos recursos nom renováveis: o carvom, seguido mas adiante polo petróleo. Essa proeza predadora (que nos levou ao desastre actual) foi o pilar decisivo da construçom de seu sistema tecnológico articulador de umha complexa e evolutiva rede de procedimentos produtivos, produtos, matérias-primas, hábitos de consumo, etc, ligando o desenvolvimento científico e as estruturas de poder.

A crise energética está associada à crise alimentar, às quais deveríamos acrescentar a crise ambiental para deixar ao descoberto um terceiro indicador de senilidade: o bloqueio tecnológico. É útil o conceito de limite estrutural do sistema tecnológico definido por Bertrand Gille como o ponto em que dito sistema é incapaz de aumentar a produçom a um ritmo que permita satisfazer necessidades humanas crescentes (8), nom se trata de necessidades humanas em geral, a-históricas, mas de demandas sociais historicamente determinadas. É assim possível formular a hipótese de que o sistema tecnológico do capitalismo estaria a chegar a seu limite superior para além do qual vai deixando de ser o pilar decisivo do desenvolvimento das forças produtivas para se converter na ponta de lança de sua destruiçom.

O capitalismo está agora a gerar um enorme desastre ecológico, resultado de umha rigidez civilizacional decisiva que impede superar umha dinámica tecnológica que conduz para a predaçom catastrófica do ambiente. Cada vez que isso ocorreu no passado pré-capitalista, foi porque a civilizaçom que engendrou o tal sistema técnico tinha chegado à sua etapa senil (a destruiçom do ambiente é na realidade autodestruiçom do sistema social existente).

Um quarto indicador de senilidade é a degradaçom estatal-militar posta em evidência polo falhanço da aventura dos falcons norte-americanos, mas que expressa umha realidade global. O Estado intervencionista permitiu controlar as crises capitalistas ocorridas desde começos do século XX, a sua ascensom estivo sempre associado ao do militarismo, às vezes de maneira visível e outras, depois da segunda guerra mundial, abaixo do disfarce democrático (se observarmos a evoluçom dos Estados Unidos desde os anos 1930, comprovaremos que o “keynesianismo militar” tem constituído até hoje a espinha dorsal do seu sistema).

Mas finalmente o desenvolvimento das forças produtivas universais, até chegar a sua degeneraçom parasitária-financeira actual, terminou por desbordar a suas reguladores estatais submergindo-os na maior de suas crises. O neoliberalismo aparentou ser a expressom de umha globalizaçom superadora dos estreitos capitalismos nacionais; na realidade, tratava-se do vigoroso monstro financeiro a devorar o seu pai estatal-produtivo-keynesiano. Agora, encurralados pola crise, os dirigentes das grandes potências retornam ao intervencionismo estatal que torna impotente perante a maré financeira.

Esta decadência estatal inclui a do militarismo moderno evidenciado polo atoleiro militar do Império no Iraque e do conjunto de Ocidente no Afeganistám. Trata-se de um duplo fenómeno, por umha parte a ineficacia técnica desses super aparelhos militares para ganhar as guerras coloniais e, por outra, o seu gigantismo parasitário a operar como acelerador da crise, o caso norte-americano é exemplar (e sobre determinante): a hipertrofia bélica aparece como um factor decisivo dos défices fiscais e a corrupçom generalizada do Estado.

Um quinto indicador de senilidade é a crise urbana desatada na era neoliberal e que irá agravar-se exponencialmente ao ritmo da crise actual. Desde começos dos anos 1980, quando a desocupaçom e o emprego precário nos países centrais se figérom crónicos e quando a exclusom e a pobreza urbanas se expandírom na periferia, o crescimento das grandes cidades foi a cada vez mas o equivalente de involuçom das condiçons de vida das maiorias. A descomposiçom das cidades é claramente visível na periferia mas nom é sua exclusividade, trata-se de um fenómeno global ainda que é no mundo subdesenvolvido onde se sucedem os primeiros colapsos, expressons mais agudas de umha onda multiforme, irresistível.

Crise 

Desde as suas origens, o capitalismo industrial experimentou umha longa sucessom de crises de sobreproduçom, no século XIX tratou-se de crise cíclicas de crescimento de umha civilizaçom jovem; depois da cada grande turbulência, o sistema expandia-se mais, deixando seqüelas negativas que se fôrom acumulando até finalmente engendrar umha força parasitária-financeira que para começos do século XX devéu dominante. Nesse momento, o capitalismo entrou na sua era de maturidade", a intervençom estatal junto aos parasitismos militar e financeiro conseguírom controlar as crises das quais emergírom fenómenos de decadência que dérom um salto qualitativo ao explodir a crise de sobreproduçom de fins dos anos 1960. Esta última foi amortecida, o sistema global seguiu crescendo mais sobre a base da expansom exponencial da predaçom ambiental e do parasitismo, principalmente financeiro, que passou a controlar por completo o conjunto do mundo burguês, inaugurando a era senil do capitalismo.

É neste novo contexto que se foi preparando a grande explosom que hoje presenciamos, cujo disparador foi o colapso financeiro de 2008; a partir do mesmo, o capitalismo global vai passando (rapidamente) de ser um sistema velho a crescer cada vez menos e com maiores custos sociais, para devir abertamente umha força destruidora das forças produtivas e seu contexto ambiental (da "destruiçom criadora" schumpeteriana do século XIX à destruiçom predadora do século XXI).

As civilizaçons anteriores ao capitalismo nom liquidadas por factores exógenos (invasons, catástrofes naturais, etc.) fôrom destruídas por devastadoras e prolongadas crises de subproduçom em que a sua rigidez técnica (produto do envelhecimento cultural) boqueava o desenvolvimento produtivo e desatava umha catástrofe ecológica. O motor dessas tragédias foi sempre o predomínio paralisante do parasitismo acumulado durante o longo ciclo civilizacional.

A burguesía proclamava ter terminado com as crises de subproduçom das antigas civilizaçons graças ao excepcional dinamismo tecnológico do sistema que só podia sofrer crise cíclicas de sobreproduçom sempre controladas graças à crescente sofisticaçom dos seus instrumentos de intervençom (que o neoliberalismo nom eliminou, potenciando-os e pondo-os ao serviço da predaçom financeira). Burlava-se dos catastrofistas, em especial os marxistas, que aguardavam a crise geral e final de sobreproduçom que nunca chegou. No entanto, ditas crises fôrom acumulando um potencial parasitário que agora começa a gerar umha crise de subproduçom planetária, a maior da história humana. Se neste caso quiséssemos seguir utilizando o conceito de crise cíclica devíamos fazê-lo referindo-nos ao ciclo aproximadamente bicentenario do capitalismo que acaba de dar entrada no período de aceleraçom da senilidade, de multiplicaçom de doenças e de colapsos.

Quatro esperas inúteis

Tendo presente este contexto de crise sistémica, civilizacional, quero fazer referência a quatro esperas inúteis que florescem nos círculos de poder e suas periferias cortesanas.

A primeira delas, que sobredetermina as outras três, é a da chegada de um quinto ciclo de Kondratieff, de umha nova prosperidade produtiva do capitalismo, aguardado durante a década passada e a actual. Nom pode chegar porque a estrutura económica que engendrava esse tipo de ciclos no passado desapareceu vítima do parasitismo financeiro. 

A segunda refere-se à chegada milagrosa de um novo keynesianismo que, portando a espada do intervencionismo estatal, iria cortar a cabeça aos malvados especuladores financeiros instalando no centro da cena aos bons capitalistas produtivos. O novo herói keynesiano nom chegará porque o seu instrumento decisivo, o Estado, é impotente em frente da maré financeira e é-o bem mais perante o oceano da crise sistémica, além de a longa festa neoliberal o ter degradado profundamente. Por outra parte, os bons capitalistas produtivos nom aparecem por lado nengum, o que sim aparece por todo o lado som os génios da especulaçom financeira.

A terceira espera inútil é a do renascimento do Império depois de quase quatro décadas de decadência, sobrecarregado de dívidas, desquiciado polo consumismo, com umha cultura produtiva seriamente deteriorada. Nom existe nengum indício sério desse suposto renascimento.

Finalmente, a quarta espera inútil é a de um novo Império capitalista ou umha nova aliança imperial, um novo centro do mundo burguês; o acoplamento total entre as grandes potências descarta por completo essa expectativa (dito acoplamento é o resultado de um longo processo de integraçom que terminou por conformar um sistema global fortemente interrelacionado).


Notas 

(1), DeDefensa.org, 17/12/2008 - Faits et comentaires- "Notre temps da Terra Incognita" (www.dedefensa.org). 

(2) Eamon Javers, "Four really, really bad scenarios", Politico.com, 17 de dezembro de 2008, (www.politico.com/news/stories/1208/16663.html). 
(3), Jorge Beinstein, “Os rostos da crise. Reflexons sobre o colapso da civilizaçom burguesa”, Rebeliom: http://www.rebelion.org/docs/75463.pdf, 
Espai Marx:

http://www.moviments.net/espaimarx/index.php?lang=cat&query=56352739f59643540a3a6e16985f62c7&view=section

(4), Carlos Marx, "O Capital", Livro III, Capítulo 30, nota 3, páginas 458 e 459, Fundo de Cultura Económica, México, D.F, 1966. 

(5) Ernest Mandel, "As ondas longas do desenvolvimento capitalista", Ediçons Século XXI de Espanha, Madri, 1986.

(6) Ian Gordon, The Long Wave Analyst (http://www.thelongwaveanalyst.ca/cycle.html).

(7) O conceito de capitalismo senil foi elaborado nos anos 1970 por Roger Dangeville (Roger Dangeville, “Marx-Engels. A crise”, editions 10/18, Paris 1978) e retomado por vários autores na década actual (Jorge Beinstein, “Capitalismo Senil”, Ediçons Record, Rio de Janeiro, 2001), Samir Amin , “Au delà du capitalisme senile”, Actuel Marx -PUF, Paris 2002). 
(8) “Histoire dês techniques”, sous a direction de Bartrand Gille, A Pléiade, Paris, 1978.

Trabalho publicado, originalmente em espanhol, em “El Viejo Topo”, Barcelona, n°253, Fevereiro 2009.

 

Voltar à página principal