Entrevista com Carlos Taibo sobre a crise do imperialismo ianque

1 de Outubro de 2008

Reproduzimos, traduzida para o nosso idioma, a entrevista com Carlos Taibo, publicada polo jornal espanhol Público, dedicada a tratar sobre a profunda crise que atravessa a principal potência imperialista mundial, os Estados Unidos da América.

O que acha do plano de resgate económico de Bush?

Este procedimento de privatizaçom dos lucros e socializaçom das perdas nom é novo nos EUA. É o mesmo que acontece no Iraque. A invasom é um fiasco militar para Washington, mas as empresas estado-unidenses conseguem píngües lucros lá. Quem paga a ousadia bélica de Bush? O contribuinte americano através dos impostos. O esquema que se apresenta é de Bush com o seu dinheiro a resgatar as empresas, quando é o contribuinte que paga.

No livro [150 preguntas sobre el nuevo desorden (Editorial Catarata)] fala de umha globalizaçom a la carte por parte dos EUA. Em que consiste a globalizaçom?

EUA possui umha maquinaria militar poderosa a seu serviço. Trata-se de impor regras de jogo que beneficiam as multinacionais estado-unidenses. Daí parte o desígnio de curto-circuitar o acesso de outros às matérias-primas, como o petróleo no Médio Oriente ou as políticas proteccionistas em relaçom ao aceiro ou à agricultura estado-unidense.

Estám em declínio como potência hegemónica?

Tenhem um cancro de difícil tratamento e a metástase estende-se. Continuam a ser a potência hegemónica política, militar e tecnológica. Já nom acredito que sejam tal no económico nem no cultural. Haveria que perguntar: que tipo de projecto ideológico defende no económico Bush? Os neoliberais radicais dim que Bush fracassou por nom ser suficientemente neoliberal.

O fracasso do plano de Bush pode dar mais oportunidades de mercado à China?

Reduziria-se a hegemonia como potência hegemónica na maioria dos ámbitos.

Sente-se a Rússia traída polos EUA após a queda do muro?

As políticas das potências ocidentais desde 1991 tenhem-se encaminhado a evitar que a Rússia renasça como potência. O escudo anti-mísseis, o novo alargamento da NATO, o apoio às revoluçons de cores, as bases no Cáucaso reflectem umha posiçom de crescente agressividade para com a Rússia que tornava impensável que Moscovo nom reagisse de umha forma ou outra. A partir da imprensa ocidental, costuma dizer-se que a Rússia desafia Ocidente e rara vez ao invés.

Pode-se repetir um esquema de dous blocos enfrentados?

Nem a Rússia por ela própria, nem a China por ela só podem contra os Estados Unidos. A Rússia poderia enfrentar-se contra a Uniom Europeia.

Que aliados apresenta a Rússia?

O seu esquema de aliados é mais fraco do que já foi. A Bielorrússia, de forma cautelosa, algumhas repúblicas da Ásia Central, Arménia e Sérvia. É um bloco muito fraco se comparado com o bloco da Uniom Soviética. Eis um dos problemas ao identificar o inimigo por parte do Ocidente.

O que acha dos diferentes critérios aplicados por Ocidente para Kosova e Ossétia do Sul e o esquecimento do caso checheno?

Há um elemento comum a todos estes casos. Há um problema nacional. A maioria dos analistas concebem isto como um tabuleiro estratégico onde estám as grandes potências e mais nada. Apenas lhes interessa a Rússia, os Estados Unidos, o petróleo e os oleodutos, mas no meio há países com populaçons que se sentem incómodas dentro dos estados em que vivem. Aquí há só duas maneiras claras de raciocinar. A primeira é a de quem aplica o direito internacional à risca e rejeita drasticamente qualquer horizonte de autodeterminaçom e secessom. E a segunda é a dos que vemos que esta fórmula é delicada em si, é simplesmente aplicar a todos o mesmo critério e dizer “vocês nom tenhem outro remédio senom aceitar a ordem estabelecida”. O problema é quando se apoiam algumhas causas quando interessam e isto também o fai a Rússia, apoiando a independência da Ossétia, mas descartando a da Chechénia. É umha radical primacia dos interesses sobre os princípios.

Porque tanta insistência por parte dos EUA na necessidade de instalar o escudo anti-mísseis?

A primeira razom é os interesses da indústria militar que precisa desse escudo como estímulo tecnológico. O segundo motivo é a intençom de reduzir no longo prazo a capacidade dissuassória dos arsenais russo e chinês. Os russos oferecêrom umha instalaçom conjunta para aproveitar o seu radar no Azerbaijám e EUA rejeitou-no. Situá-lo na Polónia e na República Checa é como se a Rúsia instala um radar em Cuba e um centro de aviso rápido na Venezuela para se proteger da ameaça da Coreia do Norte. Recentemente aponta-se para umha tentativa dos EUA para repetirem a estratégia de Reagan de forçar um investimento armamentístico russo para refrear o seu crescimento económico.

Qual é a dependência da UE do gás russo?

É umha dependência mútua. A Uniom Europeia compra 85% do gás que a Rússia exporta. Moscovo nom pode prescindir desse mercado. A Rússia tem um problema grave. O crescimento tem incrementado a procura interna de matérias-primas e isto reduz a capacidade de exportaçom. A Rússia pode estar a aniquilar a galinha dos ovos de ouro.

Qual é o legado de Putin?

Com o passar do tempo veremos que é mais delicado do que parece. Aqui foi criticado por autoritário. Acho que nom conseguiu endireitar um estado maltreito e terminou vergando-se aos interesses dos oligarcas. Há muitos problemas sociais. A Chechénia continua a ser um buraco negro onde nom sabemos o que é que acontece. No longo prazo, julgaremo-la de maneira mais severa.

 

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